domingo, 31 de março de 2013

(a carta da paixão)

Fotografia de Christian Kettiger


Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tão feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.
Herberto Helder

Dois olhares lisboetas sobre a candidatura de António Almeida Henriques à câmara de Viseu e um facto

1

Esta gracinha de Nicolau Santos na última edição do Expresso, sobre a saída de António Almeida Henriques do ministério da economia, não faz sentido nenhum.

Se o ministério da economia é um eléctrico, conforme diz o jornalista do papillon, com a saída de António Almeida Henriques é um eléctrico a esvaziar e não um eléctrico a encher.

Apesar de o ter frequentado muito, falta a Nicolau Santos a finura de espírito do grande Artur Baptista da Silva.

2

Já João Gonçalves, assessor do governo, no seu blogue Portugal dos Pequeninos, não gostou nada da "ligeireza"com que António Almeida Henriques trocou Lisboa por Viseu.

3

Um facto é incontroverso e objectivo: a candidatura a Viseu de António Almeida Henriques atropelou os tempos remodelativos do primeiro-ministroEvitou uma "guerra-civil" dentro do PSD-Viseu  mas deixou o ministério do Álvaro como um eléctrico vazio.

sábado, 30 de março de 2013

O Judas hoje — PUM!

JUDAS 2013
 Superprodução ACERT EB2,3 Tondela



Ao cabo de uma semana de afogamentos contínuos, o Judas veio sempre à tona de água.
Vai arder. Vai Rebentar…
Detalhes aqui



"Se julgas que te safavas
por a chuva te ajudar
quer chova, quer faça sol,
TU Judas vai rebentar!"


Há um ano foi assim:

QUEIMA E REBENTAMENTO DO JUDAS 2012 (ACERT) from acert on Vimeo.

O mundo silencioso

Fotografia de Tarun Khival


Num esforço para que as pessoas
olhem mais nos olhos umas das outras,
e também para satisfazer os mudos,
o governo decidiu conceder
a cada pessoa precisamente cento
e sessenta e sete palavras por dia.

quando toca o telefone, ponho-o ao ouvido
sem dizer estou?, no restaurante
aponto a canja de galinha.
adaptei-me bem ao novo modo de vida.

De madrugada, ligo ao meu amor distante,
orgulhoso digo hoje somente gastei cinquenta e nove.
guardei o resto para ti.

quando ela não responde
sei que usou todas as suas palavras
então sussurro lentamente eu amo-te
trinta e duas vezes e um terço.
depois disso, ficamos juntos em linha
ouvindo um o respirar do outro.
Jeffrey Mcdaniel

sexta-feira, 29 de março de 2013

4:48 Psicose

Fotografia de Patti Levey



Vim ter contigo à espera de ser curada.

És o meu médico, o meu salvador, o meu juiz omnipotente, o meu padre, o meu deus, o cirurgião da minha alma.

E sou tua partidária na sanidade.

************

para atingir objectivos e ambições
para superar obstáculos e atingir altos padrões
para aumentar a auto-avaliação pelo bem sucedido
exercício do talento
para superar a oposição
para ter controlo e influência sobre os outros
para me defender
para defender o meu espaço psicológico
para justificar o ego
para receber atenção
para ser vista e ouvida
para excitar, surpreender, fascinar, chocar, intrigar,
divertir, entreter ou atrair os outros
para estar livre de restrições sociais
para resistir à coacção e à constrição
para ser independente e agir de acordo com o desejo
para desafiar a convenção
para evitar a dor
para evitar a vergonha
para apagar as humilhações passadas recapitulando as
acções
para manter o auto-respeito
para reprimir o medo
para superar a fraqueza
para pertencer
para ser aceite
para nos aproximarmos e nos relacionarmos agradavelmente
com o outro
para conversar de maneira amigável, para contar histórias,
trocar sentimentos, ideias segredos
para comunicar, para conversar
para rir e contar piadas
para conquistar a afeição do Outro desejado
para aderir e mantermo-nos fiéis ao Outro
para gozarmos experiências sensuais com o Outro
projectado
para alimentar, ajudar, proteger, confortar, consolar,
apoiar, cuidar ou curar
para ser alimentada, ajudada, protegida, confortada,
consolada, apoiada, cuidada ou curada
para construir uma relação agradável, durável, cooperante e recíproca com o Outro, com um ideal
para ser perdoada
para ser amada
para ser livre
Sarah Kane


quinta-feira, 28 de março de 2013

Ó Norte, perdeste a bússola?!

in Jornal do Centro, hoje

Humildade

Imagem de Igor Sakharov


Minha humildade de água me trouxera
ao mais íntimo pó do pós de ti
e rira à desatada primavera
os ouros e cristais que ela sorri.

