sábado, 30 de novembro de 2013

Variação #2 em Dó Maior de O Jardim, ou, para simplificar — TACHOS



O compositor e maestro Miguel Fernandes escreveu, na sua A Tribuna de Viseu, a variação #1 em Dó Maior de O Jardim, a minha última crónica no Jornal do Centro que sintetiza o que António Almeida Henriques fez na câmara de Viseu no primeiro mês. 

Miguel Fernandes faz a seguinte errata ao meu texto: "Warnam nihadan é o que Jorge Sobrado fez no primeiro mês de mandato".


Não compro esta errata, caro Miguel Fernandes, pela simples razão: o assunto Jorge Sobrado — que imagino deve ser algum membro do staff do novo presidente da câmara de Viseu — é assunto chão, é assunto não muito interessante, é assunto usual em todo o lado nos princípios de mandato.


Isso mesmo, meu caro, foi o designativo muito castiço, muito popular, muito joana-vasconcelos, de tachos. 

Os políticos ganham eleições e rodeiam-se de gente de sua confiança para tocarem as coisas para frente.  Para isso, fazem nomeações políticas para os seus gabinetes, nos termos da lei.

Esses "termos da lei" permitem retribuições generosas que fazem arrepelar os cabelos e as barbas honradas da "oposição", "oposição" que, se fosse "situação", faria exactamente o mesmo — os mesmos tachos mas para os seus sobrados.

Esta conversa costuma ser feita a descompasso e costuma ter algum eco nos jornais paroquiais.

Depois de a coisa se estranhar, ela entranha-se, e segue-o-baile a compasso nos sobrados luzidios dos salões nobres.

Há coisas mais dissolventes e malsãs para as organizações. Ficarão para a variação #4 em Dó Maior de O Jardim, se o Miguel avançar com a #3.

Anuncio por palabras



Fotografia de Hellen van Meene


Necesito chica que sepa planchar
mis labios con los suyos y tende
r su ropa eternamente junto a la
mía y quitar las manchas de mi c
orazón con su mirada yo pondré
la mesa y la caricia en su ramo
de lunas y trataré de andar muy
despacio
.............cuando
........................ella
..............................no
..................................tenga
............................................prisa

Pedro Casariego

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Bem-vinda, Rua Direita!

O Olho de Gato saúda o portal viseense Rua Direita.

Tem boas colaborações, tem boa imagem.
As maiores felicidades.

Matéria

Fotografia de Lilian Bassman



O contrário da matéria
não é o espírito.
O contrário da matéria
não é a anti-matéria.
O contrário da matéria
é o olhar.
Pedro Mexia


