segunda-feira, 30 de junho de 2014

Ó José Rocha, muito bem!, o cartaz do VISEU ROCKFEST 2 é poderoso e promete...



...  mas atenção: no dia 31 de Junho, isto é, mais exactamente no dia a seguir a 30 de Junho, isto é, amanhã, os bilhetes têm que ser ainda a dez euros




The escaped one

Fotografia de Paul Fusco



I am the escaped one.
After I was born
They locked me up inside me
But I left.
My soul seeks me,
Through hills and valleys,
I hope my soul
Never finds me.
Fernando Pessoa



sábado, 28 de junho de 2014

Carta a Dios por no haber podido pagar el recibo de la electricidad

Fotografia de Charles Gatewood


Dios que todo lo das,
quítame algo.

Das la luz cada mañana, puntualmente, Dios.
Quítame, por favor, un poco de salud
que no me moriré por eso.
Quítame, si quieres,
algunos de los dientes
que creo que tengo muchos.

Dios que todo lo das,
a mí quítame algo.

Das la luz cada mañana, y lo haces muy bien, Dios.
Quítame, por favor, un poco de oído
que de todos modos seguiré oyendo.
Quítame, si quieres,
un poco de agilidad mental, tantito,
nada que vaya a dejarme tonto de más.

Das la luz cada mañana, y hay quienes ni cuenta se dan de eso,
Dios.
Quítame, por favor, algo de lo que tengo
porque soy de los que tienen más de lo que se comen.
Quítame, si quieres,
mi coche, haz que algunos de esos bancos que roban
se quede con un golpe de tecla de computadora con mis ahorros.

A cambio te ruego
- y para lo que te escribo es para eso -
que no me quites la luz.
Te ruego que no me quites la luz.
La luz del día.

Esto que te acabo de escribir
tómalo como un ruego
o
tómalo como una oración.
Tómalo como quieras
pero, por favor,
tú que todo lo puedes,
no me quites la luz del día Dios mío, no me quites la luz.

PD: Te voy a seguir escribiendo, pero ya no de noche, como antes.
Dante Medina


sexta-feira, 27 de junho de 2014

A borla *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. O resultado decepcionante das europeias fez soar as campainhas de alarme no PS. Os socialistas perceberam que, afinal, Pedro Passos Coelho pode ganhar as legislativas de 2015.

Embora mais mal que bem, o facto é que a direita acaba de cumprir o programa de estabilidade sem recorrer a um segundo resgate. O facto é que os eleitores perceberam que António José Seguro nunca age, só reage. 
A partir de uma fotografia original de Enric Vives-Rubio para o Público

Nestes três anos, o homem nem sequer teve a frontalidade de fazer o balanço do que correu bem e do que correu mal durante o negocismo autoritário socrático.

Seguro julgou que lhe bastava estar sentado na sua cadeira no Largo do Rato para chegar a primeiro-ministro. Fez mal.

Como se sabe, sem uma alternativa confiável "ao que está", as pessoas não mudam. Faulkner explica isso em "Palmeiras Bravas": entre o nada e a dor, as pessoas escolhem a dor. Entre Seguro e Passos Coelho as pessoas escolherão o segundo.

O mesmo acontecerá com António Costa se ele se ficar pela conversa "hollandista" de menos impostos e mais despesa. É que a classe média, ou o que resta dela depois destes desgraçados anos, percebeu que, quando há falência do estado, é ela, classe média, que é levada à ruína.

2. As primárias do PS vão ser votadas por militantes e simpatizantes. Vai ser uma borla geral. Para poderem votar, nem os militantes vão precisar de ter as cotas em dia nem os simpatizantes vão ter que pagar nenhuma contribuição (o PS francês fez milhões de euros com os simpatizantes nas primárias que escolheram Hollande).

