sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Slavoj Žižek*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

1. O filósofo esloveno Slavoj Žižek é uma celebridade mundial. Ele escreve muitos livros, muitos artigos, entra em filmes, gosta de contar histórias divertidas e adora chocar. Escreveu uma vez este arrepio: “Hitler não foi radical suficientemente.”

Encontra-se com facilidade no YouTube a sua intervenção, em Outubro de 2011, a dar apoio ao Occupy Wall Street. 

Imagem daqui
É um vídeo mais interessante na forma que nas ideias. Estas podem ser aprofundadas no livro “O Ano Em Que Sonhámos Perigosamente”. Esse onírico ano foi, claro, o de 2011, ano da primavera árabe e dos Occupy.

No vídeo, Slavoj lê uma frase, a multidão repete-a a seguir em coro; lê outra frase e o coro repete-a; nova frase, nova repetição; por aí fora... Aquele coro é para substituir a amplificação sonora que está proibida pela polícia. Mesmo sabendo-se isso, aquilo resulta numa missa estranha, com os fiéis a repetirem as palavras do mestre.

Slavoj Žižek fala de desenhos animados, gesticula, coça-se, anuncia o divórcio entre a democracia e o capitalismo, lembra que os comunistas com poder, como é o caso dos chineses, são afinal os capitalistas mais eficazes e mais duros. Nós temos exemplos por cá dessa eficácia: os prodigiosos Pina Moura e Mário "jamé" Lino.

No fim, o intelectual esloveno deixa os Occupy pendurados. Sem ideias. No livro, também zero ideias para o futuro. A “solução” alternativa que ele avança para “o sistema representativo multipartidário” é a “ditadura do proletariado”. Uma pescadinha-de-rabo-na-boca autoritária que a primeira coisa que faria era limpar as praças dos Occupy.

2. Eis as três condições para a felicidade, segundo Slavoj Žižek: (i) terem-se bens materiais básicos disponíveis mas não em excesso; (ii) ter-se algo em que sonhar não completamente inacessível; (iii) ter alguém a quem imputar tudo o que corre mal.

Repare-se: temos todas as condições para sermos felizes. Até temos o “alguém” culpado de todos os nossos males. Chama-se Angela Merkel.




SMS #4

* Publicada hoje no Correio Beirão

Multiplicados pelo território, dezanove cartazes diferentes, vinte e um simpáticos modelos, todos caucasianos, todos vestidos de branco, todos com letras a branco que dizem: “Viseu é de primeira água”.

Esta alva campanha publicitária, que foi exsudada pela câmara de Viseu, serve exactamente para quê?

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Uma metáfora sobre a política...

forgifs.com

After the storm

Fotografia de Ray K. Metzker


We used to call what ruined us the storm,
Though that suggests we could have seen it break
And barred the door. But it was multiform:
It got inside, it made a teacup shake,
It sought us out where we lay half awake.
Now it was here, what would it make us do?
When we were thrown together, then we knew.

It sometimes hit us even while we fought.
One sideways look, and soon the skin and hair
Were flying in a different sense. I thought
The consequences too extreme to bear:
This was the lion's den, the dragon's lair,
The storm. You used to say you felt the same,
When you could speak again, and spoke my name.

When the storm raged, I tried to hide in you.
Your only refuge was to cling to me.
The way we rode it out was why it grew
In fury, until you began to see
Your only chance to live was liberty.
So now you have the life you should have had,
And I am glad. No, I am very glad.

Visiting you, I see that it was worth
My loss. A family picnic on the beach.
Your beauty, still like nothing else on earth,
Here shows its purpose. No regrets. Yet each
Of us is well aware that your sweet speech
Is only tender, my glance merely warm.
This is just love. It's nothing like the storm.
Clive James


I was born when she kissed me. I died when she left me. I lived a few weeks while she loved me.


IN A LONELY PLACE, Nicholas Ray, 1950

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Bicicleta

Fotografia achada aqui


Que surpresa a manhã me reserva,
a alegre scienza de tuas pernas.

És uma imagem tão concreta:
mulher passando de bicicleta.

Circulas feita jornal silencioso,
vens de um mundo novo.

Nervo exposto do movimento,
tempestade amorosa do tempo.

Texturas de ritmo e luz,
sensualidade, trobar clus.

