quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

«Trago-lhe uns couratos de porco que, assados e passados por manteiga, são muito bons ao pequeno-almoço»

Lettera Amorosa — João César Monteiro, 1995



O mais genial cineasta português de todos os tempos fez esta curta-metragem a "tirar apontamentos" para "Comédia de Deus", Grande Prémio do Júri do Festival de Veneza/1995.




Nesta reportagem televisiva feita no fim do cavaquismo, João César Monteiro cunhou o neologismo "filho-da-política".


Uma coisa é certa: em 1995,  não havia tantos "filhos-da-política" como agora.

Imagens e palavras*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     Costuma-se dizer que “uma imagem vale mais que mil palavras” mas, se “Guernica” de Pablo Picasso deu origem a uma enorme biblioteca, já os milhões de fotografias de comida publicadas diariamente no Instagram, em vez de mil palavras, suscitam só uma: “braagghhhh!”
     “Uma imagem vale mais que mil palavras” será uma síntese que não acredita no espírito de síntese? Uma comparação de poder? Não parece. Tanto há imagens poderosas como não. O mesmo com as palavras.
     Imagens ou palavras são ideias que se consumam dentro da cabeça. “Ver” uma imagem é ter um pensamento sobre ela, e esse pensamento não existe sem palavras, o processamento de ideias dentro do nosso cérebro não se faz com bits, faz-se com palavras. Daí decorre que, quem tiver mais vocabulário, tem necessariamente mais ideias.
     É por isso que o eduquês, ao fugir dos autores clássicos, ao procurar nas aulas uma linguagem similar à dos alunos, retira-lhes vocabulário, estreita-lhes o seu mundo interior, diminui-lhes a possibilidade de gerarem ideias.
     Um parêntesis para dizer do meu desapontamento com a incapacidade do actual ministro em combater o eduquês. Nuno Crato, ao contrário do que sempre escreveu e teorizou, chegado ao governo, em vez de focar as escolas no “produto” (os conteúdos que os alunos têm que aprender), fá-las gastar cada vez mais energias no “processo” (burocracia, centralismo, nevoeiro regulamentar).
     Mas regresse-se à dialética imagem-palavra: um dos cartazes do filme galego “Crebinsky” (com recente estreia nacional na Acert e no Cine Clube de Viseu) mostra uma “vaca com periscópio” ou, dito de outra forma, um “submarino com tetas”.



     “Submarino com tetas”, três palavras somente, mas — como “as palavras são como as cerejas” - podem chegar às mil palavras, às mil ideias, às mil milhões, aos submarinos, ao mais célebre militante do CDS: Jacinto Leite Capelo Rego.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A cafeína da JS-Viseu (mais umas letras pequeninas ao fundo da publicação)


* Vai ser bom por três razões: (i) o José Junqueiro, (ii) o Miguel Ginestal e (iii) porque eu prometo falar pouco.

Publicidade descarada

Lugar do Capitão, Viseu — 23H00

DREN*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 27 de Fevereiro de 2009

     1. Continuam as anedotas da DREN. Desta vez não é uma história de bufaria. Desta vez Margarida Moreira impôs que fosse feito um desfile de carnaval em Paredes de Coura, actividade que o agrupamento de escolas do concelho tinha decidido não fazer.
Eis, ipsis verbis, o último ponto do documento que Margarida Moreira enviou a desautorizar o conselho pedagógico de Paredes de Coura:
"Sendo certo que muitos professores não se aceitam o uso dos alunos nesta atitude inaceitável, acompanharemos de muito perto a defesa do bom nome da escola, dos professores e de toda uma população que muito tem orgulhado o nosso país pela valorização que à escola tem dado."
     É evidente que quem escreve com esta qualidade pensa com esta qualidade.
     Os professores de Paredes de Coura foram humilhados até ao que há de mais fundo na sua dignidade profissional.
     Como se costuma dizer no Minho, perante tal desaforo, aqueles professores ou mandavam a DREN abaixo de Braga (e não compareciam ao desfile) ou mandavam a DREN abaixo de Braga (e aproveitavam o desfile para mostrarem a sua indignação).
     Escolheram a segunda opção. As imagens em todos os media de professores vestidos de preto e de boca amordaçada foram bem eloquentes.

