sexta-feira, 27 de setembro de 2013

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Saudades da Rádio Noar — o debate autárquico do concelho de Viseu é feito em rádios de... Vouzela e Carregal do Sal


É mais fácil de longe imaginar

Fotografia de Mary Ellen Mark

É mais fácil de longe imaginar
o que seria ter-te aqui presente
do que seria ter-te e não saber
com que forma de corpo receber-te.
Talvez um amplo véu oriental
ou o brilho mental de uma armadura
me deixassem arder sem ser molesto
no lume horizontal de uma figura.
Se te vejo, já está o meu desejo,
enquanto estavas longe, satisfeito;
no teu olhar encontro tudo quanto
à altura de amor é mais perfeito.
E no entanto, perto, fico incerto
se não é melhor bem o que imagino.
António Franco Alexandre

Fora dos rebanhos*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

1. Como se sabe, Carlos Vieira, o único deputado bloquista da assembleia municipal de Viseu, foi substituído e não cumpriu o mandato para que foi eleito pelos viseenses. Como agora se apresenta outra vez a votos, fez-se aqui na semana passada a pergunta lógica: desta vez Carlos Vieira fica lá os quatro anos ou os outdoors com a sua fotografia são um ludíbrio aos eleitores?

Perante esta pergunta, o bloco chutou para canto e não deu uma resposta clara.

É verdade que o bloco de esquerda anda com a mania de “rodar” eleitos como quem roda pneus. A candidata bloquista à câmara de S. Pedro do Sul até quantificou a coisa: lá é para “rodarem” quatro por cada posição, exactamente como nos automóveis. Isto se Rui Costa, o cabeça de lista à assembleia municipal de S. Pedro do Sul, se deixar transformar num pneu Michelin de perfil baixo.


Chegámos a esta situação em Viseu: um eleitor do competente Carlos Vieira — que vale mais votos que o bloco – não sabe o que fazer. 

E se vota nele e depois ele passa a pasta ao número dois? 

A propósito, quem é o número dois?




2. O facto de eu ter colaborado nos primeiros meses na candidatura de José Junqueiro, quando ele ainda não tinha completa a sua máquina, criou-me um desafio — não ser excessivamente crítico com o candidato socialista.

É que tento sempre seguir a melhor tradição do pensamento europeu: há que tomar partido, isto é, escolher uma parte, e depois exercer o juízo crítico com severidade, especialmente com a nossa parte.

Ora, isto causa estranheza e não só nos rebanhos partidários. No nosso espaço público há muito “pensamento” alinhado mas quase nenhum pensamento independente.

Aqui, nesta coluna, não se vai mudar. Se o próximo presidente da câmara de Viseu for Almeida Henriques, a sua acção será sempre aqui escrutinada. Se for José Junqueiro, que apoio, esse escrutínio será ainda maior.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Testamento

Fotografia de Leonard Freed


A mi madre, las llaves del Universo.
A mis perras, la magia de la felicidad.
A los militares, un guiso de tornillos.
A Pinochet, un féretro de cartón.
A Cátulo Castillo, un refugio infinito para canes.
A Videla, un destino sin ventanas.
A Frida Kahlo, colores de arco iris.
A Cris, la alegría y toda la música jazz.
Al gato Iván, el misterio de las noches.
A Pilar, mi emoción frente a Sevilla.
A la policía, un libro de modales y sensibilidad.
A los crueles con los animales, mis deseos de muerte.
A Jetzabel, reina judía, un indulto irrevocable.
A Grace, la sonrisa de la Gioconda.
A los toreros, flechas filosas para su corazón.
A Saramago, un aplauso interminable.
A Antonia, la filosofía Zen.
A los colonizadores, un puñado de estopa en la garganta.
A los Testamentos, el concepto de justicia.
A la ideología iraní, la bomba atómica.
A los nazis, la bomba de neutrones.
A Parra, un regalo para Janick y otro para Eiko.
A Copérnico, un guiño de triunfo.
A Alan Parker, un cuadro de Dalí.
A la Camargue, nuevas razas de caballos.
A Cioran, el consuelo de un colega.
A Olga Orozco, la reverencia más grande.
A Pizarnik, siempre el recuerdo.
A la inhumanidad, mi más profundo desprecio.
A la que fui, la libertad.
Susana Cattaneo

Eleições 2009 (VI)*

* Este texto foi publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 25 de Setembro de 2009 (ano em que houve três eleições)


1. Depois de o DN ter publicado um e-mail comprometedor, Cavaco Silva despediu o seu assessor Fernando Lima. A poucos dias das eleições legislativas, a presidência da república deu um tiro em cheio no pé.