Passas por mim e penso:
É por mim que ela passa.
Augusto Massi

Nariz vermelho*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 26 de Fevereiro de 2010

1. O governo anuncia nas Grandes Opções do Plano um organismo centralizado no Ministério das Finanças para “desenvolver, consolidar e aperfeiçoar” as PPP.

Já acrescentei aqui uma vez dois pês a estas parcerias. Fica um nome muito mais apropriado se lhes chamarmos PPPPP - Parcerias Prejuízos Públicos Proveitos Privados.

Na negociação de uma PPP, de um lado está o interesse público e do outro o interesse privado. Ora, há gente que negoceia do lado público e depois passa, alegremente, para o outro lado. Aconteceu no passado e vai acontecer no futuro. Por sua vez, quem redige estes contratos são os grandes escritórios de advogados da capital cujos sócios rodopiam da política para os negócios e dos negócios para a política, num carrossel despudorado.

As nossas elites não correm riscos nem produzem riqueza. Vivem anichadas no estado e estão a esgotá-lo como se não houvesse amanhã. Preparam-se para hipotecar o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos. Até 2017, estão previstos mais 51 mil milhões de euros em PPPs.

2. Em 9 de Fevereiro de 2009, pus a José Sócrates – olhos nos olhos - o problema das portagens na A24 e na A25 e propus-lhe a criação do “Selo das SCUTs” em vez do intrusivo chip das matrículas obrigatório.

Infelizmente, a seguir, em nenhuma das três eleições de 2009 se falou mais no assunto. Em Viseu, toda a gente assobiou para o ar.
Agora, como explicou a jornalista Liliana Garcia na última edição do Sol, vêm aí as portagens.


Vamos ver gente eleita por nós a vir falar-nos, com voz delicodoce, na “generosidade” dos 20 quilómetros de borla que vão ser “dados” aos residentes.

Antes de virem dizer isso, senhores políticos, metam um nariz vermelho muito grande no meio da cara.

E devolvam-nos o IP5.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Memória

Fotografia de Hiroshi Hamaya


A voz rouca da noite exprime a nossa
memória poderia dizer a
nossa história mas evito

o que possa
anular o sentido
do que procuro manter vivo
Gastão Cruz


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Nós somos loucos, não somos?

Fotografia de Clint Woodside 



Nós somos loucos, não somos?
Desta louca poesia,
Desta riqueza dos pobres
Que se chama fantasia!

Ergamos pois nossa tenda
E nosso lar de pobreza
No mais ermo desses montes,
No fundo da natureza.

Se o frio apertar connosco,
Pois não temos mais calores,
Aqueceremos os membros
Na fogueira dos amores!

Se for grande a nossa sede,
Tão longe da fonte fria,
Contentar-nos-emos, filha,
Com as águas da poesia!

Assim à nossa pobreza
Daremos a Imensidade...
Que com isto se contente
Nossa pouca seriedade.

E, pois somos loucos, vamos
Atrás dos loucos mistérios...
Deixemos ricas cidades
Ao sério dos homens sérios!
Antero de Quental

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Resumo do congresso do PSD: «Quero o Relvas de volta, prontos!»


Quando ao adormecer

Fotografia de Paul McDonough

Quando ao adormecer
partimos à procura
da face dos antigos
amores que sufocados
renascem provisórios,
como se vai à pesca
levando numa caixa a isca torturada
ou na boca a faca se transporta
antes de mergulhar à procura das ostras,
entre as pálpebras sustemos,
sem sombra de recuo
a fé de destrinçar por entre moribundos
os limos dos desejos, a folga da tensão,
as faces dos amados.
É sempre em quartos baixos
de vidros sobre as portas
ao fundo de corredores
que se inclina a face por entre os nossos braços
e quando os nomes saltam da boca em alvoroço,
os ternos nomes libertos dos esquifes
os lázaros no fim sempre ressuscitados
a cabeça ao fazer o gesto do encontro
acorda o corpo vivo que se sente enganado
e vai para a cozinha remoendo ameaças
deitar da cafeteira o jorro reluzente.
Fátima Maldonado


Queridas cegonhas, façam os vossos ninhos também nos pórticos Big-Brother!

