sexta-feira, 19 de julho de 2013

Cimento cultural (#2) — em quatro partes

Caro Miguel Fernandes,

O meu amigo começou aqui, eu repliquei aqui, depois treplicou aqui, e agora retreplico eu. 

«É da vida...», como dizia o saudoso engenheiro Guterres, neste caso, vida boa já que trocar ideias com quem tem ideias é bom.


1. Hélder Amaral
No mesmo dia em que me referi aqui ao cimento cultural do "empreiteiro Hélder Amaral", estive com o candidato do CDS que me disse que não quer uma obra nova para albergar a Casa da Cultura que defende para Viseu — o que está em causa é o recheio de ideias para a dita casa que terá que ser uma já existente.


Nesse sentido, o dilema do voto do Miguel Fernandes que me preocupava fica mais aliviado. Na sua resposta abriu o leque de opções a todo o leque partidário, não o restringindo à direita, o que me parece bem, e não se esqueceu de referir o voto nulo e branco, e mesmo a abstenção. 

Quanto mais opções melhor, concordo consigo, meu caro.


2. Manuel Maria Carrilho
Caríssimo Miguel Fernandes, é evidente que a política cultural não fugiu à dinâmica da "execução" de fundos comunitários, isto é, literalmente: o "homicídio" do dinheiro da "europa" feito à descarada e que ajudou a levar o país à bancarrota.

Esse rio largo de dinheiros europeus que deu ferreiras-dos-amarais e pontes-vasco-da-gama-mais-que-repagas e deu jamés e aeromoscas-de-beja e auto-estradas-redundantes e paulos-campos e outros figurões que Nosso Senhor os benza na sua divina graça, esse rio largo, no que à cultura diz respeito, nem um regato foi, nem uma levada, foi um regozito com alguma água para regar de cine-teatros e centros culturais o país. Em muitos os autarcas não sabem o que lá meter dentro, é verdade, muitos outros funcionam bem e são, usando uma velha fórmula, "sinais exteriores de riqueza de espírito" imprescindíveis a uma comunidade.

Doideiras de fidalgo falido, como o Museu dos Coches que não era preciso para nada, são coisas que não têm nada a ver com MMC cuja política cultural foi virada muito mais para o software que para o hardware e é por isso que o seu algoritmo MMC=cimento cultural não faz sentido nenhum nem se escora nos factos. 


3. Rede de leitura
Li com muita atenção a troca de argumentos que travou no Facebook com alguns dos nossos preciosos amigos e amigas feicebuqueiros acerca do assunto. O Miguel pensa que em vez de ser a biblioteca a preceder o gosto pela leitura, deve ser ao contrário; acha que, como temos "um povo que pura e simples está-se nas tintas para livros ou qualquer tipo de leitura que implique o mínimo de esforço intelectual", uma biblioteca é um "telhado", que não tem "fundações". 

Assunto de pescadinha-de-rabo-na-boca. Ou saindo dos mares para a capoeira: assunto do ovo-e-da-galinha. Nessa zoologia circular e insolúvel não me apanha, prefiro contar uma história.

Era uma vez um melómano com pouco dinheiro e, que sempre que tinha algum, tratava de o derreter em cêdês e em equipamentos audio. Era no tempo do analógico, gravar música fazia-se em cassetes. Não havia Youtube nem iTunes, estava-se a meados nos anos 90 do século passado. O nosso melómano já tinha um computador, claro, mas não ouvia música no computador, música ouvia-a no seu sistema de som comprado a prestações sofridas e a que só faltava uma peça: um deck de cassetes da Yamaha topo de gama que gravava cassetes de metal com a mesma qualidade audio de cêdê, quase noventa contos. Depois de muita ginástica lá o conseguiu comprar. Na mesma semana, numa revista de informática, viu um gravador de cêdês para computador por dezassete contos. No deck Yamaha, nem meia dúzia de cassetes chegou a gravar. 

E agora copio para aqui o início de "The Bookless Library", um artigo de Davis A. Bell, na New Republic:

They are, in their very different ways, monuments of American civilization. The first is a building: a grand, beautiful Beaux-Arts structure of marble and stone occupying two blocks’ worth of Fifth Avenue in midtown Manhattan. The second is a delicate concoction of metal, plastic, and glass, just four and a half inches long, barely a third of an inch thick, and weighing five ounces. The first is the Stephen A. Schwarzman Building, the main branch of the New York Public Library (NYPL). The second is an iPhone. Yet despite their obvious differences, for many people today they serve the same purpose: to read books. And in a development that even just thirty years ago would have seemed like the most absurd science fiction, there are now far more books available, far more quickly, on the iPhone than in the New York Public Library.

É isso, meu caro, a rede de leitura portuguesa, impulsionada pela visão de MMC, pode acabar por vir a ser uma espécie de deck de cassetes Yamaha topo-de-gama comprada quando já é tarde, quando a tecnologia de acesso aos livros mudou: no meu tablet tenho acesso a muitíssimos mais livros dos que há na biblioteca municipal de Viseu.

Não se perturbe, meu caro, não acho que estejamos perante o funeral das bibliotecas, aquilo que diz que é um "telhado" sem "fundações". Quanto mais não seja, as bibliotecas são dos poucos espaços públicos centrais nas cidades ainda acessíveis a toda a gente, onde um cidadão mesmo sem dinheiro pode estar num sítio sossegado, limpo e climatizado. Provavelmente não estará é a ler um livro de papel.

Coisas para pensar —  como vai ser uma biblioteca daqui a dez anos? Não vejo ninguém pensar sobre isso, nem os bibliotecários (o que é natural, são técnicos, podem influenciar decisões, mas não as podem tomar) nem os políticos como se está a ver nestas autárquicas (
o que se vê aí à solta nesta pré-campanha, meu caro, é achismo, impreparação engravatada, e metapolítica a declinar tretas sobre "cidadania" e "orçamentos-participativos").


4. O encontro em Setembro 
A minha réplica terminava com um singelo: "Vai uma conversa em Setembro sobre o assunto?" 

Na sua tréplica, aumenta a parada e propõe: "Um debate moderado, pela simpática Ana Paula Santana - em jeito de despedida-, no Lugar do Capitão, com os três programas - CDS, PSD, PS-  à frente, seria positivo."

No Facebook recebemos muitos sinais que o Lugar do Capitão estaria bem composto para esse eventual debate.

Mas, devo-lhe lembrar, meu caro: em Setembro o ruído eleitoral vai estar no máximo. É necessário e bom que assim seja. Será o tempo para os candidatos fazerem pesca de arrasto, até ao dia de S. Miguel, 29 de Setembro, dia de pagar as rendas anuais na antiga ordem agrícola.


Fiquemo-nos por uma singela conversa. Que caiba numa e só numa mesa do Lugar do Capitão. Para coisa mais formal ou alargada, não conte comigo.

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