quarta-feira, 31 de julho de 2013

Eleições 2009 (IV)

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 31 de Julho de 2009


Quais dos nove deputados eleitos pelo distrito de Viseu merecem ser reconduzidos? Pela minha análise, três deputados e meio:

1. Hélder Amaral (CDS) – foi, sem dúvida, o melhor deputado de Viseu. Teve uma presença assídua nos media locais e nacionais e mostrou saber pensar pela própria cabeça.

Francisco Peixoto, há uns anos, deixou uma marca de qualidade na bancada do CDS. Hélder Amaral, agora, não lhe ficou atrás.

2. José Junqueiro (PS) – foi um vice-presidente subutilizado da bancada da maioria.

Paulo Rangel, no seu discurso de despedida do parlamento, chamou “diligente” a Junqueiro. Com justiça. A grande capacidade de trabalho do deputado do PS é a sua principal qualidade. Dos seus defeitos tem-se falado cabonde aqui no Olho de Gato.

3. António Almeida Henriques (PSD) – tem um longo currículo no associativismo empresarial. Mas não só: a sua recondução é apoiada por 23 das 24 concelhias do PSD. 

Em 2013 será, muito provavelmente, candidato ao lugar ora ocupado por Fernando Ruas.

3,5. Carlos Miranda (PSD) – até Janeiro de 2008, enquanto tivemos a política errática de Correia de Campos, Carlos Miranda fez-lhe uma boa e aguerrida oposição. 

Quando José Sócrates decidiu pôr sensatez no ministério da saúde e dar posse a Ana Jorge, Carlos Miranda passou a ser mais discreto. Por isso, merece só “meia” recondução. De qualquer forma, Carlos Miranda vai sair do parlamento por opção própria.

Quem não merece ser reconduzido é José Luís Arnault. Nestes quatro anos, não fez nada pelo distrito que o elegeu. Que vá pregar para outra freguesia. 

O PS e o CDS já se livraram de pára-quedistas políticos. De que estão à espera José Cesário e o PSD-Viseu para fazerem o mesmo?

sábado, 27 de julho de 2013

Casa mia

Sorpresa
dopo tanto
d'un amore

Credevo di averlo sparpagliato
per il mondo
Giuseppe Ungaretti



sexta-feira, 26 de julho de 2013

Si dijera

Fotografia de Jessica Daly

Si dijera que nunca quise a nadie así
sería terriblemente injusta con el pasado y sus pobladores.
Si lo dijera sería de una precisión
cruel, innecesaria.
Pero lo digo: nunca quise a nadie así,
porque ser honesta está en mi temperamento
porque añoro la linealidad de las fórmulas
los índices de los libros de instrucciones.
Porque sé que te gusta
que resurja del lodo de las dudas
y juegue a ser diosa
que ha bajado del cielo a follarse a un humano.
Ana Pérez Cañamares

quinta-feira, 25 de julho de 2013

VISTACURTA 2013 — os filmes vencedores

Entrega de prémios, ontem, na Praça D. Duarte, em Viseu:



Melhor Filme VISTACURTA 2013:


Melhor ficção e prémio do público:


Melhor documentário:


Melhor filme experimental:


Melhor filme escolar:

Progresso *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Bairro de Santiago (fotografia de Paula Magalhães)
1. Este texto tem três fontes: (i) um conjunto de fotografias extraordinárias de Paula Magalhães e Fernando Rodrigues sobre dois bairros de pobres de Viseu: o Bairro de Santiago e o Bairro da Cadeia; (ii) uma análise do Bairro da Cadeia feita em 2003 por David Ferreira; (iii) uma recensão sobre o último livro de John Gray, “The Silence of Animals: On Progress and Other Modern Myths” que põe em causa a ideia do “progresso”.


*****

A acção do filme Ágora, de Alejandro Amenábar, passa-se no século IV no Egipto então dominado por Roma, e tem como pano de fundo a luta entre o saber politeísta defendido pela filósofa Hypatia, guardado em rolos na Biblioteca de Alexandria, e o saber monoteísta cristão, liderado por Cyril, guardado no livro sagrado.

Os cristãos, na ofensiva, eram o novo, e o novo, quando substitui o velho, é bárbaro. A certa altura, na tentativa de evitar males maiores, aconselham a grande mulher:

«Converte-te, Hypatia, senão Cyril ganha...»

«Ele já ganhou...», respondeu ela, realista.

Não há nada que sobreviva às acções destrutivas da barbárie do novo e do tempo. Como sabia Hypatia, «ele já ganhou». Ele, aquilo a que se chama progresso. O novo substitui o velho. E o devir implacável do tempo arruina o novo e o velho. A barbárie e o tempo ganham sempre. E só há duas maneiras de lhes atardar a vitória — através da memória e do trabalho. Lembrar e trabalhar são o calhau que o homem/Sísifo está condenado a arrastar pelo monte do tempo acima.

