sábado, 31 de maio de 2014

António José Seguro afinal quer um congresso extraordinário

Fotografia original de Enric Vives-Rubio para o Público
Acabo de ouvir António José Seguro na TVI a defender, pundonoroso, primárias abertas para a escolha do candidato do PS a primeiro-ministro.

Se forem em "Novembro é melhor que em Dezembro", "em Outubro melhor que em Novembro", em Setembro melhor que em Outubro — ele prefere-as "o mais  cedo possível".

O que Seguro não quer é um congresso extraordinário, isso não, credo!, de maneira nenhuma. 


Ele quer umas primárias abertas que não estão previstas nos estatutos do partido. Logo os estatutos do partido terão que ser alterados ... em congresso extraordinário.

Ou será que Seguro pensa fazer uma alteração estatutária tão relevante como é a da forma de escolha do candidato do partido a primeiro-ministro em "petit-comité"?

um recadinho

Fotografia de Floris Neusüss


vou ao mercado
peço-te que me esperes aqui até eu voltar
podes lavar a tua roupa se te sentires aborrecida
e se a porta te perturbar
então arranca-a
e põe qualquer coisa no seu lugar
peço-te que não deixes a tua cara no espelho
e não saias pela janela
não te mates como é teu costume
mas
espera-me
aqui
até
eu voltar
Ahmed Barakat

Entre Valongo dos Azeites e Trevões

Fotografia Olho de Gato

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Fiasco bom *

Jornal do Centro, hoje, p. 18

* O Olho de Gato confessa: esta Schadenfreude está a saber-lhe muito bem.

Europeias (#3)*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Fotografia original de Enric Vives-Rubio, daqui
No passado domingo, estiveram mais pessoas a ver a noite eleitoral nas televisões do que as que foram votar. Valeu a pena: logo às vinte horas aconteceu um prodígio nunca visto. Francisco Assis proclamou logo ali a vitória apoteótica do PS e incensou o supremo génio político do grande líder António José Seguro.

Assis, o imprudente. Na altura ainda havia só projecções que, como se sabe, costumam falhar quando há muita abstenção. Porque é que o cabeça de lista do PS, político experiente, se meteu naquela camisa de onze varas? Não se vê nenhuma razão boa para isso. Só más.

A cúpula segurista não vive neste mundo e nem reparou nos sucessivos tiros no pé que foi dando na campanha.

Repare-se: a campanha começou a dar destaque a Jorge Coelho, como se a ladroagem das PPP estivesse esquecida; a seguir, a campanha desfocou-se das europeias e apresentou oitenta compromissos (80!) de governo nacional; por fim, a cereja em cima do bolo — a "aparição" de Sócrates. José Manuel Fernandes, o último deputado eleito à direita, ficou, no mínimo, a dever um jantar de gratidão ao ex-primeiro-ministro.

O problema de António José Seguro já foi há muito tratado aqui: ele não age, só reage, ele está sempre à espreita do que “está a dar” e não do que é preciso. Dos “oitenta compromissos” de governo que apresentou, escritos num “politiquês” analfabeto, 32 aumentam o défice, 44 talvez-sim-talvez-não, e só 4 o diminuem. Estas “hollandices” dão likes no Facebook mas tiram credibilidade no país.

Portugal precisa de um primeiro-ministro capaz de fazer o que Pedro Passos Coelho não foi capaz: extinguir mesmo as redundâncias do estado, acabar com o sufoco e a ditadura fiscal, ter contas sãs que evitem a quarta bancarrota.

António José Seguro é bom homem mas, como se viu no domingo, não consegue mobilizar as pessoas para esse “suor e lágrimas” necessário. Os portugueses estão agora a olhar para António Costa.

Erros

Fotografia de Erich Hartmann (Misfidts, John Huston)


Não sei se má fortuna erros decerto
erros somente? Pode o amor ardente,
algum tempo omitido, descoberto
cobrir de novo a pele neste presente,

que de pouco já serve a sua chama
lugar comum tão pobre e tão verídico
que sopras e apagas como a cama
negas ao corpo foge o tempo mítico

em que tudo era eterno e só durou
o espaço da manhã do teu sorriso
como a rosa que tarde já chegou
e pousou devagar no corpo liso

e frio não de morte ou indiferença
frio só porque tudo tem um tempo
até as rosas e não há presença
nem chama do amor que o torne eterno
Gastão Cruz




Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.