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Odeio este tempo detergente

Fotografia de Sandra Rocha

Odeio este tempo detergente
um tempo português que até utilizou
os primeiros acordes da quinta sinfonia de beethoven
como indicativo da voz do ocidente
chamada actualmente a emissão em línguas estrangeiras
um tempo que parou e só mudou
o nome que puseram num mundo que muda
a coisas que afinal permaneceram
um tempo português que alguma vez até em camões vê
o antecessor e criador de coisa como a nato
com a profética visão de quem consegue conceber tal obra
bem pouco literária por sinal e só possível graças à visão
de quem com um só olho vê as coisas quatrocentos anos antes
Odeio este meu tempo detergente
de uma poesia que discreta até se erótica antigamente
hoje se prostitui numa publicidade
devida a algum poeta público que a certo detergente
deu de repente esse teu nome musical de musa
a ti precisamente a ti nesse teu rosto sorridente
onde o poeta público publicitário porventura viu
sobressair teu riso nesse território de alegria
e a brancura mais alva nesses dentes alvejar
E eu que faço eu aqui em todo este tempo detergente quando
sinto subitamente cem saudades tuas
que posso que não seja odiar mais um meio que jamais
tentaria impedir evitaria um tempo que consente até contente
que faças dentro em pouco um ano mais
um meio onde nem mesmo eu mulher afinal sei
que terei de fazer para deter ao menos um momento essa tua idade
a tua juventude se possível anos antes de haver-te conhecido
por acaso e já tarde na cidade onde nasceste
cidade que unamuno diz viver morrer apenas por amor
amor morto ou mortal mas amor imortal
cidade solidão as ruas muita gente os sons o sol
difusos e confusos corredores de uma faculdade
folhas que se renovam rostos que outros rostos
tão firmes tão presentes permanentes um só ano antes
friamente destroem sem deixar sequer
ao menos uma marca nessa fria impassível pedra
o tempo os sóis dos séculos cingindo os cintos da cidade
dessa cidade onde o povo morre novo à volta
do mesmo monumento destinado a exaltá-lo
cidade onde afinal a paisagem é pretexto para o homem
cidade portuguesa ó portugal ó parte da hispânia maior
maneira triste de se ser ibéria onde
da terra emerge o homem que depois o rosto nela imerge
ó portugal dos pescadores de espinho
espinho do suicida laranjeira espinho praia
antiga amiga e conhecida de unamuno
a praia dos seus últimos passeios portugueses
angústia atlântica e odor ó dor olor a campo
praia que so' existe quando alguém a veste
coisa que foi somente quando tu mulher a viste
Aqui em portugal aqui na vasta praia portuguesa
aqui nasci e ao nascer morri
como morri a morte que por sorte sempre tive
pesadamente do mais alto do meu peso dos meus anos
em cada um dos sítios onde um dia estive
Aqui tive dezasseis anos aos dezasseis anos
aqui só vejo pés há muitos anos já
Aqui o meu chapéu de chuva mais ao sul aceita em chapa o sol
chapéu que fecho quando fecha o sol definidor do dia
Tive um passado agora inacessível um passado
tão alto como a torre do relógio da aldeia
que pontual pontua a passagem do tempo
um tempo não ainda detergente um tempo
afinal só visível no sensível alastrar da sombra
ao longo desse pátio só possível ao adolescente
que mais tarde e mais só e de maneira mais sensível
mais só se sentirá no meio da imensa gente
que se sentia ali entre a andorinha e a nespereira

Não o sabia então mas dominava um mundo
esse mundo que espero que me espere um dia ao fundo
lá quando findo o dia sob o chão me afundo e ao final
em terra e em verdade é que me fundo
Mas eu aqui completamente envolto neste tempo detergente
é da segunda-feira e da semana que preciso pois
posso lutar melhor por uma luz melhor
do que esta luz do mar à hora do entardecer
É da cidade é da publicidade é da perversidade
que preciso e não tenho aqui na praia
Não tenho nem o mar nem tão rudimentar
a técnica de olhar alguém as minhas mãos
para me devassar a vã vida privada
É de inverno é domingo estou sozinho aqui na praia
regresso a casa à noite apanho eu próprio a roupa no quintal
e tenho a sensação de quem alguma coisa
faz pela vez primeira e sente bem ou mal
que tarde toma agora o seu banho lustral
Ruy Belo

O jardim *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

War nam nihadan é uma expressão persa que quer dizer «matar uma pessoa, enterrar o corpo e plantar flores sobre a cova para a esconder».**

War nam nihadan é o que António Almeida Henriques fez no primeiro mês de mandato: mal tomou posse, tratou logo de matar o ruísmo, de o enterrar bem enterrado e, a seguir, sobre a cova, iniciar um jardim.

Já lá pôs duas flores não eleitas da sua lista: a advogada Ana Paula Santana nos parques empresariais e o arquitecto Fernando Marques no centro histórico.


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Uma equipa dirigida por João Ferrão fez um estudo comparativo da situação das famílias e das empresas entre o triénio 2005/07 (antes da crise sistémica global) e o triénio 2009/11 (logo depois). 

No concelho de Viseu, os índices familiares evidenciaram estabilidade entre os dois triénios, já os empresariais deterioraram-se muito.

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Ora, não é bom ver António Almeida Henriques nomear para a captação de investimento nos parques empresariais uma pessoa que percebe tanto daquilo como de lagares de azeite. 

O centro histórico é também um tópico central na vida da cidade e, para já, aconteceu um emprego, pensamento é que nenhum.

Espera-se que a oposição na câmara e na assembleia municipal, os media e a blogosfera escrutinem bem este jardim, para já pouco entusiasmante, do novo presidente da câmara de Viseu.