Esta borla é estúpida por duas razões (a primeira poderá parecer menos a sério que a segunda):
(i) era bom para o PS que todo o simpatizante laranja que queira votar no dr. Seguro tivesse, pelo menos, de pagar para isso;
(ii) o PS, ao mostrar com esta borla que nem a sua casa sabe governar, como pode querer, depois, que o eleitorado acredite que sabe governar o país?

Days

Fotografia de Dominique Issermann




What are days for?
Days are where we live.
They come, they wake us
Time and time over.
They are to be happy in:
Where can we live but days?

Ah, solving that question
Brings the priest and the doctor
In their long coats
Running over the fields.
Philip Larkin



quinta-feira, 26 de junho de 2014

O corpo ao manifesto


Caro Fernando, caro Miguel e caro Rui, quero dizer-vos que este gato saiu do sofá e, também ele, está pronto para dar o corpo ao manifesto, mas só neste post.


É que é interessante este episódio ocorrido durante a apresentação do orçamento participativo da câmara de Viseu, em que António Almeida Henriques sentiu necessidade de malhar nos "bloggers anónimos do sofá".


Em primeiro lugar comece-se por dimensionar o que aconteceu: o dito cujo orçamento participativo de setenta e cinco mil euros é um exemplo clássico de metapolítica, dá boa imprensa, cala as oposições, mas é só isso e mais nada do que isso.


Em segundo lugar lembre-se: há uma lei na política — quando sente que está sem adversários, um político tende a inventá-los.

E o presidente da câmara de Viseu tem razão em sentir que está sem adversários: 
— o orçamento municipal não teve votos contra;
— José Junqueiro e Hélder Amaral umas vezes vão às sessões de câmara, outras vezes arranjam uns "vereadores sobresselentes" em quem ninguém votou nem sabe o nome;


António Almeida Henriques, ao interpelar "bloggers anónimos", o que, de facto, está a fazer é um apelo aos líderes eleitos da oposição: 
«José Junqueiro e Hélder Amaral, saiam lá do sofá e tratem de dar o corpo ao manifesto!»

Das metáforas inúteis

Fotografia de Billy Plummer


Se eu nunca disse que os teus dentes
São pérolas,
É porque são dentes.
Se eu nunca disse que os teus lábios
São corais,
É porque são lábios.
Se eu nunca disse que os teus olhos
São d'ónix, ou esmeralda, ou safira,
É porque são olhos.
Pérolas e ónix e corais são coisas,
E coisas não sublimam coisas.
Eu, se algum dia com lugares-comuns
Houvesse de louvar-te,
Decerto que buscava na poesia,
Na paisagem, na música,
Imagens transcendentes
Dos olhos e dos lábios e dos dentes.
Mas crê, sinceramente crê,
Que todas as metáforas são pouco
Para dizer o que eu vejo.
E vejo lábios, olhos, dentes.
Reinaldo Ferreira


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Ao menos isso *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 25 de Junho de 2010


1. Era o dia 27 de Junho de 1960. Passavam poucos minutos das sete da tarde quando, na estação de Amara em San Sebastian, se ouviu um grande estrondo e uma língua de fogo atingiu Begoña Urroz Ibarrola, uma menina de 22 meses.

No próximo domingo o primeiro atentado da ETA faz 50 anos e chora-se a sua primeira vítima - uma menina de 22 meses.

Em Setembro de 2000, o ex-ministro de Felipe Gonzalez, Ernest Luch, chamou ao assassínio da pequena Begoña: “indigno inicio en el pecado original de ETA”. Menos de dois meses depois, um comando etarra matou-o na garagem da sua casa em Barcelona.
A ETA - sabe-se agora - tem bases em Portugal.

2. Tivemos três aumentos de impostos em oito anos: em 2002, 2005 e 2010. Quem ainda tem trabalho já vai ver este mês o seu salário amputado. Em Julho aumenta o IVA.

Como se sabe, aumentar impostos é deprimir a economia. Estes sucessivos massacres fiscais fizeram de Portugal o caranguejo dos rankings da “Europa”. Até Malta já nos apanhou e vai-nos ultrapassar.

