quarta-feira, 30 de abril de 2014

Penso e passo

Fotografia de Wolf Suchitzky



Quando penso que uma palavra
Pode mudar tudo
Não fico mudo
Mudo

Quando penso que um passo
Descobre o mundo
Não paro o passo
Passo

E assim que passo e mudo
Um novo mundo nasce
Na palavra que penso.
Alice Ruiz


Dois para um *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 30 de Abril de 20010



1. Os fins-de-semana de Inês de Medeiros em Paris patrocinados pelo erário público foram objecto de um inquérito do jornal Público. Quando votei, o resultado era o seguinte: contra – 8713 votos (93,7%); a favor – 587 (6,3%).

De facto, o que a assembleia da república aprovou é desmoralizante. Perdeu-se o foco no interesse público. Como é evidente, o parlamento deve pagar viagens aos deputados para irem ter com os seus eleitores, o parlamento não deve pagar viagens aos deputados para irem ter com a sua família.

Todo este desgraçado caso deu para perceber uma coisa: Jaime Gama, o “peixe de águas profundas”, sente-se bem como número dois da república e não ambiciona ser número um. Ao decidir desta forma enrodilhada, escondido atrás de pareceres jurídicos, Jaime Gama já nem com Red Bull bate asas. Fica por ali.

Cavaco Silva está agora mais descansado do que estava em Dezembro em relação à sua recandidatura. O umbigo de Manuel Alegre estende-lhe todos os dias o tapete vermelho. O PS está fora de jogo. O bloco em serviços mínimos.

O PCP, que tem sido humilhado em todas as eleições presidenciais, tem aqui a sua oportunidade. Com Manuel Carvalho da Silva, e uma campanha bem feita, os comunistas podem ultrapassar os 750 mil votos.

2. Passos Coelho propõe um corte de 95 milhões de euros em estudos e consultorias. Aplaudo. Se o corte for maior, aplaudo ainda mais. É preciso pôr um travão à voracidade dos “Antónios Vitorinos”, dos “Migueis Júdices” e de toda a “advocacia de negócios” que está a exaurir este país.


Imagem achada aqui
3. Há uma orientação geral no estado: só quando saem dois funcionários públicos, pode entrar um.

Proponho o mesmo para a burocracia: todo e qualquer serviço público só poderá exigir um novo acto burocrático quando tiver anulado dois.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Encrucijadas

Fotografia de  Alfred Eisenstaedt




El corazón deja de latir
(a veces hasta el reloj se para)
encogido
de miedo.
Pero más allá de ese abismo
sigue latiendo la vida,
intacta,
con todas sus promesas.
Sólo hay que seguir caminando
          un
                    poco
                              más.
Berna Wang


segunda-feira, 28 de abril de 2014

An Ancient Gesture

Fotografia de Annie Leibovitz


I thought, as I wiped my eyes on the corner of my apron:
Penelope did this too.
And more than once: you can't keep weaving all day
And undoing it all through the night;
Your arms get tired, and the back of your neck gets tight;
And along towards morning, when you think it will never be light,
And your husband has been gone, and you don't know where, for years.
Suddenly you burst into tears;
There is simply nothing else to do.

And I thought, as I wiped my eyes on the corner of my apron:
This is an ancient gesture, authentic, antique,
In the very best tradition, classic, Greek;
Ulysses did this too.
But only as a gesture,—a gesture which implied
To the assembled throng that he was much too moved to speak.
He learned it from Penelope...
Penelope, who really cried.
Edna St. Vincent Millay




domingo, 27 de abril de 2014

Se ao menos as eleições europeias servissem para isto...

Gif de Joe Smith

Nada me faz contente

Fotografia de Andreas Heumann



Os jogos dos pastores,
as lutas entre a rama,
nada me faz contente;
e sou já do que fui tão diferente
que, quando por meu nome alguém me chama,
pasmo, quando conheço
que inda comigo mesmo me pareço.
Luís Vaz de Camões


sábado, 26 de abril de 2014

This be the verse

Fotografia de Rennie Ellis


They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.