Trajada de urze, barro, líquen e hera,
ficara em desbotado e eterno aqui,
marcando, à tinta de ar, pelo ar a espera
de se entreabrirem tempestades e

silêncios para os lumes do teu passo.
Modelara-me em terra ou limo crasso
para ser teu desdém, objecto ou chão.

Vivera no final de selva e furna,
tornara o coração ilha nocturna,
século, inverno a dormir o teu clarão.
Abgar Renault


Uma Europa pós-nacional*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro
    
1. O trabalho de Angela Merkel é tratar dos interesses dos alemães respeitando a constituição alemã. Quanto mais o dr. Soares disser mal da “senhora Merkel” (é assim que ele a chama), melhor ela estará a fazer o seu trabalho. A chanceler alemã não tem feito mais do que o seu dever.
     
2. Isolado, nenhum país europeu tem a escala dos Estados Unidos, da China, da Rússia, da Índia, do Brasil, da Indonésia. Em 2025, nem tão pouco a Alemanha terá assento no G8. Já a União Europeia é o maior bloco económico do mundo e tem uma moeda que, apesar de tudo, se mantém forte e confiável nos mercados.
     
3. Os problemas da globalização não podem ser resolvidos à escala nacional. As lavandarias cipriotas põem em risco poupanças inglesas, o ladrilho espanhol abana bancos alemães, um ataque da Al-Qaeda na Argélia torna os nossos banhos mais caros.
    
4. Daniel Cohn-Bendit e Guy Verhofstadt, no seu recente “Manifesto por uma Revolução Pós-Nacional na Europa”, defendem que as eleições para o parlamento europeu de 2014 devem ser constituintes, devem ser fornecedoras de legitimidade para a redacção de uma constituição europeia que rompa com a eurocracia e permita um governo europeu.
     
5. A “Europa” precisa de um governo europeu democrático, eleito directamente pelos europeus, e que responda perante eles como Angela Merkel responde perante os alemães. Se for para isso, valerá a pena eleger deputados europeus em 2014. Se for para dar umas veniagas a “Correias-de-Campos” fora do prazo de validade, não vale a pena.

quarta-feira, 27 de março de 2013

A partir de Pedro Mexia






Tenho foto-
grafias que o provam: 
nunca houve amores perfeitos.



Hanami*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 27 de Março de 2009

Fotografia Olho de Gato
1. Hanami é uma tradição milenar japonesa que leva multidões para debaixo das cerejeiras a admirarem a beleza das suas flores. 

Ainda pode fazer hanami este fim-de-semana no vale do Douro, entre a Régua e Resende, onde há milhares de cerejeiras floridas à sua espera.
     
2. “A tendência do homens (…) a imporem aos outros como regra de conduta a sua opinião e os seus gostos, está tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana que quase nunca se detém a não ser por lhe faltar poder.”
     
Quando escreveu isto há 150 anos, Stuart Mill estava longe de imaginar deputados, no século XXI, a parirem leis sobre o sal no pão nosso de cada dia.
     
3. Começo este ponto com uma declaração de interesses: integro um órgão não executivo do Cine Clube de Viseu (CCV).
     
Apesar disso, é com objectividade que afirmo: o CCV tem uma actividade cultural competente e consistente. O seu trabalho com as escolas já envolveu mais de 20 mil alunos. O Ministério da Cultura acaba de o colocar, pelo terceiro ano consecutivo, em primeiro lugar na rede nacional de exibição não comercial de cinema.
     
O CCV está bem mas há nuvens no horizonte. A evolução tecnológica vai fazer desaparecer as cópias de filmes em celulóide e a cidade ainda não tem uma sala não comercial com projecção digital.
     
Era importante que o futuro Centro de Artes do Espectáculo de Viseu (CAEV) tivesse uma sala com essa funcionalidade. Quanto mais modular, flexível e multidisciplinar o CAEV for, melhor.
     
É necessário evitar que o CAEV se transforme em mais um elefante branco. É agora na fase de concepção que se pode evitar esse risco bem real.

terça-feira, 26 de março de 2013

António Almeida Henriques

Soube-se hoje: o PSD vai perder um secretário de estado mas ganhar um bom candidato à câmara de Viseu.


É que os rascunhos desenhados pelo aparelho laranja e pelo dr. Ruas (o principal derrotado nesta escolha anunciada hoje) facilitavam demasiado a vida a José Junqueiro.

