sábado, 31 de agosto de 2013

Bluebird

Fotografia de Joseph Rodriguez
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
há um pássaro azul em meu coração que
deseja sair
mas sou muito durão para ele,
eu digo, fique aí, não vou
deixar ninguém te
ver.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.
há um pássaro azul em meu coração que
deseja sair
mas eu derramo whiskey nele e inalo
fumaça de cigarro
e as prostitutas, os bartenders
e os balconistas de mercado
nunca sabem que
ele está
lá dentro.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
há um pássaro azul em meu coração que
deseja sair
mas sou muito durão para ele,
eu digo,
fique escondido, você quer me
atrapalhar?
quer estragar os
trabalhos?
quer arruinar minhas vendas de livros na
Europa?

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
há um pássaro azul em meu coração que
deseja sair
mas eu sou muito esperto, só o deixo sair
algumas vezes à noite
quando todos estão adormecidos.
eu digo, eu sei que você está aí,
então não fique
triste.


then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?


então o coloco de volta,
mas ele está cantando um pouco
lá dentro, eu ainda não o deixei
morrer
e nós dormimos juntos desse
jeito
com nosso
pacto secreto
e é belo o bastante para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?

Charles Bukowski
Tradução achada aqui

Ó "furtuna", deixa que o gato lagarto se despeça de Agosto com esperança no futuro e...

... que o Sporting ganhe hoje aos lampiões... 


À venda na Feira de S. Mateus

3,14


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Projecto de Sucessão



Para o Mário Henrique
Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.
António Maria Lisboa



Palcos Livres, hoje e amanhã em Viseu — Viva a Zunzum!


quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Um mês

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Falta exactamente um mês para as autárquicas. Olhe-se para o que se passa no concelho de Viseu.

Não há nada a dizer ainda sobre Manuela Antunes, do bloco, e Francisco Almeida, da CDU, uma vez que eles reservaram as suas energias para Setembro. Já os candidatos do CDS, do PS e do PSD não foram de férias.


Com os melhores outdoors, o combativo Hélder Amaral tenta ser eleito o nono vereador, desempatador das votações na câmara. Não parece nada fácil. O candidato à assembleia municipal do CDS, Fernando Figueiredo, autor do melhor blogue local, não é homem de aparelho como são todos os outros cabeças-de-lista. Nele reside alguma da pouca esperança que a próxima assembleia municipal venha a ter algum interesse político.



Fraco no marketing e nas redes sociais, José Junqueiro tem-se fixado com competência nos temas da economia, do emprego e dos problemas sociais. Os quatro primeiros nomes da lista da câmara são sólidos. Como aqui já foi referido, Junqueiro procurou que a lista para a assembleia municipal não lhe fizesse sombra, nem tivesse mais votos do que ele.



Com uma campanha competente e com meios, António Almeida Henriques tem apostado tudo em capitalizar o justificado orgulho que os viseenses sentem pela sua terra e tem tido a sorte de os outros candidatos o deixarem sozinho nesse tópico. Na lista para a câmara, pôs o presidente da concelhia laranja à frente de Ana Paula Santana, deixando-a num lugar inelegível, o que, para além de um erro, é uma demonstração de fraqueza. Almeida Henriques, ao escolher Mota Faria para cabeça-de-lista à assembleia municipal em vez de João Cotta, teve exactamente a mesma estratégia de Junqueiro.

Como há uma parte do eleitorado que faz questão de repartir os seus três votos autárquicos por partidos diferentes, ou Junqueiro ou Almeida Henriques, um deles vai ser ultrapassado em votos pelo seu candidato à assembleia municipal.

Há sempre qualquer coisa que está para acontecer... (#2)



quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Un amor así

Fotografia de Irving Penn


Voy a hablarte de un amor desprotegido,
de un amor que se abre y abre y abre
y no piensa si actuar así es una actitud prudente y razonable.

De un amor que solo sabe ser y no calcula si a cambio
debe obtener amor de alguien.

Este es un amor totalmente irresponsable
que no corresponde a las reglas legales de intercambio.
No pide y solo es alegre si a todos y en todo se extiende.