Fala-se muito das consequências políticas deste caso. As consequências mediáticas não são menos graves: ter sido revelado assim, desta forma miserável, o nome de uma fonte, vai pôr todas as potenciais “gargantas fundas” deste país a fecharem a boca quando virem um jornalista por perto.

O resultado vai ser só um: vamos ter no futuro ainda menos escrutínio mediático sobre as traficâncias entre o poder político e o poder económico.

Portugal é, cada vez mais, um paraíso para a corrupção.


2. No concelho de Viseu, Fernando Ruas tem que se resguardar à direita já que Francisco Mendes da Silva, o candidato do CDS, mostra um pensamento muito bem estruturado.

Francisco Mendes da Silva não fala politiquês, a língua de trapo dos políticos profissionais. Ele tem, de facto, uma voz que merece ser ouvida sobre os problemas e os bloqueios de Viseu. Há muito tempo que o CDS não aparecia com tanto potencial para poder atrair novos eleitores, abstencionistas e uma fatia do eleitorado laranja.

Já à esquerda não há competição.

A candidatura da CDU ainda não disse nada.

Quanto a Graça Marques Pinto, do Bloco de Esquerda, o melhor que conseguiu fazer foi uma denúncia à IGAL, a inspecção das autarquias, coisa que para estas eleições autárquicas, como se diz nas beiras, “não aquenta nem arrefenta”.

A esquerda à esquerda do PS, até ao momento, tem sido uma autêntica nulidade política. Isso é bom para Miguel Ginestal que só tem que se concentrar na tarefa de tirar votos a Fernando Ruas.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

PEQUENO CINEMA — saber "falar" com imagens e sons é tão importante como saber ler e escrever

Para o pré-escolar e 1º ciclo.



Quatro sessões por escola:
— sessão de curtas-metragens de animação e actividades de exploração de cada filme
— duas oficinas de experimentação prática de cinema de animação, sua história e suas técnicas
— ida ao cinema para o visionamento de uma longa-metragem

Mais detalhes e formas de inscrição aqui

Cidra, ciúme

Fotografia de Alfred Eisenstaedt


É ciúmes a Cidra,
E indo a dizer ciúmes disse Hidra,
Que o ciúme é serpente,
Que espedaça seu louco padecente,
Dá-lhe um cento de amor o apelido,
Que o ciúme é amor, mas mal sofrido,
Vé-se cheia de espinhos e amarela,
Que piques e desvelos vão por ela,
Já do forno no lume,
Cidra que foi zelo, se não foi ciúme,
Troquem, pois, os amantes e haja poucos,
Pelo zelo de Deus, ciúmes loucos.
Soror Maria do Céu



