quinta-feira, 31 de outubro de 2013

«Mas que diferença há entre ser-se uma besta na Ilíada ou no Viet-nam?» *

* Jorge de Sena


"VISEU, CIDADE DAS HISTÓRIAS" (com agá, António Almeida Henriques, com agá)*

* Este é o Olho de Gato #451 (não tem edição em papel no Jornal do Centro porque o jornal faz uma pausa de uma semana para reformulação)

Caro presidente da câmara municipal de Viseu, 
isto que disse sobre cultura no seu discurso de tomada de posse, designadamente o que está sublinhado, deixou-me satisfeito e esperançado:



Sem dúvida: a cultura pode ser “um investimento e não um custo”, desde que se saiba o que se quer e se tenha estratégia para lá chegar.


Também concordo consigo, caro António Almeida Henriques, quando diz que temos uma“espontânea geração de criadores, programadores e artistas aqui radicados”; e digo mais: ela é muito boa.

Contudo, saber/fazer/promover cultura com fazem os nossos agentes culturais não é o mesmo que ter uma política cultural, isto é: ter uma acção no espaço público e com recursos públicos capaz de promover o bem comum. Isso compete aos políticos eleitos. 

Uma política cultural é mais que a soma de projectos segmentais e espontâneos dos operadores culturais e — não podendo nem devendo um município assumir o papel de operador de gosto — ele deve, ainda assim, ter uma visão integradora, abrangente, desinibida e cosmopolita do que quer na cultura.

Numa iniciativa de campanha designada Viseu, Cidade Criativa, ocorrida em Julho no Auditório Mirita Casimiro, defendi que toda a actividade cultural do município seja pensada e integrada no lema "Viseu, cidade das histórias".

O parágrafo sublinhado do seu discurso que refere "Cidade de Estórias" parece apontar nessa direcção. Se é essa a sua intenção, caro António Almeida Henriques, devo cumprimentá-lo, é uma magnífica intenção.

Penso que esta ideia —
"Viseu, cidade das histórias" — tem pernas para andar e pode ser uma nossa marca distintiva, tornando-nos conhecidos no país e no mundo, se as coisas forem feitas com profissionalismo, competência e talento.

Por duas razões:
(i) porque é original, não conheço nenhum município com essa visão global para a sua oferta cultural;
(ii) porque toda a gente, de todas as idades e condições sociais, gosta de histórias, e porque todas as actividades culturais contam histórias.

É passar do discurso à prática, meu caro.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

"Nuit Blanche" — dois estranhos, um "coup de foudre", ou talvez não fossem estranhos e aquele fosse o "Café do molhe" de Manuel António Pina




Nuit Blanche, de Arev Manoukian


Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)
porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia
que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe
(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse
de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito
sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.
Manuel António Pina

Bola de borracha*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 30 de Outubro de 2009



A crise sistémica global fez desaparecer entre 20 a 30 triliões de dólares de activos. Isso mesmo: um número com dezassete algarismos. Esta destruição brutal de riqueza ainda não é percebível na sua totalidade.

Os estados estão afogados em défice e estão a manipular as estatísticas do desemprego. A situação social vai agravar-se em todas as latitudes.

O epicentro dos problemas reside nos Estados Unidos. Em 2008, o rendimento das famílias americanas sofreu a maior queda desde 1947 (ano em que foi criado esse índice estatístico). Dezenas de milhões de pessoas perderam o emprego, a casa, a reforma, as economias. Tudo o vento do sub-prime levou.

O boletim de Setembro do Laboratório Europeu de Antecipação Política (LEAP) define assim o momento económico que vivemos: “o consumidor americano já não tem mais os meios para comprar tudo o que o resto do mundo se tinha habituado a produzir para ele.”

Percebe-se agora com mais clareza que é a Ásia e a eurolândia que estão relativamente mais abrigados deste vendaval.

Nos últimos meses, ouviu-se em todo o lado a mesma conversa: a “velocidade da queda” da economia diminuiu, já estamos no “princípio do fim” da crise.


Foi no boletim do LEAP onde li a analogia que melhor explica o que se está a passar: a economia mundial é uma bola de borracha a cair numa escada. Quando ressalta num degrau, a bola sobe um pouco e logo o marfim dos dentes dos políticos aparece nas televisões a sorrir benignidades. Só que, depois, a bola retoma a queda escada abaixo.

