quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Coisas moles

Artigo completo aqui
"Moles" aplicado a facas é um adjectivo destes tempos em que há mais produtos Pfizer que "amoladores".

 Na blogosfera — que é mais bruta nas palavras que a imprensa — não tarda nada, em vez de adjectivos moles,  vai começar a discorrer-se sobre "cojones".

 Ou a falta deles. 

RTP*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro
     
1. Desde que começou a emitir, em 1955, a RTP foi sempre a voz do dono. Foi melíflua no tempo de Salazar, conversou em família com Caetano, foi uma-gaivota-voava-voava durante o PREC, e a seguir, a preto e branco ou a cores, foi sempre situacionista, vivendo das taxas, da publicidade e de transferências generosas do orçamento de estado (no ano passado foram 540 milhões de euros). Pode faltar dinheiro para tudo, para a RTP nunca falta.
     
Em 2012, aconteceu uma coisa nunca vista: a RTP carregou na maquilhagem, desceu o decote, vestiu uma saia curta e, durante um trimestre, veio para a rua fazer oposição ao governo da nação.
     
Entre 23 de Agosto (dia em que António Borges “anunciou” que a RTP ia ser concessionada a privados) e 21 de Novembro (dia da demissão de Nuno Santos) a RTP malhou forte e feio em Passos Coelho e no doutor Relvas.
     
Claro que estes três meses “vadios” da RTP já acabaram. Relvas pôs lá uma nova administração, reforçou os poderes do director-geral, e a velha senhora é outra vez o que sempre tem sido desde 1955.
     
Entretanto, a tão aguardada decisão do conselho de ministros sobre a RTP foi deixar tudo na mesma, o que foi uma felicidade para o país político: o doutor Relvas ganhou o que importa - o controle dos conteúdos, enquanto Portas e Cavaco ficaram com imagem de vencedores e o aplauso dos partidos de esquerda. O PS não tem pensamento sobre os media (no grupo parlamentar o assunto é deixado a Inês de Medeiros), o bicéfalo bloco não acerta uma e o PCP vê sempre na mesmice uma vitória dos trabalhadores.
     
Os contribuintes, esses, vão continuar a pagar este manicómio, a pagarem a taxa audiovisual, e a pagarem tv-cabo se quiserem mais do que os quatro canais da TDT (até a desgraçada Grécia tem 17...)

2. O professor Marcelo acertou: 
o PS com Costa é uma televisão a cores e com Seguro é uma televisão a preto e branco.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Cambios

Fotografia de Todd Fisher



Ahora salgo con chicos
más jóvenes
y me drogo mucho más.

Y ahora no me molesta
que los hombres me miren
imaginándome posible
la carne.

Me invitan a los servicios
con sus embolias seminales
y sus miserias de sábado noche.
Con caramelitos en los bolsillos.

Y todo está por hacer.
Que no termine la noche.
Que no termine esta
maldita noche.
Baila,
baila...
Que no termine esta
mentira.
Eva Vaz


A ventoinha*

* Texto publicado no Jornal do Centro há 4 anos, em 30.1.2009


1. Ano de eleições é ano de fervenças em pouca água.

Mal se acabaram de cantar as janeiras logo apareceu José Cesário, líder distrital do PSD, de kalasnhikov na mão, a exigir a demissão da directora do centro de emprego de Lamego.
        
Como é óbvio, na resposta, José Junqueiro lembrou-lhe casos complicados nas câmaras de Lamego, de Castro Daire e de Mangualde. 

Já se sabe: quando se atira lama para a frente da ventoinha, sai lama em todas as direcções.



2. Filmados nos anos de 1970, os 68 episódios da multi-premiada Família Bellamy contaram as aventuras e desventuras duma família aristocrática e dos seus empregados. O título original desta excelente série televisiva — Upstairs, Downstairs, ou o usado em Espanha — Arriba y Abajo explicavam melhor aquele mundo: os andares no cimo da escada eram para os senhores, os de baixo para os criados.
     