But they were fucked up in their turn
By fools in old-style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
And half at one another’s throats.

Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can.
And don’t have any kids yourself.
Philip Larkin



Seja este verso

Eles te fodem, teus queridos pais.
É sem querer, só que a verdade é esta —
Te enchem das culpas que tiveram mais
E dão, só pra você, uma dose extra.

Mas eles se foderam com uns néscios
De paletós e de chapéus à antiga,
Durante o dia, piegas e perversos,
À noite, se esganando numa briga

Legamos dor aos nossos semelhantes.
Como um recife, ela se crava fundo.
Por isso, saia dessa o quanto antes,
E nunca ponha filhos neste mundo.
Philip Larkin
(Tradução de Alípio Correia de Franca Neto)

Jornalismo monstruoso


Pinhole no Rossio de Viseu


A ILHA DO TESOURO

"A Ilha do Tesouro" é uma adaptação da obra homónima de Robert Stevenson.
Hoje, IPJ-Viseu, 21H30

Billy, o homem da cicatriz, lorde Platão, Ben e Silver, o pirata da perna de pau, todos sonham descobrir o tesouro do sanguinário capitão Flint.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

São as faladuras sobre o "dia inicial inteiro e limpo", são os peitos-feitos com cravos pendurados...

... e é o essencial: 
— a liberdade 
— e o fim da guerra.

Informação daqui

Estamos assim *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Como é costume dizer-se, uma notícia é algo que alguém preferia que não fosse publicado, o resto é publicidade.

Em 2002, este jornal publicou uma notícia sobre uma distribuição de móveis velhos do tribunal de S. Pedro Sul que desagradou a alguém. Deu processo.

O jornalista Fernando Giestas apurou e contou os factos. Houve associações contempladas e outras não. Estas ficaram descontentes. O jornalista ouviu todas as partes: os distribuidores de móveis, os recebedores, os não recebedores.

A directora Isabel Bordalo fez um editorial com o óbvio do caso: se tivesse havido mais informação aos eventuais interessados, teria havido menos “suspeição”.

Fui testemunha neste processo a uma notícia deontologicamente impecável e a um editorial sensato. O facto é que, apesar do jornalista ter contado a verdade e a directora usado o seu direito à opinião, ambos foram condenados naquele tribunal de móveis novos. O facto é que, depois, a relação de Coimbra confirmou a condenação.

Só agora, como é sabido, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos acaba de inocentar Fernando Giestas e Isabel Bordalo. E condenar o estado português por atropelo à liberdade de expressão. O habitual.

Estamos assim. Quarenta anos depois do 25 de Abril.

2. Durante a “justiça à portuguesa” e antes da “justiça à europeia” feita aos dois jornalistas, decorreram, em duas escolas de Viseu, obras da Parque Escolar, a empresa pública que melhor praticou o novo-riquismo socrático do “fora-o-velho-mete-novo”.

Não dei por nenhuma notícia a contar o que aconteceu aos móveis velhos das secundárias Emídio Navarro e Alves Martins.

Estamos assim. Quarenta anos depois do 25 de Abril.

3. PS, PSD e CDS, os “partidos do arco da corrupção”, acabam de chumbar no parlamento uma proposta para acabar com deputados na folha de pagamentos dos lobbies.

Estamos assim. Quarenta anos depois do 25 de Abril.

Libertad

Fotografia de Paul Strand



La libertad, a mis treinta y tantos, se empolva
en viejas camisetas del Che. Es, como dijo
Benedetti, una palabra aguda nada más.

Se escapa en teléfonos móviles, entre
las piernas de una mujer. Huye por trabajos
mal pagados, desaparece cuando todos los días
tenemos que comer.
Un amigo, una hermana. Hipotecas para casas de muñecas.
Libertad es un pájaro de alas rotas.
Dime, niña con naranjas por pechos, dime,
¿qué es la libertad?, dímelo tú, sabes que no existe.
Tú mejor que nadie, tú que eres mujer.

