terça-feira, 30 de abril de 2013

Quem são aqueles dois ali com o Francisco? *


* Informação achada no lugar do costume.

Dois para um*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 30 de Abril de 2009

     1. Os fins-de-semana de Inês de Medeiros em Paris patrocinados pelo erário público foram objecto de um inquérito do jornal Público. Quando votei, o resultado era o seguinte: contra – 8713 votos (93,7%); a favor – 587 (6,3%).
     De facto, o que a assembleia da república aprovou é desmoralizante. Perdeu-se o foco no interesse público. Como é evidente, o parlamento deve pagar viagens aos deputados para irem ter com os seus eleitores, o parlamento não deve pagar viagens aos deputados para irem ter com a sua família.
     Todo este desgraçado caso deu para perceber uma coisa: Jaime Gama, o “peixe de águas profundas”, sente-se bem como número dois da república e não ambiciona ser número um. Ao decidir desta forma enrodilhada, escondido atrás de pareceres jurídicos, Jaime Gama já nem com Red Bull bate asas. Fica por ali.
     Cavaco Silva está agora mais descansado do que estava em Dezembro em relação à sua recandidatura. O umbigo de Manuel Alegre estende-lhe todos os dias o tapete vermelho. O PS está fora de jogo. O bloco em serviços mínimos.
     O PCP, que tem sido humilhado em todas as eleições presidenciais, tem aqui a sua oportunidade. Com Manuel Carvalho da Silva, e uma campanha bem feita, os comunistas podem ultrapassar os 750 mil votos.

     2. Passos Coelho propõe um corte de 95 milhões de euros em estudos e consultorias. Aplaudo. Se o corte for maior, aplaudo ainda mais. É preciso pôr um travão à voracidade dos “Antónios Vitorinos”, dos “Migueis Júdices” e de toda a “advocacia de negócios” que está a exaurir este país.

Daqui
3.  
Há uma orientação geral no estado: só quando saem dois funcionários públicos, pode entrar um.

Proponho o mesmo para a burocracia: 
todo e qualquer serviço público só poderá exigir um novo acto burocrático quando tiver anulado dois.

The Ray Band — gravação de DVD ao Vivo


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Perigo

Circunvalação de Viseu — a ideia para esta fotografia foi roubada a um amigo no FB.



Adenda às 20H30
Comentário no Facebook sobre este post: 
Agora imagina esta placa noutro ponto da circunvalação, junto à "red light zone"!
O que diriam as esposas de Viseu?!

Chove

Fotografia de Louis Stettner

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
José Gomes Ferreira


domingo, 28 de abril de 2013

Misery's the River of the World

If there's one thing you can say
About Mankind
There's nothing kind about man
You can drive out nature with a pitch fork
But it always comes roaring back again

Misery's the River of the World
Misery's the River of the World
Misery's the River of the World


sábado, 27 de abril de 2013

Concerto da Orquestra do Norte na Sé de Viseu *


6º Festival de Música da Primavera de Viseu
 24 de Abril de 2013

Por caminhos de sul

Fotografia de Herb Ritts


Por caminhos de sul, a noite adquire a tonalidade do mar.
Pressinto o hálito das manhãs claras e tenho, no sangue,
um caos incendiado, como se fora terra exposta ao sol
do meio-dia. São horas de reinventar os aromas
que me anunciam um trajecto de espanto.

Procuro a cor da noite nos teus olhos, como quem lambe
a lua, devagar. Depois, digo barco, digo mastro,
digo quilha e somos ilha propícia a navegar.
Graça Pires


quinta-feira, 25 de abril de 2013

O beco sem saída, ou em resumo

Fotografia de Zed Nelson



I

As mulheres são visceralmente burras.
Os homens são espiritualmente sacanas.
Os velhos são cronologicamente surdos.
As crianças são intemporalmente parvas.
Claro que há as excepções honrosas.

