quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O homem e a sua hora

Fotografia de Matthieu Brouillard

1 Et in saecula saeculorum: mas
2 Que século, este século — que ano
3 Mais-que-bissexto, este —
4 Ai, estações —
5 Esta estação não é das chuvas, quando
6 Os frutos se preparam, nem das secas,
7 Quando os pomos preclaros se oferecem.
8 (Nem podemos chamá-la primavera,
9 Verão, outono, inverno, coisas que
10 Profundamente, Herói, desconhecemos...)
11 Esta é outra estação, é quando os frutos
12 Apodrecem e com eles quem os come.
13 Eis a Quinta estação, quando um mês tomba,
14 O décimo-terceiro, o Mais-Que-Agosto,
15 Como este dia é mais que Sexta-feira
16 E a Hora mais que Sexta e roxa.
17 Aqui,
18 Sábia sombra de João, fumo sacro de Febo,
19 Venho a Delfos e Patmos consultar-vos,
20 Vós que sabeis que conjunções de agouros
21 E astros forma esta Hora, que soturnos
22 Vôos de asas pressagas este instante.
23 Nox ruit, Aenea, tudo se acumula
24 Contra nós, no horizonte. As velas que ontem
25 Acendemos ou brancas enfunamos
26 O vento apaga e empurra para o abismo.
27 As cidades que erguemos, nós e nossos
28 Serenos ascendentes se arruinam
29 (Muros que escravos levantamos, campos
30 Ubi Troja - Nossa Tróia, Tróia! - fruit ...)
31 E no céu onde a noite rui só vemos
32 Pálidos anjos, livros e balanças,
33 Candelabros, cavalos, crocodilos
34 Vomitando tranquilos cogumelos
35 Róseos de sangue e lava — bestas, bestas
36 Aladas pairam, à hora de o futuro
37 Fazer-se flama, e a nuvem derreter-se
38 Em cinza presente. — Vê, em torno
39 De mesas tortas jogam meus sonâmbulos,
40 Meus líderes, meus deuses. Como ocultam
41 As cartas limpas, como atiram negros
42 Naipes no vale glauco de meu sonho!
43 Erza, trazem mais putas para Elêusis
44 E hoje Amatonte é todo o vasto mundo:
45 Prostitutas sagradas! — Se esta carne
46 Demais sólida pudesse dissolver-se,
47 Derreter-se e em rocio transformar-se!
48 Príncipe louro, oh náusea, proibição
49 Do mais ilustre amor, oh permissão,
50 Oh propaganda santa do mais rude!
51 L'amor che move il sole e l'altre stelle
52 Aqui parou, em ponto morto. Nem
53 Cometas hoje aciona, ou gestos de
54 Ternura move rumo aos eixos trémulos
55 De seres enlaçados; nem desperta
56 Encantados centauros de seu sono.
57 Amor represo em ritos e remorsos,
58 Eros defunto e desalado. Eros!
(...)
111 Aqui devo deixar-te, Herói. Retiro-me
112 Para uma ilha, Chipre, onde nascido
113 Outrora fui, onde erguerei não uma
114 Turris ebúrnea, torre inversa, torre
115 Subterrânea, defesa contra as pombas
116 Cobálticas, columbas de outro Espírito —
117 Torre abolida! No marfim que leves
118 Lunares unicórnios cumularam
119 Em cemitérios amorosos, eu,
120 Pigmalion, talharei a nova estátua:
121 Estátua de marfim, cândida estátua,
122 Mulher primeira, fêmea de ar, de terra,
123 De água, de fogo — Hephaistos, sobe, ajuda-me
124 A compor essa estátua; fácil corpo
125 Difícil Face, Santa Face - falta
126 O sopro acendedor de tua esperta
127 Inspiração... à noite, enquanto durmo,
128 Cava-lhe, oh coxo, o gesto e o peito, pede
129 À deusa tua esposa dê-lhe quantos
130 Encantos pendem de seu cinto. Phanos,
131 Phanos, imagens de beleza, chagas
132 Na memória dos homens... pede a Hermes
133 Idéias que asas gerem nos tendões
134 Das palavras certeiras — logos, logos
135 Carregando de força os sons vazios -
136 Dá-lhe tu mesmo, Fabro, o mel, a voz
137 Densa, eficaz, dourada, melopaico
138 Néctar de sete cordas, musical
139 Pandora de salvar, não de perder...
140 Orfeu retesa a lira e solta o pássaro.
141 Pronta esta estátua, agora, os deuses e eu
142 Miramos o milagre: branca estátua
143 De leite, gala, Galatéia, límpida
144 Contrafação de canto e eternidade ...
(...)
187 Vai, estátua, levar ao dicionário
188 A paz entre as palavras conflagradas.
189 Ensina cada infante a discursar
190 Exata, ardente, claramente: nomes
191 Em paz com suas coisas, verbos em
192 Paz com o baile das coisas, oradores
193 Em paz com seus ouvintes, alvas páginas
194 Em paz com os planos atros do universo -
(...)
223 Vénus fará de teu marfim fecunda
224 Carne que tomarei por fêmea, carne
225 Feita de verbo, cara carne, mãe
226 de Paphos, filho nosso, que outra ilha
227 Fundará, consagrada a tua música,
228 Teu pensamento, paisagem tua.
229 Ilha sonora e redolente, cheia
230 De pios templos, cujos sacerdotes
231 Repetirão a cada aurora (hrodo,
232 Hrododaktulos Eos, brododaktulos!)
233 Que Santo, Santo, Santo é o Ser Humano
234 — Flecha partindo atrás de flecha eterna —
235 Agora e sempre, sempre, nunc et semper...
Mário Faustino

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