sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Vão as serenas águas

Fotografia de Alfred Eisenstaedt




Vão as serenas águas
Do Mondego descendo
Mansamente, que até o mar não param;
Por onde minhas mágoas
Pouco a pouco crecendo,
Para nunca acabar se começaram.
Ali se ajuntaram
Neste lugar ameno,
Aonde agora mouro,
Testa de nove e ouro,
Riso brando, suave, olhar sereno,
Um gesto delicado,
Que sempre na alma me estará pintado.

Nesta florida terra,
Leda, fresca e serena,
Ledo e contente para mim vivia;
Em paz com minha guerra,
Contente com a pena
Que de tão belos olhos procedia.
Um dia noutro dia
O esperar me enganava;
Longo tempo passei,
Com a vida folguei,
Só porque em bem tamanho me empregava.
Mas que me presta já,
Que tão fermosos olhos não os há?

Oh quem me ali dissera
Que de amor tão profundo
O fim pudesse ver ind alguma hora!
Oh quem cuidar pudera
Que houvesse aí no mundo
Apartar-me eu de vós, minha Senhora!
Para que desde agora
Perdesse a esperança,
E o vão pensamento,
Desfeito em um momento,
Sem me poder ficar mais que a lembrança,
Que sempre estará firme
Até o derradeiro despedir-me.

Mas a mor alegria
Que daqui levar posso,
Com a qual defender-me triste espero,
É que nunca sentia
No tempo que fui vosso
Quererdes-me vós quanto vos eu quero;
Porque o tormento fero
De vosso apartamento
Não vos dará tal pena
Como a que me condena:
Que mais sentirei vosso sentimento,
Que o que minha alma sente.
Morra eu, Senhora, e vós ficai contente!

Canção, tu estarás
Aqui acompanhando
Estes campos e estas claras águas,
E por mim ficarás
Chorando e suspirando,
E ao mundo mostrando tantas mágoas,
Que de tão larga história
Minhas lágrimas fiquem por memória.
Luís de Camões


Sem comentários:

Enviar um comentário