Definitivamente, este amor es un amor totalmente inconveniente
en esta sociedad tan inteligente y razonable.
Un amor así es un sentimiento que no da utilidades a nadie
por eso es un derroche material imperdonable.
Guzmán Lavenant


terça-feira, 27 de agosto de 2013

Back in the USSR

Feira de S. Mateus, Viseu


Flew in from Miami Beach BOAC
Didn't get to bed last night
On the way the paper bag was on my knee
Man, I had a dreadful flight
I'm back in the USSR
You don't know how lucky you are, boy
Back in the USSR, yeah



Been away so long I hardly knew the place
Gee, it's good to be back home
Leave it till tomorrow to unpack my case
Honey disconnect the phone
I'm back in the USSR
You don't know how lucky you are, boy
Back in the US
Back in the US
Back in the USSR

Well the Ukraine girls really knock me out
They leave the West behind
And Moscow girls make me sing and shout
That Georgia's always on my my my my my my my my my mind
Oh, come on
Hu hey hu, hey, ah, yeah
Yeah, yeah, yeah
I'm back in the USSR
You don't know how lucky you are, boys
Back in the USSR

Well the Ukraine girls really knock me out
They leave the West behind
And Moscow girls make me sing and shout
That Georgia's always on my my my my my my my my my mind

Oh, show me round your snow peaked mountains way down south
Take me to your daddy's farm
Let me hear your balalaika's ringing out
Come and keep your comrade warm
I'm back in the USSR
Hey, you don't know how lucky you are, boy
Back in the USSR
Oh, let me tell you honey

THE RAY BAND — hoje na Feira de S. Mateus


Fotografias de José Alfredo

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Ó Francisco Almeida, devo-te dizer que fico espantado: a CDU de S. Pedro do Sul ainda consegue gostar mais de vodka-laranja que a CDU de Viseu...



Achei no lixo

 
Fotografia de Viviane Sassen



Achei no lixo um velho caderno de significados
sem nome e com todas as páginas em branco
ando agora a preenchê-lo com as minhas dúvidas
por exemplo dor alegria distracção partilha dádiva
ou com respostas para as perguntas ainda por fazer
por exemplo dor alegria distracção partilha dádiva
logo que esteja completamente preenchido devolvo-o
ao lixo de onde o trouxe com pena de quem o encontrar
velho e usado e com todas as páginas em branco.
Carlos Alberto Machado


domingo, 25 de agosto de 2013

A Luz que Vem das Pedras

 
Fotografia de Philip Toledano



A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?
Pedro Tamen


sábado, 24 de agosto de 2013

love's function is to fabricate unknownness (a função do amor é fabricar desconhecimento) — e. e. cummings

Fotografia de Martin Munkácsi


love's function is to fabricate unknownness

(known being wishless; but love, all of wishing)
though life's lived wrongsideout, sameness chokes oneness
truth is confused with fact, fish boast of fishing

and men are caught by worms (love may not care
if time totters, light droops, all measures bend
nor marvel if a thought should weigh a star
—dreads dying least; and less, that death should end)

how lucky lovers are) whose selves abide
under whatever shall discovered be)
whose ignorant each breathing dares to hide
more than most fabulous wisdom fears to see

(who laugh and cry) who dream, create and kill
while the world moves; and every part stands still:


a função do amor é fabricar desconhecimento

(o conhecido não tem desejo; mas todo o amor é desejar)
embora se viva às avessas, o idêntico sufoque o uno
a verdade se confunda com o fato, os peixes se gabem de pescar

e os homens sejam apanhados pelos vermes (o amor pode não se importar
se o tempo troteia, a luz declina, os limites vergam
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela
— o medo tem morte menor; e viverá menos quando a morte acabar)

que afortunados são os amantes (cujos seres se submetem
ao que esteja para ser descoberto)
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver

(que riem e choram) que sonham, criam e matam
enquanto o todo se move; e cada parte permanece quieta:



it may not always be so; and i say
that if your lips, which i have loved, should touch
another's, and your dear strong fingers clutch
his heart, as mine in time not far away;
if on another's face your sweet hair lay
in such a silence as i know,or such
great writhing words as, uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be, i say if this should be-
you of my heart, send me a little word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying, Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face, and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.