sábado, 21 de setembro de 2013

Le temps a retrouvé son charroi monotone

Fotografia de Robert Doisneau

Le temps a retrouvé son charroi monotone
Et rattelé ses boeufs lents et roux, c’est l’automne.
Le ciel creuse des trous entre les feuilles d’or,
Octobre électroscope a frémi mais s’endort.
Jours carolingiens. Nous sommes des rois lâches,
Nos rêves se sont mis au pas mou de nos vaches.
A peine savons-nous qu’on meurt au bout des champs
Et ce que l’aube fait l’ignore le couchant.
Nous errons à travers des demeures vidées
Sans chaînes, sans draps blancs, sans plaintes, sans idées
Spectres du plein midi, revenants du plein jour
Fantômes d’une vie où l’on parlait d’amour.
L’ère des phrases mécaniques recommence,
L’homme dépose enfin l’orgueil, et la romance
Qui traîne sur sa lèvre est un air idiot
Qu’il a trop entendu grâce à la radio.
Vingt ans après. Titre ironique où notre vie
S’inscrivit tout entière, et le songe dévie
Sur ces trois mots moqueurs d’Alexandre Dumas
Père, avec l’ombre de celle que tu aimas.
Il n’en est qu’une, la plus belle, la plus douce,
Elle seule surnage ainsi qu’octobre rousse ;
Elle seule l’angoisse et l’espoir, mon amour
Et j’attends qu’elle écrive, et je compte les jours.
Tu n’as de l’existence eu que la moitié mûre
O ma femme, les ans réfléchis qui nous furent
Parcimonieusement comptés mais heureux
Où les gens qui parlaient de nous disaient Eux deux.
Va, tu n’as rien perdu de ce mauvais jeune homme
Qui s’efface au lointain comme un signe, ou mieux comme
Une lettre tracée au bord de l’Océan ;
Tu ne l’as pas connu cette ombre ce néant.
Un homme change ainsi qu’au ciel font les nuages.
Tu passais tendrement la main sur mon visage
Et sur l’air soucieux que mon front avait pris,
T’attardant à l’endroit où les cheveux sont gris.
O mon amour ô mon amour toi seule existe
A cette heure pour moi du crépuscule triste
Où je perds à la fois le fil de mon poème,
Et celui de ma vie, et la joie, et la voix,
Parce que j’ai voulu te redire Je t’aime,
Et que ce mot fait mal quand il est dit sans toi.
Louis Aragon

LOL — dezanove actores e actrizes e duas galinhas à solta no palco e na plateia do Teatro Viriato

Hoje segundo e último dia no Teatro Viriato — detalhes aqui

O GRANDE SALÃO é o Facebook, é o rumor do Facebook, e o rumor do Facebook é likes, loladas, amorezes, jinhos-miga!, uma coelha, música, vou-te-desamigar!, a troika, os bêémes dos políticos, os Marretas, cenouras para o público (a minha devolvi-a à menina das chakras e da energia positiva), desbunda.

E des-bundas.



Os feicebuqueiros saem com um sorriso meio amarelo desta sátira ao reino do Zuckerberg.

Uma nota pessoal: acho que foi a primeira vez na vida que publiquei LOL e logo num título.

Like!

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

If I Could Tell You

Fotografia de Michael Somoroff


Time will say nothing but I told you so,
Time only knows the price we have to pay;
If I could tell you I would let you know.

If we should weep when clowns put on their show,
If we should stumble when musicians play,
Time will say nothing but I told you so.

There are no fortunes to be told, although,
Because I love you more than I can say,
If I could tell you I would let you know.

The winds must come from somewhere when they blow,
There must be reasons why the leaves decay;
Time will say nothing but I told you so.

Perhaps the roses really want to grow,
The vision seriously intends to stay;
If I could tell you I would let you know.

Suppose all the lions get up and go,
And all the brooks and soldiers run away;
Will Time say nothing but I told you so?
If I could tell you I would let you know.
W.H. Auden

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Me perderé despacio

Fotografia de Jeanloup Sieff


Me perderé despacio
en tus rincones, en el preciso
hoyuelo de tu risa,
en las comisuras de tus ojos
—perdón, quise decir tu boca.
A veces me confundo:
es tan compleja y rica
toda tu anatomía.
Olvidarme del tedio,
del mundo ardido
que dicen que rompimos,
pero que destrozaron otros.
Dejar plantado mi trabajo,
escupir a mi jefe lo que pienso
de los Servicios Sociales,
desconducir mi coche
cincuenta y dos kilómetros
hasta la calle donde te tiene esclava
una oficina, gritarle basta
a los teléfonos, romper la cremallera
de los meses iguales,
setenta y tres centímetros
de espalda y de deseo: saberte viva
al fin, libre como internet,
como los yayoflautas
o las plantas que crecen
salvajes en las tejas.
Fundar mi patria, la tuya,
nuestra tierra
en dos metros de cama.
Acariciar palabras boca a boca.
Hasta que nada duela tanto.
Hasta que tanto duela nada.
Hasta que el mundo finja
que nos quiere y se digne
— por fin — a ser feliz.
Pedro Andreu

Respeitar o voto*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. Barack Obama ainda só estava a viver há nove meses na Casa Branca e foi logo agraciado com o Prémio Nobel da Paz. Escrevi aqui sobre isso, em Outubro de 2009: “Obama ainda não fez nada que se visse para merecer o prémio Nobel da Paz. É absurdo, depois da “guerra preventiva” de Bush, vir-se agora com a “paz preventiva” de Obama. De qualquer forma, este prémio estúpido não muda nada: a política externa americana vai passar a ser menos intervencionista.”