 Acrescente-se que, depois do que aconteceu em tribunal ao dr. Seara, o outro candidato forte do PSD, Carlos Marta, deixou de ter espaço para a "emigração" para a capital de distrito.

José Junqueiro é o melhor candidato do PS, Almeida Henriques é o melhor candidato do PSD

O próximo meio ano político em Viseu vai ser muito interessante.

Pedro Passos Coelho também já é inspirado pelo divino Espírito Santo tal qual como foi Sócrates tal qual como foi Barroso


Dose dupla hoje no Cine Clube de Viseu

No IPJ-Viseu, sessões não exclusivas para sócios


18:30
NINOTCHKA
de Ernst Lubitsch, EUA, 1939



21:45
O BAILE
Le Bal, de Ettore Scola, Itália, França, 1983


Mais detalhes aqui

segunda-feira, 25 de março de 2013

Conversação com um melro

Fotografia daqui



'Fazes favor, fazes favor, fazes favor'
começa ele, e eu espero o resto
que vem, indistinto e sem ênfase.
'Afasta-te', creio compreender,
ou 'deixa andar', posso ter ouvido ou não:
as vogais são confusas,
as consoantes faltam.
Oh, e o ritmo é livre
depois desse cortês pedido.

Traduzido, o meu assobio de resposta diz:
'Sê mais explícito. A nossa espécie não suporta
coisas incertas, canções com o fim em aberto.
Ser deixado a adivinhar é mais
do que aguentamos muito tempo.

Ri-se? 'Por favor, por favor, por favor'
é a resposta. E então coloratura, e nela estas frases:
'Eu repito, o fim não cito.
São mistérios, mistérios de cantor.
Improviso, o tempo aviso.
Ora subo, e ora piso.
E volito. Não hesito
se o indefinido imito.
E ora fito, chilrozito. Ora saltito.'
Michael Hamburger
Trad. Vasco da Graça Moura


domingo, 24 de março de 2013

Os jornais já não sabem dar notícias?

     A primeira página do DN de hoje é a ilustração do beco em que os jornais se estão a meter: 


     — não há nada que não se conheça de véspera dos media electrónicos; 
     — o destaque a Marques Mendes é uma "pequena nóia"; como é possível destacar em primeira página uma regurgitação de matéria passada na véspera em televisão?
     — esquece a única razão para um leitor comprar o DN aos domingos: a crónica de Alberto Gonçalves.


Enfim... vivó Sporting!

Nem sempre o corpo se parece

Fotografia de Bruce Gilden



Nem sempre o corpo se parece com
um bosque, nem sempre o sol
atravessa o vidro,
ou um melro canta na neve.
Há um modo de olhar vindo
do deserto,
mirrado sopro de folhas,
de lábios, digo.
Eugénio de Andrade


sábado, 23 de março de 2013

Em Tondela ninguém quer...

... que o dr. Ruas tenha dificuldades em achar o caminho.

Fotografia achada no facebook

We, unaccustomed to courage

Fotografia de Denis Rouvre


We, unaccustomed to courage
exiles from delight
live coiled in shells of loneliness
until love leaves its high holy temple
and comes into our sight
to liberate us into life.

Love arrives
and in its train come ecstasies
old memories of pleasure
ancient histories of pain.
Yet if we are bold,
love strikes away the chains of fear
from our souls.

We are weaned from our timidity
In the flush of love's light
we dare be brave
And suddenly we see
that love costs all we are
and will ever be.
Yet it is only love
which sets us free.
Maya Angelou


sexta-feira, 22 de março de 2013

Dois meses sem telefones

Uma pouca vergonha revoltante...
Diário de Viseu, hoje


Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada pelas vozes



Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada
pelas vozes.
E enquanto dorme o leite, a minha casa
pousa no silêncio e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes cai a cabeça -
e as palavras nascem.
- Límpidas e amargas.



Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E as estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado
de seivas, para a noite que estremece
fundamente.

Melancolia com sua forma severa e arguta,
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando
com a primeira música de água.
Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.

Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria -
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.

Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
E apagaram-se as luzes.

- Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, de grau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames mais por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.

É primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. - É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.
Herberto Helder



José Manuel Sobral em Viseu — hoje*

* Reedição de post



O viseense 
José Manuel Sobral vai apresentar este seu livro
no Hotel Montebelo, 
no dia 22 de Março, 
às 21h30M

O livro 
e a sua apresentação vai ser um momento alto da vida cultural da cidade este ano.



