segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Procuro uma alegria

Fotografia de Romualdas Požerskis


Procuro uma alegria
na mala vazia
do fim do ano
e eis que tenho na mão
-- flor do cotidiano --
o vôo de um pássaro
e de uma canção
Carlos Drummond de Andrade




Não deixas saudade nenhuma, 2012!

Faz as tuas cargas e descargas finais e pira-te de vez!


domingo, 30 de dezembro de 2012

Decreto da presidenta

Dilma Rousseff, este decreto nº 7875 está no bom caminho.



Mais, querida Dilma, este decreto decreta à vista de todos que, felizmente, entre nós haverá sempre desacordo ortográfico.

Desacordo mesmo quando nós tivermos, no Palácio de Belém, uma presidenta residenta.

Poeminha de Louvor ao Strip-tease Secular

Fotografia de Ruth Orkin


Eu sou do tempo em que a mulher
nem mostrava o tornozelo;
que apelo!

Depois, já rapazinho
vi as primeiras pernas de mulher
por sob a curta saia;
que gandaia!

A moda avança,
a saia sobe mais,
mostrando já joelhos
lupercais!

As fazendas com os anos,
se fazem mais leves,
e surgem figurinhas, pelas ruas,
mostrando as lindas formas quase nuas.

Modelo Miriam Cooke, fotógrafo desconhecido

E a mania do sport
trouxe o short.

O short amigo,
que trouxe consigo,
o maiô de duas peças.

E logo, de audácia em audácia,
a natureza, ganhando terreno,
sugeriu o biquini,
o maiô, de pequeno, ficando mais pequeno
não se sabendo mais,
até onde um corpo branco,
pode ficar moreno.

Deus, a graça é imerecida,
Mas dai-me ainda
Uns aninhos de vida!
Millôr Fernandes

sábado, 29 de dezembro de 2012

Young Girl

Fotografia de James L. Amos




Dear love, as simple as some distant evil
we walk a little drunk up these three flughts
where you tacked a Dufy print above your army cot.

The thin apartment doors on the way up will
not tell us. We are saying, we have our rights
and let them see the sandwiches and wine we bought

for we do not explain my husband's insane abuse
and we do not say why your wild-haired wife has fled
or that my father opened like a walnut and then was dead.
Your palms fold over me like knees. Love is the only use.

Both a little drunk in the afternoon
with the forgotten smart of August on our skin
we hold hands as if we were still children who trudge

up the wooden tower, on up past that close platoon
of doors, past the dear old man who always asks us in
and the one who sews like a wasp and will not budge.

Climbing the dark halls, I ignore their papers and pails,
the twelve coats of rubbish of someone else's dim life.
Tell them need is an excuse for love. Tell them need prevails.
Tell them I remake and smooth your bed and am your wife.
Anne Sexton



sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Dito em 2012 no Jornal do Centro *

Publicado hoje no Jornal do Centro




20/Janeiro: 
Penso que todo o jornalista, perante um político que anda a pedir o voto das pessoas, tem o imperativo moral de lhe perguntar: «usa avental?»

9/Março:  
Os partidos do poder podem agradecer muito ao PCP. Foram as buzinas das ditas “comissões de utentes” que moderaram a revolta das pessoas e a mantiveram dentro da legalidade.

13/Abril:  
Se nada for feito, a terceira república pode acabar. Basta, numas eleições presidenciais, aparecer um candidato anti-sistema, com uma agenda anti-corrupção, uma retórica de sobressalto nacional e a defender um regime presidencialista.

8/Junho:  
Eis o tema político mais sensível em Viseu até às autárquicas: “o balanço e o legado dos 24 anos do dr. Ruas”. O incansável Junqueiro já começou a escrever sobre isso no Diário de Viseu.

7/Setembro:  
Entregar a TDT (tv gratuita) a um operador de cabo (cujo negócio é a tv paga) foi o mesmo que entregar a capoeira à raposa e diz tudo acerca da qualidade da decisão política do barrosismo e do socratismo.