II
As pedras não são humanas.
Os animais não são humanos.
As plantas não são humanas.
Os humanos é que têm algo deles todos:
o que não justifica o panteísmo,
nem a chamada «Criação».

III
Humanamente feitas são as coisas,
e as ideias, as obras de arte, etc.
mas que diferença há entre ser-se uma besta na Ilíada
ou no Viet-Nam?

IV
Há por certo os poetas, os santos, e gente semelhante
(os heróis, que os leve o diabo)
- mas desde sempre, em qualquer língua,
qualquer das religiões (ilustres ou do manipanso),
fizeram o mesmo, disseram o mesmo, morreram igual,
e os outros que nascem e vivem e morrem
continuam a ser a mesma maioria triunfal
de filhos da mãe.

V
Que haja Deus ou não
e a humanidade venha a ser ou não
e os astros sejam conquistados (ou não)
apenas terá como resultado o que tem tido:
uma expansão gloriosa do cretino humano
até ao mais limite.

VI
A vida é bela, sem dúvida:
sobretudo por não termos outra,
e sempre supormos que amanhã se entrega
o corpo que já ontem desejávamos.

VII
O poeta Rimbaud anunciava o tempo dos assassinos.
Sempre foi o tempo dos assassinos
- e mesmo um deles é o que ele era.

VIII
Gloriosos, virtuosos, geniais,
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Ignorados, viciosos ou medíocres,
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Do primeiro, do segundo, do terceiro ou quarto sexo:
mas burros, sacanas, surdos, parvos.
Em Neanderthal, Atenas, ou em Júpiter
- burros, sacanas, surdos, parvos.

IX
Canção, se te culparem
de infame e malcriada,
subversiva ou não,
ou de, mais que imoral, desesperada;
se te disserem má, mal inventada,
responde que te orgulhas:
humano é mais que pulhas
e mais que humanidade mal lavada.
Jorge de Sena


Diamantes de Sangue*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     1. O 25 de Abril foi há 39 anos. Nestas quase quatro décadas, três resgates. As duas primeiras intervenções do FMI, em 1977 e 83, ainda se podem atribuir às verduras da terceira república, mas a bancarrota de 2011 — depois do dilúvio de fundos comunitários e de receitas das privatizações -, deve-se integralmente à corrupção e incompetência das elites políticas e económicas.

     2. Quando há notícias de uma viagem das elites portuguesas a Angola há quem se interrogue: “mas afinal eles vão lá ensinar ou aprender?”
     Estas “trocas pedagógicas” entre os dois países lusófonos têm bom e têm mau. Bom é o trabalho do jornalista angolano Rafael Marques. Mau é o processo que nove generais angolanos lhe moveram a ele e a Bárbara Bulhosa, da editora Tinta-da-China, por causa de “Diamantes de Sangue”.



     Este livro descreve a desumanidade com que são tratadas as populações das regiões diamantíferas, onde até as estradas são privatizadas pelas companhias e vedadas ao trânsito particular. O livro documenta 109 casos de tortura e/ou assassinato.
     Um caso contado no livro: como as estradas que servem Ngongo Ngola e Tximbulagi foram privatizadas, as pessoas têm que atravessar o rio Cuango numa bóia amarrada por uma corda a uma árvore em cada margem. Esta bóia leva oito pessoas numa travessia precária e perigosa que tem que ser feita na zona com a corrente mais forte por aí não haver jacarés. Os desastres mortais são frequentes.
     Os generais angolanos, ao exigirem em tribunal uma indemnização de 300 mil euros, estão acima de tudo a fazer um aviso à edição portuguesa — se publicarem coisas destas, têm dissabores no futuro.
     Quem ama a liberdade deve-lhes responder tornando este livro um best-seller. Lê-lo é ficar a saber como funciona a cleptocracia angolana, lê-lo é afirmar a liberdade de expressão que conquistámos com o 25 de Abril.

Liberdade

— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
Miguel Torga

A Defesa do Poeta *

Ilustração de Gonçalo Viana (daqui)

Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória. 
O que não fiz a pedido do meu advogado que sensatamente me advertiu de que essa insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a a sentença.


Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
curtido couro de cicatrizes
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
Que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
A poesia é para comer.
Natália Correia



* Em 1966, Natália Correia foi condenada a 3 anos de prisão (com pena suspensa) por ter organizado a edição naquele ano de "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica",  para a Afrodite.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Fogo



De que valem o certo e o regular?
E o chão liso, um tapete pra andar?
Não vou a passo - antes quero correr

És o fósforo e a chama
se quisesse fugia - prefiro arder
João Habitualmente


Bermudas*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 24 de Abril de 2009.


     1. A eventual recandidatura de Durão Barroso à presidência da comissão europeia está a dividir o PS e a animar as europeias.
     Recordemos três factos:
     Facto um: no dia 16 de Março de 2003, George W. Bush, Tony Blair e José María Aznar reuniram-se nos Açores a prepararem a guerra do Iraque. Foi uma cimeira contra o direito internacional, contra a verdade e contra a opinião pública mundial. 
A servir os cafés, naquela cimeira celerada, José Manuel Durão Barroso.

     Facto dois: nas eleições europeias de 2004 os portugueses mostraram a Durão Barroso um severo cartão amarelo (o pior resultado de sempre da direita portuguesa). Poucas semanas depois, Durão Barroso apareceu indigitado para presidente da comissão europeia, deixando o seu partido e o país entregues a Santana Lopes, o “menino guerreiro”.
     Facto três: Nos últimos 15 anos, os anos de Santer–Prodi–Barroso, a “Europa” foi capturada por uma elite burocrática arrogante, que vive virada para o seu umbigo, e que despreza os cidadãos europeus. Estes, claro, pagam na mesma moeda aos eurocratas. A “Europa” está cada vez mais distante dos problemas das pessoas.
     Durão Barroso fez um mau trabalho. Não defendo a sua recondução.

     2. Uma curiosidade:
     O El Pais revelou que a cimeira da guerra do Iraque inicialmente estava prevista para as Bermudas mas Aznar disse a Bush: "el solo nombre de esas islas va asociado a una prenda de vestir que no es precisamente la más adecuada para la gravedad del momento en que nos encontramos".
     A razão era poderosa: o encontro não podia ser nas Bermudas, pois podiam surgir associações malévolas a umas bermudas.
     Foi por isso que a cimeira se fez nos Açores e Barroso apareceu no retrato. Por causa de umas calças arregaçadas…

terça-feira, 23 de abril de 2013

João e Maria

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês



Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?
Caetano Veloso

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Política em Viseu (reedição de um post de há dois anos, publicado em 15.4.2011)*

* Daqui

Legislativas 2011
Cabeças de lista dos partidos do bloco central à Assembleia da República













Autárquicas 2013
Cabeças de lista dos partidos do bloco central à Câmara Municipal de Viseu

como viver com estas minúsculas





como viver com estas minúsculas
intempéries, a régua sobre a mesa, a chuva
pendurada nos altos telégrafos da paciência?
o passado levanta as lajes, dentro
do ar as sapatilhas vivem a sua luz ausente.
como nos escapa o que não há ainda!, os barcos
verde claro, e o retrato da sua casa iluminada,
e a alegria desta roupa «desfeita em lágrimas»,
e o cão «piloto» enterrado na hortelã, &
as minuciosas tabuletas anunciando o mar: tudo
costumes locais, colhidos ao acaso das
estrebarias públicas. as
comendas multiplicam-se, & o município vê
ameaçadas as mais altas esperanças. um dia
as árvores aparecem com grandes frutos ocos,
e o vidro cobre as ruas, as lajes.
redondas dos passeios.
e estes navios encalhados nos ramos, que arte
os poderia sossegar? é justo que esperemos
transparentes respostas; e que algures
se acabe a transparência, e fique
uma parede lisa; e que nos doa
a memória do enigma. daí, decerto, estas casas
imóveis, com os pássaros a meio;
o rumor dos grandes diques luminosos;
e as mulheres, sentadas nas oliveiras, com
lençóis azuis atados ao cabelo. e ao lado,
a imagem representa um sarau de província, o consumo
inusitado das lareiras, a crise que aguardamos.

