domingo, 6 de outubro de 2013

Alexandre O'Neill — Fernando Assis Pacheco — Carlos Drummond de Andrade, ida e volta


Fotografia de Jacques Henri Lartigue 

Minha amiga, seu leite
está todo à mostra
derramado pela montra;
até seus dentes de marfim
parecem teclas de um piano
que, por racismo, houvesse
expulso as pretas. E mais
lhe digo: mesmo míope
já se vê que você é
porto franco de cocoruto à
unha do pé. Consigo,
nem vale a pena escandir sílaba:
vamos lá pela respiração;
que a limpeza desse estendal
derreia qualquer asmático... e
o que não sofrerão cardíacos!

Quando a música, os homens
que passam, ante uma pauta assim,
apreciadores do spread das notas,
não há quem a veja que não
tocasse, dizem eles, com certeza
dez oitavas bem medidas.
A duas mãos. Porque, no improviso,
afinal as pretas se refugiaram todas
bem no centro do seu jardim.
Mulheres, então não perdem
pela demora: é um ver se t'avias,
púcaro a púcaro, bilha a bilha,
num coro de partir loiça.
Se eu tivesse alguma fé supersticiosa,
benzer-me-ia entre murmúrios
de: Meu Deus, que puta!
Paulo da Costa Domingos


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