Fotografia daqui
4/Outubro:   
 A manifestação da “geração à rasca”, feita em 12 de Março de 2011, 
varreu o 
autoritarismo negocista de José Sócrates. 

 Agora, em 15 de Setembro, este “que se lixe a troika!” demoliu o edifício moral de Pedro Passos Coelho.



12/Outubro: 
Todos os presidentes da câmara em geral e o dr. Ruas em particular têm a possibilidade legal de aliviar até 5% o IRS do seu concelho. O dr. Ruas vai preferir ficar ao lado do dr. Gaspar ou ao lado dos viseenses?


23/Novembro:
Eleitorado que eleja doidos com a boca cheia de “obra” e outras despesices, será eleitorado condenado ao IMI máximo, IRS máximo e taxas máximas. E será muito bem feito.

* As 52 crónicas de 2012 estão aqui publicadas neste blogue com a etiqueta Jornal do Centro.

O futuro visto por Hollywood



Daqui

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Eurobonds para câmaras falidas

     O fundo de resgate para autarquias, que é aprovado hoje em conselho de ministros, é comparticipado pelas câmaras que devem a cão e a gato e pelas câmaras com contas saudáveis.

João Lourenço, pres. da câmara de S. C. Dão *
Não escondendo a sua irritação, o presidente da câmara da Mealhada, o socialista Carlos Cabral, que não tem dívidas, diz que "a medida viola princípios éticos básicos" ao pôr câmaras com as contas saudáveis a contribuírem para câmaras falidas.
O autarca da Mealhada tem um exemplo flagrante de descontrole de contas bem perto em Santa Comba Dão.

Ora, os alemães nas são entusiastas das eurobonds exactamente por causa desta lógica de benefício do infractor que o governo institui hoje nas autarquias.

Uma coisa é certa, com a rédea curta em que vão passar a ser governadas as câmaras as mais falidas vão ter gestores externos não eleitos as próximas eleições autárquicas em muitos lados arriscam-se a ser pouco mais do que um pró-forma democrático.

* Fotografia de Paulo Leitão, editada

O teu andar sorri por mim acima

Fotografia de Tyler Keeler






O teu andar sorri por mim acima
E
Destroça-me o coração.
O acenar prende e excita.
Na sombra da tua saia
Emaranhado,
O menear
Arremessa-se,
Estala!
Tu balanças, balanças.
Cego tacteio, agarro.
O Sol ri!
E
A hesitação, coxeando, vai-se sem jeito
Roubada roubada!
August Stramm


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

CGD — os caminhos da privatização



Ele é euros às centenas de milhões para círculos íntimos e actividades nada especulativas

Ele é trabalhadores castigados por não se conformarem com "alegados ilícitos criminais" envolvendo "quadros de topo".

Ele é a cereja em cima do bolo:  a parição de um Banco de Fomento de que não se percebe necessidade tendo o estado a CGD, mas que anda a ser inventado pelo bloco central de interesses, numa sintonia tão apertada que até comove, entre Pedro Passos Coelho e António José Seguro.

Homenagem a 4 poetas e 1 cineasta

Fotografia de Marius Hermanowicz 





Livra-me das tentações
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
— foda-se! —
de morango.
Ana Paula Inácio


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Ladaínha dos Póstumos Natais

Natividade (1308-1311), de Duccio di Buoninsegna




Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito
David Mourão-Ferreira





Feliz Natal


... deseja este modesto estabelecimento
a todos os clientes e amigos espalhados pelo mundo, 
quer chova quer faça sol.


domingo, 23 de dezembro de 2012

En las mansas corrientes de tus manos

Fotografia de Maxim Chelak




En las mansas corrientes de tus manos
y en tus manos que son tormenta
en la nave divagante de tus ojos
que tienen rumbo seguro
en la redondez de tu vientre
como una esfera perpetuamente inacabada
en la morosidad de tus palabras
veloces como fieras fugitivas
en la suavidad de tu piel
ardiendo en ciudades incendiadas
en el lunar único de tu brazo
anclé la nave.
Navegaríamos,
si el tiempo hubiera sido favorable.
Cristina Peri Rossi


Os anjinhos, os anjos e os anjões do Dr. Cabeçudo



sábado, 22 de dezembro de 2012

TVI e SIC — serviço público de televisão

Depois da TVI ter desfiado as teias dos colégios GPS, uma oportunidade para o grande público ver o bloco central a cores e ao vivo e perceber o estado a que o estado chegou, hoje a SIC vai emitir uma grande reportagem sobre o BPN, reportagem que promete botar nomes aos bois.