Depois da queda do muro de Berlim e da vitória do capitalismo, a divisão de tarefas entre o poder económico e o poder político passou-se a parecer muito com a Família Bellamy. No andar de cima, os donos do dinheiro mandavam; no andar de baixo, os políticos tratavam-lhes da intendência.
     
O resultado, depois de anos de ganância e irresponsabilidade, é a crise gravíssima que estamos a viver. Os do andar de cima começaram a pedir ajuda aos políticos. Para já, a resposta tem vindo em planos de recuperação e avales de milhares de milhões de euros.
     
A coisa não vai ficar por aqui. Em tempos de crise, uns ganham e outros perdem, uns sobem e outros descem. Vai haver um engarrafamento upstairs, downstairs na escadaria social.
     
E muitos dos de cima vão descer a escada aos trambolhões empurrados exactamente por aqueles que eram, até há não muito tempo, seus criados.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Dilemma

Fotografia de Christer Stromholm


If I were mild, and I were sweet,
And laid my heart before your feet,
And took my dearest thoughts to you,
And hailed your easy lies as true;
Were I to murmur "Yes," and then
"How true, my dear," and "Yes," again,
And wear my eyes discreetly down,
And tremble whitely at your frown,
And keep my words unquestioning
My love, you'd run like anything!

Should I be frail, and I be mad,
And share my heart with every lad,
But beat my head against the floor
What times you wandered past my door;
Were I to doubt, and I to sneer,
And shriek "Farewell!" and still be here,
And break your joy, and quench your trust-
I should not see you for the dust!
Dorothy Parker


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Ou Seguro modera as suas tropas...

... ou o aparelho mais encardido do partido 
lança fogo ao PS.

Veja-se este caso: para apoucar o deputado João Galamba, António Gameiro, em vez de usar os seus dois neurónios, prefere usar o velho argumento do sargento lateiro a berrar na parada que a antiguidade é um posto.





Correio da Manhã, hoje



Ó Gaspar, isto é que é "ir aos mercados"

Viseu "Made In" China

Fotografia de Ryan Pyle (NYT)
«É certo que a dimensão dos salários médios chineses tem evoluído, que uma tímida classe média vai surgindo de Pequim a Xangai com potencial de consumo… mas é igualmente verdade que, ao lado, da Índia ao Vietname, é possível replicar a tal incivilizada concorrência se...»
Ricardo Bordalo,
Crónica completa

Samara Lubelski no Teatro Viriato

4ª feira, 30 jan'13, 22:00, café-concerto, 
detalhes aqui

Ípsilon, 25.1.2013


domingo, 27 de janeiro de 2013

Em Amor não há senão enganos

Suspiros inflamados que cantais
A tristeza com que eu vivi tão cedo;
Eu morro e não vos levo, porque hei medo
Que ao passar do Leteo vos percais.

Escritos para sempre já ficais
Onde vos mostrarão todos co'o dedo,
Como exemplo de males; e eu concedo
Que para aviso de outros estejais.

Em quem, pois, virdes largas esperanças
De Amor e da Fortuna (cujos danos
Alguns terão por bem-aventuranças),

Dizei-lhe que os servistes muitos anos,
E que em Fortuna tudo são mudanças,
E que em Amor não há senão enganos.
Luís Vaz de Camões

0s cilícios não são menos que os aventais

Numa sociedade aberta tudo deve ser escrutinado e é para isso que existem os media

sábado, 26 de janeiro de 2013

Nada

Fotografia de Uli Weber




Nada, nem sequer o Verão
está completo. Menos ainda o colar
de sílabas que, desvelado,
te ponho à roda da cintura.
Nunca me pediste mais, nunca
te dei outra coisa.
Quando juntamos as mãos esquecemos
que somos culpados da nossa inocência.
E sorrimos, alheios
ao sol que declina, à estrela
do norte que sabemos no fim.
O privilégio da vida é este
silêncio musical que do teu olhar
cai nos meus olhos
e regressa a ti acrescentado
pela luz da manhã varrendo o mar.
Eugénio de Andrade




sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Das portas trancadas

Fotografia de Arthur Tress



Doem-me as portas trancadas.
As que abanamos e não se conseguem abrir.
Das que se perderam as chaves.

