terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Ladrões de bicicletas — Vittorio de Sica (1948)


Vinte quilómetros por dia pedalava meu pai
desde a cama junto ao Douro até à próspera
Cerâmica de Valadares. Se qualquer homem recebe,
à nascença, uns sessenta inimigos por hora,
imaginem a jornada de um operário ciclista.
Tudo são despesas para ele: o rosário de geada
nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor
da primavera, a poalha do suor em cada mão.

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto
de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos
de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho
em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,
erguido nos pedais do seu veiculo de sombra, solitário
trepador pela encosta de Avintes. Não trabalha
em nenhum matadouro. E nesse reconforto
passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,
sente já o rumor de fumacentos camiões, na estrada
nacional, onde tudo, depois, será muito mais plano.
José Miguel Silva

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