** Entre aspas de "O ano em que sonhámos perigosamente", de Slavoj  Žižek

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

La vida es sueño *

Gravura de Francisco Goya

Es verdad; pues reprimamos
esta fiera condición,
esta furia, esta ambición,
por si alguna vez soñamos:
y sí haremos, pues estamos
en mundo tan singular,
que el vivir sólo es soñar;
y la experiencia me enseña
que el hombre que vive, sueña
lo que es, hasta dispertar.
Sueña el rey que es rey, y vive
con este engaño mandando,
disponiendo y gobernando;
y este aplauso, que recibe
prestado, en el viento escribe;
y en cenizas le convierte
la muerte (¡desdicha fuerte!):
¿que hay quien intente reinar,
viendo que ha de dispertar
en el sueño de la muerte?
Sueña el rico en su riqueza
que más cuidados le ofrece;
sueña el pobre que padece
su miseria y su pobreza;
sueña el que a medrar empieza,
sueña el que afana y pretende,
sueña el que agravia y ofende,
y en el mundo, en conclusión,
todos sueñan lo que son,
aunque ninguno lo entiende.
Yo sueño que estoy aquí
destas prisiones cargado,
y soñé que en otro estado
más lisonjero me vi.
¿Qué es la vida? Un frenesí,
¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño:
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son.
Pedro Calderón de la Barca




* Monólogo de Segismundo, última cena (XIX) da jornada segunda, de La vida es sueño, de Pedro Calderón de La Barca

Boris Pasternak *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 27 de Novembro de 2009



1. Em 1937 realizou-se um congresso dos escritores soviéticos onde só se ouviram hinos de louvor ao “pai dos povos”, José Estaline. Era então aquela a partitura oficial em todos os actos públicos naquele país.


Claro que Boris Pasternak, o mais aclamado dos poetas russos, esteve presente no congresso. Ele não queria tocar a música do regime pelo que tinha o seguinte dilema: ou falava e era preso ou não falava e era preso na mesma.

No último dia do congresso, Pasternak levantou-se. Fez-se silêncio. Silêncio sepulcral. Sem sair do lugar, o escritor russo disse um número. Todos perceberam. Era o número que tinha o soneto de Shakespeare “Quando sinto a lembrança das coisas passadas” numa colectânea que Pasternak traduzira para russo. Então, duas mil vozes recitaram aquele soneto em coro.

Foi um momento mágico. Até os esbirros perceberam que podiam entrar em todo o lado menos dentro das cabeças dos homens. Pasternak acabou por não ser preso.

Há momentos assim que são epifanias. Como se cada dilúvio decretado pelos deuses trouxesse já consigo a arca da salvação.

George Steiner já contou várias vezes esta história e referiu-se mais uma vez a ela esta semana no Instituto Piaget de Viseu.

 
2. Miguel Ginestal toma posse hoje como governador civil de Viseu. Esta é uma boa notícia para o distrito. Ginestal vai ser um excelente governador civil. Ele vai prosseguir sem sobressaltos o bom trabalho realizado por Acácio Pinto e sua equipa.

Já para o concelho de Viseu esta é uma notícia péssima. Fernando Ruas está no último mandato. Ora, como é sabido, os últimos mandatos são os que mais precisam de ser escrutinados. Era necessária uma oposição socialista com liderança política forte e competente na câmara de Viseu. E, agora, não há.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Manos de mujeres

Fotografia de Walker Evans


ENCANTAMENTO

Vi as mulheres
azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos; e os seus corpos
sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos
vulcânicos. Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma
calcinado. A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas
primaveris abraçavam-nas, puxando-as num
estertor de imagens. Tapei-as com o cobertor
do verso; estendi-as na areia grossa
da margem, vendo as cobras de água fugirem
por entre os canaviais. Espreitei-lhes
o sexo por onde escorria o líquido branco
de um início. Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas; e
ouvi um restolhar de crianças por entre
os arbustos, repetindo-me as frases com uma
entoação de riso. Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto
vago de inquietação? Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.
Nuno Júdice

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Quem ganhou que governe, quem perdeu que faça oposição

Caro Miguel Fernandes, não se apoquente nem se desassossegue, lembre-se que, na câmara de Viseu, desde as últimas autárquicas, ao "peso" da "situação" passou a corresponder, muito montesquieusmente, o "contra-peso" da "oposição"...
... oposição ainda por cima multipartidária e, espera-se, polifónica.