Daqui

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Sem coletes à prova de bala hoje no Lugar do Capitão


"And Now For Something Completely Different" (#106)


Carta entreaberta do corrupto nacional



Um texto de Mia Couto dito por Luís Fernandes

Espectáculo "Muito Riso, Muito Siso"
Lugar do Capitão — Viseu, 28 de Janeiro de 2012

Soneto dialético

Fotografia de Enric Vives-Rubio

A síntese do avanço consciente
é aquele velho método sagaz
que preconiza dar um passo atrás
a fim de dar dois passos para a frente.

A tese se apresenta incoerente,
mas a contradição já se desfaz
em face da estratégia, que é de paz,
embora lembre a marcha combatente.

Antítese do avanço é o retrocesso,
ao obscurantismo associado,
e nesse ponto exacto me interesso.

Questão de ordem faço deste dado:
Tão logo fiquei cego, o passo meço;
Tropeço, mas não caio: adianto o lado.
Glauco Mattoso

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Costumes

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



A cidadania pós-materialista liga menos às querelas esquerda/direita e às questões económicas e mais às questões de identidade, dos estilos de vida e da liberdade enquanto ferramenta da felicidade individual.

Temas como o aborto, o casamento gay, a liberdade na net, a imigração, suscitam a atenção das pessoas e determinam o seu comportamento político. A decisão de voto já não é só motivada por questões de "pão com manteiga" e isso é especialmente visível nos sectores mais jovens, mais urbanos, mais instruídos e mais confortáveis financeiramente, sectores que apreciam pouco estruturas hierárquicas como partidos, igrejas ou sindicatos.

Quando, na pré-campanha para as legislativas de 2009, Manuela Ferreira Leite afirmou que “o casamento é para procriar” perdeu imediatamente as eleições. Sócrates nunca mais largou o assunto e massacrou-a.

Depois da bancarrota de 2011 e da vinda da Troika, perante a emergência financeira e económica, os tópicos pós-materialistas quase desapareceram do espaço público. Mas eles não perderam importância. Isso aconteceu por causa da crise mas, acima de tudo, porque Pedro Passos Coelho (PPC) não procurou reverter as políticas socialistas na área dos costumes. 


O primeiro-ministro não fez a asneira de Mariano Rajoy e não esboçou nenhum gesto para restringir o aborto e o casamento gay conseguidos durante o socratismo.

Isto aconteceu por duas razões: 
(i) PPC é o primeiro líder da direita portuguesa que é liberal nos costumes; 
(ii) para quê abrir conflitos pós-materialistas quando a aplicação do memorando de entendimento é uma mais que suficiente fonte de sarilhos para o governo?

Ora, esta estratégia prudente de PPC acaba de ser atropelada pela proposta de referendo à co-adopção aprovada no parlamento e agora em tramitação no Tribunal Constitucional.**

A direita pode ganhar as legislativas de 2015. Se se meter num atalho tradicionalista, como fez a direita espanhola, perde-as de certeza. Até contra António José Seguro.

** Entretanto, já depois de escrito este Olho de Gato, o Tribunal Constitucional fez engasgar este referendo, dando hipótese ao PSD de fazer esquecer este erro estratégico.

SMS #3*

* Publicada hoje no Correio Beirão

Em 2013, a taxa para a RTP, que pagamos escondida na conta da luz, custou-nos 27 euros. Este ano vai custar-nos €31,80.

O ministro Poiares Maduro foi-nos ao bolso. Mas temos que ter paciência.

É que o senhor Alberto da Ponte, presidente da RTP, explicou-nos que, naquela casa que ele dirige, "há gente que não faz puto". 

Não faz puto mas tem que se lhe pagar.

O remorso

Paul Delaroche - Jeune Martyre
(Gif de Stefano Tagliafierro)

Cometi o pior desses pecados
Que podem cometer-se. Não fui sendo
Feliz. Que os glaciares do esquecimento
Me arrastem e me percam, despiedados.
Plos meus pais fui gerado para o jogo
Arriscado e tão belo que é a vida,
Para a terra e a água, o ar, o fogo.
Defraudei-os. Não fui feliz. Cumprida
Não foi sua vontade. A minha mente
Aplicou-se às simétricas porfias
Da arte, que entretece ninharias.
Valentia eu herdei. Não fui valente.
Não me abandona. Está sempre ao meu lado
A sombra de ter sido um desgraçado.
Jorge Luis Borges

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Máfias partidárias

As máfias partidárias são, como diz Paulo Pedroso neste post do seu blogue Banco Corrido: "grupos de dirigentes não derrotáveis no plano interno e não credíveis no plano externo."