Prémio estúpido, claro: dá-se um prémio a uma pessoa pelo que ela fez, não por aquilo que ela vai fazer. Nesse caso não é um prémio, é um incentivo.

Obama é um mestre a usar o “poder suave” da palavra e tem usado a estratégia de falar directamente para a rua islâmica e tem sido ouvido. A rua árabe, que saiu em esperança de uma primavera democrática, contava com Obama. As coisas não têm corrido bem e na Síria tornaram-se num pesadelo.

Putin, na semana passada, decidiu imitar o “soft power” de Obama e publicou no New York Times uma carta dirigida ao povo americano sobre a Síria, uma carta que é uma lição de moral e uma bofetada de luva branca. Vai sair um Prémio Nobel da Paz para Vladimir?

2. A deserção em massa da última lista de Miguel Ginestal é um triste exemplo da forma como os eleitos desrespeitam o voto das pessoas e José Junqueiro fez bem em agora não ter colocado nenhum dos desertores nas listas.

O bloco de esquerda vai mais longe neste desrespeito: põe os eleitos a “rodar” e acha que assim é que é bem

No último mandato na assembleia municipal de Viseu, Carlos Vieira, o único e esforçado deputado bloquista, foi “rodado” por uma substituta, bem mais fraquinha por sinal.

Era importante que Carlos Vieira, novamente a votos, dissesse ao que vem: vai estar lá quatro anos ou a fotografia dele nos outdoors é uma mentira e vai deixar-se “rodar” outra vez?

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A luz de Setembro

Fotografia de Frances McLaughlin-Gill

A luz de Setembro já não besoura
aloura os corpos
mergulham no oceano
espalhando gotas de metal

Vozes chegam no arrastar das ondas
o amarelo ensopa-se de azul

Mergulhemos sem pressa
marcando álacres os passos
o mar apaga
marca as passadas apaga

O sol é pouco
morre vermelho sobre os dedos
das amendoeiras

Sustém a cabeça nas ondas
bebe a luz e os corpos
António Borges Coelho


Viriato*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 28 de Setembro de 2009


Na Hispânia, as coisas continuavam acesas entre os romanos e os lusitanos. Guerras, saques, fome, miséria. Roma desesperava.

Faltavam ainda 150 anos para Jesus Cristo nascer quando o pretor Sérvio Sulpício Galba fez saber por toda a Lusitânia que iria distribuir terras novas e férteis. Juntaram trinta mil lusitanos em idade de pegar em armas e Galba, hábil tribuno, fez-lhes um discurso a anunciar leite e mel, jurando desejar respeitá-los e viver em paz com eles.

A seguir, Galba dividiu os lusitanos em três grupos a pretexto de assim ser mais fácil a distribuição das terras.

Depois, chegou-se ao primeiro grupo e pediu-lhes que entregassem as armas. «Entre amigos não há lugar para armas», disse. A seguir, encurralou-os numa cerca e mandou-os matar. Os lusitanos em vão lhe recordaram as juras de amizade e desesperaram daquela traição. Galba, implacável, fez também o mesmo ao segundo e ao terceiro grupo.

Foram assassinados nove mil lusitanos, vinte mil foram vendidos como escravos e mil escaparam. Um dos que escapou foi Viriato que nunca mais se esqueceria ou perdoaria a desonrosa conduta de Galba.


Viriato, a seguir, assumiu o comando da resistência dos lusitanos, instalando o seu refúgio no Monte de Vénus, actual Sierra de San Pedro, na província de Cáceres.

Esta é a principal tese de “Lusitanos no Tempo de Viriato”, de João Luís Inês Vaz, livro escrito com excelente sentido da narrativa e que se lê de um fôlego.