pode não ser sempre assim; e eu digo
que se os teus lábios,que amei, tocarem
os de outro, e os teus ternos fortes dedos aprisionarem
o seu coração, como o meu não há muito tempo;
se no rosto de outro o teu doce cabelo repousar
naquele silêncio que conheço, ou naquelas
grandiosas contorcidas palavras que, dizendo demasiado,
permanecem desamparadamente diante do espírito ausente;

se assim for, eu digo se assim for —
tu do meu coração, manda-me um recado;
para que possa ir até ele, e tomar as suas mãos,
dizendo, aceita toda a felicidade de mim.
E então voltarei o rosto, e ouvirei um pássaro
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas



the first of all my dreams was of
a lover and his only love,
strolling slowly(mind in mind)
through some green mysterious land

until my second dream begins –
the sky is wild with leaves; which dance
and dancing swoop (and swooping whirl
over a frightened boy and girl)

but that mere fury soon became
silence: in hunger always whom
two tiny selves sleep (doll by doll)
motionless under magical

forever falling snow.
And quickly this dreamer wept: and so
she quickly dreamed a dream of spring
- how you and i are blossoming


o primeiro de todos os meus sonhos era sobre
um amante e o seu único amor,
caminhando devagar (pensamento no pensamento)
por alguma verde misteriosa terra

até o meu segundo sonho começar—
o céu é agreste de folhas; que dançam
e dançando arrebatam (e arrebatando rodopiam
sobre um rapaz e uma rapariga que se assustam)

mas essa mera fúria cedo se tornou
silêncio: em mais vasto sempre quem
dois pequeninos seres dormem (bonecas lado a lado)
imóveis sob a mágica

para sempre caindo neve.
E então este sonhador chorou: e então
ela rapidamente sonhou um sonho de primavera
- onde tu e eu estamos a florescer

Fotografia de Martin Munkácsi

in time’s a noble mercy of proportion
with generosities beyond believing
(though flesh and blood accuse him of coercion
or mind and soul convict him of deceiving)

whose ways are neither reasoned nor unreasoned,
his wisdom cancels conflict and agreement
–saharas have their centuries, ten thousand
of which are smaller than a rose’s moment

there’s time for laughing and there time for crying–
for hoping for despair for peace for longing
– a time for growing and a time for dying:
a night for silence and a day for singing

but more than al l(as all your more than eyes
tell me) there is a time for timelessness


no tempo há a nobre clemência da proporção
com generosidades para além do acreditar
(embora carne e sangue o acusem de coacção
ou mente e alma o condenem por decepcionar)

os seus caminhos não são nem racionais nem irracionais,
a sua sabedoria anula conflito e entendimento
- os saaras têm os seus séculos; dez mil
dos quais são mais pequenos do que para a rosa um momento

há tempo para rir e há tempo para chorar -
para a esperança para o desespero para a paz para a saudade
- um tempo para crescer e um tempo para morrer:
uma noite para o silêncio e um dia para cantar

mas mais do que tudo (como os teus mais do que olhos
me dizem) há um tempo para a eternidade



when my love comes to see me it’s
just a little like music,a
little more like curving colour (say
orange)
against silence, or darkness….

the coming of my love emits
a wonderful smell in my mind,

you should see when i turn to find
her how my least heart-beat becomes less.
And then all her beauty is a vise

whose stilling lips murder suddenly me,

but of my corpse the tool her smile makes something
suddenly luminous and precise

—and then we are I and She….

what is that the hurdy-gurdy’s playing


quando o meu amor vem ter comigo é
um pouco como música, um
pouco mais como uma cor curvando-se (por exemplo
laranja)
contra o silêncio, ou a escuridão....

a vinda do meu amor emite
um maravilhoso odor no meu pensamento,

devias ver quando a encontro
como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno

cujos quieto
lábios me assassinam subitamente,

mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo
subitamente luminoso e preciso

—e então somos Eu e Ela....