Paulo Pedroso não usa o termo siciliano mas uso-o eu. É um termo forte, reconheço-o, mas de que outra forma se pode descrever o pagamento a granel de quotas? Ou iPods por angariação de militantes? Ou...

Usei o termo máfia com as letras todas numa intervenção para os militantes concelhios do PS-Viseu há uns meses. Na sala, a ouvir, o chefe de gabinete do líder socialista.

Os cidadãos pagam o funcionamento dos partidos, de todos os partidos, através dos seus impostos mas não têm poder nenhum sobre eles. E deviam ter.



Um dos pontos de interrogação do nosso momento político tem a ver com a escolha de António José Seguro para cabeça de lista à eleições europeias. 

Ora, Seguro não devia ter esse poder.

O cabeça de lista às europeias devia ser escolhido por voto secreto pelos militantes e simpatizantes socialistas em primárias abertas.

Violência urbana #14

Fotografia Olho de Gato

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Lista de preferências

Fotografia de Christian Coigny


Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.

Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexequíveis.

Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.

Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.

Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.

Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.

Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.

Cores, o rubro.
Meses, outubro.

Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.

Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.
Bertold Brecht

Um aviso*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos em 18 de Ferereiro de 2010


1. Primeiro ano do QREN: 148 milhões de euros de fundos comunitários aplicados em Lisboa vão ser contabilizados como se tivessem sido investidos no Norte, Centro e Alentejo.

Este é o retrato do país. Nu e cru.

2. O secretário de estado Castilho dos Santos chamou ao discurso sindical “passadista, retrógrado e conservador”. Vê-se que o secretário de estado prefere sindicatos fracos a sindicatos fortes.

Ora isso é um erro. Por duas razões:

(i) O livro “A Consciência de um Liberal”, do prémio Nobel da economia Paul Krugman, tem dados muito sólidos que ligam os 40 anos de ouro de crescimento americano à existência de um sindicalismo forte e prestigiado. Foi só com a hostilização reaganista aos sindicatos, a partir de 1981, que as coisas começaram a piorar.

(ii) Há uma outra razão ainda mais forte: o governo português vai ter que tomar medidas muito duras. A situação social vai-se agravar e a “rua” vai falar cada vez mais alto.

Ora, quem pode tentar moderar e enquadrar o descontentamento das pessoas? Os sindicatos, claro.

3. A última campanha publicitária do Mini Preço à pergunta «tem saudades do escudo?» responde «não!»

Já na Alemanha há muita nostalgia do “velho” marco. Os alemães estão fartos de serem eles a financiar os países do sul, corruptos e esbanjadores de fundos comunitários.

A Grécia, que “vale” 2,5% do PIB da eurolândia, não representa nenhum risco sistémico para o euro. Então porque não veio ninguém de peso acalmar os mercados?

Barroso e Almunia, evidentemente, não contam. Já Angela Merkel - que é quem manda porque é quem paga - ao ficar calada tanto tempo enquanto o fogo da dívida grega se propagava a Espanha e a Portugal...
... quis deixar um aviso.

Desta vez foi só um aviso.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Da preguiça



Fotografia de Wingate Pain



Suave Preguiça, que do mau-querer
E de tolices mil ao abrigo nos pões…
Por causa tua, quantas más acções
Deixei de cometer!

Mario Quintana




segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Há em Portugal esquerda cosmopolita, esquerda não paroquial?



Esta excelente fotografia de Miguel A. Lopes, da Agência Lusa, publicada hoje no I., mostra o bloco em liturgia.

Fotografia de Miguel A. Lopes

O bloco "quer" dois deputados europeus mas vai ter só um: Marisa Matias.

Enquanto o PS trata da mercearia dos lugares, falta ver agora como a esquerda que sabe que problemas supranacionais precisam de respostas supranacionais, falta ver como a esquerda não paroquial se vai mexer para tentar eleger Rui Tavares.

Cantares do sem nome e de partidas

Fotografia de Inez van Lamsweerde e Vinoodh Matadin

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.
Hilda Hilst


domingo, 16 de fevereiro de 2014

A terra é redonda

Fotografia de Ernst Haas

Se corro corro
o risco de
chegar

ao mesmo lugar
Eunice Arruda


Ó Hélder Amaral, as voltas e revoltas que a política dá ...