As chaves das portas trancadas que não se conseguem abrir.

Penso nas portas trancadas da tua casa.
As chaves que se escondem e não mais aparecem
a porta do teu quarto que range sempre que a abres
ou quando se tosse uma réstia de vento.

A madeira sólida do teu quarto
os raios anelares das árvores
agora sem vida
trancam o teu quarto
conservando a resina que cola os meus cabelos à tua porta.

As unhas negras.
O sangue coagulado.
A dor.
O horror.

De como a tua porta se tranca trilhando os meus dedos de solidão.
Joana Serrado

Autárquicas, o que é isso?

Para que os militantes e os dirigentes locais mais enfarinhados dos partidos percebam o que se está a passar:

in Jornal do Centro, 24.1.2013, p. 3 (clicar na imagem para melhor leitura)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Mulas não é Artur Baptista da Silva, o Mulas não é um travesti, o Mulas não é tão pouco Fernando Pessoa

     Este modesto estabelecimento foi pioneiro e tratou do Mulas em 13 de Janeiro.
     Depois, tratou do Mulas em 17 de Janeiro
     Com o que se soube ontem no El Mundo, lá tem que ser, "não há duas sem três", e lá se tem que falar do Mulas uma terceira e, espera-se, última vez:
     — quem ontem viu semelhanças entre o Mulas e o grande Artur Baptista Silva (que embarrilou com limpeza o jornalista socrático do papillon) falhou o alvo já que o grande ABS, em todos os sítios, até na academia do bacalhau e na universidade de verão do PS, usou sempre o seu nome de baptismo;
     — quem ontem viu travestismo no Mulas (ele tanto factura como macho Mulas como fêmea Amy) também errou como se explicará mais à frente;
     — quem ontem viu na notícia do El Mundo mais um fenómeno de heteronímia pessoana que pode dar a qualquer ibérico, uma vez heterónimo Mulas, outra vez heterónimo Amy, sempre a guardar rebanhos em economês, errou também.

Não há aqui desdobramentos de personalidade, nem travestismo, nem heteronímias, há é talento matrimonial: 
a esposa de Mulas, a cineasta e escritora Irene Zoe Alameda, já confessou que é ela  Amy Martin.

Formigueiros*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


     1. O mundo wiki é contra-intuitivo porque incorporámos a ideia que só o interesse faz mexer as pessoas. Ora, se a única motivação das pessoas fosse o ganho pessoal, como explicar as milhões de pessoas a fazerem verbetes gratuitamente para a Wikipédia ou a descarregarem vídeos no Youtube? Como explicar o facto destes armazéns de informação estarem com as prateleiras organizadas, acessíveis e à borla?
     O blogue Aventar já por duas vezes usou este método do formigueiro para fazer o que devia ter sido feito pelo estado. Quer o “Memorando de Entendimento”, quer agora o relatório do FMI, só tiveram versões em inglês. E isso é um sinal da nossa sina: somos um protectorado a falar em “estrangeiro” com governos que já nem têm energia para fingir que é de outro modo.
     Tanto em 2011 como agora o Aventar usou o método wiki: dividiu os textos em segmentos, fez um apelo na blogosfera, dezenas de pessoas mobilizaram-se, e surgiram as versões em português. Graças ao trabalho voluntário deste formigueiro, mesmo quem não leia Shakespeare no original já pode saber onde o FMI quer tesourar quatro mil milhões.
     Se agora a dupla Gaspar/Moedas for contratar uns boys para traduzirem aquela coisa, isso será “Má Despesa Pública” (nome de outro blogue que deve ser seguido e que também, muitas vezes, usa informação recolectada por formigas voluntárias).

     2. O anúncio da candidatura de José Junqueiro à câmara de Viseu deu origem a dois comunicados partidários a tentarem provar a existência política dos seus autores: um de Guilherme Almeida do PSD (que pensa que existe) e outro de Lúcia Araújo Silva do PS (que nem pensa nem existe).
     São coisas de aparelho que não distraem do essencial: 
perante o mais forte e mais sólido candidato que o PS podia escolher, o PSD candidata António Almeida Henriques ou Carlos Marta? Ou fica-se por uma figura de segunda?
    