o que é isso que o realejo toca


i am a little church (no great cathedral)
far from the splendor and squalor of hurrying cities
- i do not worry if briefer days grow briefest,
i am not sorry when sun and rain make april

my life is the life of the reaper and the sower;
my prayers are prayers of earth's own clumsily striving
(finding and losing and laughing and crying) children
whose any sadness or joy is my grief or my gladness

around me surges a miracle of unceasing
birth and glory and death and resurrection:
over my sleeping self float flaming symbols
of hope,and i wake to a perfect patience of mountains

i am a little church (far from the frantic
world with its rapture and anguish) at peace with nature
-i do not worry if longer nights grow longest;
i am not sorry when silence becomes singing

winter by spring, i lift my diminutive spire to
merciful Him Whose only now is forever:
standing erect in the deathless truth of His presence
(welcoming humbly His light and proudly His darkness)


sou uma pequena igreja (não uma grande catedral)
longe da opulência e da imundície das apressadas cidades
- não me preocupo se os dias mais breves se tornam brevíssimos,
não tenho pena quando sol e chuva fazem Abril

a minha vida é a vida do ceifeiro e do semeador;
as minhas orações são as orações da terra onde desajeitadas lutam
(encontrando e perdendo e rindo e chorando)as crianças
cuja qualquer tristeza ou alegria é meu tormento e meu aprazimento

à minha volta surge um milagre de incessante
nascer e glória e morte e ressurreição:
sobre o meu ser adormecido flutuam flamejantes símbolos
de esperança,e eu acordo para uma perfeita paciência de montanhas

sou uma pequena igreja (longe do alucinado
mundo com o seu enlevo e angústia)em paz com a natureza
- não me preocupo se as noites mais longas se tornam longuíssimas
não tenho pena quando a calma se torna canto

de inverno a primavera,ergo a minha espiral diminuta para
o misericordioso Ele Cujo único agora é para sempre:
permanecendo erecto na verdade imortal da Sua Presença
(acolhendo humildemente a Sua luz e orgulhosamente as suas trevas)


may my heart always be open to little
birds who are the secrets of living
whatever they sing is better than to know
and if men should not hear them men are old

may my mind stroll about hungry
and fearless and thirsty and supple
and even if it's sunday may i be wrong
for whenever men are right they are not young

and may myself do nothing usefully
and love yourself so more than truly
there's never been quite such a fool who could fail
pulling all the sky over him with one smile


que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso


i thank You God for most this amazing
day: for the leaping greenly spirits of trees
and a blue true dream of sky; and for everything
which is natural which is infinite which is yes

(i who have died am alive again today,
and this is the sun's birthday; this is the birth
day of life and of love and wings: and of the gay
great happening illimitably earth)

how should tasting touching hearing seeing
breathing any--lifted from the no
of all nothing--human merely being
doubt unimaginable You?

(now the ears of my ears awake and
now the eyes of my eyes are opened)



obrigado Meu Deus por mais este espantoso
dia: pelos saltitantes e virentes espíritos das árvores
e um azul autêntico sonho celeste; e por tudo
o que é natural o que é infinito o que é sim

(eu que morri estou vivo de novo,
e este é o dia de anos do sol; este é de anos
o dia da vida e do amor e asas: e do alegre
grande evento ilimitavelmente terra)

como poderia saboreando tocando ouvindo lendo
respirando qualquer -- erguido do não
de todo o nada -- ser simplesmente humano
duvidar inimaginável de Ti?

(agora os ouvidos dos meus ouvidos despertam e
agora os olhos dos meus olhos estão abertos)


dive for dreams
or a slogan may topple you
(trees are their roots
and wind is wind)

trust your heart
if the seas catch fire
(and live by love
though the stars walk backward)

honour the past
but welcome the future
(and dance your death
away at the wedding)

never mind a world
with its villains or heroes
(for good likes girls
and tomorrow and the earth)

in spite of everything
which breathes and moves, since Doom
(with white longest hands
neating each crease)

will smooth entirely our minds
-before leaving my room
i turn, and (stooping
through the morning)

kiss this pillow, dear
where our heads lived and were.

mergulha nos sonhos
ou um lema pode ser teu aluimento
(as árvores são as suas raízes
e o vento é o vento)

confia no teu coração
se os mares se incendeiam
(e vive pelo amor
embora as estrelas para trás andem)

honra o passado
mas acolhe o futuro
(e esgota no bailado
deste casamento a tua morte)

não te importes com o mundo
com quem faz a paz e a guerra
(pois deus gosta de raparigas
e do amanhã e da terra) ...

beija esta almofada, querida
onde as nossas cabeças viveram e estiveram.

e. e. cummings
Tradução: Cecília Rego Pinheiro

As varandas vão botar música


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Campónio é o bigode da tua tia, ó Luciano!