De ressalto em ressalto, a bola de borracha ainda está a descer a escada. Vai ser o ponta de lança asiático - a China - que lhe há-de dar o chuto escada acima.

Esse chuto ainda não aconteceu.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Voz

Fotografia de William Klein


Nada sabes.            Saberás cada vez menos

o que ainda procuras

outro corpo           uma alma

suspensa no abismo ou nada disso

apenas uma luz

apenas uma voz ou simplesmente

palavras

à espera de outra voz que por acaso

seja de novo a tua.

Fernando Pinto do Amaral


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

my sweet old etcetera

Fotografias de Bruno Benini


my sweet old etcetera
aunt lucy during the recent

war could and what
is more did tell you just
what everybody was fighting

for,
my sister

Isabel created hundreds
(and
hundreds) of socks not to
mention shirts fleaproof earwarmers

etcetera wristers etcetera, my
mother hoped that

i would die etcetera
bravely of course my father used
to become hoarse talking about how it was
a privilege and if only he
could meanwhile my

self etcetera lay quietly
in the deep mud et

cetera
(dreaming,
et
         cetera, of
Your smile
eyes knees and of your Etcetera)
e. e. cummmings

minha boa e velha coisa e tal


minha boa e velha coisa e tal
tia lúcia durante a última guerra

era capaz de dizer e dizia
aliás na cara exatamente
o quê se combatia e por

quê,
minha irmã

isabel produziu centenas
(mais
centenas) de meias sem falar de
camisas de tapa-ouvidos à prova de pulgas

coisa punhos e tal, minha
mãe torcia para que

eu morresse corajosa coisa
e talmente é claro meu pai ficava
rouco de tanto repetir que honra que
era e que se ele próprio ainda
pudesse entrementes eu

coisa e tal mesmo jazia calado
bem no fundo da coisa e

tal lama
(sonhando,
coisa
e tal, com
Teu sorriso
olhos joelhos e com tua Coisa e tal)
Tradução de Nelson Ascher

domingo, 27 de outubro de 2013

Interrupção de viagem

Imagem de O Destino Bate à Porta (The Postman Always Rings Twice)

Quando parei na bomba de gasolina em obras, à noite,
sem saber se havia alguém para atender, ou se tinha
de voltar para a estrada e parar na seguinte, que não sabia
onde era, nem se a gasolina dava para lá chegar, uma luz
acendeu-se no contentor que tapava a entrada do que
tinha sido um bar e um loja de tabaco e jornais, e alguém
me fez sinal que podia encher o depósito. Na solidão
das noites de Outono não é preciso muita coisa para
descobrir que a existência de alguém pode compensar
o silêncio e o vazio que nos rodeiam; e quando
acabei de meter a gasolina, fui ao contentor onde
um casal me esperava, para receber o dinheiro,
registando o pagamento com a distracção de quem
não precisava que outro alguém tivesse passado ali
para os interromper, procurando o pretexto da gasolina
para descobrir que o amor também pode encher um
contentor, no meio da noite, até alguém chegar.
Nuno Júdice

sábado, 26 de outubro de 2013

A Luz

Fotografia de Youssef Nabil



Não se pode prever. Sucede sempre
quando menos o esperas. Pode acontecer que vás
pela rua, depressa, porque se faz tarde
para pôr uma carta no correio, ou que
te encontres em casa de noite, a ler
um livro que não consegue convencer-te; pode
acontecer também que seja verão
e te tenhas sentado na esplanada
de um café, ou seja inverno e chova
e te doam os ossos; que estejas triste ou fatigado,
que tenhas trinta anos ou sessenta.
É imprevisível. Nunca sabes
quando nem como ocorrerá.

Decorre
tua vida igual a ontem, comum e quotidiana.
«Um dia mais», dizes para ti. E de súbito
desata-se uma luz poderosíssima
dentro de ti e deixas de ser o homem que eras
há só um momento. O mundo, agora,
é para ti diferente. Dilata-se
magicamente o tempo, como naqueles dias
tão longos da infância e respiras à margem
de seu escuro fluir e seu estrago.