Tudo passei; mas Tejo tão presente
a grande dor das cousas, que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!
Luis Vaz de Camões



quinta-feira, 29 de maio de 2014

Bill Clinton e Mick Jagger estão hoje em Lisboa e não aparece nenhuma teoria conspirativa?







A BBC não foi perguntar à Goldman Sachs nem a nenhum polvo como vai ser o mundial — foi perguntar a Stephen Hawking

— Como vai ser com a Alemanha, professor Hawking?
— Só ganhámos 33% dos jogos com países a quem declarámos guerra mas ganhámos 58% com países a que não.

Paleta

Fotografia de Albert Watson


Tens uma paleta
a que faltam
algumas cores. Talvez
porque há substâncias
a que não soubeste
dar expressão. Ou porque elas
são incolores. Ou porque
em toda a realidade
há fendas
que nem pela palavra
nem pela cor
alguma vez
saberás preencher.
Albano Martins


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Segredo

Fotografia de Richard Avedon


Antes eu não sabia
porque é que se deve
- dia após dia –

andar sempre em frente
como se diz até
o corpo aguentar.

Agora sei.
Se vieres comigo
digo-te.
José Agustín Goytisolo


Festas e bolos *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 29 de Maio de 2010


1. Em 30 de Novembro de 2001, o ministro da economia da Argentina, Domingo Cavallo, decretou o “corralito”, o congelamento das contas bancárias, o que fez alastrar o descontentamento a todo o país.


Fotografia e detalhes sobre o corralito aqui 
Multidões manifestaram-se batendo em panelas – protesto a que se chamou “cacerolazo”. Houve pilhagens e mortes. Cavallo foi o alvo de todas as fúrias. Nas manifestações havia sempre muitas pessoas com a máscara do ministro, máscara que na altura se vendia na Argentina tão bem como agora se vende a vuvuzela na Covilhã.

A 19 de Dezembro foi decretado o estado de sítio. Mal o presidente acabou de o anunciar, milhares de argentinos pegaram nas caçarolas e arrancaram para as ruas. Um dos alvos foi a casa do ministro que foi cercada. Conta-se que Domingo Cavallo conseguiu fugir de casa sem ser molestado pela multidão porque levava posta uma das populares máscaras de si próprio.

Lembrei-me desta história ao ouvir esta semana Vítor Constâncio nas televisões a falar de cortes nos salários. Falava, falava, e eu via Constâncio com a sua máscara posta - a máscara “Vítor-Constâncio-não-acerta-uma”.

2. Uma criatura de mãos ágeis apropria-se de uns gravadores que não são seus mas – atenção! – isso não é roubo, isso é "acção directa".

Durante quatro dias os aparelhos ficam na posse da criatura que, depois, os entrega num tribunal mas – atenção! - isso não é arrependimento, isso é "providência cautelar".

Passaram três semanas e o tribunal não devolve os gravadores aos legítimos donos mas – atenção! - isso não é "receptação", é a justiça portuguesa a funcionar.

3. É claro que é preciso urgentemente escrutínio democrático e oposição à câmara de Viseu.

Mas, pelos modos, tem que se dar mais um tempo à nova concelhia do PS para continuar com as suas “festas e bolos”.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Depois da batalha de Ásculo, disse o rei Pirro...


... «uma outra vitória como esta e é a minha ruína completa.» 