Aparece fugaz cuando ya no hay nada que perder.
Jorge M. Molinero

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Complete Destruction

Fotografia de David Goldblatt


It was an icy day.
We buried the cat,
then took her box
and set fire to it
in the back yard.
Those fleas that escaped
earth and fire
died by the cold.
William Carlos Williams


quarta-feira, 23 de abril de 2014

A titia

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 23 de Abril de 2010

1. Está a comemorar-se o centenário da primeira república mas as pessoas sabem pouco do que aconteceu nos 16 anos que ela durou e as razões que levaram ao 28 de Maio de 1926 e à ditadura.

Nos nossos dias, apesar do autismo e da corrupção das elites, não se adivinha nenhum pronunciamento militar. A nossa democracia tem tido solidez porque evitou dois erros da primeira república: evitou querelas com a igreja católica e fugiu do parlamentarismo como o diabo foge da cruz.

Só com José Sócrates se começou a resolver alguma da matéria de costumes que tem a oposição da igreja. Mas estes avanços nos costumes não alteram o essencial: o nosso regime não é jacobino. A tolerância de ponto concedida para a visita de Bento XVI quer dizer exactamente isso.

O problema do parlamentarismo é muito mais bicudo. É verdade que os deputados e os senadores da primeira república não aceitavam ordens de ninguém, nem de Afonso Costa. O poder forte era o legislativo, não era o executivo.

Com medo que tal se repetisse com a actual assembleia da república caiu-se no extremo oposto. Foram criados mecanismos de “disciplina” dos deputados que fazem António Barreto dizer cheio de razão: "os deputados são servos e gostam de ser servos". Basta lembrar o défice de coluna vertebral dos deputados professores do PS na anterior legislatura.


2. «Manso é a tua tia, pá!», respondeu Sócrates a Francisco Louçã no parlamento. Este episódio anódino, embora de má gramática, levantou um enorme escarcéu nos media que estão atulhados de virgens púdicas.

Recordo um pequeno factóide da primeira república: em Dezembro de 1913, em plenos trabalhos, o senador João de Freitas apontou uma pistola à cabeça do senador Artur Costa, irmão de Afonso Costa.

Compare-se esta coboiada com a inocente titia de Louçã.

terça-feira, 22 de abril de 2014

"Ai Que Ricas Orelhinhas" e de gravata verde

A Presença das Formigas

André Cardoso, Manuel Maio, Nuno Silva, Miguel Cardoso,
Rui Lúcio, Sara Vidal

Novo álbum | 'Pé de Vento'



CONCERTOS DE APRESENTAÇÃO:

24 DE ABRIL | COIMBRA, AUDITÓRIO DO CONSERVATÓRIO DE MÚSICA DE COIMBRA, 21h30

30 DE ABRIL | PORTO, TEATRO HELENA SÁ E COSTA, 21h30

GUERRA OU PAZ — hoje no Cine Clube de Viseu

IPJ-Viseu, 21H30
Com a presença do realizador


Entre 1961 e 1974, 100.000 jovens portugueses partiram para a guerra nas ex-colónias. 
No mesmo período, outros 100.000 saíram de Portugal para não fazer essa mesma guerra. 

GUERRA OU PAZ procura os homens que “fugiram à guerra”, o seu papel na construção do país que somos hoje, os seus percursos, e de que forma resistiram. 

Haverá uma conversa no final do filme, com as presenças de RUI SIMÕES e MIGUEL TORRES, da ACERT de Tondela.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Do consenso e do dissenso

Isabel Moreira
Fotografia de Nuno Ferreira dos Santos
Miguel Fernandes, ainda bem que acabou por publicar o seu artigo na Tribuna, um media que este blogue acompanha com gosto.

Miguel Fernandes não gostou desta ideia de Isabel Moreira: 
A política é feita de dissenso, e este consenso de que Cavaco Silva fala só seria possível matando as ideologias.” 

Devo-lhe dizer que o pensamento de Cavaco Silva não tem nenhuma sofisticação democrática, nem nunca teve, pelo que Isabel Moreira, de longe a melhor deputada da oposição nesta legislatura, tem mais que razão.