Esta colecção excelente, editada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, é vendida nas livrarias e nos supermercados Pingo Doce e tem suscitado, aqui e ali, opiniões azedas.

Há uns tempos, um anónimo mandou para este modesto estabelecimento uma piadola em forma de comentário por aqui se ter referido um livro da colecção — que era um livro pequeno e barato, foram essas as objecções, objecções que levaram a devida resposta aqui.




quinta-feira, 21 de março de 2013

Por onde é que eles foram?


Barroso

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. Foi há dez anos, em 16 de Março de 2003, que Bush, Blair, Aznar e Barroso fizeram a Cimeira das Lajes. Três dias depois começou a guerra do Iraque, um erro estratégico que tirou força ao ocidente, um erro moral que devia levar o sr. Blair e o sr. Bush ao banco dos réus.

Dos quatro figurões das Lajes, já só Barroso é que está no activo. Aquele dia foi uma tragédia para o mundo mas foi um jackpot para ele que, a seguir, foi colocado por Tony Blair (essa nefasta criatura) a presidir à “Europa”.

Já se pode fazer um balanço da qualidade do trabalho de Durão Barroso em Bruxelas: com ele, as instituições comunitárias apagaram-se e os estados grandes aproveitaram aquele apagamento para prevaleceram sobre os pequenos. Isto é: a União Europeia andou para trás.

Ultimamente, Durão Barroso tem falado muito de Portugal e isso é sinal que o servidor de cafés nas Lajes quer ir viver para o Palácio de Belém em 2016 (isto se Cavaco não resignar antes). Ora, Barroso foi um mau primeiro-ministro, é um mau presidente da “Europa” e será um mau presidente da república.

Para que tal não aconteça, era bom que a esquerda não desse os mesmos tiros nos pés que deu com o alegrismo, essa invenção de Carlos César e Francisco Louçã que valeu menos de 20% dos votos.

2. O recente “Manifesto pela Democratização do Regime” merece leitura atenta. Propõe primárias abertas nos partidos para todos os cargos políticos, votações em nomes e não em listas e transparência nos dinheiros das campanhas.

Entre os cinco autores do texto, um homem pouco conhecido mas admirável: Ventura Leite, ex-deputado socialista, afastado em 2009 pelo socratismo por causa das suas posições anti-corrupção.

Este manifesto foi muito mediatizado mas é estéril: os actuais cinco partidos só mexem a sério neste pântano político quando virem o eleitorado a fugir para partidos novos.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Quando Vier a Primavera

Fotografia de Paulo Vaz Henriques


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro


Autocitações

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 20 de Março de 2009


     1. “Cito-me muitas vezes. Isso apimenta a minha conversa”, disse uma vez Bernard Shaw, numa blague que não deve ser levada a sério já que a autocitação é só um sinal de preguicite aguda. É o principal defeito desta crónica.

     2. Em 2005, Maria de Lurdes Rodrigues começou o seu mandato a desaconselhar os trabalhos de casa. Agora acabou a dizer sim à confederação de pais que quer as escolas abertas 12 horas por dia.
     Escrevi aqui no Olho de Gato de 13.10.2006: “Maria de Lurdes Rodrigues, a Ministra da Educação, tem sido autoritária com as escolas, despesista com as autarquias, facilitista com os alunos e titilante com as famílias.”
     Este entre aspas a mim próprio não é, como dizia Bernard Shaw, para apimentar esta crónica. É só o balanço do marilurdismo.

     3. Escrevi na última semana: «A quase primavera é a voz de Ney Matogrosso a cantar a epiderme "por debaixo dos pano".»
     Um leitor atento chamou-me a atenção que aquele “por debaixo dos pano” não tem nada a ver com epidermes, nem amores da primavera, mas sim com corrupção, com dinheiros por “debaixo das mesa”.
     Transcrevo o refrão:
O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber
É por debaixo dos pano
Se eu ganho mais
É por debaixo dos pano
Ou se vou perder
É por debaixo dos pano

4. Provou-se em tribunal que o dono da Bragaparques quis comprar o vereador José Sá Fernandes. Pena aplicada a Domingos Névoa: 5000 euros de multa.
     Esta pena é uma anedota mas o tribunal aplicou as leis anti-corrupção que temos.
     Entretanto, no parlamento, insossa-se o pão. Dos tentáculos do polvo ninguém trata.

terça-feira, 19 de março de 2013

Reservado ao veneno *

* Faz hoje dez anos que começou a guerra do Iraque
Fotografia de Liu Zheng


Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras
António José Forte


segunda-feira, 18 de março de 2013

Março de 2003 — Março de 2016

Em 16 de Março de 2003 aconteceu o princípio da decadência do ocidente: a cimeira assassina e mentirosa das Lajes.
Aquela criatura sentada à esquerda, que foi posta a presidir à "Europa" só por ter estado naquele celerado dia a servir os cafés, quer ir viver para o Palácio de Belém em Março de 2016 (isto se Cavaco Silva não resignar antes).