Epitáfio para uma Europa

Fotografia de Maya Goded

Limpo do Espírito o unto da Europa, e deito-o
nas feridas do ocidente para que sequem mais
depressa. A Europa impregna-me com a sua febre,
que eu acalmo com a água de um ócio de
culturas. A Europa atravanca os passeios da memória,
e obriga a empurrá-la para deixar passar
os que chegam. Às vezes, a Europa encosta-se
às esquinas, como se não fizesse nada,
e confundem-na com a puta da noite, como
se ela estivesse à venda; mas o que ela faz
é oferecer o corpo a quem quiser. De outras
vezes, a Europa é a virgem que não quer
descer do altar, como se alguém a adorasse,
ainda, e lhe acendesse as velas de uma devoção
de milénios. "Tirem-me a Europa
da frente", dizem os que querem chegar
mais depressa aos lugares que a Europa
já descobriu, e perdeu, há muito. "Quero ser
como a Europa", dizem outros — os que
andaram atrás dela, e não souberam acompanhar-lhe
o passo, e caíram no primeiro obstáculo,
vendo acumularem-se por cima de si os corpos
de quem vinha atrás. A Europa enlouqueceu,
e pede que a fechem para que ninguém mais
acredite no que ela diz. A Europa é o mocho sábio
da fábula, e as crianças juntam-se à sua volta
a pensar que vão aprender alguma coisa. Tiro
a Europa do mapa e meto-a no bolso. E quando
alguém me pedir lume para o cigarro, vou puxar
por ela e acendo-a. Se o mundo arder, a culpa é
de quem me pediu lume; se a Europa se apagar,
deito-a fora e troco de isqueiro.
Nuno Júdice


segunda-feira, 26 de maio de 2014

MUDANÇA no PS

Depois de Francisco Assis, ridículo, ter chegado ao "cúmice do ápice" logo, logo, logo, às 20 horas...
Às 20H17 já dava para perceber o filme socialista na noite eleitoral


... resta esperar que desta vez — ao contrário do que aconteceu em Janeiro de 2013 — no PS não saia mais uma solução mole.

sábado, 24 de maio de 2014

Em refle-chão

Fotografia de Kiyoshi Nasu

Gymnase de la nuit

Fotografia de Erich Hartmann 


La beauté ne s'amoindrit pas dans les ruines
non ce lieu n'est pas épuisé
les ruines se ressemblent
ici les corps s'inclinent par audace.
Cristophoros Liondakis


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Agora nas câmaras há "vereadores" sobresselentes não eleitos

Jornal do Centro, hoje, página 6

Os viseenses não elegeram Hélder Amaral para este se baldar  às sessões da câmara e ser substituído por um "vereador" não eleito que nem a viagem de comboio das nossas crianças respeita.

O mote de Camões

Fotografia de Alfredo Valente


Exausto
de insónias
peço ajuda ao bom Luís Vaz de Camões.

O então malquisto exilado português de Muipiti
senhor de ínclitos dotes na arte do soneto
generoso empresta-me seu método
de falar com os bruxos
no ambíguo tempo
dos homens.

Ele
o grão-sonhador que lambeu
suas crostas
imperfilado
em verso
deu-me
o mote:

Efémeros são os oiros dos biltres.
Vãos os poderes da espada e da pólvora.
Louvado seja a Dinamene
e Maria louvada seja também.

E ambos entoamos.
José Craveirinha


Europeias (#2) *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. A União Europeia aos poucos vai-se democratizando. As eleições deste ano, pela primeira vez, vão servir também para eleger o presidente da comissão. Há cinco candidatos ao lugar: Martin Schulz, Jean-Claude Juncker, Guy Verhofstadt, Ska Keller e Alexis Tsipras.

Os nossos media só falam da desorientação de Rangel e da moleza de Assis. A retórica dos nossos políticos é feita como se a “Europa” terminasse em Vilar Formoso. Ninguém ligou nada ao debate de 15 de Maio entre os cinco candidatos ao lugar ocupado na última década por Durão Barroso. À cautela, aquilo até foi metido num canal da RTP sem audiência.



O debate foi muito bom e foi ganho pela clareza e acutilância do liberal Guy Verhofstadt, seguido de perto pela ecologista Ska Keller. O social-democrata Martin Schulz mostrou também solidez e bom-senso. Já o conservador Juncker tem o carisma de uma marmota constipada, enquanto o esquerdista Tsipras, o pior dos cinco, é oco.