Pradarias do presente, por onde erras livre
de cuidados e culpas. Uma agudeza insólita
mora em teu ser: tudo está claro, tudo
ocupa o seu lugar, tudo coincide e tu,
sem luta, compreende-lo.

Talvez dure
um instante o milagre; depois as coisas voltam
a ser como eram antes que essa luz te desse
tanta verdade, tanta misericórdia.
Mas sentes-te calmo, puro, feliz, salvo,
cheio de gratidão. E cantas, cantas.
Eloy Sánchez Rosillo

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Quantos blogues vão fazer uma piadola ligando esta notícia ao ex-presidente da câmara?


Amor das palavras


Fotografia de Franco Rubartelli


Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis
que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo
para o sabor de teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será
comparável à das huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é
por vezes fabordão e sesquipedal.
Nele existe o meu retrato moral (que
não confesso) e o de meus inimigos,
rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à comua.
O dicionário, as palavras, irritam muita gente.
Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário,
maciço e baixo e pelo seu casaco, azul
desbotado, de modesto erudito.
Rui Knopfli


Todo o mar...


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Porque tiveste que arranjar fora de Viseu advogado que te defendesse...



um abraço Fernando Figueiredo!

QUINTAS AO JAZZ — Duo d'Enol

Hoje, no Lugar do Capitão - Viseu, 22H00

João Mortágua, saxofones | Diogo Dinis, contrabaixo


Boy meets girl *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. No final de Setembro, Maria do Céu Sobral fez aqui uma divertida crónica, intitulada Bloody Mondays, em que conta que faz os seus textos para o jornal às segundas-feiras mas que eles começam a germinar na sua cabeça antes. Passo a citar: «a noite de domingo é sobressaltada por sonhos em que me encontro a escrever o artigo, já houve noites em que os escrevi minuciosamente sonhando, outras em que em 'sono alevantado' me revirava em reviravoltas de palavras, frases, conclusões e opiniões...»

Isto, que é bem escrito por Maria do Céu Sobral, lembrou-me uma velha história: havia um argumentista em Hollywood que andava sempre com um lápis e um bloco de apontamentos para registar as suas ideias, levava-os para todo o lado, mesmo quando ia dormir pousava o lápis e o bloco na mesa-de-cabeceira.

Uma noite ele teve um sonho a cores, um sonho que o nosso argumentista, homem do cinema, sonhou projectado num écran, dentro dele uma história sublime, a história que finalmente o ia levar à glória. Meio-a-dormir-meio-acordado, pegou no lápis, registou o que estava a sonhar, e tratou de regressar rápido ao seu sono/sonho, àquele onirismo bom que lhe ia dar, de certeza, o Óscar que tanto merecia.

Na manhã seguinte, mal acordou, numa felicidade vivida em antecipação, o nosso homem pegou no bloco para recordar como tinha sido aquele sonho genial. Estavam lá escritas três e só três palavras: «rapaz encontra rapariga»...

2. No filme Gravity — um filme a ver com óculos 3D — Sandra Bullock diz que o que mais gosta lá em cima, a 372 milhas do planeta azul, é do silêncio.

Ela tem razão. Cá em baixo em todo o lado há “música ambiente”, “toques” telemoveleiros, gente a falar alto, crianças bem-criadas-mal-educadas, televisões sempre ligadas, tudo a debitar ruído.

Cá em baixo há a boa e velha gravidade da mãe-terra, não há é silêncio em lado nenhum.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Muito bem, caro presidente da câmara de Viseu!

Ontem estava assim como foi dito aqui:


Hoje está assim:

Não se deve


Pillow Book, de Peter Greenaway



Não se deve romper o silêncio
sem um motivo preciso.
As palavras devem ser necessárias
inadiáveis como um aviso.
Luiz Roberto Nascimento Silva


No we can’t*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 23 de Outubro de 2009


1. Quando, em Janeiro de 2001, George W. Bush tomou posse como presidente, queria virar os Estados Unidos para o umbigo. Ele desejava fazer um corte com o cosmopolitismo de Bill Clinton e diminuir a presença da América no mundo.

Isso não era nada de novo: ciclicamente, a doutrina unilateralista ganha força em Washington.