Como sabe, defendo executivos municipais monocolores mas, para isso, teria sido necessário o reforço dos poderes das assembleias municipais. 

António José Seguro e Pedro Passos Coelho deixaram tudo na mesma como a lesma nas autarquias e fizeram mal. 

Como as coisas acabaram por ficar, ao menos dá algum conforto saber que não se vai repetir o mandato 2009-2013: em Viseu, não vamos ter outra vez vereadores da oposição conformistas e metidos no bolso pelo presidente da câmara.

Interessere

Fotografia de Christian Coigny

Na vida interessa o que não é vida
Na morte interessa o que não é morte
Na arte interessa o que não é arte
Na ciência interessa o que não é ciência
Na prosa interessa o que não é prosa
Na poesia interessa o que não é poesia
Na pedra interessa o que não é pedra
No corpo interessa o que não é corpo
Na alma interessa o que não é alma
Na história interessa o que não é história
Na natureza interessa o que não é natureza
No sexo interessa o que não é sexo
(: o amor que, de resto, pode ser abominável)
No homem interessa o que não é homem
Na mulher interessa o que não é mulher
No animal interessa o que não é animal
Na arquitectura interessa o que não é arquitectura
Na flor interessa o que não é flor
Em Joyce interessa o que não é Joyce
No concretismo interessa o que não é concretismo
No paradigma interessa o que não é paradigma
No sintagma interessa o que não é sintagma
Em tudo interessa o que não é tudo
No signo interessa o que não é signo
Em nada interessa o que não é nada.
Décio Pignatari

domingo, 24 de novembro de 2013

Aleluia! Habemus oposição socialista em Viseu!

Depois da deserção de Miguel Ginestal em 2009 ter feito desaparecer o PS na câmara de Viseu e ter esfrangalhado o partido no concelho... 

Diário de Viseu, 22.11.2013

... haja quem diga que levar seniores ao Minho em excursão dá votos mas não lhes resolve problema nenhum.

Noche de ronda*

* Este post é feito a partir de SEM UM TU NÃO PODE HAVER UM EU, de Paulo Ribeiro, que nos diz esta coisa simples: só se (re)nasce depois de chorar....


Fotografia de José Alfredo




En otro tiempo hubieras empleado la noche
en hablarle de libros y de viejas películas.
Pero ya eres mayor. Ahora sabes que a ellas
les aburren los tipos llenos de nombres propios,
que tu bachillerato les tiene sin cuidado.
De modo que le dejas tomar la iniciativa,
desconectas y finges que escuchas sus historias,
que invariablemente -recuerdas de otras veces-
versan sobre el amor, los viajes, la dietética,
su familia, el verano, la buena forma física,
el más allá, las drogas y el arte postmoderno.
De cuando en cuando asientes, recorriendo sus ojos
con los tuyos, rozando levemente sus muslos,
y elevas a los cielos una angustiosa súplica
para que aquella farsa termine cuanto antes.
Pasarán, sin embargo, todavía unas horas
hasta que, ebria y afónica, se abandone en tus brazos
y obtengas la victoria pírrica de su cuerpo,
que, pese a los asertos de tres o cuatro amigos,
será muy poca cosa. Y, cuando esté dormida,
saldrás roto a la calle en busca de una taza
de café gigantesca, maldiciendo las copas
que arruinaron tu hígado en la estúpida noche
y pensando que, al cabo, merece más la pena
no comerse una rosca y hablarles de tus libros,
amargarles la vida con Shakespeare y con Griffith.
O buscarse una sorda para que nada falte.
Luis Alberto de Cuenca



sábado, 23 de novembro de 2013

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Vida Inteira

Fotografia de Christian Coigny



A vida inteira esperei por ti.

