sábado, 5 de janeiro de 2013

Os prazeres inferiores

Fotografia de Milton Rogovin



Não desdenhes as paixões vulgares.
Tens os anos precisos para saber
que elas correspondem exactamente à vida.
Não reduzas a sua acção,
pois se as subtrais
do breve tempo em que consistes
é ainda mais falho o existir.
Descobre sua verdade por trás da aparência
e assim não haverá falsidade,
nem poderás mentir que foi razão de vida
o que foi apenas trânsito.
Mas pouparam-te elas o fiel aborrecimento das horas.

Exigem lucidez, não em sua experiência,
mas em seu escasso ser;
valora-as exactas,
para o que tens de saber o que a vida vale
e essa sabedoria há muito que é tua.
Se te enganares a medi-las,
fá-lo sempre por defeito.
Nunca melhores o que vale pouco.
E que não tenham nome, nem tempo possuído,
e fiquem confundidas em sua promiscuidade.
Sabes que a memória é fraca e te ajuda.
Todas são uma só,
como uma só é a vida.
E as outras paixões, dignas de um nome
e do refúgio do tempo,
mantém-nas longe delas,
que te lembrem sempre o que a vida não é.
E agradece à vida esses erros.
Francisco Brines


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