Como é sabido, meses depois, a 11 de Setembro, Osama bin Laden estilhaçou a estratégia isolacionista de Bush. Foi a partir dessa data que os neo-conservadores e o sr. Dick Cheney ganharam influência e fizeram embarcar George W. Bush na aventura da guerra preventiva contra o “eixo do mal”. As consequências são conhecidas.

2. Barack Obama percebeu que, perdidos os anéis no Iraque, para salvar os dedos precisava de ir directo à fonte dos sarilhos: ao Afeganistão e ao Paquistão. Perante este objectivo estratégico, toda a comunidade internacional assobiou para o lado e deixou-o sozinho. O costume. Depois da queda do muro de Berlim, são deixadas aos americanos todas as chatices. Até na Europa, nos anos de 1990, tiveram que ser eles a virem resolver a confusão na ex-Jugoslávia.

Metido num molho de bróculos interno, com todos os indicadores económicos no vermelho, com o dólar a colapsar, Obama precisa de se virar para casa.

No Pentágono desenha-se uma nova estratégia, a que se pode chamar: “No, we can’t!”. “Nós não podemos!” Os americanos já não podem nem querem ser os polícias do mundo.

3. Obama ainda não fez nada que se visse para merecer o prémio Nobel da Paz. É absurdo, depois da “guerra preventiva” de Bush, vir-se agora com a “paz preventiva” de Obama.

De qualquer forma, este prémio estúpido não muda nada: a política externa americana vai passar a ser menos intervencionista.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Caro presidente da câmara de Viseu, como tomou posse hoje, este recado fica para amanhã

Caro António Almeida Henriques, renovo-lhe os parabéns pela sua eleição e tenho a certeza que hoje lhe correu bem a sua tomada de posse e dos demais eleitos.

 Sem mais rodeios nem protocolaridades, chamo-lhe a atenção para a fotografia: nestes últimos tempos a contagem decrescente dos semáforos da cidade foi fundindo, nuns a seguir aos outros.

O que foi acontecendo a este ex-libris de Viseu parecia uma metáfora, parecia uma recusa do tempo antigo a chegar-se ao seu tempo novo, caro presidente.

Cumpre-lhe mostrar já, desde o princípio do seu mandato, que na cidade e no concelho nada vai parar — as lâmpadas fundidas são para ser substituídas. De preferência ainda esta semana. 

Cantiga

Fotografia de Hiro Wakabayashi


Deixa-te estar na minha vida
Como um navio sobre o mar.

Se o vento sopra e rasga as velas
E a noite é gélida e comprida
E a voz ecoa das procelas,
Deixa-te estar na minha vida.

Se erguem as ondas mãos de espuma
Aos céus, em cólera incontida,
E o ar se tolda e cresce a bruma,
Deixa-te estar na minha vida.

À praia, um dia, erma e esquecida,
Hei, com amor, de te levar.
Deixa-te estar na minha vida.
Como um navio sobre o mar.
João Cabral do Nascimento

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Boa sorte, Leonel Gouveia, presidente acabado de eleger da câmara mais falida do distrito de Viseu


Daqui

Um aviso a todos os eleitos nas últimas eleições autárquicas, quer os que vão governar, quer os que vão fazer oposição, quer seja na maior câmara, quer seja na mais pequena freguesia: 
o vosso trabalho principal é servir o interesse público, e servir o interesse público é, acima de tudo, evitar endividamentos doidos, é fazer obras usando fundos comunitários e não em PPPs ruinosas, é pensar no amanhã.

Presídio

Fotografia de Jacques Henri Lartigue



Nem todo o corpo é carne ... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco ...?

E o ventre, inconsistente como o lodo? ...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor ... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo ...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono ...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!
David Mourão-Ferreira

domingo, 20 de outubro de 2013

Caro Fernando Teixeira dos Santos, o seu antigo boss continua com aquela "narrativa" que o senhor é um fraco...

Para quando o seu livro a contar a verdade sobre o default português em 2011?
Não se esconda, homem, conte-nos lá o que de facto aconteceu!