E dinheiro tem havido. Diz um relatório da UE sobre o impacto dos fundos comunitários na última década: "Portugal foi o país que mais verbas recebeu em peso no PIB e mais beneficiou desses fundos. Mas foi o país que menos cresceu e onde as disparidades regionais aumentaram mais."

Portugal acaba de dar sete a zero à Coreia do Norte. As pessoas estão felizes. Receio que esta felicidade seja de pouca dura.
É que um povo feliz é aquele que tem um governo pequeno e moderado nos impostos. E nós não temos tido nem uma coisa nem outra.


Cavalhada de Vildemoinhos, 2008

Fotografia Olho de Gato
3. Nesta altura do ano de dias grandes e luminosos e de noites pequenas e dionisíacas, em Viseu admira-se a força da gente de Vildemoinhos e aspira-se o aroma das tílias do Rossio.

Isso é bom e isso - ao menos isso - ainda não paga imposto.

terça-feira, 24 de junho de 2014

As primárias abertas de Seguro




E querem que os simpatizantes nem um pagamento façam, como foi feito em França, isto é, dispensam uma boa fonte de rendimentos para o partido.


É caso para perguntar: o senhor António José Seguro não vê que, com zero obrigações para os simpatizantes, uns milhares de amigos do senhor Marco António Costa podem ir votar nas primárias socialistas de 28 de Setembro? 

Ou é mesmo isso que quer?

Primárias abertas é uma boa ideia.  Há elevado risco desta boa ideia ser destruída pela precipitação e pela incompetência segurista. 

Elogio do olvido

Fotografia Olho de Gato



Para quê escrever um nome nas paredes,
manchar com torpes traços a brancura
deslumbrante, impoluta, do nada?
Para quê este vão empenho de ir deixando sinais,
de escrever na areia, ao abrigo do vento,
triviais misérias que te conformam a vida?
Sobre as linhas teimosas que esboçam um rosto
há-de passar a mão piedosa dos anos
apagando letras, sílabas, palavras sem sentido.
O papel em que escreves voltará a estar em branco.
E haverá ventura maior do que não ter sido?
José Luis García Martín


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Hélder Amaral fora, jantar santo na loja

Paulo Portas, ao telefone, quis saber qual foi a sobremesa.

Jornal do Centro, 20.6.2014, p-7



O Olho de Gato sabe que, ao ler esta notícia no Jornal do Centro, o chefe de gabinete do secretário-geral socialista, o viseense Miguel Ginestal, imediatamente telefonou a António José Seguro que, por sua vez, imediatamente telefonou a Maria de Belém Roseira a encomendar um artigo novo nos estatutos do PS a proibir jantares.

Summertime

Fotografia de Erwin Olaf



Foram as minhas últimas férias. Tinham-me dado
em exclusivo as vendas da zona leste. Eu ia
aos encontros com os clientes e tu esperavas-me no
carro. Fazíamos equipa nós. Tu ligavas o rádio, punhas
os meus óculos e o meu boné da Ferrari e mexias o volante.
Guardo cada minuto que passámos juntos: o desejo de
tornar ao hotel, de pôr o nariz de palhaço e buscar-te o sorriso.

A mamã precisava de uma pausa para refazer a vida. Tinha
conhecido um médico no hospital e ensaiava como
contar-te que ias ter um novo papá, uma casa grande e
novas irmãs.
Temos de acabar com esta farsa, dizia,
temos de pensar na nossa filha. A mamã
ama-te muito e António é uma boa pessoa. Quanto
a mim, quero só que saibas que foste
o único amor da minha vida. E que tenho
vivido estes anos todos só com a ilu
são de voltar outra vez a esse hotel,
encontrar-te a dormir
e acariciar-te o cabelo.
Pablo García Casado

domingo, 22 de junho de 2014

António José Nero Seguro


O Sol conta ao que vêm os seguristas: 
«Agora, sentimos toda a liberdade para dizer o que pensamos e sentimos - e vamos dizê-lo».