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Portugal odeia a concorrência

 Dito hoje no parlamento pela presidente da ANACOM, a agência que é suposto regular o sector das comunicações 
 
«Sobre os preços praticados pelos operadores, nomeadamente com os pacotes tribais, Fátima Barros afirmou que o regulador teme que estes possam ficar demasiado baixos, pelo que o regulador estará atento à situação.»
in Jornal de Negócios 

Sem juízo *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 23 de Janeiro de 2009





É a banda sonora oficial do Olho de Gato de hoje: 
Quando a cabeça não tem juízo
E tu não sabes mais do que é preciso
O corpo é que paga
O corpo é que paga
Deixó pagar deixó pagar
Se tu estás a gostar…


     
1. Para não cansar muito os muitos juristas da casa, o ministério de Maria de Lurdes Rodrigues (MLR) adjudicou um trabalho a João Pedroso por 266 mil euros e mais uns trocos e mais o IVA. Pagou logo tudo ao advogado antes deste começar a trabalhar. A coisa deu bronca. O trabalho ficou por fazer. João Pedroso já reconheceu que não vai dar conta do recado. Agora é-lhe pedida a devolução de… metade da massa … em 12 suaves prestações...
     
Vá lá, cante como quando está no duche: “Quando a cabeça não tem juízo…”
     
2. A HP venceu um concurso de fornecimento de computadores às escolas; a ACER protestou porque a sua proposta era mais barata 15 milhões de euros.
     
Será outro caso de “quando a cabeça não tem juízo”? Não se sabe ainda. Ninguém explicou aqueles 15 milhões a mais. Há, para já, uma certeza: “o corpo (leia-se: o erário público) é que paga”…

     
3. MLR, durante todo 2008, não conseguiu aplicar a sua avaliação “chilena” dos professores. Perante aquele labirinto, até os presidentes das escolas arrastaram os pés.
     
Vai daí, MLR entrou em 2009 a ameaçar os “índios” e a atirar dinheiro aos “chefes”. Os directores das escolas acabam de ter um rechonchudo aumento no seu “suplemento remuneratório”. Consoante o tamanho da escola, vão passar a ser 600 ou 650 ou 750 euros.
     
Vá lá, como no duche: “Quando a cabeça não tem juízo…”

Cheny Wa Gune em Viseu na sexta






terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Se ensinasse escrita criativa, perguntou-me, o que lhe diria?

Fotografia de Maxim Chelak


diria para terem um desgosto amoroso,
hemorróidas, dentes podres
beberem vinho barato,
evitar a ópera e o golfe e o xadrez,
mudarem a cabeça da cama
de parede para parede
e depois diria para terem
outro desgosto amoroso
e para nunca usarem computador portátil,
evitarem almoços em família
ou serem fotografados num jardim
com flores;
para lerem Hemingway só uma vez,
passarem por Faulkner
ignorarem Gogol
verem fotografias da Gertrude Stein
e lerem Sherwood Anderson na cama
enquanto comem bolachas de água e sal,
perceberem que as pessoas que falam de
liberdade sexual têm mais medo do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs a tocar
órgão na rádio enquanto enrolam
um Bull Durham às escuras
numa cidade desconhecida
com um dia para pagar a renda
depois de abandonar
amigos, família e trabalho.
para nunca se considerarem superiores e/ou justos
e nunca tentarem ser.
para terem outro desgosto amoroso.
observarem uma mosca no verão.
nunca tentarem ter sucesso.
nunca jogarem bilhar.
para se mostrarem verdadeiramente furiosos
quando descobrirem que têm um pneu furado.
tomarem vitaminas mas nunca fazer exercício físico.

depois disto tudo
inverter o processo.
ter um bom caso amoroso.
e aprender
que não há nada nem ninguém a saber tudo –
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira do jardim nem a Estrela Polar.
e se algum dia me apanharem
a dar uma aula de escrita criativa
e lerem isto
eu dou-vos um 20
pelo cu
acima.