Mesmo que ainda não se tenha passado
a vida inteira.
Jorge Reis-Sá


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Oh as casas as casas as casas

Fotografia de Lauren Withrow


Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas
Ruy Belo

A crise de 2011 *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Durante a ofensiva mediática de Sócrates para promover o seu livro sobre a tortura, todos os media torturaram o público com o convite para uma coligação feito por Sócrates a Passos Coelho antes do PEC4, algures em finais de Fevereiro ou início de Março de 2011.

Mário Soares contou, numa entrevista a Joaquim Vieira publicada no livro “Mário Soares, Uma Vida”, que em 24 de Janeiro daquele ano foi chamado a S. Bento por Sócrates e este lhe disse: “Vou fazer uma grande aproximação aos gajos do PSD.” Mário Soares avisou-o: “Ó Sócrates, eu acho que você tem grandes méritos. Mas não pode continuar a fazer buracos.”

E na página seguinte: “Ele tem um temperamento belicoso: gosta de jogar à pancada. Quando o ameaçam, Sócrates dá o soco primeiro — a verdade é essa.”

A exasperação do fundador do PS com o perfil “feroz” de Sócrates fazia sentido: as características do então primeiro-ministro dificultavam uma solução negociada de resposta à pré-bancarrota do país.

Mas em política os estados de alma não são tão importantes como os factos e o facto é que Pedro Passos Coelho fez bem em recusar o convite. Em 2011, um governo PS/PSD faria crescer os extremismos em Portugal, tornando-nos parecidos com a Grécia. Agora estamos mal, mas com um governo do bloco central estaríamos muito pior.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Querido Joseph Blatter e querida Pepsi Cola, aqui vai com amor

Joseph Blatter e Pepsi Cola

¿Por qué amo tu locura?

Fotografia de Lilian Brassman


¿Por qué amo tu locura,
tu desparpajo, tu falta
de reloj y tus atajos
cuando estoy prácticamente a punto
de caer de cabeza en el abismo?

O sea en ti. Pero no sólo
eso: hay mucho más de ti que quiero
y no revelo. Esa lámpara
que enciendes en el fondo.
Eduardo Milán

Fura-greves e adesivos *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 20 de Novembro de 2009



1. Há 40 anos, Coimbra fervia de agitação estudantil. A ditadura salazarosa, já muito apodrecida, servia-se da polícia política e da censura para se segurar no poder.

Em 17 de Abril de 1969, o então presidente da república, na altura dizia-se “a veneranda figura do chefe de estado”, foi a Coimbra inaugurar o departamento de Matemática. Alberto Martins, líder dos estudantes, pediu a palavra. Américo Tomás não lha deu e terminou a cerimónia de forma abrupta.

Seguiu-se repressão e prisões. Os estudantes resistiram de todas as maneiras. Fizeram greves maciças às aulas que culminaram numa greve aos exames.

Fazer greve aos exames acarretava um grande custo pessoal: para além do atraso no curso significava também poder ser enviado para as piores frentes da guerra em África.

Não é difícil perceber a angústia interior que aqueles jovens viveram e a pressão familiar a que eles estiveram sujeitos. Mesmo assim, foram poucos os que foram fazer exames. Foram poucos os fura-greves. E os fura-greves ficaram muito mal vistos.

Muitas décadas depois do que aconteceu em Coimbra, em cavaqueira de amigos, mal foi referido o nome de uma determinada personalidade, ouvi logo vernáculo do grosso: “essa besta foi um dos que furou a greve aos exames…”


2. Embora não com o dramatismo dos estudantes de há 40 anos, a avaliação engendrada por Maria de Lurdes Rodrigues colocou os professores também perante dilemas éticos: 

“Entrego os objectivos, não entrego os objectivos?” 

“Peço aulas assistidas, não peço aulas assistidas?»

Todo o professor que quis aproveitar o campo livre para obter um “excelente” na avaliação não ficou bem no retrato.

Vai-se ouvir muitas vezes no futuro:

“essa besta foi um dos adesivos da marilú…”

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Les chats

Fotografia de Bob Carlos Clarke 


Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment également, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont frileux et comme eux sédentaires.

Amis de la science et de la volupté
Ils cherchent le silence et l'horreur des ténèbres ;
L'Erèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S'ils pouvaient au servage incliner leur fierté.