"os simpatizantes do PSD preferem Paulo Rangel com 56,7% das preferências, enquanto 40,3% da base eleitoral do CDS quer o nome do anterior líder dos municípios Fernando Ruas"

Por mais que tente, Seguro não vai conseguir escolher um pior cabeça de lista às europeias do que escolheu Sócrates em 2009

Os vips socialistas estão muito preocupados com o momentoso problema dos "timings" de apresentação do cabeça de lista às europeias.

Imagem daqui
Recorde-se: Sócrates anunciou o cabeça de lista às europeias em 28 de Fevereiro de 2009 e aquelas eleições foram 98 dias depois, em 7 de Junho.

Portanto, António José Seguro ainda está, como se diz em politiquês, 
no mesmo "timing": faltam exactamente os mesmos 98 dias para as europeias deste ano que são em 25 de Maio.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Estudos para uma bailadora andaluza



Dir-se-ia, quando aparece
dançando por siguiriyas,
que com a imagem do fogo
inteira se identifica.

Todos os gestos do fogo
que então possui dir-se-ia:
gestos das folhas do fogo,
de seu cabelo, sua língua;
gestos do corpo do fogo,
de sua carne em agonia,
carne de fogo, só nervos,
carne toda em carne viva.

Então, o caráter do fogo
nela também se adivinha:
mesmo gosto dos extremos,
de natureza faminta,
gosto de chegar ao fim
do que dele se aproxima,
gosto de chegar-se ao fim,
de atingir a própria cinza.

Imagem achada aqui
Porém a imagem do fogo
é num ponto desmentida:
que o fogo não é capaz
como ela é, nas siguiriyas,
de arrancar-se de si mesmo
numa primeira faísca,
nessa que, quando ela quer,
vem e acende-a fibra a fibra,
que somente ela é capaz
de acender-se estando fria,
de incendiar-se com nada,
de incendiar-se sozinha.

Subida ao dorso da dança
(vai carregada ou a carrega?)
é impossível se dizer
se é a cavaleira ou a égua.

Ela tem na sua dança
toda a energia retesa
e todo o nervo de quando
algum cavalo se encrespa.

Isto é: tanto a tensão
de quem vai montado em sela,
de quem monta um animal
e só a custo o debela,
como a tensão do animal
dominado sob a rédea,
que ressente ser mandado
e obedecendo protesta.

Então, como declarar
se ela é égua ou cavaleira:
há uma tal conformidade
entre o que é animal e é ela,
entre a parte que domina
e a parte que se rebela,
entre o que nela cavalga
e o que é cavalgado nela,
que o melhor será dizer
de ambas, cavaleira e égua,
que são de uma mesma coisa
e que um só nervo as enerva,
e que é impossível traçar
nenhuma linha fronteira
entre ela e a montaria:
ela é a égua e a cavaleira.

Quando está taconeando
a cabeça, atenta, inclina,
como se buscasse ouvir
alguma voz indistinta.

Há nessa atenção curvada
muito de telegrafista,
atento para não perder
a mensagem transmitida.

Mas o que faz duvidar
possa ser telegrafia
aquelas respostas que
suas pernas pronunciam
é que a mensagem de quem
lá do outro lado da linha
ela responde tão séria
nos passa despercebida.

Mas depois já não há dúvida:
é mesmo telegrafia:
mesmo que não se perceba
a mensagem recebida,
se vem de um ponto no fundo
do tablado ou de sua vida,
se a linguagem do diálogo
é em código ou ostensiva,
já não cabe duvidar:
deve ser telegrafia:
basta escutar a dicção
tão morse e tão desflorida,
linear, numa só corda,
em ponto e traço, concisa,
a dicção em preto e branco

Ela não pisa na terra
como quem a propicia
para que lhe seja leve
quando se enterre, num dia.

Ela a trata com a dura
e muscular energia
do camponês que cavando
sabe que a terra amacia.

Do camponês de quem tem
sotaque andaluz caipira
e o tornozelo robusto
que mais se planta que pisa.

Assim, em vez dessa ave
assexuada e mofina,
coisa a que parece sempre
aspirar a bailarina,
esta se quer uma árvore
firme na terra, nativa,
que não quer negar a terra
nem, como ave, fugi-la.