2. Como dizem todas as sondagens, os populismos de esquerda e de direita vão subir por essa "Europa" fora, impulsionados pelo voto dos excluídos e dos derrotados da crise.

É que o Erasmus é bom, o espaço Schengen um descanso, o roaming agora é barato. Mas, e quem não se pode deslocar?
Mas, e as decisões tomadas nas costas do eleitorado? E o autocrata Orbán à solta na Hungria? E o desempoderamento dos jovens? E a imigração? E a incompatibilidade crescente entre as duas “Europas”, a da eurozona e a do eurocepticismo britânico? E a subtracção do poder orçamental aos parlamentos nacionais do euro?

Nenhuma destas questões, todas determinantes para o nosso futuro, teve qualquer espécie de debate cá. Desde 1994, a abstenção nas europeias ultrapassou sempre 60 por cento. Será que, desta vez, passa dos 65?

Resta dizer que não sei como se possa votar em Guy Vehrofstadt ou em Ska Keller. Votar Aliança Portugal é votar Juncker; votar PS é votar Schulz; votar bloco é votar Tsipras.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

E pagar a "encomenda" ainda antes do fabrico do "produto" também é "prática dos gabinetes ministeriais"?

Detalhes aqui

Relembre-se:
uma "compilação" legislífera da educação é uma inutilidade, sempre desactualizada perante a diarreia regulamentar do ministério;
o "encomendado" não percebia nada do assunto;

— a "encomenda" nunca foi entregue.

Admire-se:
Este caso ainda não prescreveu?

Uma pausa, não de plumas, mas elástica

Fotografia de Frank Horvat



1

Uma pausa, não de plumas, mas elástica,
que demorasse em si a paz ardente
e o ardor profundo de uma alta instância.
Que fosse o esquecimento na folhagem
e a espessa transparência da matéria.
O pulso pronunciaria a amplitude
do instante inocente. A obra acender-se-ia
na inteligência dos signos mais aéreos.

2

A inadvertência pode ser um prelúdio carnal
na volúvel leitura de quem adormeceu.
O sono dá ao sangue o ócio e as cores do enxofre.
Por uma forma ausente a matéria ramifica-se
na insolência branda de umas ruínas perfeitas.
Um aroma rebenta da axila negra de um animal de vidro.
Como um veleiro de fogo uma cabeleira ondula.
A garganta do mar atira os seus pássaros de espuma.
Uma rapariga de pedra caminha entre os arbustos de fogo.
É a abundância da origem e o seu orvalho azul.
São as armas vegetais sobre as janelas da terra.
É a frescura do vidro nas cintilantes sílabas.

3

Na justa monotonia do meio-dia
oiço o prodígio do repouso e a paixão adormecida.
O concêntrico sopro imobiliza-se. É uma lâmpada
de pedra fulgurante. Tudo é nítido mas ausente.
O mundo todo cabe no olvido e o olvido é transparência
de um denso torso que a nostalgia acende.
No silêncio sinto numa só cadência
a vociferação e o tumulto das pálpebras e dos astros.
Pelas veias o fogo da cal é branco e liso
e a mais remota substância culmina num rumor redondo.
António Ramos Rosa


Bom dia! Good morning! Gut Morgen! Bonjour! 早上好!¡Buenos días!


quarta-feira, 21 de maio de 2014

O Ricardo Bordalo, a Liliana Rodrigues, a Rosário Pinheiro e o Nuno Rodrigues estão feitos com a Troika


Este evento está marcado para as 17H00 do domingo eleitoral e, ainda por cima, vai ter vinho do Teixeira.

Ninguém faz uma queixa à CNE?! 
Não há nenhum abaixo-assinado?!



25 maio / domingo / 17h
Na SÓ SABÃO — Viseu

Café com bichos,
edição independente

Textos:  
Ricardo Bordalo

Ilustrações: 
Liliana Rodrigues
& Rosário Pinheiro

Design: 
Nuno Rodrigues

Apareceide!