Fica o que penso sobre esta matéria.

Em democracia, o dissenso é bom e o consenso é bom.


É indispensável o dissenso sobre as políticas, é imprescindível o consenso sobre as regras.

A terceira república, em grave crise de credibilidade, teve um tempo em que era possível fazer as necessárias reformas institucionais — as tais "regras" — sem grandes custos políticos. 

Recomendei-o aqui na altura — era necessário aproveitar aquele período excepcional em que não houve política em Portugal, em que havia só o "toque-de-caixa"  da Troika e dos credores, período que não se sabia quanto tempo ia durar. 

Acabou por durar quinze meses, entre a tomada de posse do governo e o episódio da TSU, em Setembro de 2012. Foram quinze meses perdidos por Pedro Passos Coelho e António José Seguro.

Eles deviam, então, ter feito a reforma institucional da terceira república:
— prazos menos gongóricos de forma a que entre a queda de um governo e a tomada de posse de outro não seja preciso meio ano mas sim três semanas;
— aproximação eleitos/eleitores;

— exclusividade parlamentar;
— menos deputados;
— um único mandato presidencial para não termos um PR durante cinco anos a só pensar na sua reeleição;
— mais exigência ética;
— câmaras monocolores;
— efectivo poder fiscalizador das assembleias municipais, incluindo o de porem moções de censura ao executivo;
— ...

Isto é, os partidos que por enquanto valem 2/3 de votos, deviam ter procurado o consenso sobre as regras. PPC e AJS falharam clamorosamente, mostraram a sua falta de estatura política. Podiam ter ficado na história da terceira república em um pouco mais que uma nota de rodapé.  

Quanto a AJS, acabou por ser vítima da sua omissão: em Julho de 2013, aquando da demissão "irrevogável" de Paulo Portas, ele queria a dissolução do parlamento mas o país não tinha prazos institucionais para poder apresentar com rapidez um novo governo. O parlamento não podia ser dissolvido. AJS pode ter perdido, aí, a possibilidade de alguma vez chegar a primeiro-ministro.

Regressando ao ponto: para além do problema das "regras", das matérias institucionais, em que mais o consenso é necessário?

Não tenho dúvida nenhuma — a terceira república em quarenta anos já teve que pedir intervenção externa três vezes. É desgostante. É uma vergonha. 

Os partidos devem também consensualizar níveis de défice/dívida que impeçam a quarta bancarrota e consequente amarrotamento da nossa autonomia e capacidade de auto-governo.

Em mais nada deve haver consenso.

sábado, 19 de abril de 2014

Mais Nada se Move

Paul Peel - The Rest
Gif de Stefano Tagliafierro


mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração
Al Berto

sexta-feira, 18 de abril de 2014

“Europa” *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Os dois motores da mundialização — as luzes e o capitalismo — tiveram a sua origem na Europa. O espírito científico e de criação de riqueza fizeram o nosso mundo globalizado, mundo com problemas tão grandes que já não têm soluções nacionais, só as têm numa escala supra-nacional.

Também aí o velho continente foi pioneiro: não há mais nenhuma instituição supra-nacional que se pareça com a “Europa”, esta nossa "coisa" acima dos países, a que devemos 70 anos de paz.

Esta ideia começou a germinar a seguir à primeira guerra mundial: em 1926 foi organizado em Viena o primeiro “Congresso Pan-Europeu” a que acorreram nomes como Adenauer, Churchill, Freud, Rilke, Einstein, Unamuno, Ortega y Gasset, Thomas Mann. Seguiram-se ainda mais três congressos pan-europeus nos anos de 1930.

Mas só depois do pesadelo nazi é que foi possível, em 1951, debaixo do chapéu-de-chuva norte-americano, com o Tratado de Paris, avançar para o embrião da “Europa” com seis países. Desde então, foram entrando mais estados e as transferências de soberania para a CEE/UE nunca mais pararam.