somos acaso a silenciosa escravatura das águas? como
obedecer ao requerimento das cortinas, quando
ao erguê-las a brisa avistamos o passado
de unhas redondas junto à balaustrada? e outra vez
nos escapa o sítio de vastos planaltos, o tropel
dos búfalos, das esteiras secretas, do assobio
junto das portas levemente azuis.
deixarei :
que me devorem os cachimbos do sal, a madrugada
violeta de antimónio. assim me saberão
a prazer os prazeres, como as nuvens
no ascensor dos fornos siderúrgicos, ou
tardes de poder popular. depois

as palavras, e a sua sombra nos armários
da greve, escaparão ao nosso ardor.
as planícies não cabem neste modesto horóscopo
que lhe anuncia o sofrimento, ambas as mãos
surdas ao princípio do dia, e a sucessiva
descoberta dos seus fins. afastemos enquanto
é tempo os temerosos búfalos, e os cabos
entrançados do terminal eléctrico. mas
como viver com os pequenos
inconvenientes da catástrofe? nunca
aceitarei esse pacto ditado pelas vetustas
máquinas agrícolas. a sua passagem marcou
as ruínas redondas junto à praia, e a
«superior determinação das autor
idades responsáveis»
encerrou-os no insensato mercado das províncias.
como viver com este amável búfalo das
mais distantes alagadas pradarias ardendo?

confesso que me espanta o mapa
dos seus inadiáveis sofrimentos. a norte
cai em lentas ladeiras, em barcos
de papelão azul e marinheiros cegos. e as altas
falésias da tarde, a caminho do sul!
a leste, o mar vazio de mar espalha redes
sobre os velozes corvos submarinos: quem .
recordará o estertor das suas presas? sombrias
são as suas sementes, as naus, os realejos
azuis do amanhecer.
as cabeças
do ar estendem véus sobre o planalto. como
esquecer o seu bafo, a sua cólera
de mastros violentados?

visitarei secreto o seu ardente
esquecimento. as ruas, primeiro inclinadas a poente
depois cinzentas à beira da água,
falam-me obscuramente dos seus seios de anil
do seu perfil de mapa transportado
em secretas mochilas, a sua
árida transparência. e os seus ossos
repousarão na areia, junto à tarde aonde
fumei a seda imóvel, e o amei, e as suas
folhas me cobriram de poeira azul. como
viver com estes dentes, esta estampa
monótona de búfalos pastando,
e as suas casas iluminadas pelo vício?
e de repente deparamos com vastos armazéns
geológicos, como deuses que dormem:
como nos surpreende o seu triunfo! como nos pesa
o áspero rumor dos telefones! não acredito
sequer no que me diz. como
viver a dúvida insensata dos seus
variados usos? e assim
nos esquecemos pouco a pouco, frequentemente
mais jovens, mas também mais selvagens.
não conheço este campo, este vidro, esta porta. não ouço
sequer o que me diz. apenas o tropel
dos búfalos; ao fundo, nos
elucida: e então
António Franco Alexandre



Viseupédia # 26, 27 e 28 — Misericórdia de Viseu


domingo, 21 de abril de 2013

Poema destinado a haver domingo

Imagem de Brigitte Carnochan


Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.
Natália Correia

Ó Val, que raio de pergunta...

Pergunta o mais socratista dos socratistas da blogosfera:




sábado, 20 de abril de 2013

Com a graça do Espírito Santo *

Na capa do semanário Sol desta semana

* Graça que, como se sabe, está em todo o lado.