A pesquisa histórica de Inês Vaz desconecta Viriato de Viseu.

É assim: enquanto Almeida Fernandes “põe” D. Afonso Henriques em Viseu, Inês Vaz “tira” Viriato de Viseu.

Não me canso de repetir: não há nada mais instável que o passado.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A única RETOMA a que temos tido direito — a do Cine Clube de Viseu


Hoje — REALITY 
de Matteo Garrone, Itália, 2012, 115'

Luciano, peixeiro napolitano, cuja disposição franca e alegre contagia todos à sua volta, decide concorrer ao Grande Fratello (versão italiana do reality show Big Brother).

Uma comédia de Matteo Garrone inspirada em factos reais, que recebeu o Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes 2012, repetindo o reconhecimento de Gomorra, em 2008.



+ detalhes sobre os outros filmes da RETOMA aqui.

Pequena elegia de Setembro

Fotografia de Pauliana Valente Pimentel

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
Eugénio de Andrade


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Quase Outono

Fotografia de Ken Hermann

Sentado no Outono desta praia quase deserta
vou contando os grãos de areia
em volta, e tudo são grãos
de areia onde se inscreve
uma lava
cada vez mais fria. As mãos
na terra, o pensamento nas nuvens
que derivam
ao sabor do vento. Cada vez mais frio.
O mesmo que agita
os meus cabelos brancos.
Casimiro de Brito


domingo, 15 de setembro de 2013

E a oficina de mestre Aquilino foi destapada... (#2)

Na sexta-feira foi inaugurada, na Rua Formosa de Viseu, uma estátua de Aquilino Ribeiro, mestre ímpar da literatura e um príncipe da liberdade.

Yuraldi Rodriguez Puentes
Tudo o que é icónico, tudo o que remete para representações simbólicas de uma comunidade, tem um potencial polémico elevado. Lembre-se o que aconteceu com a estátua do emigrante em Tondela

Neste caso, a abordagem naturalista e competente do escultor Yuraldi Rodriguez Puentes caiu no goto das pessoas e ainda bem.

Importa dizer, porque não é suficientemente conhecido, que a estátua é interactiva: olhando-se através dos buracos — no lado nascente e no lado poente da secretária — vêem-se écrans.

Resta-me cumprimentar a direcção do Centro de Estudos Aquilino Ribeiro, na pessoa de Alberto Correia, a quem agradeço me ter descrito há bastante tempo todo o contorno e vicissitudes deste projecto que, felizmente, foi levado a bom porto.

Para melhor compreensão do que se pretendia, partilho aqui o artigo de Henrique Almeida, da direcção do CEAR, publicado no dia da inauguração no Diário de Viseu:
Clicar para melhor leitura

Boxe autárquico


As eleições autárquicas são uma festa da democracia e o poder local é o maior sucesso e o mais importante pilar democrático da terceira república.

Claro que tanta gente a mexer e a mexer-se significa que aparece de tudo, porque há gente capaz de tudo, e nestas alturas vem ao de cima o melhor das pessoas mas também vem o pior: são os anódinos e hilariantes tesourinhos deprimentes, mas também é o aumento exponencial de denúncias anónimas e infundamentadas à PGR, os blogues e os panfletos anónimos nauseabundos, a filha-da-putice pura e dura.

E, literalmente, costuma haver molho e, muito pior, pelo menos uma vez a coisa escalou para uma tragédia. Espera-se que, no concelho de Viseu, se fique só pelo molho verbal como em Torredeita.

Depois, no dia 30 de Setembro, o boxe autárquico termina, tudo acalma, ficando um ou outro processo no tribunal a caracolar...

sábado, 14 de setembro de 2013

Ode à Lua

Achado aqui sem indicação de autoria


Detém um pouco, Musa, o largo pranto
que Amor te abre do peito;
e vestida de rico e ledo manto,
dêmos honra e respeito
àquela cujo objeito
todo o mundo alumia,
e quando escuro está é mais que o dia.