Canción del que fabrica los espejos

Fotografia de Camil Tulcan


Fabrico espejos:
Al horror agrego más horror,
Más belleza a la belleza.
Llevo por la calle
La luna de azogue:
El cielo se refleja en el espejo
Y los tejados bailan
Como un cuadro de Chagall.
Cuando el espejo entre en otra casa
Borrará los rostros conocidos,
Pues los espejos no narran su pasado,
No delatan antiguos moradores.
Algunos construyen cárceles,
Barrotes para jaulas.
Yo fabrico espejos:
Al horror agrego más horror,
Más belleza a la belleza.
Juan Manuel Roca


Bancarrotas *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 21 de Maio de 2010


1. “Bancarrota” ou “default” são palavras que invadiram as manchetes dos jornais.

Num ensaio recente, os especialistas em história económica Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart estabeleceram uma correlação muito forte entre os colapsos bancários e as bancarrotas dos países. 

O que está a acontecer às dívidas soberanas é uma decorrência da crise do sub-prime e tudo indica que a libra e o dólar (que têm sido tipografados furiosamente) vão ter problemas.

Para tornar curta uma história longa – há no mundo um risco elevado de default de países ricos. Não se ponham de fora dos radares a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.

Para já, os sarilhos concentram-se no euro e na situação encravada dos países corruptos do sul.

Portugal está na fila da frente dos problemas porque as elites económicas e as elites políticas, em conúbio descarado, derreteram os fundos comunitários e hipotecaram o futuro dos nossos filhos com um endividamento insano.

Fotografia achada aqui
2. Miguel Frasquilho acumula. É, ao mesmo tempo, deputado da nação e quadro do BES, o banco do regime.

Esta semana, o PS criticou-o por ele como deputado dizer preto ao que como empregado do BES chama branco.

Quanto ao grosseiro conflito de interesses do deputado laranja, o PS não disse nada. É que quem tem telhados de vidro…

3. Os campeões de bancarrotas na Europa são a Grécia com 5 bancarrotas (90 anos de impacto); a Espanha, 12 bancarrotas (57 anos) e, sem surpresa, Portugal, 5 bancarrotas (24 anos).

A primeira bancarrota portuguesa foi em 1560, na regência da viúva de D. João III, e as outras quatro aconteceram durante a monarquia constitucional: em 1828; 1837-1841; 1850-1856; 1892-1901.

Com um cadastro financeiro destes no século XIX, não surpreende que a monarquia tenha caído de podre e não tenha deixado saudade.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Caro António José Seguro, vai fazer exactamente o quê nas portagens?

O "Contrato de Confiança", dado a conhecer pelo PS em 17 de Maio, tem 80 "compromissos", quase todos escritos naquela língua de trapo a que se costuma chamar "politiquês". 

No que se refere às auto-estradas, eis o quinquagésimo compromisso:

50. 
Reavaliação global de modo a introduzir equidade no pagamento da utilização das vias 
rodoviárias portajadas e coerência de acordo com o estímulo ao dinamismo económico e à criação do emprego.

Estas trinta palavras, em português, querem dizer o quê?

Da dificuldade

Fotografia de J H Engström



Não faço o que quero
faço o que posso.
E o que posso passa
pelo passo da dificuldade.

Palavras tenho poucas,
duras, despidas estacas,
complicando a minha escolha.

Ermas e perfiladas
ergo-as ao sol na vertical
e são monótonas e dão sombra.

Com elas levanto quatro nuas
paredes, um tecto em forma
de prece. Dificilmente
construo uma casa fácil

Fácil é fazer difícil,
difícil fazer o fácil.
Rui Knopfli


Trevões é uma linda terra e merece ...

... ser conhecida por razões diferentes destas contadas por um jornalismo monstruoso.

Brasão do Solar do Paço Episcopal de Trevões

Fotografias Olho de Gato

segunda-feira, 19 de maio de 2014

São tristes os meus dias com pedras

Fotografia de Francisco Mata Rosas

São tristes os meus dias com pedras
em lugar de mãos
ou a cabeça funda na brancura
de través do travesseiro
e o corpo depresso em moles guindastes.
São dias de chorar por menos
ou teimar queixoso com um crânio polido,
batuque convexo
no muro demorado.