(simília similibus)

Fotografia de Paul Himmel



Quem deita sal na carne crua deixa
a lua entrar pela oficina e encher o barro forte:
vasos redondos, os quadris
das fêmeas - e logo o meu dedo se põe a luzir
ao fôlego da boca: onde
o gargalo se estrangula e entre as coxas a fenda
é uma queimadura
vizinha
do coração - toda a minha mão se assusta,
transmuda,
se torna transparente e viva, por essa força que a traga
até dentro,
onde o sangue mulheril queimado
a arrasta pelos rins e aloja, brilhando
como um coração,
na garganta - o sal que se deita cresce sempre
ao enredo dos planetas: com unhas
frias e nuas
retrato as lunações, talho a carne límpida
- porque eu sou o teu nome quando
te chamas a toda a altura
dos espelhos e até ao fundo, se teus dedos abertos tocam
a estrela
como uma pedra fechada no seu jardim selvagem
entre a água: tu tocas
onde te toco, e os remoinhos da luz e do sal se tocam
na carne profunda: como em toda a olaria o movimento
toca a argila e a torna
atenta
à translação da casa pela paisagem rodando sobre si
mesma - a teia sensível,
que se fabrica no mundo entre a mão no sal
e a potência
múltipla de que esta escrita é a simetria,
une
tudo boca a boca: o verbo que estás a ser cada
tua morte
ao que ouço, quando a luz se empina e a noite inteira
se despenha
para dentro do dia: ou a mão que lanço sobre
esse cabelo animal
que respira no sono, que transpira
como barro ou madeira ou carne salgada
exposta
a toda a largura da lua: o que é grave, amargo, sangrento.
Herberto Helder

sábado, 19 de outubro de 2013

Cantiga

Fotografia de Frances McLaughlin Gill

É pelo teu rosto em que as marés passam,
pelos teus labios em que voam gaivotas,
pelos teus dedos em que a luz perpassa,
pelos teus olhos que me traçam as rotas,

que este barco encontra o caminho,
que este dia descobre que não é tarde,
que as palavras se bebem como o vinho,
e o fogo não queima onde arde.

É no que me dizes quando a noite fala,
no que perdura na manhã que se esquece,
no que é dito em tudo o que se cala,
e não precisa de ser dito quando amanhece.

Pode ser o amor tantas vezes sentido,
ou só aquilo que vive no coração,
pode ser o que pensava ter esquecido,
e regressa agora pela tua mão.

Quantas vezes já foi primavera,
e logo aí as flores morreram:
até ao dia em que nada ficou como era,
e todas as folhas mortas reverdeceram 
Nuno Júdice

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Eu conquisto o universo com palavras

Fotografia de Andre Kertesz


Eu conquisto o universo com palavras.
Desonro a língua materna,
A sintaxe, a gramática,
Os verbos e os nomes,
Violo a virgindade das coisas
E crio uma língua nova
Que esconde o segredo do fogo
E o segredo da água.
Ilumino a nova era
E detenho o tempo nos teus olhos,
Apagando a linha que separa
Este instante da passagem dos anos.
Nizar Kabanni


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

QUINTAS AO JAZZ regressam ao Lugar Do Capitão

Hoje 22:00


Luísa Vieira — flauta e voz | Nuno Campos — contrabaixo e voz




Outubro 

Novo ciclo*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Na próxima terça-feira, tomam posse os eleitos para a assembleia municipal e para a câmara de Viseu. Termina um ciclo de 24 anos, liderado por Fernando Ruas, em que o desenvolvimento da cidade e do concelho assentou na construção e no investimento público, nacional e comunitário. Foi o sector público que gerou a maior parte do emprego e do emprego mais bem pago.

José Pais de Sousa
A cidade manteve-se funcional, fluída e agradável para viver, fruto de uma boa planificação urbana, planificação que tem um responsável cujo nome merece ser referido tanto como o dos políticos — o chefe do departamento de urbanismo da câmara, engenheiro José Pais de Sousa.

Nestes 24 anos, a força da cidade que residia nos comerciantes passou para as instituições do estado e para a Visabeira. Visabeira que é um caso admirável de sucesso, a que a cidade muito deve e de que depende, sendo essa dependência um risco, porque todas as monoculturas o são.