Correio da Manhã

Emboramente, haja aqui nevoeiro e haja aqui um facto:
 
— o nevoeiro é, a partir duma sondagem, tirar-se a conclusão que Oeiras vai isaltinar em 2013;
 
— o facto é que, nas autárquicas de 2009, Oeiras isaltinou vergonhosamente, enquanto Felgueiras não felgueirou.

Perigo na N16

As placas de perigo...

... evitam este perigo?

Nas janelas de Viseu — Márcia Leite, Liliana Rodrigues, Joana Sevivas, Ana Morgado, Maria Aguiar, Tânia Catarino

João Sevivas escreve os primeiros textos pensados para algumas janelas da cidade de Viseu. 

As janelas como abertura para o mundo, como marca de uma época, de classes, de géneros, de famílias. 
A condição da mulher. 
Anseios, sonhos e liberdade.

Viseu, Rua D. Duarte (em frente da janela manuelina)
sexta-feira, dia 23, às 21h30
sábado, dia 24, pelas 22h30


+ info aqui


Mestre Alberto Correia sobre o mestre Albino Ribeiro *

Jornal do Centro, edição de 22.8.2013, p. 26

* Imperdíveis, todas as semanas, as histórias telúricas de Alberto Correia e a coluna "Arcas da Memória", no Jornal do Centro

Esta é a Forma Fêmea (Parte V de "Eu canto o corpo eléctrico", de Walt Withman)

Fotografia de Paul McDonough

Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atracção,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geleia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.

Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.

A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e activa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma reflectida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.
Walt Whitman




Poema completo:

1
I sing the body electric,
The armies of those I love engirth me and I engirth them,
They will not let me off till I go with them, respond to them,
And discorrupt them, and charge them full with the charge of the soul.

Was it doubted that those who corrupt their own bodies conceal themselves?
And if those who defile the living are as bad as they who defile the dead?
And if the body does not do fully as much as the soul?
And if the body were not the soul, what is the soul?

2
The love of the body of man or woman balks account, the body itself
balks account,
That of the male is perfect, and that of the female is perfect.

The expression of the face balks account,
But the expression of a well-made man appears not only in his face,
It is in his limbs and joints also, it is curiously in the joints of
his hips and wrists,
It is in his walk, the carriage of his neck, the flex of his waist
and knees, dress does not hide him,
The strong sweet quality he has strikes through the cotton and broadcloth,
To see him pass conveys as much as the best poem, perhaps more,
You linger to see his back, and the back of his neck and shoulder-side.

The sprawl and fulness of babes, the bosoms and heads of women, the
folds of their dress, their style as we pass in the street, the
contour of their shape downwards,
The swimmer naked in the swimming-bath, seen as he swims through
the transparent green-shine, or lies with his face up and rolls
silently to and from the heave of the water,
The bending forward and backward of rowers in row-boats, the
horse-man in his saddle,
Girls, mothers, house-keepers, in all their performances,
The group of laborers seated at noon-time with their open
dinner-kettles, and their wives waiting,
The female soothing a child, the farmer's daughter in the garden or
cow-yard,
The young fellow hosing corn, the sleigh-driver driving his six
horses through the crowd,
The wrestle of wrestlers, two apprentice-boys, quite grown, lusty,
good-natured, native-born, out on the vacant lot at sundown after work,
The coats and caps thrown down, the embrace of love and resistance,
The upper-hold and under-hold, the hair rumpled over and blinding the eyes;
The march of firemen in their own costumes, the play of masculine
muscle through clean-setting trowsers and waist-straps,
The slow return from the fire, the pause when the bell strikes
suddenly again, and the listening on the alert,
The natural, perfect, varied attitudes, the bent head, the curv'd
neck and the counting;
Such-like I love—I loosen myself, pass freely, am at the mother's
breast with the little child,
Swim with the swimmers, wrestle with wrestlers,
march in line with the firemen, and pause, listen, count.
3
I knew a man, a common farmer, the father of five sons,
And in them the fathers of sons, and in them the fathers of sons.