Árvore que estima a terra
de que se sabe família
e por isso trata a terra
com tanta dureza íntima.

Mais: que ao se saber da terra
não só na terra se afinca
pelos troncos dessas pernas
fortes, terrenas, maciças,
mas se orgulha de ser terra
e dela se reafirma,
batendo-a enquanto dança,
para vencer quem duvida.

Sua dança sempre acaba
igual como começa,
tal esses livros de iguais
coberta e contra-coberta:
com a mesma posição
como que talhada em pedra:
um momento está estátua,
desafiante, à espera.

Mas se essas duas estátuas
mesma atitude observam,
aquilo que desafiam
parece coisas diversas.

A primeira das estátuas
que ela é, quando começa,
parece desafiar
alguma presença interna
que no fundo dela própria,
fluindo, informe e sem regra,
por sua vez a desafia
a ver quem é que a modela.

Enquanto a estátua final,
por igual que ela pareça,
que ela é, quando um estilo
já impôs à íntima presa,
parece mais desafio
a quem está na assistência,
como para indagar quem
a mesma façanha tenta.

O livro de sua dança
capas iguais o encerram:
com a figura desafiante
de suas estátuas acesas.

Na sua dança se assiste
como ao processo da espiga:
verde, envolvida de palha;
madura, quase despida.

Parece que sua dança
ao ser dançada, à medida
que avança, a vai despojando
da folhagem que a vestia.

Não só da vegetação
de que ela dança vestida
(saias folhudas e crespas
do que no Brasil é chita)
mas também dessa outra flora
a que seus braços dão vida,
densa floresta de gestos
a que dão vida a agonia.

Na verdade, embora tudo
aquilo que ela leva em cima,
embora, de fato, sempre,
continue nela a vesti-la,
parece que vai perdendo
a opacidade que tinha
e, como a palha que seca,
vai aos poucos entreabrindo-a.

Ou então é que essa folhagem
vai ficando impercebida:
porque terminada a dança
embora a roupa persista,
a imagem que a memória
conservará em sua vista
é a espiga, nua e espigada,
rompente e esbelta, em espiga.
João Cabral de Melo Neto



LEMBREI-ME AGORA — é hoje na Galeria Saguão *

Galeria Saguão — Rua Grão Vasco, Viseu 
(a 50 metros da estátua de D. Duarte)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

"And Now For Something Completely Different" (#106)

Achado aqui

Teias *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Fotografia Olho de Gato
1. Qualquer viseense, mesmo que muito distraído, sabe que o Auditório Mirita Casimiro é uma sala sem vida que está, há anos, a coleccionar teias de aranha na Rua Alexandre Lobo.

Sobre a “teia" que mantém aquelas teias não se tem falado muito. Mas convém lembrar: não há ali investido nem um cêntimo privado, tudo o que ali está é dinheiro público. A ganhar teias de aranha.

No dia 1 de Fevereiro, numa assembleia geral eleitoral daquela casa, tudo foi feito para que houvesse apenas uma lista a votos. Havia outra lista mas foi recusada. Ali não se correm riscos. Uma lista única ganha sempre.

Importa procurar as causas mais fundas que impedem o funcionamento do Mirita Casimiro. Este auditório é de uma federação de associações culturais de todo o distrito de Viseu. Que não funciona. Mas, mesmo que funcionasse, haveria sempre um problema bicudo: temos uma entidade distrital que tem como único património uma sala de espectáculos no centro de Viseu. A sala não tem rodas. Não é fácil criar um projecto conciliador destas duas “geografias”.

Para aumentar as dificuldades, a direcção daquela casa vive num mundo que já não existe. Todas as “bocas” que mandou durante a votação da lista única mostram que vê o trabalho cultural como uma coisa do rural contra o urbano, do amador contra o profissional, do voluntário contra o remunerado. Com este pensamento é fácil antever: o Mirita Casimiro vai continuar cheio de teias de aranha.

2. Por “coincidência”, com os votos contra da oposição, a maioria da câmara de Viseu aprovou em Janeiro uma proposta de transferência semestral de 73 200 euros para a entidade titular do Mirita porque acha, como escreveu no protocolo, "imprescindível a colaboração de agentes culturais que nos proporcionem um resultado de qualidade em termos de animação cultural e de dinamização pedagógica de diversas atividades na rede municipal de museus.”