Depois da implosão do império soviético, a “Europa” entrou em "bulimia tratadística" (expressão de José Medeiros Ferreira): Maastricht (1992), Amesterdão (1997), Nice (2001), Constitucional (2005), Lisboa (2007), o tratado do célebre "porreiro, pá". Tratado nada porreiro, por sinal: com ele a "europa dos cidadãos" perdeu para a "europa das chancelarias", perante a satisfação bacoca da dupla Sócrates / Barroso.

Tanto tratado em tão pouco tempo significa que a “Europa” está sem pensamento de longo prazo, dirigida por uma eurocracia cara, irresponsável e hostil ao eleitorado.

Por sua vez, em Portugal, mudam os regimes mas não muda o espírito predador e corrupto das nossas elites: africanista antes de 1974 nos monopólios coloniais, europeísta agora a “executar” (isto é, “matar”) fundos comunitários.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Conferência "Para que serve um sítio património da humanidade?" — síntese final

Fotografia Olho de Gato



«Um sítio classificado serve para muito pouco.»

Dalila Rodrigues


«Temos que ir fazendo caminho à medida que vamos reflectindo na nossa eventual candidatura a Património da Humanidade.»*

António Almeida Henriques

* "Letra de médico" nos apontamentos obrigam a este "precautério": garanto a reprodução a 100% do pensamento do presidente da câmara de Viseu mas não o "ipsis verbis".

SMS #10 — o clepto-keynesianismo*

* Esta SMS foi escrita para o Correio Beirão, simpático jornal das "Terras do Demo" que agora suspendeu a sua publicação



Jornal do Centro, 28 de Março de 2014

Carlos Alberto Oliveira, o director da Escola Secundária Viriato, a terceira secundária de Viseu, disse a um jornal cheio de razão: 

“com o que foi gasto nas escolas Alves Martins e Emídio Navarro talvez pudessem ter sido feitas três obras, em vez de apenas duas.”


De facto, a “festa da arquitectura” da Parque Escolar foi mesmo à tripa-forra.

Se criou uma nova corrente económica, o clepto-keynesianismo, é coisa que o futuro dirá.

Isabel Moreira, de longe a mais eficaz deputada da oposição




Não foi Seguro, não foi Jerónimo, não foi a bicefalia bloquista, que infligiram as duas maiores derrotas políticas da maioria PSD/CDS que nos governa desde o Verão de 2011.

As duas maiores derrotas da direita devem-se à iniciativa política de Isabel Moreira:

1. A Isabel Moreira se deve não estarem completamente perdidos os subsídios de férias e de Natal.

Em 2011, a "abstenção violenta" de António José Seguro e o imobilismo de Jerónimo de Sousa não se mexeram para suscitar a constitucionalidade daqueles cortes. 

Foi ela que mobilizou os deputados socráticos e bloquistas para submeterem o caso ao Tribunal Constitucional.

2. A Isabel Moreira se deve a aprovação inicial da co-adopção no parlamento.

Esse movimento, que só a ela se deve, obrigou Pedro Passos Coelho a tirar a máscara tolerante e vir mostrar que, também ele, é reaccionário em matéria de costumes. 

Para além da triste figurinha dos deputados cujas convicções são mais moles que gelatina.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Ser “ex”

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 16 de Abril de 2010


Fotografia do Jornal de Negócios
1. A EDP paga bem. O senhor António Mexia leva para casa 3,1 milhões euros. A senhora Ana Maria Fernandes, da EDP-Renováveis, leva 2,4 milhões.

O caso de Ana Maria Fernandes foi pouco falado por cá mas isso não admira já que a empresa que ela dirige tem sede em Madrid. Foi feito à EDP-Renováveis o mesmo que o senhor Correia de Campos fez às grávidas de Elvas. A empresa foi espanholizada e, em consequência, em vez de parir impostos, dá à luz “impuestos”.

Já os 3,1 milhões do senhor Mexia causaram comoção cá na pátria. Com gigawatts de razão, António José Seguro considerou-os “obscenos” e “uma imoralidade".