This man was a wonderful vigor, calmness, beauty of person,
The shape of his head, the pale yellow and white of his hair and
beard, the immeasurable meaning of his black eyes, the richness
and breadth of his manners,
These I used to go and visit him to see, he was wise also,
He was six feet tall, he was over eighty years old, his sons were
massive, clean, bearded, tan-faced, handsome,
They and his daughters loved him, all who saw him loved him,
They did not love him by allowance, they loved him with personal love,
He drank water only, the blood show'd like scarlet through the
clear-brown skin of his face,
He was a frequent gunner and fisher, he sail'd his boat himself, he
had a fine one presented to him by a ship-joiner, he had
fowling-pieces presented to him by men that loved him,
When he went with his five sons and many grand-sons to hunt or fish,
you would pick him out as the most beautiful and vigorous of the gang,
You would wish long and long to be with him, you would wish to sit
by him in the boat that you and he might touch each other.

4
I have perceiv'd that to be with those I like is enough,
To stop in company with the rest at evening is enough,
To be surrounded by beautiful, curious, breathing, laughing flesh is enough,
To pass among them or touch any one, or rest my arm ever so lightly
round his or her neck for a moment, what is this then?
I do not ask any more delight, I swim in it as in a sea.

There is something in staying close to men and women and looking
on them, and in the contact and odor of them, that pleases the soul well,
All things please the soul, but these please the soul well.

5
This is the female form,
A divine nimbus exhales from it from head to foot,
It attracts with fierce undeniable attraction,
I am drawn by its breath as if I were no more than a helpless vapor,
all falls aside but myself and it,
Books, art, religion, time, the visible and solid earth, and what
was expected of heaven or fear'd of hell, are now consumed,
Mad filaments, ungovernable shoots play out of it, the response
likewise ungovernable,
Hair, bosom, hips, bend of legs, negligent falling hands all
diffused, mine too diffused,
Ebb stung by the flow and flow stung by the ebb, love-flesh swelling
and deliciously aching,
Limitless limpid jets of love hot and enormous, quivering jelly of
love, white-blow and delirious nice,
Bridegroom night of love working surely and softly into the prostrate dawn,
Undulating into the willing and yielding day,
Lost in the cleave of the clasping and sweet-flesh'd day.

This the nucleus—after the child is born of woman, man is born of woman,
This the bath of birth, this the merge of small and large, and the
outlet again.

Be not ashamed women, your privilege encloses the rest, and is the
exit of the rest,
You are the gates of the body, and you are the gates of the soul.

The female contains all qualities and tempers them,
She is in her place and moves with perfect balance,
She is all things duly veil'd, she is both passive and active,
She is to conceive daughters as well as sons, and sons as well as daughters.

As I see my soul reflected in Nature,
As I see through a mist, One with inexpressible completeness,
sanity, beauty,
See the bent head and arms folded over the breast, the Female I see.

6
The male is not less the soul nor more, he too is in his place,
He too is all qualities, he is action and power,
The flush of the known universe is in him,
Scorn becomes him well, and appetite and defiance become him well,
The wildest largest passions, bliss that is utmost, sorrow that is
utmost become him well, pride is for him,
The full-spread pride of man is calming and excellent to the soul,
Knowledge becomes him, he likes it always, he brings every thing to
the test of himself,
Whatever the survey, whatever the sea and the sail he strikes
soundings at last only here,
(Where else does he strike soundings except here?)

The man's body is sacred and the woman's body is sacred,
No matter who it is, it is sacred—is it the meanest one in the
laborers' gang?
Is it one of the dull-faced immigrants just landed on the wharf?
Each belongs here or anywhere just as much as the well-off, just as
much as you,
Each has his or her place in the procession.

(All is a procession,
The universe is a procession with measured and perfect motion.)

Do you know so much yourself that you call the meanest ignorant?
Do you suppose you have a right to a good sight, and he or she has
no right to a sight?
Do you think matter has cohered together from its diffuse float, and
the soil is on the surface, and water runs and vegetation sprouts,
For you only, and not for him and her?

7
A man's body at auction,
(For before the war I often go to the slave-mart and watch the sale,)
I help the auctioneer, the sloven does not half know his business.

Gentlemen look on this wonder,
Whatever the bids of the bidders they cannot be high enough for it,
For it the globe lay preparing quintillions of years without one
animal or plant,
For it the revolving cycles truly and steadily roll'd.