Ficar a ouvir o sangue,
o som tubular do sangue. Ao vale seco
da clavícula atrair a água, o sangue
e sorver a sopa intestina
ou se o líquido escapa à boca
tantálica, calar com argila
o que me pede água.

Ficar a palpar os buracos
da ausência, as ligas
da ausência, as ribanceiras
a que caem os pensamentos, a cor
dióspiro que banha a enfermidade
e em seguida tomar o pulso
evadido, travar o touro, o soco da dor,
o infinito infinitivo presente.

Uma amálgama de alma
migra no fôlego de modorrento
pregão de dor, o condor
passa e anda andino e é uma
traça asfixiante: faço um céu rarefeito,
a dispneia é um felino
que arranha céus
e a boca rebuliço espúmeo
expele o sabor da morte
e o que mais consiga cuspir
por entre ovéns e enxárcias
e traves quebradas.

É uma desilusão com as coisas,
uma desilusão funda com as coisas,
com o vazio meio-cheio das coisas.
Meu fôlego um fólio cheio
de silêncio, uma catástrofe natural

um vulcão: no meu pulmão pôr lava
e no trovão treva.
Daniel Jonas


Sad are my days with stones
instead of hands
or my head sunk into the deep
whiteness of my pillow
and my body squashed by feeble cranes.
Those are days to cry for less
or to plaintively argue with a shiny skull,
a convex tapping
on the lingering wall.

To stay listening to the blood,
the tubular sound of the blood. Drawing the
water, the blood, into the dry valley
of the collarbone, slurping the intestinal
soup, or if the liquid escapes
the tantalising mouth, stuffing with clay
what is begging for water.

To stay probing into the holes
of absence, the straps of
absence, the pit where
thoughts fall, the persimmon
colour that bathes infirmity
and then to feel the fading
pulse, halt the bull, the stab of pain,
the infinite present infinitive.

A suffused soul
migrates with the sturdy breath
of a painful street cry, the condor
flies and walks the walk and chalks
an asphyxiating trace: I paint a rarefied sky,
my dyspnoea is a feline
that scrapes the skies
and my mouth in foamy turmoil
expels the taste of death
and whatever else it manages to spit out
through stays and shrouds
and broken beams.

Things disappoint me so,
things are deeply disappointing,
things with their half-filled emptiness.
My breath is a folio full
of silence, a natural catastrophe,

a volcano: laying lava in my lung
and darkness in thunder.

Daniel Jonas
Trad.: Ana Hudson


De pé em cima da prancha... (#2)


Barragem do Vilar, Maio de 2017 

Exibição duma turma do 12º ano da Escola Secundária de Moimenta da Beira

Com a presença do presidente da assembleia da república António Capucho, da ministra da educação Joana Amaral Dias, da deputada europeia Marisa Matias e do presidente da câmara José Eduardo Ferreira

De pé em cima da prancha...

Fotografia Olho de Gato

...Marisa Matias quer aulas de surf em Mangualde.

sábado, 17 de maio de 2014

Na próxima bancarrota a Troika vai...



... chegar a Lisboa de TGV.

Eu era apenas quanto

Fotografia de Ralph Crane



Eu era apenas quanto
a tua mão tocasse
ou sobre o que inclinavas,
no breu da noite, a face.

Eu era, embaixo, quanto
notavas turvo, apenas:
traços, no início, vagos;
feições, mais tarde, plenas.

Foste quem logo, ardente,
criou-me a sussurrar,
seja à direita, à esquerda,
a concha auricular.

Foste, a agitar cortinas,
quem, na humidade cava
da boca, introduziu-me
a voz que te chamava.

Eu era cego e, vindo,
sumindo-te de mim,
doaste-me a visão.
Fica um vestígio, assim.

E, assim, criam-se mundos
que são postos de lado,
girando, quando prontos,
presente abandonado.