Isto é: António José Seguro prepara a lira enquanto o PS arde.

Vietnam

Getty Images (daqui)



Heathen Killer

I

A rear headquarters non-combatant
Christens the search and destroy
Missions in curious olive drab lingo.
An officer no doubt.
"Captain Ashley speaking, sir.
I didn't ask for this job."

At Khe Sanh, we lounge
on sandbags, drink Kool-Aid,
And watch the screaming fighters
Come like clockwork
From Da Nang, Pleiku, Chu Lai
And giant carriers criss-crossing
The South China sea.
Sky Hawks and Phantoms
Climb almost straight up,
Dive and circle,
Drop tumbling silver
Cannisters of jellied fire
That flash in the sun.
We cheer the more spectacular
Rolling orange mushrooms;
The Greatest Show on Earth.
"This," says Chief,
"Is one crazy white man's war."

Clever enough name,
I suppose,
For a military operation.
"Heathen Killer"
There is certainly a significant amount of killing
Though most of it
On the wrong side.





II

On mail call days
The photographs I share
Of new cars and picnics,
Smiling blue eyed people
Eating wedding cake,
Are always returned
Without comment.
Chief never gets any mail.
Never.
He eats sliced peaches,
C-ration apricots and pears,
While I sort stacks
Of perfumed letters.
"Got any pineapple bits?"
He knows the answer.
I always steal
More from supply
Than I can eat.

On a mud hill jungle firebase,
Drunk on desert memories,
Rage and contraband whiskey,
Chief packs his trash,
Lurches toward concertina wire,
A sea of elephant grass
And the Reservation far beyond.
Gang tackled from behind,
The fight is on.
He beats Dino's eye shut
And busts the Wetback's lip
Before nylon parachute cord
Binds him to a stake/tree.
Next morning, he surveys
The swollen purple faces,
And sullen stares.
"Nothing personal, boys".

His round face split
In a yellow toothed grin.
We smile back,
Crazy goddamn Indian,
In spite of ourselves.



III

The squad draws straws to wake him,
Fists flailing at unseen
Dancing demons,
Until we learned to jab
A stick in his barrel chest
And run for our lives.
We stack our weapons
At Dong Ha,
Innocent as children,
Pile the deadly war toys
As offerings.
Frags and bandoliers
For warm Black Label,
Showers, clean clothes,
And dehydrated steaks.
Chief buys a portable tape player
And one tape
In-A-Gadda-Da-Vida.
We hear the drum solo,
In our sleep,
Over and over
Like a bad dream
Struggling for life.

"Where's Chief," Gunny asks?
At morning muster, we stand
In the nauseous
Aftermath of green beer
For the Skipper's pep talk.
The words rise like bile
From his monotone speech.
"NVA Regiment
Air Assault
Operation Heathen Killer."

"Chief ain't up, Gunny"
"Well go get him," he says.
But nobody moves.
"Why don't you go, Gunny?"
(a voice from the ranks)
To wake Chief from a big drunk,
No stick was long enough.
Gunny stares at his clipboard.
A wise man weighing options.
"Naw," he says
"Let the wild son-of-a-bitch sleep."



IV

In the afternoon we shuffle
Aboard the waiting choppers
To the dull thump of whistling engines
Pounding hearts and psychedelic drumbeats.
Chief stands by the door gunner,
Head bobbing to the strains
Of The Iron Butterfly,
And watches the seething pockmarked jungle
Flow green beneath us
As giant rotors throb
Banking the great bird North
To the red clay of Con Thien
The Place of Angels
Street Without Joy
Operation
"Heathen Killer."