Perante este humor involuntário, resta perguntar: em que mundo é que vive a vereadora da cultura?

SMS #2 *

* Hoje no Correio Beirão.



Sete luas

Fotografia de Patrick Demarcheller

Esta noite sete luas,
sete luas cheias,
rolaram juntas nos céus.
Dançaram nuas
sem pudor nem véus.
Vieram as estrelas,
as fadas e os anjos
deram-se as mãos
e fizeram roda
à roda da lua
sete vezes branca.
Vem, meu amor,
escuta seu canto.
Eugénia Tabosa

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

"And Now For Something Completely Different" (#105)

Daqui

Go to sleep you little baby!



Go to sleep you little baby
(Go to sleep you little baby)
Go to sleep you little baby
(Go to sleep you little baby)

You're mama's gone away and you're daddy's gonna stay
Didn't leave nobody but the baby

Go to sleep you little baby
(Go to sleep you little baby)
Go to sleep you little baby
(Go to sleep you little baby)

Everybody's gone in the cotton and the corn
Didn't leave nobody but the baby

You're a sweet little baby
(You're a sweet little baby)
You're a sweet little baby
(You're a sweet little baby)

Honey and a rock and the sugar don't stop
Gonna bring a bottle to the baby

Don't you weep pretty baby
(Don't you weep pretty baby)
Don't you weep pretty baby
(Don't you weep pretty baby)

She's long gone with her red shoes on
Gonna need another lovin' baby

Go to sleep you little baby
(Go to sleep you little baby)
Go to sleep you little baby
(Go to sleep you little baby)

You and me and the devil makes three
Don't need no other lovin' baby

Go to sleep you little baby
(Go to sleep you little baby)
Go to sleep you little baby
(Go to sleep you little baby)

Come on lay your bones on the alabaster stones
And be my ever lovin' baby


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Buraco da fechadura*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 12 de Fevereiro de 2010

1. No debate sobre o poder local promovido por este jornal, o secretário de estado José Junqueiro colocou o problema político da regionalização da maneira como ele deve ser posto: é necessário esperar que o PSD arrume a casa e tenha uma posição estabilizada sobre o assunto.

Eu até diria mais: sem a concordância do PSD nem vale a pena reabrir este dossier. Basta lembrar o que aconteceu em 1998 com o referendo sobre a regionalização.

2. A última avaliação da Companhia Portuguesa de Rating à Visabeira confirma o imbricamento do grupo de Viseu com a Caixa Geral de Depósitos (o que não é novidade) e reconhece que a capacidade da Visabeira em “honrar, atempadamente e na íntegra, os seus compromissos de curto prazo mantém-se forte com tendência estável”.

Ainda bem que nem tudo o que andam para aí a dizer as companhias de rating é deprimente.

3. Na sua edição de 18 de Setembro, o Diário de Notícias publicou um e-mail enviado por Luciano Alvarez a Tolentino da Nóbrega, ambos jornalistas do Público. A publicação desse e-mail revelou o nome de uma fonte do jornal Público – no caso, era Fernando Lima, assessor de Cavaco Silva.

Estávamos a nove dias das legislativas. Aquela operação de comandos mediática, feita por profissionais, teve um impacto fortíssimo na campanha.

Ora, publicar um e-mail privado é o mesmo que publicar uma carta privada. É uma coisa “miserável”. “Miserável” lhe chamei logo a seguir aqui no Olho de Gato. O facto é que, na altura, não houve grandes protestos contra este “jornalismo” detestável.

Este caso fica como um marco na história dos nossos media. A imprensa portuguesa tabloidizou-se. 
Fotografia daqui
No dia 18 de Setembro de 2009 foi inaugurado o “jornalismo de buraco da fechadura”.
Agora não pára mais.

SMS #1

Correio Beirão, 7.2.2014

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

No volveré a ser joven

Fotografia de Alécio de Andrade


Que la vida iba en serio
uno lo empieza a comprender más tarde
-- como todos los jóvenes, yo vine
a llevarme la vida por delante.

Dejar huella quería
y marcharme entre aplausos
envejecer, morir, eran tan sólo
las dimensiones del teatro.

Pero ha pasado el tiempo
y la verdad desagradable asoma:
envejecer, morir,
es el único argumento de la obra.
Jaime Gil de Biedma