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s'endormir dans un rêve sans fin ;

Leurs reins féconds sont pleins d'étincelles magiques,
Et des parcelles d'or, ainsi qu'un sable fin,
Etoilent vaguement leurs prunelles mystiques.
Charles Baudelaire


Os gatos

Os amantes febris e os sábios solitários
Amam de modo igual, na idade da razão,
Os doces e orgulhosos gatos da mansão,
Que como eles têm frio e cismam sedentários.

Amigos da volúpia e devotos da ciência,
Buscam eles o horror da treva e dos mistérios;
Tomara-os Érebo por seus corcéis funéreos,
Se a submissão pudera opor-lhes à insolência.

Sonhando eles assumem a nobre atitude
Da esfinge que no além se funde à infinitude,
Como ao sabor de um sonho que jamais termina;

Os rins em mágicas fagulhas se distendem,
E partículas de ouro, como areia fina,
Suas graves pupilas vagamente acendem.
Tradução de Ivan Junqueira



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Se um Dia a Juventude Voltasse

Fotografia de Norman Parkinson

se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição
Al Berto


domingo, 17 de novembro de 2013

Boletim Meteorológico

Fotografia de Herb Ritts



Céu muito nublado vento
Fraco moderado de sudoeste

Soprando forte nas terras
Altas aguaceiros em especial

Nas regiões do Norte e Centro
E que serão de neve nos

Pontos mais altos da Serra
Da Estrela e no teu coração.
Jorge Sousa Braga


Coro Azul - "Zuvi zeva novi".

IBÉRIA, A HARMONIA IMPOSSÍVEL, de Carlos Santiago

Sexta-feira, 22 de Novembro — 22H00 — no Lugar do Capitão, Viseu

Carlos Santiago, dramaturgo e monologuista galego, ligado à corrente filosófica do materialismo pantomímico

Um regresso ao Lugar do Capitão, emblemático local da cena cultural viseense, armado em filósofo galaico-romano, para dissertar em conferência espectacular sobre os problemas de afinação política, geográfica e espiritual da conhecida como pele de touro, jangada de pedra ou simplesmente “a velha Iberia”.

Em Águeda, no Festival O Gesto Orelhudo, foi assim:

Portas pintadas (#3)

Rua Direita — Viseu (fotografia Olho de Gato)

sábado, 16 de novembro de 2013

Manuel Mirandez e Vítor Simão em debate, a duas semanas das eleições para a concelhia da JS-Viseu


Manuel Mirandez, 22 anos, estuda História e Geografia em Coimbra, sportinguista e academista

Vítor Simão, 25 anos, estuda Direito em Lisboa, benfiquista e academista

In The End

Fotografia de Steven Meisel



All that could never be said,
All that could never be done,
Wait for us at last
Somewhere back of the sun;

All the heart broke to forego
Shall be ours without pain,
We shall take them as lightly as girls
Pluck flowers after rain.

And when they are ours in the end
Perhaps after all
The skies will not open for us
Nor heaven be there at our call.
Sara Teasdale

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Restos

Fotografia de Richard Avedon


O garçom era um velho
habituado a ouvir as queixas dos fregueses
enquanto esperava
a aposentadoria e a morte.
Tinha um rosto branco
enrugado e triste.
Enquanto isso,
a freguesa da mesa da frente,
com ávida sensibilidade de radar,
corria o olhar de um lado para o outro,
procurando machos ainda curiosos
de sua beleza evanescente.
Quando saímos,
éramos os últimos,
uma fila disciplinada de fodidos
esperava os restos finais do dia.
Os restos dos restos
iriam depois para os cães
ainda mais famintos.
Era uma mulher magra
de lábios finos.
Rubem Fonseca

Eternamente bonita

Fotografia Olho de Gato

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Populismos *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Quer à esquerda quer à direita, o populismo está à solta na velha “europa”.

Todo o populismo europeu é contra a austeridade e defende o estado social. O de direita, além disso, defende também as “identidades” nacionais, isto é, hostiliza a imigração e é anti-europeísta.