Ó Délia, que, apesar da névoa grossa,
cos teus raios de prata
a escura noite fazes, que não possa
encontrar o que trata,
e o que n’alma retrata,
Amor por teu divino
rosto, por que endoudeço e desatino:

Tu, que de fermosíssimas estrelas
coroas e rodeias
teus cabelos d'argento e faces belas,
e os campos fermoseias
co as rosas que semeias,
co as boninas que gera
o teu celeste amor na Primavera:

Pois, Délia, dos teus céus vendo estás quantos
furtos de puridades,
suspiros, mágoas, ais, músicas, prantos,
as amantes vontades,
üas por saudades,
outras por crus indícios,
fazem das próprias vidas sacrifícios;

vejo teu Endimião por estes montes,
suspenso o Céu, olhando,
e o teu nome, cos olhos feitos fontes,
embalde e em vão chamando,
pedindo e suspirando,
mercês à tua beldade
sem em ti achar üa hora piedade.

Por ti feito pastor de branco armento,
as selvas solitárias
acompanhado só do pensamento,
conversa as alimárias,
de todo amor contrárias,
mas não como ti duras,
onde lamenta e chora desventuras.

Por ti guarda o sitio fresco d'Ílio
suas sombras fermosas;
para ti, Erimanto e o lindo Epilio
as mais purpúreas rosas;
e as drogas cheirosas
deste nosso Oriente
também Arábia Felix eminente.

De que pantera, tigre, ou leopardo
as ásperas entranhas
não temeram o agudo e fero dardo,
quando pelas montanhas
mui remotas e estranhas
ligeira atravessavas,
tão fermosa que Amor de amor matavas?

Das castas virgens sempre os altos gritos,
clara Lucina, ouviste,
renovando lhe a força e os espritos;
mas os daquele triste
já nunca consentiste
ouvi los um momento,
para ser menos grave seu tormento.

Não fujas de mim assi, nem assi te escondas
dum tão fiel amante!
Olha como suspiram estas ondas,
e como o velho Atlante
o seu colo arrogante
move piadosamente,
ouvindo a minha voz fraca e doente.

Triste de mim, que o pior é queixar-me,
pois minhas queixas digo
a quem já ergue as mãos para matar-me,
como a crue imigo;
mas eu meu fado sigo,
que a isto me destina
e isto só pretende e só me ensina.

Quantos dias há que o Céu me desengana,
e eu sempre porfio
cada vez mais na minha teima insana!
Tendo livre alvedrio,
não fujo o desvario;
e este, que em mim vejo,
para esperança minha e meu desejo.

Oh! quanto milhor fora que dormissem
um sono perenal
estes meus olhos tristes, e não vissem
a causa de seu mal
fugir, a tempo tal,
mais que dantes, por teima,
mais cruel que ussa fera, mais que ema.

Ai de mim, que me abraso em fogo vivo,
com mil mortes ao lado,
e, quando mouro mais, então mais vivo!
Porque assi me há ordenado
meu infelice estado
que, quando mais me convida
a morte, para a morte tenha vida.

Minha secreta amiga, mansa noite,
estas rosas (porquanto
ouviste meus queixumes) ora dou te
este fresco adianto,
húmido ainda do pranto
e lágrimas da esposa
do cioso Titã, branca e fermosa.
Luís Vaz de Camões


E a oficina de mestre Aquilino foi destapada...




sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Lee el diario

Fotografia de Henri Cartier-Bresson

Lee el diario
pide un café
le echa edulcorante
lo revuelve
toma un sorbo
sonríe cuando Mafalda
le pregunta
— para qué lee el diario todos los días
si las noticias son siempre malas —
— para saber cuánto queda del mundo esta mañana —
le contesta.
Aldo Luis Novelli

Portas Pintadas (#2)

Rua Direita, Viseu



quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O amor



O amor

é uma coisa que desliza
por cima das lagoas
que corre pelos campos sem sentido
que empurra o vento
e apruma o sol no solstício
que derruba a bruma e fecha o horizonte
que nos faz ver de noite e de dia cegos
tacteando o ar sem provimento
que dá o movimento aos astros
e às sombras infinitas
que abre o mar por onde os escravos passam
e ficam livres sem saber
é a cascata que nos dilui
e lança na corrente sem perfídia
até ao oceano dos sentidos
é o iceberg que se funde
e derrota os titanics
que passam solitários pelas albas
é o assombro da manhã
o cantar dos ralos nas searas
o despertar das aves e rebanhos
o charco onde crescem amarelo e roxo
as flores da primavera

é só eu e tu
como nas novelas
Henrique Ruivo

Endorfinas*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

Há duas semanas foram vistos aqui os factores que os candidatos à câmara de Viseu controlam (ideias, listas e marketing) e, na semana passada, tratou-se daquilo que eles não controlam (a política nacional).