Charles Bukowski

Lafões — História e Património, de Jorge Adolfo M. Marques


N. B.: no "Welcome Center" da Casa do Adro (Adro da Sé de Viseu)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Fotografia de Tarun Khiwal




Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Melhores blogues 2012 — votação final

Esta iniciativa do blogue Aventar entra na fase final esta semana, até sábado à meia-noite.
Votar aqui (na segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado).


A blogosfera viseense está muito bem representada:

Votar em: Locais/Regionais

Votar em: Locais/Regionais e Blog Revelação

Surpresa só na falta de vergonha

Capa do jornal I. de hoje

O senhor João Cordeiro da Associação Nacional de Farmácias diz-se surpreendido com o convite do PS para a candidatura à câmara de Cascais.

Caro Ferro Rodrigues, esta gente que agora manda no PS não tem memória, mas este blogue tem e não se esquece da campanha nojenta que a ANF fez em 2002 contra o PS.

António José Seguro, desconvide o convidado ou, então, borrife-se de alcatrão e vá passear para dentro de um aviário.

domingo, 20 de janeiro de 2013

2013, o ano do colapso do dólar — previsão LEAP

* Excerto do boletim de Janeiro do Laboratório Europeu de Antecipação Política (Geab nº 71), numa tradução às três pancadas

     Os Estados Unidos acreditavam certamente que o resto do mundo teria interesse ad infinitum em manter a sua economia em respiração assistida mas é provável que agora já tenham percebido que tal não vai acontecer. 
     Os capítulos finais da crise norte-americana (grande crise política, paralisia decisional, quase queda no "precipício fiscal", perspectiva de suspensão de pagamentos em Março, e incapacidade sistemática de implementação da mais pequena solução estrutural) convenceram o resto do mundo  da iminência de um colapso, e todos os actores estão de alerta para, ao mínimo sinal de uma mudança, se safarem, conscientes que ao fazerem isso eles vão precipitar o colapso final.
     A nossa equipa considera que neste contexto de tensões extremas — tanto de políticas nacionais como de tensões financeiras internacionais — induzidas pela próxima subida do tecto da dívida estadunidense em Março de 2013, não vão faltar sinais para que desapareçam os últimos compradores de T-bonds, desaparecimento que o FED já não estará em condições de compensar, levando a uma subida da taxa de juros que propulsionará a dívida norte-americana para níveis astronómicos, retirando a esperança aos credores de alguma vez virem a ser pagos, fazendo com que estes atirem a toalha ao chão e deixem o dólar colapsar... um colapso do dólar a que irá corresponder, de facto, à primeira solução genuína, penosa certamente mas real, da dívida dos Estados Unidos.
     É por esta razão que a nossa equipa antecipa que 2013, o primeiro ano do Mundo-de-Amanhã, irá assistir a esta racionalização das contas dos Estados Unidos e do mundo. Todos os actores se encaminham para este passo cujas consequências são de previsão muito difícil mas trata-se de uma solução inevitável para a crise tendo em conta a incapacidade estrutural dos Estados Unidos de implementarem genuínas estratégias de redução da dívida.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Restinga's Bar

Fotografia de Gyula Halász (Brassai)


Sou tão frágil, meu bem, que um som, de leve
pode ser-me fatal como o teu beijo:
qualquer música brega, qualquer frase
pode ser-me fatal. E, assim, não deve
a brisa andar tão próxima à tormenta,
como não deve o ritmo da valsa
transformar-se em punhais; a vida é breve
e aquilo que é demais logo arrebenta.
Sou tão frágil, meu bem, que nada pode
separar-me de ti. Teu nome é um sonho
que navega em meu sonho. Tenho pena
de tudo, algo me aflige e me sacode.
Desliga esse Gardel, bota um canário
em vez do som, da voz que me condena.
Jorge Tufic


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Os pórticos não são uma guerra norte-sul, oh JN!


Os pórticos não são tão pouco uma questão de dinheiro, embora seja conhecida a ladroagem nas Parcerias Prejuízos Públicos Proveitos Privados com taxas de rentabilidade de dois dígitos e nas quais o governo não mexe.