O gato é um motor afectivo



The Naming of Cats

The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn’t just one of your holiday games;
You may think at first I’m as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there’s the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,
Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey –
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter –
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that’s particular,
A name that’s peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum –
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there’s still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover –
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name.
T. S. Eliot

"Ode à Cidade de Viseu" de Carlos Almeida


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Vistacurta 2013 — é até ao fim do mês de Abril, já está apertado mas ainda há tempo

Há que inscreverem as vossas obras-primas aqui:






Para depois, lá mais para o Verão, 
serem premiadas e vistas aqui:

Assim eu te amo, assim

Fotografia de  Jacek Gasiorowski



Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncio, e cores, e perfume, e vida,
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:

Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-to os lábios meus, — mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em ti. — Por tudo quanto sofro,
Por quanto já sofri, por quanto ainda
Me resta de sofrer, por tudo eu te amo.
O que espero, cobiço, almejo, ou temo
De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!
Esta oculta paixão, que mal suspeitas,
Que não vês, não supões, nem te eu revelo,
Só pode no silêncio achar consolo,
Na dor aumento, intérprete nas lágrimas
Gonçalves Dias




quinta-feira, 18 de abril de 2013

Mensagem na garrafa — os Police foram ultrapassados



Cartões amarelos*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     1. No último Olho de Gato do ano passado escrevi aqui: “enquanto a generosidade das bases socialistas está focada nas próximas autárquicas, as elites pensam mais em legislativas antecipadas, apostando que Portas se divorcia de Passos”. Chamei a isso “deriva estratégica”.
     Seguro tem exigido a demissão do governo mas — como seria estúpido juntar-se à “rua” de Jerónimo e lhe fica mal jacobinar asneiras como Mário Soares - resta-lhe continuar a ligar para o roaming de Paulo Portas. Em resumo: a liderança do PS passou todos estes meses num corrupio mas não saiu do mesmo sítio.
     Nestes dois anos que leva de liderança, Seguro falhou o que se tinha proposto: nenhum candidato a uma câmara importante foi escolhido em primárias, as suas ideias sobre ética política foram metidas no congelador com medo dos socratistas e agora até ele é obrigado a papaguear a “narrativa” do PEC4.
     Seguro não tem agido, só reagido. Ao acto falhado da proto-candidatura de António Costa, reagiu com a artilharia toda do aparelho e obteve 96% dos votos, uma norte-coreanice para esquecer.

     2. Caro António José Seguro, ligue lá ao Paulo Portas outra vez... Não o atendeu? Esqueça esse dançarino habilidoso. Mude de página. Abra um novo capítulo. Foque-se no essencial, homem. E o essencial é pôr os portugueses a falar, e esse falar não é na “rua” nem em sondagens. Esse falar é nas urnas, é nas próximas eleições autárquicas.
     Caro António José Seguro, faça o que Ferro Rodrigues e Sousa Franco fizeram nas europeias de 2004. Transforme as próximas autárquicas num cartão amarelo a este governo gasparino que não acerta uma.
No futebol dois cartões amarelos dão expulsão, trabalhe para serem milhões. Os autarcas socialistas agradecem. O eleitorado fica com uma motivação extra para ir votar. Foque-se, homem. Tome a iniciativa. Em vez de reagir, aja primeiro.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Caros socialistas de Vouzela, como a sopa seca já está entornada, não era melhor passarem já para a sobremesa?

Sugerem-se duas dúzias de Pastéis de Vouzela bem conversados, saboreados presencialmente, nunca por procuração, a ver se acabam com isto:


Notícia da Vouzela FM

Imagine-se este título em acordês...

Daqui



Bem visto, José Alberto Lopes.

Uma saison nos infernos

Fotografia de Dennis Stock


Tudo é breve: um deus,
o plâncton, o ferro.

O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.

A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:

Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
Daniel Jonas


A culpa*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente 4 anos, em 17 de Abril de 2009.