At Dawn, Barret is still alive.
Hang on, we urge.
It is our turn to beg.
But he grows weary
And slips away.
In the distance, medevac choppers
Hum above the fog shrouded valleys.
We wrap him and the others,
In plastic ponchos
Gently, as if it mattered,
And load them in the bellies
Of thrashing helicopters.
We stand in postures
Of absurd bravado
And weep in the prop wash.

"Go get the Skipper," Chief says.
And we peer over the edge
At the source of the moans.
A Gook officer, wounded,
Has saved himself
On an out-cropping of rock
And looks up in a half-smile
Of recognition and hope
Even as the pistol barks.
The Skipper, hollow-eyed,
Passionless, walks away.
He never says a word.



V

In the night,
Barret is hit,
Lays dying,
Calling our names in the darkness,
Knowing we will come.
The Gooks know it too
And use the plaintive sobs as irresistible bait;
A favorite slope trick.
They kill Doc first,
Then Wilson,
And the new replacement kid
Whose name we never learn.
Barret is begging now.
Let him die, I pray,
Before my turn.
As Chief crawls out
Stone-faced to save us all,
I change my prayer.
Grenades arch soundless.
he catches the bouncing baseballs
And tosses them back.
Lt. Mac, a good catholic boy,
Fingers black rosary beads.
"Mother of God," he breathes.

The new chevrons and Silver Star,
Pinned on by the battalion commander,
Are sweetened with a week of R&R.
A big mistake, we smirk,
And are rewarded with stories
Of an AWOL Chief busted, in a Hong Kong
Back-street whorehouse,
By an unsuspecting cop.
Poor bastard . . .
Trying to roust a sleeping Indian
From the Binge of the Century.
We celebrate Chief's return.
Walk to the LZ
Bearing gifts of canned fruit.
Beaming, he embraces us all.
A little thinner from a red line
Bread and water brig.
"Still a slick sleeved private,"
He brags.
The officers shake their heads,
Go back to map reading,
And peer through binoculars.



VI

One image remains.
near Laos, the night wind
Alive with sing song
Oriental voices,
Mortars fall from a back sky,
We press out faces in damp
Fresh earth and pray aloud.
On this, our last day
The mortars stop.
And in the silence,
Sick with sorrow,
We knew they are coming.
The word passes
in hushed tones;
A whispered holy sacrament.
"Fix bayonets".
A hoarse cry from a distant hole,
"Gooks in the wire.
Fix bayonets."
In the brief ghost light
of a pop flare,
I see Chief's face,
Flush with the blood
Of ancient Arizona warriors,
Smiling
Triumphant.
Bill Jones

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Atrás dos estatutos, uma estátua

Diário de Notícias, hoje

Este impasse político disfarçado de impasse estatutário não era difícil de prever e foi uma pena o aparelho socialista de Viseu, mais uma vez, não ter percebido nada e ter-se metido num 31.

Facilitação quantitativa

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

Fotografia daqui
Os banqueiros falam uma língua muito só deles, cheia de eufemismos e fórmulas dúbias. Falam-na com impacto global os “senhores do universo”, falam-na com impacto paroquial os nossos banqueiros: veja-se a forma enrodilhada como o sr. Ricardo Salgado explicou o rombo angolano no espírito santo, rombo feito por um sobrinho cafajeste em quem ele confiava muito.

Nos seus bons tempos, o sr. Salgado metia no bolso primeiros-ministros, como foi o caso de Barroso e Sócrates. Nos seus bons tempos, ele era tu-cá-tu-lá com a cleptocracia angolana, embora, nesse caso, não se saiba ainda quem é que metia a mão no bolso de quem. Uma coisa se sabe: o bolso estava furado.

Depois chegaram os maus tempos, deu-se a nossa bancarrota, deu-se o trambolhão do banqueiro. A história apurará se a bancarrota foi obra e graça do divino espírito santo ou se foi ao contrário.

Regressemos aos “eufemismos e fórmulas dúbias” dos verdadeiros “senhores do universo”: os presidentes dos bancos centrais das maiores economias.