     2. Antigamente, em várias comunidades piscatórias, quando morriam pescadores no mar, as viúvas e os outros familiares apedrejavam as capelas. Com o desespero, pegavam nos santos, lapidavam-nos, insultavam-nos e enterravam-nos na areia. Eram os santos, que não tinham culpa nenhuma das inclemências do mar, que pagavam.
     A economia mundial afundou-se por causa da ganância do capital especulativo. Cresce o desespero e o desespero não é bom conselheiro. Quem é que vai ser apedrejado?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Ladrões de bicicletas — Vittorio de Sica (1948)


Vinte quilómetros por dia pedalava meu pai
desde a cama junto ao Douro até à próspera
Cerâmica de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da primavera, a poalha do suor em cada mão.

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veiculo de sombra, solitário
trepador pela encosta de Avintes. Não trabalha
em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões, na estrada
nacional, onde tudo, depois, será muito mais plano.
José Miguel Silva

"Crebinsky", estreia nacional* com a presença do realizador e do argumentista

Hoje, sessão do CCV, IPJ - Viseu, 21H45
Estas sessões não são exclusivas para sócios

Detalhes aqui




* No dia 23 em Tondela, na Acert, hoje em Viseu

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

poeminha cínico

Imagem de Mark Holthusen




mesmo o mais cinzento dos domingos
diz-se azul quando amanhece

ainda que em meio a terramotos
maremotos tempestades

mesmo o amor mais corrosivo sabe
a mel quando engatinha

ainda que respingue sangue e fel
a cada passo

mais importa o prometido que o
que encerra

à luz dos dias a crua e cínica
e vã realidade

sendo assim seguem sempre azuis
e doces os amores e os domingos -

a propaganda é a alma do negócio
bem se sabe
Márcia Maia

A galáxia parlamentar do PS

Caríssimos directores e jornalistas dos nossos media: é necessário um estudo bem documentado sobre os 230 deputados da Assembleia da República, um estudo que evidencie quais os deputados em exclusivo, quais os deputados em part-time, que ligações destes a que empresas, a que grupos económicos, a que escritórios da advocacia de negócios.

Enquanto não chega esse estudo mais substancial e dedicado a todos os partidos, debrucemo-nos sobre esta espuma em forma de infografia, saída na última edição do Expresso, sobre o grupo parlamentar socialista:

Há, segundo aquele semanário, cinco estrelas socialistas — Seguro, Costa, Assis, Sócrates e Vieira. À sua volta gravitam, com mais ou menos gravitas, dezenas de deputados-planetas, alguns destes debaixo da influência de mais do que uma estrela e há ainda oito deputados em órbita independente.

Esta infografia ilustra muito bem a ideia de Karl Popper — "os partidos não têm ideias, as pessoas é que têm"As pessoas é que interessam. O eleitorado socialista votou, sem saber, nestes vários sistemas planetários. Assim será enquanto se tiver que votar em listas e não se puder votar em pessoas.

A existência desta galáxia com várias estrelas influentes tem uma única razão: António José Seguro não conseguiu transformar-se no sol do PS.

Olhe-se agora para os três deputados socialistas de Viseu:

(i) Acácio Pinto aparece no rol dos "sem grupo" o que, perante  a "merditocracia" usual na altura do "faz-listas" no PS-Viseu que escolhe sempre acartadores de pastas dos chefes, e sem um "suserano" que o defenda, nas próximas legislativas Acácio Pinto corre o risco de ficar de fora;

(ii)
Elza Pais está abrigada por dois "suseranos" e pela cota; isto significa um mundo muito protegido mas com a sua luz própria escondida;

(iii)
José Junqueiro é segurista mas faz bem em trabalhar muito até às autárquicas num projecto 
prudente para Viseu, realista, prático, sensato, sem "novos paradigmas" da treta, com os pés assentes nesta terra abençoada. Esse trabalho terá um prémio: os eleitores viseenses põem-no a 300 quilómetros de lonjura deste kindergarten desenhado pelo Expresso.

Resta dizer que em 2015 (ou antes, caso Paulo Portas se divorcie de Passos Coelho) o cabeça de lista natural em Viseu nas próximas legislativas é António Borges, autarca de Resende em fim de mandato.  