O novo presidente da câmara de Viseu inicia um novo ciclo em que não vai ter nem investimento nem emprego público, e a construção só começará a reanimar um pouco, no melhor dos cenários, para o final do mandato. Pede-se-lhe bom senso, frugalidade, controlo da dívida, apostas mais qualitativas que quantitativas, que atraiam talento, iniciativa e investimento privado. Empregos, empregos, empregos. Boa sorte, António Almeida Henriques!

2. O bloco de esquerda vai manter o seu único eleito, Carlos Vieira, na assembleia municipal de Viseu ou vai substituí-lo, vigarizando os seus eleitores?

3. O líder distrital do PS afirmou-se, com razão, satisfeito com os resultados no distrito mas não escondeu a sua frustração com o resultado no concelho de Viseu, onde os responsáveis pela derrota nem tugem nem mugem.

Caro João Azevedo, depois de quatro anos de deserção e pusilanimidade socialista na capital do distrito, vai deixar que continue tudo na mesma?

Syrinx, Ficção Pastoral (I)

Fotografia de Brassaï



Vou pôr um anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
Que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro de água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.
António Franco Alexandre

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Fixed Idea

Fotografia de Elliot Erwitt


What torture lurks within a single thought
When grown too constant; and however kind,
However welcome still, the weary mind
Aches with its presence. Dull remembrance taught
Remembers on unceasingly; unsought
The old delight is with us but to find
That all recurring joy is pain refined,
Become a habit, and we struggle, caught.
You lie upon my heart as on a nest,
Folded in peace, for you can never know
How crushed I am with having you at rest
Heavy upon my life. I love you so
You bind my freedom from its rightful quest.
In mercy lift your drooping wings and go.
Amy Lowell



Eleições 2009 (IX)*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 16 de Outubro de 2009 (ano em que houve três eleições)



1. No distrito de Viseu, nas europeias e legislativas a abstenção foi bem acima da média nacional. Agora nas autárquicas aconteceu o contrário e a abstenção no distrito ficou 3,4% abaixo da média nacional. Excelente!

Este ciclo eleitoral foi bom para José Junqueiro. Nas legislativas esteve no centro do furacão, ao aproveitar os tiros de pólvora seca do PSD sobre a “asfixia democrática” e ao suscitar a fúria de Cavaco. Junqueiro passou incólume e ajudou nos bons resultados do PS.

Nas autárquicas, era necessário ao PS ganhar pelo menos 8 câmaras, tantas como tinha antes de 2005. Esse objectivo foi superado e conseguiu 9.

2. Eleições após eleições, o PSD tenta ganhar todas as 34 juntas de freguesia do concelho de Viseu. Politicamente, essa era a “cereja em cima do bolo” para Fernando Ruas. Mais uma vez tal não aconteceu – o PSD perdeu as juntas de Bodiosa e de S. Pedro de France.

Nem em 2001, no fim do guterrismo, quando o PS estava com dinâmica de derrota, com os vips socialistas entretidos a esfaquearem-se nas costas uns dos outros, nem dessa vez isso aconteceu. O PS, no concelho de Viseu, mesmo nesse ano de vacas esqueléticas, ganhou as freguesias de Fragosela, Santos Evos e Mundão.


3. Nestas autárquicas, Miguel Ginestal teve um mau resultado. Deixou-se enrodilhar até à 25ª hora no episódio da bi-candidatura. O eleitorado percebeu que ele estava com a cabeça noutro lugar.

A capital do distrito precisa de uma oposição eficaz. O PS não pode dar mais quatro anos de remanso ao PSD.

Quando Fernando Ruas vem, como lhe compete, dizer que “Lisboa prejudica Viseu”, é necessário aos socialistas engolirem sempre o anzol, a linha e a cana?

José Junqueiro, há que tomar este dossier em mãos.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ainda que mal

Fotografias de F.C. Gundlach (1962) e de Scott Schuman (2011)

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.
Carlos Drummond de Andrade


domingo, 13 de outubro de 2013

Simetria

Fotografia de Elliot Erwitt

Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos olas
y la noche es océano.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos piedras
y la noche desierto.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces raíces
en la noche enlazadas.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces navajas
y la noche relámpago.

Dos cuerpos frente a frente
son dos astros que caen
en un cielo vacío.
Octavio Paz


sábado, 12 de outubro de 2013

Ilustríssimo deputado Pedro Alves, dialética?!

