quinta-feira, 2 de maio de 2013

Tomar parte*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. A política em Lisboa é um teatro de papelão que dá de comer a uma chusma de papagaios nas televisões. É tudo um fingimento que esquece um facto básico: desde Maio de 2011 estamos a ser governados pelos credores e, no essencial, a fazer o que eles querem. Isso só vai terminar quando pudermos regressar aos mercados.

     
As eleições legislativas, nesta fase da crise sistémica global, tendem a ser um ludíbrio aos eleitores. Até na França, país que não está intervencionado por nenhuma troika, Hollande no ano passado fez uma campanha “anti-austeritária” aldrabando os franceses, agora eles estão furiosos e até já têm saudades do marido da Carla Bruni.
     
Se Lisboa nesta fase governa pouco, já nos nossos concelhos e nas nossas freguesias ainda podemos governar-nos com autonomia. Por isso, as autárquicas que aí vêm são importantes e são genuínas. Isto é, o voto das pessoas tem consequência directa nas políticas.
     
2. Tomar partido é, depois da necessária ponderação, escolher uma parte. Feita essa escolha, há que exercer o juízo crítico com severidade, especialmente com a “nossa” parte. É esta a boa tradição do pensamento europeu.
     
Tomar parte nas autárquicas vale a pena pelas razões apontadas. Nas deste ano escolhi uma parte: estou a colaborar com a candidatura de José Junqueiro à câmara de Viseu.
     
Ele sabe que, quando fizer asneiras, contará aqui, como sempre, com o meu juízo crítico.

     
3. Votações acima de 90%, como as que aconteceram no último congresso do PS, não são bom sinal. São sinal de falta do oxigénio da democracia, sinal de falta de pensamento crítico.
     
Dois erros de Seguro:    
(i) Cavaco é adversário do comentador de domingo da RTP, não é adversário do PS.
     
(ii) Pedir a maioria absoluta de quê? Não era a altura de pedir a maioria absoluta das câmaras e a presidência da Associação Nacional de Municípios Portugueses?

2 comentários:

  1. Caro xará,

    Não se esqueça dos PAELs e de que o teatro de papelão é suficientemente grande e atractivo para os actores locais. Uma espécie de Opera Garnier deslumbrante que condiciona (e de que maneira) a gestão local.

    Tome como exemplo algumas câmaras do distrito e verá que não há, de todo, liberdade para gerir o que quer que seja. Os anteriores eleitos fizeram questão de nos tirar essa capacidade, com o beneplácito dos eleitores, claro está.

    Abraço.

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    1. Olá, meu caro tocaio,

      Tem toda a razão — nos casos das câmaras falidas a política também será um teatro de papelão — aliás, como sabe, neste modesto estabelecimento já se referiu isso várias vezes.

      Mesmo assim, pela proximidade, pela escala, pela natureza do poder local, o voto ainda conta, mesmo nas câmaras debaixo do resgate.

      Elas terão que praticar as taxas e impostos máximos, claro, mas o resto é importante que seja direccionado para o interesse público e esse resto ainda pode ser condicionado pelo voto, enquanto que em Lisboa, desde 2002, esse resto é condicionado pelo sr. Ricardo Salgado, EDP, PT, e pela grande advocacia dos negócios.

      Grande abraço

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