Um grande ou médio vip como pára-quedista a vir encabeçar uma lista do PS em Viseu seria uma regressão intolerável para o distrito a merecer a demissão imediata do presidente e demais órgãos da Federação. É um cenário improvável mas que tem que ser posto porque nestas coisas convém ser-se exaustivo.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A noite

Fotografia de Mark Seliger


Pode a lua cegar-nos, ela que em nosso leito
nos convoca, nos fere fatalmente ou cativa,
fiéis a seu intento de um sono desvelado.
Abre-se a noite. Dura. A trepadeira é cúmplice.
Cai ao chão a roupa ínima. Porém, idêntica
aurora há-de velar-nos ou ser glória nossa.
Maria Vitoria Atencia



sábado, 23 de fevereiro de 2013

"Crying won't get you a dime, but you won't get a dime without crying", vai cantar Erica Buettner hoje em Viseu

No Lugar do Capitão, Viseu, 23H00





Que dirás esta noite

Fotografia de Silke Seybold



Desta vez eu tenho um plano.
Vou crescer para ti como um gato,
aninhar-me como um gato no teu colo,
vou sussurrar coisas secretas ao teu ouvido,
prender o teu coração como uma sombra
ou um deus silencioso.
Esta noite, um saco de flores
para o meu único amor.
Um cigarro eternamente azul
para mim.
Rui Manuel Amaral


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Quem é o sr. Mota Coelho Espírito Santo Engil de Passos Coelho?

Em vez de financiamento para as pequenas e médias empresas exportadoras maioritariamente a norte
três ministros e três secretários de estado fizeram hoje uma luzidia cerimónia para anunciarem, em power point, mais do mesmo para o mesmo lugar:

Daqui

Vamos ter mais uma pêpêpêzinha com taxa de rentabilidade de dois dígitos para os privados?
Apareceu lá alguém a cantar o "Vampiros" de Zeca Afonso?
E, pergunta primordial, há dinheiro?

A "terceira via" depois do governo

Muitos dos sarilhos que vivem actualmente as sociais-democracias europeias — foram praticamente varridas do poder em toda a "Europa" — decorrem das práticas governamentais da "terceira via", uma "coisa" inventada por Tony Blair e que nunca teve problemas nenhum em misturar política com negócios:



Esta convivência das figuras "socialistas" de topo com os negócios prolongou-se para depois da política:


Gerhard Schroeder, o energético, foi trabalhar para a Gazprom.




Tony Blair, o cúpido, foi para todo o lado e também para a JP Morgan.
 



José Sócrates, soube-se ontem, vai vender medicamentos para a América Latina.



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

O homem do martelo *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Imagem daqui
 1. Usando-se a muito conhecida intuição de Abraham Maslow, se “para o homem do martelo todos os problemas são pregos”, já para o homem da política todos os problemas são propaganda. 

Todo o político promove espaventosos “lançamentos da primeira pedra” para jornalistas e “forças vivas”, todo o político inventa momentos intermédios para chouriços noticiosos e todo o político atinge o nirvana numa luzidia inauguração.
     A “obra” do político tem que ser dada a conhecer. Com trompetas de preferência. Disso não vem nenhum mal ao mundo em 99% dos casos.
     Só que... há o tal 1% de excepção. Um “só que” destes aconteceu em Viseu no dia 13 de Fevereiro. Nesse dia, o dr. Ruas decidiu fazer propaganda com a aquisição de uma casa para abrigo de vítimas de violência doméstica. A operação de relações públicas correu bem, a notícia saiu em todos os media, saiu até nas televisões, saiu até aqui no Jornal do Centro, mas o problema é que... não devia ter saído. Não devia ter saído e muito menos a localização da casa para aquelas pessoas em risco. Elas a última coisa que precisam é que se saiba — que os agressores saibam - onde estão a viver.
     Convém reter esta ideia, dr. Ruas: o social é uma “bricolagem” muito melindrosa. Com ele, o método do martelo e do prego não é coisa boa.