Chega agora a vez de se olhar para o dr. Ruas que, depois de seis mandatos e por imposição legal, abandona o seu gabinete no Rossio. Todas as semanas ele declara que está a sair contrariadíssimo, que quer regressar em 2017, e tem-se dedicado metodicamente à criação de condições para esse seu regresso.

O dr. Ruas quer estar em condições de poder recuperar um lugar que sente que lhe está a ser usurpado. A distribuição de subsídios — em que a visibilidade dos cheques às paróquias é peça importante — não é mais que uma ferramenta das várias por ele usadas para esse objectivo.

É necessário que se perceba esta relutância quase universal em largar-se posições de poder. Quando se dirige uma organização poderosa está-se sujeito a uma grande pressão, pressão a que o cérebro responde produzindo diariamente grande quantidade de endorfinas, endorfinas que causam dependência. O dr. Ruas neste Verão tem estado já a sentir, por antecipação, o síndrome de abstinência de endorfinas de que vai padecer no Outono.

Ponha-se com clareza a pergunta que parece que toda a gente tem medo de formular: e se o dr. Ruas cumpre mesmo a ameaça e se apresenta a votos daqui a quatro anos?

Ora, nesse caso, em 2017 só dois cenários podem acontecer: (i) ou o presidente da câmara é José Junqueiro e vai acontecer então o aguardadíssimo duelo directo entre as duas velhas raposas da política viseense; (ii) ou o presidente é António Almeida Henriques e a candidatura do dr. Ruas parte em cacos o PSD.

Está-se, portanto, perante esta situação paradoxal: não será melhor aos simpatizantes do dr. Ruas, para evitarem problemas no futuro, votarem agora em José Junqueiro?

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Nós somos

Fotografia de Gérard Castello-Lopes


Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.

Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos

Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.
António Ramos Rosa

Eleições 2009 (V)*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 11 de Setembro de 2009

1. Luís Paixão Martins dirige a LPM, a agência de comunicação que esteve ligada à vitória de Sócrates em 2005 e à de Cavaco, em 2006. Em Junho, o jornal I. entrevistou-o, em plena ressaca da derrota do PS nas europeias, as primeiras eleições nacionais em que aquele partido ficou abaixo de um milhão de votos.

Luís Paixão Martins começou por largar umas farpas ao apoio que Vital Moreira tem dado ao lobbie das farmacêuticas e deixou um recado claro: “O marketing vai valer muito pouco nas próximas eleições.”

Sobre o falhanço das sondagens disse: “Não [é] por culpa, certamente, de quem as faz, mas em consequência da frustração, da perplexidade e do cinismo dos eleitores.”

O PS, depois das europeias, achou suficiente calar o sr. Vitalino Canas, mandar o ministro Santos Silva malhar menos, e pôr um homem de negócios chamado António Vitorino a tratar do programa eleitoral.

Para já, muita da nomenclatura socialista precata as “costas” e põe-se no “seguro”. Para cumprir calendário, lança diatribes atrás de diatribes contra Manuela Ferreira Leite, como se viu na apresentação da lista de candidatos a deputados do distrito de Viseu.

Daqui a umas semanas, se for caso disso, essa mesmíssima gente estará na primeira linha a defender um governo de bloco central com Manuela Ferreira Leite.

2. O “dia a seguir” no PS já tem nomes e já tem assunto. Os nomes são os óbvios: António Costa e António José Seguro. E o assunto também é óbvio: a barbárie marilurdista na educação.

É bom que o PS fique à frente do PSD em 27 de Setembro. É que, caso contrário, as coisas podem ficar bravas dentro do partido. Mesmo muito bravas.