O senhor Mexia tem a melhor profissão de Portugal – ele é “ex-ministro”. Ser “ex-ministro” é meio caminho andado para se obter um lugar bem pago nos “negócios” porque os “negócios” em Portugal carecem duma ecologia muito especial. Os nossos grandes grupos económicos vivem aconichados no estado, parasitam-no, prosperam a partir dele sem correrem riscos. E tudo é feito entre “ex-ministros” e futuros “ex-ministros”.

Deste tráfico pingam chorudos prémios. “Obscenos” como diz António José Seguro. Nada nestes prémios tem a ver com competência gestional. O talento desta gente é só um: ter uma “rede de contactos”.

Estas “redes de contactos” tanto engendram submarinos, como aumentos da electricidade, como contentores, como obras em liceus por ajuste directo. Com a divina bênção do Espírito Santo que, em Portugal, como se sabe, está em todo o lado.

2. O Decreto Legislativo Regional nº 14/2010/A, de 9 de Abril, isenta os veículos açorianos da obrigatoriedade de usarem o dispositivo electrónico de matrícula. Os Açores disseram não aos “chispes” das matrículas.

Falta agora o resto do país fazer o mesmo.

Portas pintadas (#5)


terça-feira, 15 de abril de 2014

Poeminha de insatisfação absoluta

Fotografia de Emile Savitry


O que me dói
É que quando está tudo acabado
Pronto pronto
Não há nada acabado
Nem pronto pronto
Pintou-me a casa toda
Está tudo limpado
O armário fechado
A roupa arrumada
Tudo belo, perfeito.
E no mesmo instante
Em que aperfeiçoamos a perfeição
Uma lasca diminuta, ténue, microscópica,
Não sei onde,
Está começando
Na pintura da casa
E as traças, não sei onde,
Estão batendo asas
E a poeira, em geral, está caindo invisível,
E a ferrugem está comendo não sei quê
E não há jeito de parar.
Millôr Fernandes

segunda-feira, 14 de abril de 2014

HORA SOLAR APARENTE — exposição de relógios de sol construídos por Pedro Almeida Gomes


A partir de hoje, 14 de Abril (18H00) e até 10 de Maio

Realização da agência de Viseu do INATEL nas suas novas instalações na Av. Calouste Gulbenkian


Ar

Fotografia de Nobuyoshi Aracki


É da liberdade destes ventos
que me faço.

Pássaro-meu corpo
(máquina de viver),
bebe o mel feroz do ar
nunca o sossego.
Olga Savary

Desfile Afonsino (#1)

Viseu, 21 de Setembro de 2009
Fotografia Olho de Gato

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Vistos dourados *

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Portugal, depois de terminado o comércio de escravos no Brasil em 1891, virou-se para o proveitoso comércio com países em guerra. Comércio legal ou não legal.

Foi assim na guerra anglo-boer no virar do século XIX para o século XX, foi assim com os abastecimentos aos nacionalistas durante a guerra civil espanhola nos anos de 1930, foi assim na década a seguir com a venda de volfrâmio à Alemanha nazi. Aqui nas beiras fez-se bom dinheiro com esse volfrâmio.

Mais tarde, já durante a guerra colonial, Portugal soube tirar partido da situação marginal dos estados racistas da Rodésia branca e da África do Sul.

A nossa diplomacia é boa a tratar “da cobrança de facilidades” em “situações de marginalidade internacional”. 


Toda esta informação vem descrita no último livro de José Medeiros Ferreira: “Não há mapa cor-de-rosa, a história (mal)dita da integração europeia”, cuja leitura vale a pena, muito mais que perder tempo com a retórica indigente destas eleições europeias.


Imagem daqui
Medeiros Ferreira, com o seu sentido de humor inigualável, chamou a esta nossa especialidade: “drenagem atípica de rendas exógenas”. Nisto somos bons e há muito tempo. Esta experiência acumulada tem agora um novo campo de aplicação: a venda de vistos dourados a milionários chineses.