     2. É “as mãos de um preto são mais claras que o resto do corpo”. É o “o destino inexorável das tílias...” sussurrado pelo actor José Rui Martins enquanto se ouve a flauta e o cantar de Luísa Vieira. É a nossa língua a viajar nos trópicos a falar dos “ninguéns” dos que “não são seres humanos, são recursos humanos”. É o público às gargalhadas a dizer “boi!”, numa “boi-noite!” inesquecível... 


     Falo do divertidíssimo “20 Dizer”, um espectáculo “portátil” da Acert que cabe em todos os sítios. E merece ir a todos os sítios. Amanhã vai estar na “Sala de Ser”, em Marzovelos.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

"Às turras com a democracia"

     Já aqui foi dito várias vezes: a terceira república está doente, precisa de entrar em obras, ou se reforma e adapta ou corre o risco de romper.
     Pedro Passos Coelho e António José Seguro podiam e deviam ter feito isso já que têm, no parlamento, os 2/3 de votos necessários para desbloquear um sistema partidocrático caduco, que desconfia dos cidadãos e tem medo deles.
      PPC e AJS dormiram na forma, sinal que não são estadistas; agora, depois do episódio TSU em Setembro, e do aumento evidente da febre social, já não há hipóteses deles consensualizarem o que quer que seja.
     Os nossos sarilhos são triplos:
      1. As instituições não respondem, se o governo cair haverá um governo PS-CDS ou PS-PSD-CDS, esse governo continuará a aumentar impostos, a ser centralista, terá mentido com quantos dentes tem durante a campanha, e fará exactamente o que os credores quiserem que ele faça quando chegar ao poder;
será um governo fraco como este de PPC e as pessoas vão continuar "às turras com a democracia", como titula o Expresso num artigo de onde se tiram as imagens para este post:

     2. Se as instituições não respondem e essa era a sua obrigação, a "rua" que se está a mexer em força outra vez e nem sempre bem (por muito que as redes sociais estejam a deitar foguetes, ontem o que foi feito ao doutor Relvas é errado), a "rua" precisa depois de canalizar as energias para soluções de poder, soluções institucionais — ora, para isso, eram precisos novos partidos, partidos cujo crescimento eleitoral assustasse os cinco partidos instalados confortavelmente na mesmice que nos trouxe a este pântano. Só novos partidos com força é que poderão insuflar o novo nos partidos velhos, e trazer sangue novo à terceira república.
     3. As instituições da terceira república não respondem, a "rua" com a sua generosidade, com a sua exasperação, com os seus erros e com a sua impotência - também não responde; mas o sarilho ainda é maior— é que todo o político que tem roubado o futuro aos nossos filhos e aos nossos netos sabe que nunca será preso, sabe que será sempre "isaltinado".
     O problema número 1, número 2, número 3, número 4, número 5 da terceira república é a justiça, aliás, a falta dela, e as pessoas sabem muito bem isso:

Multitarefas *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 20 de Fevereiro de 2009


     1. Nós conseguimos fazer várias coisas ao mesmo tempo.
     Há uns anos no IP3 foi apanhado pela GNR um condutor que ia a conduzir a 160 à hora e a fazer a barba. O facto é que o homem não se esbarrou.
     Já vi num multibanco uma mulher a levantar dinheiro da máquina enquanto falava ao telemóvel e comia um croissant. Ela não se enganou. Não falou para o multibanco nem comeu o telemóvel nem levantou o croissant.
     Dizia-se que o presidente americano Gerald Ford não era capaz de caminhar e mascar chiclet ao mesmo tempo mas isso era só uma maldade dos seus inimigos políticos.
     Nós somos multitarefas.
     Portanto, por favor, não me digam que os portugueses não são capazes de votar para as autárquicas e para as legislativas no mesmo dia. Então as pessoas são capazes de votar em três papelinhos diferentes mas em quatro já não?
     Ultimamente tenho ouvido muito o argumento que o que é preciso é atacar a crise económica em vez de se estar a pensar em problemas de minorias como o casamento gay. Ora, este argumento não tem em conta que os políticos também são multitarefas. Numa manhã de trabalho e sem madrugarem muito, os deputados podem perfeitamente resolver o problema do casamento entre homossexuais e ainda ficam com a tarde toda para lutarem contra a recessão.

     2. Às vezes, na cabeça das pessoas, forma-se a ideia que a felicidade está sempre noutro lugar ou noutra circunstância, nunca no lugar ou na circunstância em que se está.


