quinta-feira, 6 de junho de 2013

Alguém tens de amar

Fotografia de Vicente Ansola



Alguém tens de amar:
o monte de ruínas à tua volta
as sirenes que avisam da guerra
os parentes que te contam histórias do ódio
e depois cobram-te a expulsão do paraíso.

Ama as mulheres, todas elas,
a desconhecida
a do rosto perfeito
a contrafeita e enjoada
as que se vão com a bagagem intacta
as sempre alheias.

Decerto o amor terá um dia receita precisa
e saberemos por que a bruma ficou na tempestade
dos beijos perdidos e abraços adiados
e por que o riso parece às vezes um saco emprestado
que nos fica grande e nunca nos serve
que cheira nos bolsos a peles estranhas.

Deve-se amar com múltiplas feridas
com o inventário de hemorragias e lentas convalescenças
sem temer os papéis queimados
nem os amuletos e talismãs de cada encontro
nem os soluços que deixaram vazia a alcova no último dia.

Alguém tens de amar em cada instante da vida
e voltar amarrado a um pedaço de estrela
Não demores a chegada da alba a estas terras

É um duro ofício e caso estranho este do amor
mas toma hoje as tuas notas para o gozo
pois esta manhã que vês
está parada há séculos na mesma cova
esperando
com o mesmo afã das palavras
a hora de entrar no corpo.
Federico Díaz-Granados

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