Em meio, pois, de treva
e luz, calor e frio,
prossegue o nosso globo
seu giro no vazio.
Joseph Brodsky
Trad.: Boris Schnaiderman 
e Nelson Ascher

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Bancarrotas*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro




Amanhã termina a pouco discreta tutela da Troika sobre este rectângulo "à beira-mar plantado”.


Fotografia daqui
Enquanto não acontece a quarta bancarrota, lembremo-nos das três que já aconteceram na terceira república. Os nossos dois primeiros resgates foram em 1977 (1% do PIB ) e em 1983 (2,8% do PIB). Ambos os empréstimos estão pagos, diz a página oficial do FMI. O país não se sabe governar mas lá vai mantendo o cadastro limpo como pagador.

A bancarrota de 1977 foi causada, acima de tudo, pelo “retorno” de mais de meio milhão de nossos concidadãos vindos das colónias. Foi um processo de integração rápido e harmonioso que nos deve orgulhar.

Já tanto a bancarrota de 1983 como a de 2011 são o retrato chapado das nossas elites. A de 1983 é atribuível à grande e eleitoralista valorização do escudo feita, anteriormente, por um ministro das finanças de Sá Carneiro chamado Cavaco Silva. Resultado: 1983 e 1984 foram traumáticos — o PIB contraiu fortemente, houve fome e os rendimentos foram comidos por inflações elevadíssimas (em 1983 o poder de compra caiu 7% e no ano seguinte caiu 12,5%).

Agora, a bancarrota socrática foi de 78 mil milhões de euros. Uma enormidade: 45,5% do PIB (!). Apesar de tudo, estes últimos desgraçados anos parecem não ter tido consequências tão más como as do biénio 1983/84. Há trinta anos o pior foi a inflação, desta vez é o desemprego. Mas parece que agora o "estado social" consegue, apesar de tudo, dar melhor resposta.

Entenda-se: o parágrafo anterior é uma "impressão" de quem é suficientemente "cota" para ter vivido as duas crises. Era bom que fossem feitos estudos objectivos a compararem as consequências dos dois resgates. Como os nossos partidos não têm think-tanks que lhes forneçam pensamento fundamentado, e como os nossos media não fazem trabalhos de fôlego, há que esperar por estudos das nossas universidades para confirmar, ou não, essa "impressão".

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Ainda não view a sua street na net?


Resumo dos três primeiros dias de campanha


I died for beauty

Fotografia de Annie Leibovitz


I died for beauty, but was scarce
Adjusted in the tomb,
When one who died for truth was lain
In an adjoining room.

He questioned softly why I failed?
"For beauty," I replied.
"And I for truth, — the two are one;
We brethren are," he said.

And so, as kinsmen met a night,
We talked between the rooms.
Until the moss had reached our lips,
And covered up our names
Emily Dickinson

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Andamos nisto há 25 anos em Viseu

in ViseuMais.com

Falar pelos pobres *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 14 de Maio de 2010


1. Começo a escrever este Olho de Gato na terça-feira de manhã quando o avião de Bento XVI ainda vem no ar, numa rota ao abrigo das cinzas do vulcão Eyjafjallajokull.

A visita do papa tem impacto no país e cria expectativa. Há uma pergunta no ar: “o que é que Bento XVI vai dizer?”

Pedro da Silva Pereira, em artigo no Expresso da semana passada, depois de descrever as reformas decorrentes da nova concordata, não resistiu e, profilático, escreveu: “A questão social, à luz da maior crise económica dos últimos 80 anos, não deixará de ocupar um lugar importante nas mensagens do papa.”

O ministro, em boa forma apesar destes tempos difíceis e vulcânicos, tentou diluir a crise portuguesa na crise global. Mas a expectativa existe – “o que vai dizer o papa?”

Há uns tempos, quando já se sabia quem iam ser as vítimas principais do PEC, perguntei a um destacado membro da nossa diocese:

«Quando é que a Igreja começa a falar, como é sua obrigação, pelos pobres?»


«Espere pela visita do papa» – foi a resposta que obtive.