     É disso que trata Revolutionary Road, de Sam Mendes, um filme amargo que vai aumentar a taxa de divórcios do mundo.
     
     3. No último sábado foi lançado o primeiro número da Viseu.M. É uma revista excelente e imperdível.
     Parabéns ao Grupo de Missão do Museu Municipal de Viseu.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Coração *






* Devia ter sido 
publicada no dia 14 
mas só ontem é que a vi na Infante D. Henrique

Inspector Bellamy — um filme francês com um actor russo

Hoje, IPJ - Viseu, 21H45
Sessão não exclusiva para sócios do CCV.

Uma homenagem a Georges Simenon, um policial protagonizado pelo imenso actor Gérard Depardieu,
 "emigrante" na Rússia por causa da fúria fiscal do presidente pós-moderno que os franceses prantaram no Eliseu.

Detalhes aqui


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Falências de bancos — a caminho da gestão "à islandesa" da crise bancária *

* Excerto do boletim de Fevereiro do Laboratório Europeu de Antecipação Política, numa tradução às três pancadas

     A nossa equipa prevê que muitos países, incluindo os Estados Unidos da América, vai aproximar-se de uma gestão ao "estilo islandês", isto é, não resgatando os bancos e deixando-os colapsar.
     Já tivemos um lampejo disto com a liquidação do banco irlandês IBRC, o que deu ideias a muitas pessoas. "Como a Irlanda liquidou o seu lixo bancário numa noite" — admirava-se em manchete La Tribune.
     Esta possibilidade parece ser, cada vez mais, a solução caso haja uma recaída dos bancos; pelas seguintes razões: 
     (i) porque parece muito mais eficaz que os planos de resgate de 2008-9, comparando-se para a recuperação islandesa;
     (ii) porque os países já não têm os meios para poderem pagar novos resgates;
     (iii) e, finalmente, porque ninguém pode negar que será uma grande tentação para os líderes políticos poderem-se livrar, de uma forma popular, de parte das dívidas e dos "activos tóxicos" que oneram as suas economias.
     Estes bancos "demasiado grandes para falirem" foram, de facto, alimentados com dívida pública e privada, o que fez com que disparassem os seus lucros e poder. 

Desenho de Daniel Horowitz (daqui)

     Em boletins anteriores, a nossa equipa estabeleceu uma relação entre um banco como Goldman Sachs, por exemplo, e os Templários, uma ordem militar medieval cuja enorme riqueza cresceu nas costas dos estados até que foi extinta por Filipe, o Formoso, que levou todo o ouro dos Templários para os cofres do estado.

Hei-de ser tudo o que eles querem

Achado no Facebook sem indicação de autoria




Hei-de ser tudo o que eles querem:
a raiva é toda de eu não ser um espelho
em que mirem com gosto os próprios cornos,
as caudas com lacinhos, e os bigodes
de chibos capripédicos.
Não sou sequer imagem.
Mas voz eu sou
que como agulha ou lança ou faca ou espada
mesmo que não dissesse da miséria
de lodo e trampa em que se espojam vis
só porque existe é como uma denúncia.

Hei-de ser tudo, não o sendo. Um dia
— podres na terra ou nos caixões de chumbo
estes zelosos treponemas lusos —
uma outra gente, e limpa, julgará
desta vergonha inominável que é
ter de existir num tempo de canalhas
de umbigo preso à podridão de impérios
e à lei de mendigar favor dos grandes.
Jorge de Sena


domingo, 17 de fevereiro de 2013

José Manuel Sobral em Viseu



O viseense 
José Manuel Sobral vai apresentar este seu livro
no Hotel Montebelo, 
no dia 22 de Março, 
às 21h30M

O livro 
e a sua apresentação vai ser um momento alto da vida cultural da cidade este ano.



Esta colecção excelente, editada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, é vendida nas livrarias e nos supermercados Pingo Doce e tem suscitado, aqui e ali, opiniões azedas.

Há uns tempos, um anónimo mandou para este modesto estabelecimento uma piadola em forma de comentário por aqui se ter referido um livro da colecção — que era um livro pequeno e barato, foram essas as objecções, objecções que levaram a devida resposta aqui.