E as coisas podem não ficar por aqui: a tríade que manda — formada pela advocacia de negócios, pela banca e pela alta burocracia partidária — ainda se vira para o mercado dos milionários russos e faz um rombo na mais proveitosa “indústria” do Chipre.

2. Os 28 mil euros da reintegração na reforma do ex-vereador Cunha Lemos foram levados à sessão da câmara de Viseu mas não para serem votados. 
Foi só “para conhecimento”. Foi só um momento filosófico.

O assunto é trazido aqui também “para conhecimento” dos leitores. No mês em que pagam a primeira prestação do IMI.

SMS #9 *

* Publicado hoje no Correio Beirão



Imagens e detalhes sobre a bancarrota de 1892 aqui
José Dias Ferreira foi o primeiro-ministro da nossa bancarrota de 1892. A sua bisneta Manuela Ferreira Leite foi ministra das finanças 110 anos depois, em 2002.

Por sua vez, Joaquim Pedro Oliveira Martins foi o ministro da fazenda do “não pagamos” em 1892. O seu sobrinho-bisneto Guilherme d'Oliveira Martins foi ministro das finanças 109 anos depois, em 2001.

Passam os anos, repetem-se os apelidos. E as bancarrotas.



quinta-feira, 10 de abril de 2014

Primeiras primárias feitas em Portugal — partido LIVRE

No verão de 2011, Seguro e Assis andaram a prometer primárias aos militantes socialistas. Foi só conversa.

O pioneirismo fica para o partido LIVRE e para Rui Tavares.



Eis a lista do LIVRE às Europeias de 2014 *:

1º Rui Tavares

2º Luísa Álvares

3º Carlos Teixeira

4º Ana Matos Pires

5º Paulo Monteiro

6º Palmira Silva

7º Pedro Vieira

8º Safaa Dib

9º Ricardo Alves

10º Mariana Topa

* Mais detalhes aqui

Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida

Que sempre um homem sonha o mundo pula e avança...

Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada

Fotografia de Marc Riboud Wuhan


I
Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos,
retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.


II
Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas.



III
Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.

Baratas passeiam nas formas de bolo...

A casa tem um dono em letras.

Agora ele está pensando —

no silêncio líquido
com que as águas escurecem as pedras...

Um tordo avisou que é março.



IV
Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao
fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!



V
Escrever nem uma coisa nem outra —
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar —
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.



VI
No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.



VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.



VIII
Nas Metamorfoses, em 240 fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados
em pedras vegetais bichos coisas
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larval,
pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural —
Que os poetas aprenderiam
— desde que voltassem às crianças que foram
As rãs que foram
As pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar
a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.



IX
Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte
Que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Uma descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.
Manoel de Barros

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Honrar o voto

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 9 de Abril de 2010


1. O poder local é o sucesso democrático da 3ª república. Basta ver o que, em três décadas, as autarquias entregaram aos cidadãos em qualidade de vida gastando somente 10% das despesas gerais do estado.

E convém não esquecer: as eleições autárquicas são a festa e a escola da democracia ao envolverem centenas de milhares de candidatos.

As últimas autárquicas foram em 11 de Outubro. Passou meio ano. Infelizmente, nestes seis meses, o PS no concelho de Viseu tem-se portado muito mal com o seu eleitorado.

A “oposição” socialista que ficou na câmara não disse nada, não fez nada, não foi oposição – aquilo para que, afinal, foi eleita.

No último mandato, o mandato em que o escrutínio é mais necessário, Fernando Ruas tem estado completamente à-vontade.

Neste meio ano, a “oposição” socialista só tomou uma única posição audível: achou bem que o director do Museu Grão Vasco se tivesse ido embora quatro meses depois de ter tomado posse. Razão para este “achar bem”: porque “as pessoas têm direito às suas ambições”. Dá para ver o que vai naquelas cabeças.

Registe-se que o primeiro, o terceiro e o quarto da lista socialista à câmara de Viseu desistiram. 