Os pórticos são instrumentos do Estado Big-Brother, que está a coligir informação acerca das deslocações das pessoas, informação que não é legítimo um estado possuir.

Como os portugueses não amam a liberdade e deixaram instalar estas infraestruturas de controle, os pórticos agora vão multiplicar-se na nossa paisagem rodoviária.

Ninguém se admire quando — com pretextos ecológicos a mascararem o assalto aos nossos bolsos — aparecerem autarcas de concelhos mais ou menos falidos a quererem colocá-los à entrada das cidades.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Mulices #2




O DN puxa para a primeira página a história, 
já tratada neste modesto estabelecimento
do socialista espanhol desausteritário na terra dele e todo éfeémí em Portugal.

Ó Mulas, e se fosses fazer um cafuné ao Zapatero e desamparasses a loja?

Viseupédia #25 — A Área Urbana


Televisões *

* Publicado hoje no Jornal do Centro


Durante os seus quatro mandatos, Silvio Berlusconi desenvolveu um sistema de poder ímpar no mundo, a que se chamou de “populismo televisivo”, e que assentou no uso dos canais Mediaset (de que era patrão) e dos canais da RAI pública (de que era “dono” político). “Il Cavaliere” foi uma nódoa na camisa de seda da velha Europa, foi uma filão para o anedotário bunga-bunga, e foi uma inspiração para a escrita genial de Umberto Eco.
     
Em Abril de 2002, exasperado, Umberto Eco defendeu o boicote aos produtos publicitados nos canais Mediaset. Esta “luta” foi teorizada assim por Eco: “a um governo-empresa não se responde com bandeiras e com ideias, mas atacando directamente o seu ponto fraco: o dinheiro.”
     
Esta ideia de Eco fez nascer um movimento social com algum impacto. Mas, como se sabe, toda a acção produz reacção: a seguir, o escritor recebeu uma encomenda sem remetente. Lá dentro vinha um seu livro de 1968, “La defizione dell'arte”, em que alguém tinha escrito 156 vezes a palavra “merda” a vermelho nas páginas ímpares. No embrulho, vinha também um bilhete não assinado a avisar: «quem semeia ventos... colhe tempestades».
     
Escusado será dizer que este trabalho, meio “trash-art” meio “merd-art”, teve uma resposta hilariante do mestre italiano e que pode ser lida em “A Passo de Caranguejo”, um livro que a Gradiva acaba de editar, felizmente em desacordês.
     
Não, não estou — à semelhança de Eco — a sugerir aos leitores que abominam o acordês para deixarem de comprar livros que grafam “espetadores” de televisão em vez de “espectadores”.


Mas sugiro que se acompanhe com atenção e vigilância o que o governo prepara este mês para a RTP. 
     
Pelo que se sabe, Paulo Portas defende uma TV pública do século passado (nisso acompanhado por toda a esquerda, deva-se dizer). 

Já o doutor Miguel Relvas, se o deixarem, sai-se com uma berlusconice.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Inventário em contraluz




Faço-te o relato destas coisas agora,
quando todos estão mortos.
Quando já somente a memória
é rio, colheita, solitária espuma de pátios,
trinados que se desfazem ao calor
enquanto doces mulheres
falam debaixo das folhas, pela tarde,
diante de tachos de orégão.
Agora tudo é longínquo
pois foi caindo de nós brandamente
como um pouco de areia da mão.
Agora escutas talvez, quiçá sonhas.
Inventas talvez esse duro monte
sacudindo na erva seu relincho.
Ou segues, por um fio de lua,
o odor que te conduz aos velhos baús,
ao armário, ao retrato do tio,
o dos bigodes de cigano e olhos de anjo,
o que pestaneja com secreta delícia
quando tu, doce irmã e minha mãe,
punhas a lâmpada
frente às frutas e aos pratos de arroz,
o que morreu num domingo, lembras-te?
Falo-te da memória,
os quartos, os móveis e os cochichos na memória.
Do modo como o vento
roçava os arcos da sala
e fazia gemer os corpetes e os lenços no arame,
de quando o mar, disfarçado de vento, quando o fumo.
Falo-te do mundo, do tempo neste mundo.
De dias que arderam como finas moedas
(rostos nítidos, com luz, com luz furiosa e viva,
vestidos que cobriram amados corpos, que nos cobriram,
semanas cheirosas a erva-cidreira)
falo-te de então.
Héctor Rojas Herazo