Correia de Campos e a liberdade de escolha dos "panhonhas"



     A propósito da ADSE, diz Correia de Campos em entrevista ao jornal I.:
     «Os funcionários públicos são cidadãos do país e têm direito ao Serviço Nacional de Saúde (SNS). Não há razão nenhuma para terem ainda um sistema que a única coisa que lhes permite é escolher o médico onde vão.»
     E diz a seguir:
     «Há quem tenha defendido que se transformasse o SNS numa enorme ADSE, mas isso seria o maior desastre do mundo porque a ADSE está concebida para pessoas que não são exactamente a classe média baixa nacional.»
     O Campos acha que só ele e os "sábios" como ele é que devem "escolher o médico" da "classe média baixa" e das outras classes
     A "classe média baixa" e as outras classes ao contrário do Campos e dos "sábios" como ele são "panhonhas".
     São tão "panhonhas" que foram elas — a "classe média baixa" e as outras — que puseram o Campos, pelo voto, a deputado europeu.

Tédio

Fotografia de Larry Nicosia


y hoy
te consume
el tédio

Como una nube turbia corrompiéndose
en lentas gotas de barro o de melancolia
como una lluvia antigua
que empapa hasta a los muertos más mezquinos
así el tédio resbala por los muros
forma charcos groseros en las calles
penetra en las iglesias y en los cines
y se filtra en las casas con su olor a desastre.
Un aire de fastidio y de humedad entonces
se apodera de gestos y palabras
se cuelga de los trajes
preside los encuentros de família
viaja en los sucios autobuses
y envuelve la tristísima cíudad desconfiada.
Ah testigo implacable de las horas vacías
aburrimiento enorme que no ocultan
ni la música ambígua de las salas de fiesta
ni el clamor dei estádio
ni el tintineo y charla de las mesas de bar.
Y en médio de una edad de hastío y podredumbre
de espera y rabia oculta
tan solo algunos ninos se divierten
jugando a destruirse por buhardillas de sueno
mientras que afuera sigue
esa lluvia cayendo desconsoladamente
sobre la piel de un mundo en bancarrota.
José Agustín Goytisolo




sábado, 16 de fevereiro de 2013

Ditadura fiscal

Sobe e desce, Público, 15.2.2013
Segundo o púdico jornal Público, "quem acaba de sair do executivo" ou um "anterior de secretário de estado" tem que escrever sempre de uma forma asséptica e não pode nunca escrever um "palavrão".
 
Ora, pelo contrário,
 ainda bem que FJV regressou à blogosfera tão depressa, ainda bem que ele soltou aquele grito libertador.

  É preciso dizê-lo com clareza: a ditadura fiscal que nos governa está a pisar o risco.

Viajemos

Fotografia de Ken Hermann


Viajemos.
Oh não para comer comidas raras.
ou para experimentar corpos exóticos.
Mas para não ficar num lugar só
e na corrida não ter tempo nunca
de descobrir o que sabe: é porca
a mesma humanidade em toda a parte.
Olhemos a paisagem, monumentos,
notemos como há gente muito bela,
passemos onde espíritos sofreram
(sem visitá-los onde dormem pó)
— e tomemos depressa avião ou barco,
ou carro ou expresso, antes que alguém comece
a abrir a boca e mostre a dentadura.
Jorge de Sena


O PS e o próximo congresso


  
A intenção de Eurico de Figueiredo de disputar eleições internas num PS estralhaçado pelo autoritarismo negocista de Sócrates é só um cacto no alto de uma duna.  

Claro que num deserto, depois da imensidão da areia, há água e terras férteis mas, para lá chegar, o partido precisa de caminhar muito para merecer outra vez a confiança dos portugueses (ajuda mas não chega a exasperação das pessoas com a incompetência de Passos Coelho e Portas).

Entretanto, vem aí mais um congresso socialista com o guião albanês do costume: mais de 80% de votos na "situação", um fim-de-semana algures (porque não em Viseu?) com um chorrilho de proclamações seguidistas do aparelho, e algumas declarações tipo cão-que-ladra-mas-não-morde de um ou outro vip televisivo.

Nada que esconda o essencial:
António Costa ficou-se nas covas e foi humilhado por Seguro.