Texto completo aqui
Meu caro, como sabe eu sou um seu leitor atento e minucioso.

Pela leitura que fiz desta sua crónica de anteontem, não fiquei com muita certeza que esteja iniciado nas subtilezas hegelianas da dialética, nem das evoluções posteriores do conceito no materialismo dialético e muito menos das subtilezas hermenenêuticas dos seus clérigos  — acredite que fazer "interpretações autênticas" da dialética foi ofício bem pago em metade do mundo, antes de 1989, no lado de dentro dos regimes comunistas.

De facto, o caro Pedro Alves não sabe muito sobre dialética, não quer saber de minudências tais como tese—antítese—síntesemas a tal também não é obrigado.

  Faz muito bem em não queimar pestanas com tal coisa e, para comprovar que ser versado nessa matéria não é grande espingarda, transcrevo-lhe uma história contada por Tony Judt em "Pensar o Século XX":

"Depois de a sua família ser expulsa de Espanha, [Jorge] Semprún, aos vinte anos, foi empurrado para a Resistência Francesa e posteriormente preso como comunista. 
Enviado para Buchenwald, teve a protecção de um velho comunista alemão — o que sem dúvida explica a sua sobrevivência.
A dada altura, Semprún pede ao homem que lhe explique a «dialética». E ele tem resposta pronta: «C'est l'art et la manière de toujours retomber sur ses pattes, mon vieux» — a arte e a técnica de cair sempre em pé."

Como vê, pode continuar a fazer artigos "dialéticos", não tem problema nenhum, mesmo não percebendo muito do que está a escrever, fica "sempre em pé".

Já agora, o meu caro Pedro Alves leu uma malcheirosice anónima muito mal parida sobre mim, durante a última campanha autárquica, e interpelou-me amavelmente sobre ela no Facebook. 

Quero agradecer-lhe a sua preocupação e quero explicar-lhe que não lhe respondi porque não dou publicidade a ranhosos anónimos, embora não tenha deixado de reparar, muito divertido, nas moscas coprófagas (peço desculpa pelo pleonasmo) que se apressaram logo a esvoaçar à volta daquele monturo de excrementos (peço outra vez desculpa pelo pleonasmo).

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

You got me hotter’n Georgia asphalt

SAILOR

Are you going to provide me with an

opportunity to prove my love to my
girl? Or are you gonna save
youself some trouble and step up
like a gentleman and apologize to her?

IDIOT PUNK
Don’t fuck with me, man. You look
like a clown in that stupid jacket.

SAILOR
This is a snakeskin jacket, and for
me it’s a symbol of my individuality
and my belief in personal freedom.

IDIOT PUNK
...Asshole.

SAILOR
Come here.

LULA
Sailor, honey...


SAILOR
I’m sorry to do this to ya here
in front of a crowd, but I want ya
to stand up and make a nice apology
to my girl.

IDIOT PUNK
I’m sorry.

LULA
Hell, you just rubbed up against
the wrong girl is all.

SAILOR
That’s good... Now go get yourself
a beer.





LULA
(howls)
Jesus, honey! You more’n sorta
got what you come for... You
better rum me back to the hotel,
baby... You got me hotter’n
Georgia asphalt.

SAILOR
Say no more... But go easy on me,
sweetheart... Tomorrow we got alotta
drivin’ to do.
(he takes out a cigarette and laughs)
Hotter’n Georgia asphalt?



Nem coiso nem... *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. Em 2002, o país caiu no pântano, pântano que Guterres viu antes que ninguém e que nos iria levar à bancarrota. Desde então, tudo quanto era decisão desconcentrada do estado foi desaparecendo.

Dois exemplos na educação para se perceber do que se fala:
(i) em 2002, os professores eram colocados em Viseu, agora são-no em Lisboa; o processo de colocação não melhorou, pelo contrário;
(ii) em 2002, as escolas compravam uma resma de papel no comércio local; agora é uma central de compras em Lisboa que o faz, a resma não fica mais barata, a escola gasta-se em burocracias para a receber e, entretanto, a papelaria local faliu.

Poderá parecer que a despesa centralizada em Lisboa é melhor para o estado que precisa de poupar. Não é.

