segunda-feira, 19 de maio de 2014

São tristes os meus dias com pedras

Fotografia de Francisco Mata Rosas

São tristes os meus dias com pedras
em lugar de mãos
ou a cabeça funda na brancura
de través do travesseiro
e o corpo depresso em moles guindastes.
São dias de chorar por menos
ou teimar queixoso com um crânio polido,
batuque convexo
no muro demorado.

Ficar a ouvir o sangue,
o som tubular do sangue. Ao vale seco
da clavícula atrair a água, o sangue
e sorver a sopa intestina
ou se o líquido escapa à boca
tantálica, calar com argila
o que me pede água.

Ficar a palpar os buracos
da ausência, as ligas
da ausência, as ribanceiras
a que caem os pensamentos, a cor
dióspiro que banha a enfermidade
e em seguida tomar o pulso
evadido, travar o touro, o soco da dor,
o infinito infinitivo presente.

Uma amálgama de alma
migra no fôlego de modorrento
pregão de dor, o condor
passa e anda andino e é uma
traça asfixiante: faço um céu rarefeito,
a dispneia é um felino
que arranha céus
e a boca rebuliço espúmeo
expele o sabor da morte
e o que mais consiga cuspir
por entre ovéns e enxárcias
e traves quebradas.

É uma desilusão com as coisas,
uma desilusão funda com as coisas,
com o vazio meio-cheio das coisas.
Meu fôlego um fólio cheio
de silêncio, uma catástrofe natural

um vulcão: no meu pulmão pôr lava
e no trovão treva.
Daniel Jonas


Sad are my days with stones
instead of hands
or my head sunk into the deep
whiteness of my pillow
and my body squashed by feeble cranes.
Those are days to cry for less
or to plaintively argue with a shiny skull,
a convex tapping
on the lingering wall.

To stay listening to the blood,
the tubular sound of the blood. Drawing the
water, the blood, into the dry valley
of the collarbone, slurping the intestinal
soup, or if the liquid escapes
the tantalising mouth, stuffing with clay
what is begging for water.

To stay probing into the holes
of absence, the straps of
absence, the pit where
thoughts fall, the persimmon
colour that bathes infirmity
and then to feel the fading
pulse, halt the bull, the stab of pain,
the infinite present infinitive.

A suffused soul
migrates with the sturdy breath
of a painful street cry, the condor
flies and walks the walk and chalks
an asphyxiating trace: I paint a rarefied sky,
my dyspnoea is a feline
that scrapes the skies
and my mouth in foamy turmoil
expels the taste of death
and whatever else it manages to spit out
through stays and shrouds
and broken beams.

Things disappoint me so,
things are deeply disappointing,
things with their half-filled emptiness.
My breath is a folio full
of silence, a natural catastrophe,

a volcano: laying lava in my lung
and darkness in thunder.

Daniel Jonas
Trad.: Ana Hudson


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