Web 2.0*

* Texto publicado no Jornal do Centro em 9 de Janeiro de 2009


     
1. Em 2008, os media tradicionais perderam audiência para a Web 2.0, a internet dos blogues, das redes sociais, do YouTube, da wiki, …
     
É conhecida a diferença entre eles: enquanto nos media tradicionais temos “um a falar para muitos”, na Web 2.0 temos “muitos a falar para muitos”.
     
Na Web 2.0 milhões e milhões de “formigas” produzem e disseminam informação. Isto é novo e tem consequências no “formigueiro”.
     
Obama foi um campeão da Web 2.0. Os seus vídeos no YouTube foram vistos por 50 milhões de pessoas. Os donativos angariados através da net permitiram a Obama dispensar até o uso de fundos públicos.

Paulo Guinote


Em Portugal, o entendimento assinado em Abril entre os sindicatos e o ministério da educação foi estilhaçado pelos blogues dos professores. Foram os blogues que mostraram o labirinto sádico do modelo de avaliação de professores engendrado por Maria de Lurdes Rodrigues. Foi nos blogues que se fez a mobilização total da classe. Antes dos media e, muitas vezes, contra os media, foram os blogues dos professores que deram informação credível a mostrar as escolas à beira de um ataque de nervos.
     
Escusado será dizer que a Web 2.0 vai ter um grande papel nas três eleições que vão acontecer em Portugal este ano.


Uma vénia ao 
     
2. No nosso regime semipresidencialista, o presidente da república exerce o poder moderador, poder reservado aos reis nas monarquias constitucionais (em Portugal, de 1826 a 1910).
     
Diz Slavoj Žižek, em As Metástases do Gozo: “o direito do rei a dois vetos consecutivos era essencial porque lhe permitia render-se aos desejos da assembleia (…) sem perder a sua dignidade e majestade.”
     
É a esta luz que deve ser vista a acção de Cavaco Silva durante o processo legislativo do estatuto dos Açores.

Aristides de Sousa Mendes

Intervenções de Teresa Cordeiro, Jorge Adolfo Marques, Carlos Vieira, João Magalhães (moderador)

Projecção do documentário "Loucura de um justo" de João Sousa

Performance teatral da Zunzum

Exposições

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Cada vez veo a más gente

Daqui



Cada vez, veo a más gente
con una venda
puesta en los ojos.
Incluso he visto gente, a las que,
habiendóseles movido un poco
se la vuelven a colocar correctamente.
Antonio Orihuela



segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ciclo Europa 2013 do Cine Clube de Viseu


A LOUCURA DE ALMAYER, de Chantal Akerman*
15 Jan. IPJ Viseu. 21H45
(Sessão não exclusiva para sócios do CCV)
Detalhes aqui




* O filme Bellamy, de Claude Chabrol, inicialmente previsto para 15 de Janeiro, será exibido a 19 de Fevereiro.

O que é preciso para uma revolução?

Fotografia de Boris Ignatovich
«Podia ser o Mundo mas é na Cidade que nos encontramos. 
A Cidade é um sítio e uma luta.»
Carla Augusto,
Crónica completa
em FERRAMENTA Zine #1

Amor de tarde

Fotografia de Byong-Ho Kim



Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las cuatro
y acabo la planilla y pienso diez minutos
y estiro las piernas como todas las tardes
y hago así con los hombros para aflojar la espalda
y me doblo los dedos y les saco mentiras.

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las cinco
y soy una manija que calcula intereses
o dos manos que saltan sobre cuarenta teclas
o un oído que escucha como ladra el teléfono
o un tipo que hace números y les saca verdades.