Pensaram em tudo, nas “ambições” todas, menos nas pessoas que votaram neles.
Depois, também o segundo e o sexto viriam a desertar
(imagem Viseu, Senhora da Beira)

2. O governador civil Miguel Ginestal, nestes meses, tem andado pelo distrito fora a distribuir panegíricos de município socialista em município socialista. Estando quase a esgotar a volta pelas câmaras socialistas, tem agora duas hipóteses para o futuro:

(i) ou continuar a espalhar trivialidades políticas, agora também pelos concelhos sociais-democratas do distrito;

(ii) ou regressar à câmara de Viseu, honrar o voto dos viseenses que nele votaram e trabalhar para merecer ser o candidato do PS em 2013.

terça-feira, 8 de abril de 2014

O Velho da Foz filma o Velho do Restelo

Detalhes aqui

A lua e o teixo

Fotografia de Yoshihiro Tatsuki


Esta é a luz do espírito, fria e planetária.
As árvores do espírito são negras. A luz é azul.
As ervas descarregam o seu pesar a meus pés como se eu fosse Deus,
picando-me os tornozelos e sussurrando a sua humildade.
Destiladas e fumegantes neblinas povoam este lugar
que uma fila de lápides separa da minha casa.
Só não vejo para onde ir.

A lua não é uma saída. É um rosto de pleno direito,
branco como o nó dos nossos dedos e terrivelmente perturbado.
Arrasta o mar atrás de si como um negro crime; está mudo
com os lábios em O devido a um total desespero. Vivo aqui.
Por duas vezes, ao domingo, os sinos perturbam o céu:
oito línguas enormes confirmando a Ressurreição.
Por fim, fazem soar os seus nomes solenemente.

O teixo aponta para o alto. Tem uma forma gótica.
Os olhos seguem-no e encontram a lua.
A lua é minha mãe. Não é tão doce como Maria.
As suas vestes azuis soltam pequenos morcegos e mochos.
Como gostaria de acreditar na ternura...
O rosto da efígie, suavizado pelas velas,
é, em particular, para mim que desvia os olhos ternos.

Caí de muito longe. As nuvens florescem,
azuis e místicas sobre o rosto das estrelas.
No interior da igreja, os santos serão todos azuis,
pairando com os seus pés frágeis sobre os bancos frios,
as mãos e os rostos rígidos de santidade.
A lua nada disto vê. É calva e selvagem.
E a mensagem do teixo é negra: negra e silenciosa.
Sylvia Plath
(trad. Maria de Lourdes Guimarães)

)

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Ainda não

Fotografia de Bert Hardy


Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
.
ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça
.
ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração
António José Forte

Na rua Nunes de Carvalho — Viseu

Fotografia Olho de Gato

sábado, 5 de abril de 2014

Hora grave

William Adolphe Bouguereau - Nature's Fan, Girl with a Child
Gif de Stefano Tagliafierro



Quem chora agora em algum lugar do mundo,
sem razão chora no mundo,
chora por mim.

Quem ri agora em algum lugar da noite,
sem razão se ri na noite,
ri-se de mim.

Quem anda agora em algum lugar do mundo,
sem razão anda no mundo,
vem para mim.

Quem morre agora em algum lugar do mundo,
sem razão morre no mundo,
olha para mim.
Ernste Stunde


sexta-feira, 4 de abril de 2014

Não foi o CDS que foi armadilhado, António Costa é que foi




 O governo, esse, só pode estar satisfeito com aquele secretário de estado boca larga que veio falar sobre cortes de pensões e ordenados nesta altura.

Havia o risco para o governo de António José Seguro não conseguir chegar aos 10 deputados europeus. 

Se a distribuição de deputados europeus ficasse 9-9, entre o PS e a direita, Seguro era varrido. Agora, depois desta conversa sobre cortes, esse risco desapareceu. Seguro está seguro. 

Em consequência, a direita tem agora hipóteses nas legislativas de 2015 e Costa dificilmente chegará a primeiro-ministro. 

O melhor para António Costa, seja qual for o resultado nas legislativas do outono de 2015, é ele anunciar naquela noite eleitoral que é candidato às presidenciais.