Cardiologia eleitoral


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Seu nome

Fotografia de Richard Avedon


se eu tivesse um bar ele teria o seu nome
se eu tivesse um barco ele teria o seu nome
se eu comprasse uma égua daria a ela o seu nome
minha cadela imaginária tem o seu nome
se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo o seu nome
se eu morrer velhinho, no suspiro final balbuciarei o seu nome
se eu for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o seu nome
se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome
se eu me suicidar ao puxar o gatilho pensarei no seu nome
a primeira garota que beijei tinha o seu nome
na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome
antes de você tive três namoradas com o seu nome
na rua há mulheres que parecem ter o seu nome
na locadora que frequento tem uma moça com o seu nome
às vezes as nuvens quase formam o seu nome
olhando as estrelas é sempre possível desenhar o seu nome
o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome
Apollinaire escreveu poemas a Lou porque na loucura da guerra não conseguia lembrar o seu nome
não entendo por que Chico Buarque não compôs uma música para o seu nome
se eu fosse um travesti usaria o seu nome
se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome
minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina teria o seu nome
se eu tiver uma filha ela terá o seu nome
minha senha do e-mail já foi o seu nome
minha senha do banco é uma variação do seu nome
tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem “mãe” em vez do seu nome
tenho pena dos seus pais porque em geral dizem “filha” em vez do seu nome
tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o termo ex-mulher ao seu nome
tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome
quando fico bêbado falo muito o seu nome
quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o seu nome
é difícil falar de você sem mencionar o seu nome
uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome
coelho tinha o seu nome
xícara tinha o seu nome
teleférico tinha o seu nome
no índice onomástico da minha biografia haverá milhares de ocorrências do seu nome
na foto de Korda para onde olha o Che senão para o infinito do seu nome?
algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome
detesto trabalho porque me impede de me concentrar no seu nome
cabala é uma palavra linda, mas não chega aos pés do seu nome
no cabo da minha bengala gravarei o seu nome
não posso ser niilista enquanto existir o seu nome
não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do seu nome
não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome
não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome
não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu nome
quando saí da casa dos meus pais fui atrás do seu nome
morei três anos num bairro que tinha o seu nome
espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome
espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu nome
espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome
espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu nome
a literatura não me interessa tanto quanto o seu nome
quando a poesia é boa é como o seu nome
quando a poesia é ruim tem algo do seu nome
estou cansado da vida, mas isso não tem nada a ver com o seu nome
estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu nome
talvez eu não seja um poeta a altura do seu nome
por via das dúvidas vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu nome
Fabrício Corsaletti

Portas (#1)

Rua Direita — Viseu

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

The Ballad Of The Lonely Masturbator

Fotografia de Steve Lyon


The end of the affair is always death.
She's my workshop. Slippery eye,
out of the tribe of myself my breath
finds you gone. I horrify
those who stand by. I am fed.
At night, alone, I marry the bed.

Finger to finger, now she's mine.
She's not too far. She's my encounter.
I beat her like a bell. I recline
in the bower where you used to mount her.
You borrowed me on the flowered spread.
At night, alone, I marry the bed.

Take for instance this night, my love,
that every single couple puts together
with a joint overturning, beneath, above,
the abundant two on sponge and feather,
kneeling and pushing, head to head.
At night, alone, I marry the bed.

I break out of my body this way,
an annoying miracle. Could I
put the dream market on display?
I am spread out. I crucify.
My little plum is what you said.
At night, alone, I marry the bed.

Then my black-eyed rival came.
The lady of water, rising on the beach,
a piano at her fingertips, shame
on her lips and a flute's speech.
And I was the knock-kneed broom instead.
At night, alone, I marry the bed.

She took you the way a women takes
a bargain dress off the rack
and I broke the way a stone breaks.
I give back your books and fishing tack.
Today's paper says that you are wed.
At night, alone, I marry the bed.

The boys and girls are one tonight.
They unbutton blouses. They unzip flies.
They take off shoes. They turn off the light.
The glimmering creatures are full of lies.
They are eating each other. They are overfed.
At night, alone, I marry the bed.
Anne Sexton