Bairro da Cadeia (fotografia de Fernando Rodrigues)
Há ideias de se preservar, no Bairro da Cadeia, algum deste Portugal dos Pobres numa espécie de Portugal dos Pequeninos. Seja. Nada contra.

2. A câmara de Viseu calendarizou o “I Festival de Jazz de Viseu” para os exactos dias do “Tom de Festa” em Tondela. Tenho a certeza que no futuro, seja com José Junqueiro seja com Almeida Henriques, tal estupidez não se torna a repetir.

Para ficar

Fotografia de Uli Weber


Devia ser uma hora da noite
ou uma e meia.
A um canto da taberna,
atrás da divisória de madeira.
Só nós ainda na deserta sala
que um candeeiro mal iluminava.
O criado, obrigado a esperar, adormecera à porta.

Ninguém nos teria visto. Mas, embora,
estávamos os dois tão excitados,
que nada nos faria ter prudência.

A roupa se entreabria... – muito pouca
na ardência de um divino mês de Julho.

Prazer da carne,
por entre a roupa;
o rápido surgir da carne – e a imagem dela
cruzou vinte e seis anos, até vir
a estes versos, para ficar.
Konstandinos Kavafis


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Sabedoria

Fotografia de Paulo Pimenta



gostava de saber dizer-te como se vem de longe
num pincel de rembrandt desde os lugares do junco
ou da selva ou da água ou só do norte e da neve

e nos sentamos aqui sob o azul dos plátanos: um
murmúrio incessante do mover das aves

suave é esta a sabedoria
conhecer os instantes gomo a gomo como um fruto
ainda verde a querer despontar iluminar-se e colhê-lo
breve nos nossos dedos inteiro

e sob a nossa voz a nossa boca o nosso olhar
não estar nenhum rumor nenhum silêncio nenhum gesto
Francisco José Viegas

Decência *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 24 de Julho de 2009


Nesta legislatura, em matéria de luta contra a corrupção e defesa da ética política, o parlamento foi mais lento do que couves a crescerem numa horta. 

Que o diga João Cravinho deixado pelos seus pares a falar sozinho. 

Reconheça-se que há gente na assembleia da república, em todos os partidos, que se dedica à defesa do interesse público com brio e com brilho.

Mas as coisas na casa da democracia não estão bem. Conforme contas feitas pelo Correio da Manhã, metade dos deputados exerce o seu mandato em part-time, recebendo dinheiro de outras proveniências.

Alguns deputados de topo abicham consultorias de topo, alguns deputados do meio da tabela ficam-se por avenças de meio da tabela e alguns dos de baixo pretendem subir nesta cadeia alimentar.

Que fazer para acabar com este pântano? 

Exclusividade obrigatória aos deputados? Se as coisas continuarem como estão, para lá temos de ir. Para já, ajudava os deputados terem algum auto-controle.

No início deste mês, num plenário de militantes, mesmo perante o evidente desconforto dos vips do PS-Viseu, defendi que os deputados eleitos pelo PS deviam assumir o seguinte compromisso: durante o período em que estão na AR, não recebem dinheiro de empresas ou grupos económicos que recebam fundos públicos, nem mesmo em situações permitidas na lei.

Assim mesmo. Um compromisso de decência. Sem ser preciso escrever isso em letra de lei.

Ao fim e ao cabo, o mesmo aconteceu com as bi-candidaturas. O PSD e o PS acabaram com as candidaturas simultâneas. O que impediu que uma mesma criatura seja candidata a deputado e a presidente da câmara não foi nenhuma lei. Foi a decência. E chegou.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Jardins Efémeros 2013 — CASA, Rua Direita, 145

Por:  
João Dias (artista plástico)
Romulus Neagu (bailarino/coreógrafo)


























Táctica y estrategia

Imagem do filme Walkabout (1971)


Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos.

Mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible.

Mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos.

Mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos

no haya telón
ni abismos.

Mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple.

Mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.
Mario Benedetti


segunda-feira, 22 de julho de 2013

António José Seguro estava quase quase quase...

... mas depois recebeu uma carta de Mário Soares que, não se sabe como, chegou ao conhecimento do professor Marcelo.

O Verão

Fotografia de Nan Goldin


Estás no verão,
num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre
a duna.
Estás em mim,
nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome
pensas:
teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó,
sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas.
És o esplendor do dia,
os metais incandescentes de cada dia.
Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces
o ardor das maçãs,
as claras noções do pecado.
Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos
meus anos.
Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os
rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em
ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.
José Agostinho Baptista