segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Hei-de ser tudo o que eles querem

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Hei-de ser tudo o que eles querem:
a raiva é toda de eu não ser um espelho
em que mirem com gosto os próprios cornos,
as caudas com lacinhos, e os bigodes
de chibos capripédicos.
Não sou sequer imagem.
Mas voz eu sou
que como agulha ou lança ou faca ou espada
mesmo que não dissesse da miséria
de lodo e trampa em que se espojam vis
só porque existe é como uma denúncia.

Hei-de ser tudo, não o sendo. Um dia
— podres na terra ou nos caixões de chumbo
estes zelosos treponemas lusos —
uma outra gente, e limpa, julgará
desta vergonha inominável que é
ter de existir num tempo de canalhas
de umbigo preso à podridão de impérios
e à lei de mendigar favor dos grandes.
Jorge de Sena


2 comentários:

  1. Ode à Mentira
    Crueldades, prisões, perseguições, injustiças,
    como sereis cruéis, como sereis injustas?
    Quem torturais, quem perseguis,
    quem esmagais vilmente em ferros que inventais,
    apenas sendo vosso gemeria as dores
    que ansiosamente ao vosso medo lembram
    e ao vosso coração cardíaco constrangem.
    Quem de vós morre, quem de por vós a vida
    lhe vai sendo sugada a cada canto
    dos gestos e palavras, nas esquinas
    das ruas e dos montes e dos mares
    da terra que marcais, matriculais, comprais,
    vendeis, hipotecais, regais a sangue,
    esses e os outros, que, de olhar à escuta
    e de sorriso amargurado à beira de saber-vos,
    vos contemplam como coisas óbvias,
    fatais a vós que não a quem matais,
    esses e os outros todos... - como sereis cruéis,
    como sereis injustas, como sereis tão falsas?
    Ferocidade, falsidade, injúria
    são tudo quanto tendes, porque ainda é nosso
    o coração que apavorado em vós soluça
    a raiva ansiosa de esmagar as pedras
    dessa encosta abrupta que desceis.
    Ao fundo, a vida vos espera. Descereis ao fundo.
    Hoje, amanhã, há séculos, daqui a séculos?
    Descereis, descereis sempre, descereis.

    Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'

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