2. Como diz Slavoj Žižek em “A Marioneta e o Anão”: 
“hoje há cristãos, muçulmanos e budistas em todos os países do mundo” e estes tempos globalizados que vivemos fazem com que a religião fique secundarizada perante o “funcionamento profano da totalidade social”.



Fotografia da Agência Lusa daqui
Assim, diz Žižek:
“há dois papéis possíveis para ela: terapêutico ou crítico – [a religião] ou ajuda os indivíduos a funcionarem cada vez melhor na ordem existente ou procura afirmar-se como uma instância crítica e dizer o que está errado nessa ordem”.


Faz-nos falta uma voz crítica como a de D. Manuel Martins, o bispo de Setúbal nos anos de 1980.

Desgraçados tempos aqueles.

Desgraçados tempos estes - não é preciso lembrar-lho, D. Ilídio Leandro, bispo de Viseu.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Denunciar / prometer / acusar / pedir / comparar / dizer / acusar / acusar / acusar / silenciar / trincar / estilhaçar / amedrontar / protestar / negar


Fotografia daqui



Títulos de ontem e hoje — início da campanha eleitoral:

— Marinho e Pinto quer denunciar ilusões vendidas por alguns partidos

 Seguro volta a prometer baixar IVA da restauração

 Candidato da CDU acusa PS de desonestidade política

 Assis pede os votos da direita decente

 "Faz falta na Europa quem saiba distinguir um carvalho de uma cerejeira"

 Francisco Assis diz que o Governo «tem medo do povo»

 Paulo Rangel acusa o PS de desvirtuar o processo eleitoral

 Francisco Assis acusa PSD e CDS de desrespeitarem a democracia

 CDU acusa maioria de se servir do Governo para influenciar debate eleitoral

 Nuno Melo diz que a Comissão Nacional de Eleições devia estar em silêncio

 Rangel anda a «trincar» as calças de Assis, diz José Junqueiro

 PS acusa Governo de "estilhaçar" contratação coletiva

 Assis acusa Governo de ter medo do povo e recorrer à "obscenidade"

 CDU protesta junto da CNE por conselho de ministros durante a campanha

 Governo nega "oportunidade política" no caso da reunião do dia 17

Partida

Fotografia de Fabiano Busdraghri


O motor ligado
o câmbio
os pés deslizam pedais
de ir embora

a imagem retrovista
avisa da tristeza

o limpador do parabrisa
espalha lágrimas pelo caminho.
Pedro Du Bois



segunda-feira, 12 de maio de 2014

Campanha eleitoral 2014 — kit de sobrevivência (#1) *

Pinóquio, Acert, 2009 
Fotografia Olho de Gato


Claro as tuas mentiras
são mais divertidas:
porque as fazes novas de cada vez


As tuas verdades, dolorosas e chatas
repetem-se continuamente
se calhar porque és dono
de tão poucas
Margaret Atwood

* É muito difícil que se torne a repetir uma campanha eleitoral tão mentirosa como a de há três anos protagonizada entre José Sócrates e Pedro Passos Coelho para as Legislativas 2011, mas, de qualquer forma, reeditam-se aqui alguns conselhos aos leitores deste modesto estabelecimento 

A campanha dos coelhos

Rangel tem atrás de si Pedro Passos Coelho.

Assis tem atrás de si Jorge Coelho.

O Olho de Gato e A Tribuna de Viseu* foram investigar quem está atrás do Coelho propriamente dito...


... e acharam:




* Post simultâneo nos dois blogues

domingo, 11 de maio de 2014

Ó Rui Tavares, o PS vai meter treze deputados europeus!

Em entrevista ao DN, o cabeça de lista do LIVRE faz esta pergunta ao eleitorado socialista:

«O que é que é preferível: terem o décimo deputado do PS ou o LIVRE eleger o seu deputado?»




Agora sem ironia: estas contas de Rui Tavares fazem sentido: 
há alta probabilidade de serem eleitos três deputados comunistas, mais 1 bloquista — sobram 17 (9-8? ou 8-8-1?).

No caso de 8-8-1, este 1 será Rui Tavares ou Marinho Pinto?

Qualquer destes cenários não é bom para o PS-Viseu.