1. Está em exibição nos cinemas O Leitor, de Stephen Daldry.


Este filme conta a história de Michael, um adolescente que conhece e ama com as hormonas aos saltos uma mulher com mais do dobro da sua idade. Essa mulher é Hanna, interpretada por Kate Winslet (merecidíssimo óscar de melhor actriz). É uma mulher enigmática que se relaciona com Michael, que o quer, fazendo parte desse querer ouvir a voz dele horas e horas a ler-lhe livros. Daí o título deste excelente filme – O Leitor.
     
Um amor de verão, um amor de uma vida.
     
Hanna tinha sido guarda num campo de concentração e é levada a tribunal. Centenas de prisioneiros tinham morrido fechados num lugar em chamas e Hanna assume essa culpa. Disse ela ao tribunal: “se as portas fossem abertas, dava-se o caos e os prisioneiros fugiam”. Ao fim e ao cabo, foi esse baixar de braços perante regulamentos e leis iníquas que oleou a máquina nazi.
     
O Leitor trata também da culpa de Michael que calou informação importante para o julgamento e para a sorte de Hanna.
     
Essa culpa individual e colectiva não é um exclusivo alemão, mas a Alemanha pagou-a bem caro, com o país retalhado durante décadas, e feridas que demoram a cicatrizar.
     
Como parte desse processo de exorcização da culpa, foram feitos na Alemanha milhares de filmes, séries de televisão e romances sobre Hitler e o Holocausto.

     
2. Portugal também tem duas páginas muito negras na sua história mas, estranhamente, não há grandes narrativas sobre a nossa culpa quer durante a inquisição quer durante o salazarismo.

     
Quanto a Salazar, o que tem aparecido são histórias que glamourizam o ditador, tornando-o uma espécie de arrasa-corações de botas, com direito a Soraia Chaves e tudo.
---------------

Adenda às 23H45:

Na conversa no Facebook acerca deste post, para além de se ter constatado o branqueamento e o revisionismo à volta do salazarismo, falou-se da maneira como os países da Reforma vêem a culpa, e como ela é vista nos países da Contra-Reforma.


Naturalmente, referiu-se Günter Grass, o escritor #1 da culpa alemã, e um amigo deu-me a conhecer este vídeo e esta entrevista ao "sucessor de Thomas Man" — é assim que ele é apresentado por José Rodrigues dos Santos.



Günter Grass afirma que, enquanto na Alemanha, a guerra e o nazismo foram temas incontornáveis da geração de escritores a que pertencia, as várias e ferozes guerras coloniais dos vários países europeus são praticamente ignoradas pelas respectivas literaturas (Günter Grass excepciona nesta omissão Graham Greene e o nosso Lobo Antunes que, segundo o mestre alemão, "não consegue fugir ao tema").

terça-feira, 16 de abril de 2013

Patti Smith explica o Cântico dos Cânticos

Patti Smith no Chelsea Hotel — fotografia de David Gahr

Deitamo-nos juntos na noite ilegal
trespassados por faíscas de prata

Talvez fôssemos sem saber nessa hora
a senha aguardada por mundos futuros
Talvez desvendássemos um centro para as rosas
e agora é de lá que partem os comboios
a decidir o curso dos impérios

Pouco importa que tenha chegado a aurora
aos bares que cumprem horário nocturno
e o cheiro dos desinfectantes mostre
como se apagam
os vestígios do amor
José Tolentino Mendonça

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Cisne




Atravesso o jardim, de manhã,
até beber o último trago de névoa.

As estátuas empurram-me com
os seus braços brancos.

Um cisne confunde-se
com um jarro;

mas não sei se o lago
se confunde com ele.

No banco, um fantasma
estende-me uma chávena de café.

No fundo, discutimos ambos
um problema de existência.

É que nem ele nem eu
temos a certeza um do outro

quando a cidade, no Outono,
se veste de nuvem.
Nuno Júdice

domingo, 14 de abril de 2013

Obrigado, doutor Mário Soares, estamos safos!