A Reserva Federal norte-americana, a seguir à falência do Lehman Brothers, tratou de anunciar a "quantitative easing" – a tal "facilitação quantitativa" que dá título a esta crónica. Esta expressão é um eufemismo típico de banqueiro. Quer dizer: "ligámos-as-máquinas-de-fabricar-dinheiro".

Os EUA tiveram a sorte de, durante esta crise, terem tido Ben Bernanke a presidir ao seu banco central. Ele é um dos maiores especialistas mundiais da Grande Depressão e soube evitar os erros de há oitenta anos — desta vez os juros foram mantidos baixos e a torneira do dinheiro esteve sempre a jorrar.

Ora, como se sabe e proclama a doutrina económica, dilúvios de dinheiro dão inflação. Ora, como se sabe, a “facilitação quantitativa” feita na Alemanha entre as guerras originou uma hiperinflação trágica, cuja memória ainda hoje traumatiza os alemães.

Porque será que, desta vez, os preços não sobem?

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A leitura segurista dos estatutos do PS


Mesmo que os militantes do PS queiram mudar de líder, as sumidades do Conselho Jurisdicional do partido acham que o mandato de um secretário-geral não pode nunca ser interrompido contra a sua vontade expressa.

Ocorre-me um nome para ilustrar este absurdo: Michael Schumacher.

This Is The First Thing

Fotografia de Lauren Withrow




This is the first thing
I have understood:
Time is the echo of an axe
Within a wood.
Philip Larkin




quarta-feira, 18 de junho de 2014

Os chispes das matrículas *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 18 de Junho de 2010

Imagem daqui
Foi no verão de 2008 que o governo começou a falar dos identificadores obrigatórios nas viaturas - os “chips das matrículas”.

O secretário de estado Paulo Campos passou aquele verão a gabar a maravilha dos “chispes” das matrículas. Não fez outra coisa. Chegou a ser ridículo. Esteve a milímetros de afirmar que os ditos “chispes” eram infalíveis até contra o mau-olhado.

Só que, infelizmente, os “chips das matrículas” são mesmo um mau-olhado, são um Big Brother.

Disse deles o socialista Pedro Adão e Silva: “a ideia de deixar obrigatoriamente registo de passagem quando se circula na auto-estrada é um primeiro passo em direcção a um mundo perigoso, em que autonomia individual e direito à privacidade começam lentamente a ser confiscados pelo Estado.”

Os governos metem-se cada vez mais nas nossas vidas com a alegação de que “quem não deve não teme”. Essa alegação é uma falácia e está a danificar as democracias.

Os “chips das matrículas” são para financiar as SCUTs. Mas há, mas têm de haver outras soluções para esse problema que não sejam lesivas da privacidade dos cidadãos. Bastava, por exemplo, instituir-se uma vinheta anual obrigatória – o “Selo das SCUTs”. Sugeri isso a José Sócrates, olhos nos olhos, em Fevereiro de 2009.

Na próxima semana, os deputados vão votar os “chips das matrículas”. Vão surgir, de muitos lados, ameaças de crise política para condicionar o voto dos deputados. Era bom que o nosso parlamento não fosse em chantagens e mostrasse que respeita os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.

Deixo mais um elemento para a reflexão dos nove deputados do círculo de Viseu que foram eleitos com os nossos votos: se este Big Brother passar, num futuro muito próximo vamos ser obrigados a pagar 8 cêntimos por quilómetro nas “nossas” A24 e A25.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O Elefante

O Aliphante da Acert
Fotografia Olho de Gato


Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.

Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.