E se a esquerda der os mesmos tiros no pé que deu com o alegrismo nas últimas presidenciais, é isso mesmo que vai acontecer.

Vertentes

Imagem de James Porto





a Herberto Helder

As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra

A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores

Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga

A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo
António Ramos Rosa


domingo, 17 de março de 2013

O poema que hei-de escrever para ti

Fotografia de Alexia Sinclair

O poema que hei-de escrever para ti, dando notícias
Do último reduto das coisas, das profundidades intactas,
Nasce, adormece e referve-me no sangue
Com a íntima lentidão dos teus seios desabrochando,
Porque, sei, não estás longe (nem da minha vida!), meu mistério fiel.
Hoje a nossa companhia é a tua inconsciência e o teu instinto: puro
Instinto que eu, de longe, embalo e velo
E acordará («em frente!») às primeiras palavras
Do poema, quando ele despontar.
Cristovam Pavia

sábado, 16 de março de 2013

Banqueiros à força

     Em 2009, no primeiro choque da crise sistémica global, os estados endividaram-se para socorrer os bancos, isto é, os cidadãos salvaram os accionistas dos bancos pagando em dívida pública, austeridade e desemprego.
     Em 2013, estamos em pleno segundo choque da crise sistémica global. Sei que não é bonito fazer-se uma auto-citação mas escrevi aqui em Janeiro: "Convinha que os governos pusessem os accionistas dos bancos a pagar a factura e não, como tem acontecido, os trabalhadores e os reformados."
     Ora, parece que os governos não aprenderam nada com 2009 e as coisas estão a ser feitas ainda mais à bruta. 
Imagem daqui
     Neste segundo choque a protecção aos banqueiros perdeu subtileza: o governo do Chipre, articulado com o BCE, acaba de decretar para aquele país que 9,9% dos depósitos acima de 100 mil euros e 6,65% dos depósitos abaixo de 100 mil euros passam a ser capitais dos bancos.
     Isto é: as pessoas passaram a ser accionistas à força dos bancos onde depositaram as suas poupanças.
     Interessante era os cidadãos espoliados organizarem-se como um formigueiro como a DECO fez cá para um leilão da electricidade -, e tomarem conta dos conselhos de administração e substituirem os Ricardos Salgados e os Ulrichs cipriotas.

Nota às 14h45: este post parte do princípio, talvez "optimista", que este "arresto" é transformado em capital dos bancos.

Poema a los Amigos

Fotografia de Ruth Orkin




No puedo darte soluciones
para todos los problemas de la vida,
ni tengo respuesta
para tus dudas o temores,
pero puedo escucharte
y compartirlo contigo.

No puedo cambiar
tu pasado ni tu futuro.
Pero cuando me necesites
estaré junto a ti.

No puedo evitar que tropieces.
Solamente puedo ofrecerte mi mano
para que te sujetes y no caigas.

Tus alegrías.
tus triunfos y tus éxitos
no son míos.
Pero disfruto sinceramente
cuando te veo feliz.

No juzgo las decisiones
que tomes en la vida.
Me limito a apoyarte
a estimularte
y a ayudarte si me lo pides.

No puedo trazarte límites
dentro de los cuales debes actuar,
Pero sí te ofrezco ese espacio
necesario para crecer.

No puedo evitar tu sufrimiento
cuando alguna pena
te parta el corazón,
Pero puedo llorar contigo
y recoger los pedazos
para armarlo de nuevo.

No puedo decirte quien eres
ni quien deberías ser.
Solamente puedo
amarte como eres
y ser tu amigo.

En estos días pensé
en mis amigos y amigas,
No estabas arriba,
ni abajo ni en medio.

No encabezabas
ni concluías la lista.
No eras el número uno
ni el número final.

Dormir feliz.
Emanar vibraciones de amor.
Saber que estamos aquí de paso.
Mejorar las relaciones.

Aprovechar
las oportunidades.
Escuchar al corazón.
Acreditar la vida.

Y tampoco tengo
la pretensión de ser
el primero
el segundo
o el tercero
de tu lista.

Basta que me quieras como amigo.
Gracias por serlo.
Jorge Luis Borges