In this head the all-baffling brain,
In it and below it the makings of heroes.

Examine these limbs, red, black, or white, they are cunning in
tendon and nerve,
They shall be stript that you may see them.

Exquisite senses, life-lit eyes, pluck, volition,
Flakes of breast-muscle, pliant backbone and neck, flesh not flabby,
good-sized arms and legs,
And wonders within there yet.

Within there runs blood,
The same old blood! the same red-running blood!
There swells and jets a heart, there all passions, desires,
reachings, aspirations,
(Do you think they are not there because they are not express'd in
parlors and lecture-rooms?)

This is not only one man, this the father of those who shall be
fathers in their turns,
In him the start of populous states and rich republics,
Of him countless immortal lives with countless embodiments and enjoyments.

How do you know who shall come from the offspring of his offspring
through the centuries?
(Who might you find you have come from yourself, if you could trace
back through the centuries?)

8
A woman's body at auction,
She too is not only herself, she is the teeming mother of mothers,
She is the bearer of them that shall grow and be mates to the mothers.

Have you ever loved the body of a woman?
Have you ever loved the body of a man?
Do you not see that these are exactly the same to all in all nations
and times all over the earth?

If any thing is sacred the human body is sacred,
And the glory and sweet of a man is the token of manhood untainted,
And in man or woman a clean, strong, firm-fibred body, is more
beautiful than the most beautiful face.

Have you seen the fool that corrupted his own live body? or the fool
that corrupted her own live body?
For they do not conceal themselves, and cannot conceal themselves.

9
O my body! I dare not desert the likes of you in other men and
women, nor the likes of the parts of you,
I believe the likes of you are to stand or fall with the likes of
the soul, (and that they are the soul,)
I believe the likes of you shall stand or fall with my poems, and
that they are my poems,
Man's, woman's, child, youth's, wife's, husband's, mother's,
father's, young man's, young woman's poems,
Head, neck, hair, ears, drop and tympan of the ears,
Eyes, eye-fringes, iris of the eye, eyebrows, and the waking or
sleeping of the lids,
Mouth, tongue, lips, teeth, roof of the mouth, jaws, and the jaw-hinges,
Nose, nostrils of the nose, and the partition,
Cheeks, temples, forehead, chin, throat, back of the neck, neck-slue,
Strong shoulders, manly beard, scapula, hind-shoulders, and the
ample side-round of the chest,
Upper-arm, armpit, elbow-socket, lower-arm, arm-sinews, arm-bones,
Wrist and wrist-joints, hand, palm, knuckles, thumb, forefinger,
finger-joints, finger-nails,
Broad breast-front, curling hair of the breast, breast-bone, breast-side,
Ribs, belly, backbone, joints of the backbone,
Hips, hip-sockets, hip-strength, inward and outward round,
man-balls, man-root,
Strong set of thighs, well carrying the trunk above,
Leg-fibres, knee, knee-pan, upper-leg, under-leg,
Ankles, instep, foot-ball, toes, toe-joints, the heel;
All attitudes, all the shapeliness, all the belongings of my or your
body or of any one's body, male or female,
The lung-sponges, the stomach-sac, the bowels sweet and clean,
The brain in its folds inside the skull-frame,
Sympathies, heart-valves, palate-valves, sexuality, maternity,
Womanhood, and all that is a woman, and the man that comes from woman,
The womb, the teats, nipples, breast-milk, tears, laughter, weeping,
love-looks, love-perturbations and risings,
The voice, articulation, language, whispering, shouting aloud,
Food, drink, pulse, digestion, sweat, sleep, walking, swimming,
Poise on the hips, leaping, reclining, embracing, arm-curving and tightening,
The continual changes of the flex of the mouth, and around the eyes,
The skin, the sunburnt shade, freckles, hair,
The curious sympathy one feels when feeling with the hand the naked
meat of the body,
The circling rivers the breath, and breathing it in and out,
The beauty of the waist, and thence of the hips, and thence downward
toward the knees,
The thin red jellies within you or within me, the bones and the
marrow in the bones,
The exquisite realization of health;
O I say these are not the parts and poems of the body only, but of the soul,
O I say now these are the soul!
Walt Whitman