«A Grécia não está à beira do caos, pelo contrário: depois de receber o dinheiro indispensável para sobreviver, pediu uma indemnização à Alemanha, que lhe é devida desde a Segunda Guerra Mundial.»
Mário Soares, 

     
Ora, como é sabido, entre 1807 e 1810, as tropas do general Jean-Andoche Junot primeiro, do marechal Nicolas Jean de Dieu Soult a seguir e, por fim, do marechal André Masséna, invadiram Portugal, fizeram política de terra queimada, obrigaram à fuga da casa real Portuguesa, carregaram para a França o nosso ouro e os nossos melhores tesouros artísticos, causando-nos um prejuízo que é felizmente calculável.
     
Propõe-se a criação da "Comissão de Avaliação dos Prejuízos Causados a Portugal Pelas Tropas Napoleónicas — CAPCPPTN", constituída por José Adelino Maltez (presidente) e, ao comando das folhas Excell, Pedro Lains e Francisco Louçã, com a missão patriótica de acharem o valor exacto da indemnização que a França deve a Portugal.

De qualquer forma, um pedido de indemnização preliminar pode ser, desde já, mandado ao senhor Hollande no valor de 200 mil milhões de euros, valor muito conservador, muito longe do verdadeiro prejuízo causado a Portugal a apurar devidamente por aqueles três prestigiados académicos. Basta lembrar a ordem de grandeza do que se está a falar: a perda do Brasil que decorreu da fuga e consequente instalação da casa de Bragança naquele país-tropical-abençoado-por-Deus.
     
Desde já se declara que este "encontro de contas", que tanto entusiasma o doutor Mário Soares, é exclusivamente um processo intra-europeu, pelo que qualquer pedido de indemnização de ex-colónias, nomeadamente de actuais países lusofalantes africanos, não tem valor jurídico nenhum.

sábado, 13 de abril de 2013

A felicidade*

Fotografia de Verena Brandt


Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!
Mário Quintana


sexta-feira, 12 de abril de 2013

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Truca-truca*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



     1. Desde o episódio da TSU em Setembro, o ministro Pedro Mota Soares tinha passado à clandestinidade, ninguém mais ouvira falar dele. Agora saiu da toca com uma nova ideia — dinheiros comunitários para part-times. Em politiquês: “empregabilidade parcial” para aumentar a natalidade.
     Ciclicamente, os políticos querem mais bebés. O que é bom. 


     Podiam escolher o caminho de Assunção Cristas ou de, em tempos idos, Roberto Carneiro. Em suma, lembrando a grande Natália Correia, truca-trucarem mais e serem felizes. E deixarem as pessoas serem felizes.
     Infelizmente, nada do que se tem feito desde que, em 2002, caímos no pântano ajuda a isso. Um povo feliz tem um governo pequeno e moderado nos impostos. Cá, levamos uma década perdida de políticos a ligarem o complicómetro, a tirarem abonos de família e a fazerem vigarices tipo “cheque-bebé”.
     Não é fácil, assim, ser feliz. Um povo infeliz, para se distrair, tem que ver mais televisão. O problema é que, nas televisões, a toda a hora aparecem comentadores ex-futuros-políticos, e o povo fica mais infeliz ainda. Nada disso deve ser bom para a natalidade.
     A sequência (i) bebés graças aos part-times, (ii) part-times graças a dinheiro europeu, (iii) dinheiro europeu graças à “senhora” Merkel, contém em si um fiasco algures. Vale mais nem pensar em que fase desta cadeia as pessoas vão perder a... pulsão.
     Caro Pedro Mota Soares, pode regressar à toca outra vez.

     2. Note-se: dividir por dois ou três o trabalho existente, trabalho que é cada vez mais escasso, é uma boa ideia, praticada há muito por exemplo na Holanda. Agora não se misture isso com decisões íntimas das pessoas.

     3. Ninguém se admire que, também nas autárquicas deste ano, apareçam para aí umas 12635 propostas de política truca-truca. Ou mais. Será um combate municipal e freguesial que, finalmente, vai multiplicar os bebés.