Como explica Cas Mudde, o populismo vê as sociedades separadas em dois campos homogéneos e antagónicos: o “povo puro” e a “elite corrupta”. Tornado simples o que é complexo, os populistas vão à procura de votos e estão a ter sucesso junto dos eleitorados, tornando melindrosas as próximas eleições europeias.

Um exemplo da Dinamarca: por respeito pelas dietas islâmicas, foram tiradas as almôndegas de porco, um prato tradicional, das ementas do jardins infantis. Isso está a ser usado com muito sucesso em campanha por Mikkel Dencker, da extrema-direita, como exemplo da “perda de identidade dinamarquesa”.

Em Portugal, o PCP é o mais “patriótico” dos partidos mas não usa assuntos de “identidade” na sua retórica. Estes têm ficado para o CDS quando está fora do poder.

Desde que os centristas são governo nunca mais se viu Hélder Amaral a malhar na ASAE e a defender as nossas morcelas caseiras e o nosso queijo fresco. O que, populismos à parte, é pena. É sempre bom haver alguém capaz de impor bom-senso à ASAE.

Rua Serpa Pinto, Viseu (#2)

Em Janeiro de 2012, um "edifício" ainda em obras na Rua Serpa Pinto, junto à Escola Superior de Educação de Viseu, foi o tema deste post e foi objecto de muita controvérsia.

Agora, com a solução consolidada, tirem-se conclusões:

Fotografia Olho de Gato


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Os partidos têm opinião? *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 13 de Novembro de 2009

1. Isabel Alçada, a nova Ministra da Educação, vai tentar compor o mal que o marilurdismo causou nas escolas. Está a começar pelo mais urgente e menos difícil - o estatuto e a avaliação dos professores.

Depois virá o tempo para dar atenção ao mais árduo e importante nas nossas escolas que não são os professores mas sim os alunos e os conteúdos que eles têm que aprender. Repito porque sei que isto irrita o eduquês que manda na “educação”: o essencial são os alunos e os conteúdos que eles têm que aprender.

Vai ser necessária uma terapia rigorosa. O resultado é muito incerto. Fizeram-se muitas asneiras. Nas escolas, como muito bem sintetizou António Barreto no Público, o marilurdismo causou um “desastre ecológico”.

Os quadros políticos do PS ligados à educação podiam e deviam ter tido mais coluna vertebral. Deviam ter pensado mais no interesse público e menos nas suas carreiras.

Da parte que me toca, estou de consciência tranquila.

Desejo boa sorte a Isabel Alçada.


2. Em 1992, Karl Popper deu uma conferência em Lisboa a convite de Mário Soares, onde defendeu a personalização dos votos.

Cito Popper: “E se as opiniões dos homens merecem sempre o maior respeito, os partidos políticos, enquanto instrumentos típicos de promoção pessoal e de poder, com todas as possibilidades de intriga que isso implica, não podem de forma alguma ser identificados com opiniões.”

Depois do que aconteceu nos últimos 17 anos, talvez agora se perceba melhor esta tese de Popper. De facto, as pessoas têm opiniões, os partidos não.

As opiniões de Maria de Lurdes Rodrigues sobre a escola eram uma desgraça mas tiveram muita gente atrás delas. Oxalá essa mesma gente vá agora atrás de opiniões boas.

Oxalá, agora, haja ideias boas.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

espelho dos teus olhos

Fotografia de Ellen von Unwerth


sophia de ti
disseram-me que
recitavas poemas
em voz alta nos eléctricos
que cantavas nas ruas de Lisboa
enquanto os teus filhos te procuravam
(viram a mãe, aquela que troca tudo e não confunde nada)
e dançavas frente ao espelho dos teus olhos
sempre sempre ao desafio

ah sophia
sofia eras
sophia és

(passeei pelo teu jardim
tão abandonado estava
deu-me vontade de chorar)
Bénédicte Houart

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Ó António Almeida Henriques, quer fechar o José Junqueiro?

Notícia completa aqui

Informação política mais detalhada sobre esta conferência de imprensa dos vereadores socialistas aqui


* Post reescrito às 19:30 (mudança de imagem e acrescentado último parágrafo)

A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!


Adicionar legenda


Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade



sábado, 9 de novembro de 2013