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las seis.
Podrías acercarte de sorpresa
y decirme "¿Qué tal?" y quedaríamos
yo con la mancha roja de tus labios
tú con el tizne azul de mi carbónico.
Mario Benedetti


domingo, 13 de janeiro de 2013

Mulices

Carlos Mulas-Granados

Carlos Mulas-Granados, o socialista espanhol que, em Abril de 2012, "desausterizava" assim no El Pais...

Aqui


... em Janeiro de 2013, prescreve isto para Portugal:
Aqui

O pedal do Jerónimo


«Cada partido deve concorrer por si.

Cada um de forma autónoma, 

com os seus próprios candidatos e programas,
 caminhar na sua própria bicicleta.»


Jerónimo de Sousa, 

sábado, 12 de janeiro de 2013

Com a tua letra

Fotografia de Viktor Kolář


Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.
Fernando Assis Pacheco


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Poema de Amor para Uso Tópico


Fotografia de Anton Corbijn



Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.
Nuno Júdice


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Da espuma

«A copiosa multiplicação de pontos de vista irrelevantes sobre todo o tipo de insignificâncias tem como principal consequência a privação de qualquer perspectiva consistente sobre o que quer que seja.»
_________________________
Nota: O ensaio de Manuel Maria Carrilho, no Público de 9 de Janeiro, intitulado "Sem bússola, no divino mercado", pode e deve ser lido no blogue Jas-mim.

When to the sessions of sweet silent thought

Fotografia de Tom Palumbo


When to the sessions of sweet silent thought
I summon up remembrance of things past,
I sigh the lack of many a thing I sought,
And with old woes new wail my dear time's waste:
Then can I drown an eye, unused to flow,
For precious friends hid in death's dateless night,
And weep afresh love's long since cancell'd woe,
And moan the expense of many a vanish'd sight:
Then can I grieve at grievances foregone,
And heavily from woe to woe tell o'er
The sad account of fore-bemoaned moan,
Which I new pay as if not paid before.

But if the while I think on thee, dear friend,
All losses are restored and sorrows end.
William Shakespeare



Divertimentos *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro (passou a sair às quintas)
    
1. Estamos na segunda fase da crise sistémica global. A primeira foi em 2008/2009, quando quinze biliões de dólares de activos-fantasma se esfumaram no ar, quando os estados se endividaram para salvar os bancos e, a seguir, trataram de tapar o buraco com emissão de liquidez e com um massacre à classe média. 
Fotografia daqui
     
Durante estes quatro anos, graças a Angela Merkel e à chegada de Mario Draghi ao BCE, o euro conseguiu resistir às investidas das empresas de rating e ao bombardeamento mediático proveniente de Wall Street e da City.
     
Esta segunda fase começou no segundo semestre de 2012, como tinha previsto o Laboratório Europeu de Antecipação Política. Vão arder mais quinze biliões de dólares de imobiliário invendável e “alavancagens” várias. Convinha que os governos pusessem os accionistas dos bancos a pagar a factura e não, como tem acontecido, os trabalhadores e os reformados. Caso os governos insistam na mesma receita, a “rua” vai explodir.
     
Em Portugal, como a posição do estado nos capitais dos bancos vai aumentar (confira-se o que se está a passar no BPI, BCP, Banif, …), para que raio António José Seguro e Pedro Passos Coelho querem criar ainda mais um banco público, um chamado “banco de fomento”? Para colocar mais uns boys? Para, depois, ser mais fácil vender a CGD?

     
2. Durante as festas natalícias, tivemos direito a dois divertimentos:
     
(i) O grande Artur Baptista Silva — “representante” da ONU para os países do sul e para a academia do bacalhau e para a universidade de verão do PS e para a SAD do Sporting — foi expulso das televisões. Os oráculos instalados odeiam concorrência.
     
(ii) Com o seu decreto nº 7875 de 27 de Dezembro, a presidenta Dilma Rousseff atirou o acordo ortográfico no Brasil para 2016, deixando pendurada a pressa portuguesa, pressa tão moderninha, pressa tão parolinha no seu fatinho armani. Viva a presidenta!