É contra-intuitivo, mas fica mais barato se a decisão sobre a despesa pública for espalhada pelo país. É que, como as coisas estão, a corrupção tem a vida facilitada: só precisa de se concentrar nas poucas mãos que, em Lisboa, têm o poder de decidir sobre muitos milhões de euros. A corrupção tinha muito mais dificuldades se a decisão estivesse diluída no território.


2. Transcorridas as eleições autárquicas, vêm aí as tomadas de posse dos novos órgãos do poder local.

Vamos ter um presidente socialista da Associação Nacional de Municípios, depois de doze anos da presidência social-democrata de Fernando Ruas. 

O dr. Ruas foi um bom presidente da câmara e foi também um bom presidente da ANMP no período difícil a que correspondeu o pântano centralista descrito no ponto anterior desta crónica.


3. Em 18 de Maio, numa assembleia geral no Auditório Mirita Casimiro, o sempitermo presidente daquilo ficou encarregado de organizar umas eleições que pudessem ressuscitar aquela sala há anos a ganhar teias-de-aranha.

Passaram cinco meses. Nada foi feito. O homem nem coiso nem sai de cima...

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Eleições 2009 (VIII)*

* Texto publicado no Jornal do Centro, há exactamente quatro anos, em 9 de Outubro de 2009 (ano em que houve três eleições)



1. É sabido que, em alternativa à transferência da Loja do Cidadão (LdC) para o centro histórico, a câmara tem um plano B: transferir serviços municipais para a Rua do Comércio.

Essa intenção da câmara revela que cresceu muito a burocracia municipal. A câmara engordou e tem dificuldade em acomodar todas as suas adiposidades no edifício da Praça da República.

Passarem-se alguns serviços municipais do Rossio para a Rua do Comércio não adianta nem atrasa nada para a vida no centro histórico. Essa mudança de 300 metros não traz vantagem nenhuma à cidade já que não aumenta o afluxo de pessoas ao centro.

Por isso, faz muito bem o movimento de cidadãos em defesa do centro histórico de Viseu ao não atirar a toalha ao chão e não desistir da Loja do Cidadão no centro histórico.

Alexandre Azevedo Pinto defendeu uma candidatura municipal a fundos comunitários para as obras de adaptação de um edifício central para LdC. Esse investimento é, depois, recuperado através do aluguer das instalações à administração central.

Concretizar-se esta ideia do movimento de cidadãos é a “cereja ao de cima do bolo”: faz-se recuperação urbana e passa-se a ter, de facto, mais utentes, mais funcionários, mais movimento no coração da cidade

2. Felizes são os povos que têm um governo pequeno e moderado nos impostos. Este bom princípio aplica-se tanto ao governo central como ao governo local.

Qual é a candidatura à câmara que fica mais barata, em impostos, aos viseenses?

Devo dizer que, nesta matéria, a campanha autárquica foi um desapontamento.

Apesar de tudo, globalmente, é a candidatura de Miguel Ginestal que mais respeita o nosso bolso. Poupa-nos, por exemplo, 2% em IRS.

Apesar de no Parque Aquilino Ribeiro de Viseu não haver nenhuma azinheira, hoje à noite vão lá aparecer três pastorinhos

Hoje, primeiro dia, é assim:




Uma grande e talentosa equipa da Zunzum

Cinco dias



terça-feira, 8 de outubro de 2013

Eu era apenas quanto

Fotografia de Horst P. Horst


Eu era apenas quanto
a tua mão tocasse
ou sobre o que inclinavas,
no breu da noite, a face.

Eu era, embaixo, quanto
notavas turvo, apenas:
traços, no início, vagos;
feições, mais tarde, plenas.

Foste quem logo, ardente,
criou-me a sussurrar,
seja à direita, à esquerda,
a concha auricular.

Foste, a agitar cortinas,
quem, na humidade cava
da boca, introduziu-me
a voz que te chamava.

Eu era cego e, vindo,
sumindo-te de mim,
doaste-me a visão.
Fica um vestígio, assim.

E, assim, criam-se mundos
que são postos de lado,
girando, quando prontos,
presente abandonado.

Em meio, pois, de treva
e luz, calor e frio,
prossegue o nosso globo
seu giro no vazio.
Joseph Brodsky