É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.
Carlos Drummond de Andrade


Yes and his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes

Hoje, 16 de Junho, é o Bloomsday




(…) 
I love flowers I’d love to have the whole place swimming in roses God of heaven there’s nothing like nature the wild mountains then the sea and the waves rushing then the beautiful country with fields of oats and wheat and all kinds of things and all the fine cattle going about that would do your heart good to see rivers and lakes and flowers all sorts of shapes and smells and colours springing up even out of the ditches primroses and violets nature it is as for them saying there’s no God I wouldn’t give a snap of my two fingers for all their learning why don’t they go and create something I often asked him atheists or whatever they call themselves go and wash the cobbles off themselves first then they go howling for the priest and they dying and why why because they’re afraid of hell on account of their bad conscience ah yes I know them well who was the first person in the universe before there was anybody that made it all who ah that they don’t know neither do I so there you are they might as well try to stop the sun from rising tomorrow the sun shines for you he said the day we were lying among the rhododendrons on Howth head in the grey tweed suit and his straw hat the day I got him to propose to me yes first I gave him the bit of seedcake out of my mouth and it was leapyear like now yes 16 years ago my God after that long kiss I near lost my breath yes he said was a flower of the mountain yes so we are flowers all a woman’s body yes that was one true thing he said in his life and the sun shines for you today yes that was why I liked him because I saw he understood or felt what a woman is and I knew I could always get round him and I gave him all the pleasure I could leading him on till he asked me to say yes and I wouldn’t answer first only looked out over the sea and the sky I was thinking of so many things he didn’t know of Mulvey and Mr Stanhope and Hester and father and old captain Groves and the sailors playing all birds fly and I say stoop and washing up dishes they called it on the pier and the sentry in front of the governors house with the thing round his white helmet poor devil half roasted and the Spanish girls laughing in their shawls and their tall combs and the auctions in the morning the Greeks and the Jews and the Arabs and the devil knows who else from all the ends of Europe and Duke street and the fowl market all clucking outside Larby Sharans and the poor donkeys slipping half asleep and the vague fellows in the cloaks asleep in the shade on the steps and the big wheels of the carts of the bulls and the old castle thousands of years old yes and those handsome Moors all in white and turbans like kings asking you to sit down in their little bit of a shop and Ronda with the old windows of the posadas glancing eyes a lattice hid for her lover to kiss the iron and the wineshops half open at night and the castanets and the night we missed the boat at Algeciras the watchman going about serene with his lamp and O that awful deepdown torrent O and the sea the sea crimson sometimes like fire and the glorious sunsets and the figtrees in the Alameda gardens yes and all the queer little streets and pink and blue and yellow houses and the rosegardens and the jessamine and geraniums and cactuses and Gibraltar as a girl where I was a Flower of the mountain yes when I put the rose in my hair like the Andalusian girls used or shall I wear a red yes and how he kissed me under the Moorish wall and I thought well as well him as another and then I asked him with my eyes to ask again yes and then he asked me would I yes to say yes my mountain flower and first I put my arms around him yes and drew him down Jo me so he could feel my breasts all perfume yes and his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes.

domingo, 15 de junho de 2014

E uma ideia boa para o país, não há?


É que aquela de tribunais mais rápidos para estrangeiros era inqualificável e aquela última do IVA para "empresas cumpridoras" tropeça no direito comunitário...

Perdoa-me, senhor, por não ser digno

Fotografia de Dennis Hopper


Perdoa-me, senhor, por não ser digno
De mim, de mim sou escasso, o meu fracasso,
Sou qualquer coisa aquém de quem não faço
Ideia, sendo esquivo ao próprio signo.
Oh, vai mudando sempre o meu destino.
Onde me pus? Nem sei... Sou um mendigo.
Acarto com a casa do que digo
E lúcido de próprio desatino.
De mim já fui capaz, agora sou
Só velho, sobre mim me mesurando,
Vassalo e suserano de mim mesmo.
Do meu sonho, o que resta, acordou?
E a mola de rapaz cercas pulando?
Um velho vê cercado o seu sesmo…
Daniel Jonas


Rua Augusto Hilário — Viseu

Fotografia Olho de Gato

sábado, 14 de junho de 2014

Bluebird

Imagem de Liliana Rodrigues


there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the ****s and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?
Charles Bukowski