Dois trabalhos jornalísticos de fôlego, em que a TVI e a SIC  fazem serviço público de televisão enquanto pagam impostos.

Da RTP não se conhecem trabalhos parecidos
 só se conhece o buraco sem fundo pago pelos nossos impostos.

Godinho Flopes

Fotografia Correio da Manhã
Como sportinguista, dói-me a miséria desportiva do meu clube.

Mas pior, mil vezes pior, é a miséria moral em que ele caiu.

Para o futuro imediato do Sporting só há dois cenários bons:
(i) ou o presidente  se demite,
(ii) ou o presidente é demitido.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Noite de Natal (#2)

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


     No Natal de 2009, contou-se aqui o conflito interior de um pai perante a emigração da filha:
     (…) «Pai», dizia ela, «a gente fala todos os dias na internet. Aquilo é tão bonito. Olhe esta fotografia da ópera de Sydney.»
     Já não faltava muito para a consoada. Ia ele, naquele dia frio, naquela rua onde tinham posto uma alcatifa, naquela rua aberta aos ventos de Espanha, a fugir daqueles jinglebéles nos altifalantes, que atroavam o ar. Ele ia a cismar. Nem deu conta que estava a pensar em voz alta:
     «Merda de país! Forma doutores para os pôr nas caixas dos supermercados…»
     Rua fora, ao fundo, viu a praça, o Rossio, as casinhas do Rossio. Estava lindo o Rossio, de presépio e de charrete, luzes de Natal a pingarem das tílias, táxis à espera, brasileiros ao telemóvel, ucranianos de camisa aberta, africanos de gorro na cabeça.
     Não lhe passou a neura. Em cada uma daquelas caras, em cada um daqueles estrangeiros, em cada um daqueles olhos tristes, ele via a sua filha, sozinha, num Rossio qualquer de Sydney, do outro lado do mundo.
     Chegou a casa e disse:
     «Filha, nesta noite de Natal tens que me ensinar a mexer no computador…»



     Três anos depois, na noite de Natal deste ano:
     «Olá, filha!»
     «Hoje é pelo Skype, ontem pelo Gtalk!»
     «Burro velho tem que aprender línguas. Como está o tempo aí?»
     «Máxima 34 graus. E aí?»
     «Pouco frio. Já não é só a política avariada, aqui o inverno avariou também... Passei há bocado no Rossio, nem um “craniano”, nem um brasileiro, até os imigrantes nos emigraram...»
     «É triste, aqui as coisas estão bem, em Janeiro vou ser promovida.»
     «Filha, ando há uns tempos para te dizer uma coisa...»
     «Então? Que se passa?»
     «Sabes, eu fui despedido... há uns meses... não te disse porque não te queria preocupar... mas já corri tudo... não consigo trabalho... vê lá se me arranjas qualquer coisa aí na Austrália...»

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Para quê tanta pressa, Cabo Verde?

O acordo ortográfico aos tropeções no Brasil, conforme conta a Folha de S. Paulo hoje, e em magnífico estado em Angola e Moçambique...

Infografia da Folha de S. Paulo

Schadenfreude *

* Texto publicado no Jornal do Centro em 19 de Dezembro de 2008, quando era primeiro-ministro José Sócrates, um campeão da schadenfreude; Pedro Passos Coelho começou agora a imitá-lo, ao lançar uma guerra de gerações num discurso aos jotas, atacando os reformados.



1. Schadenfreude é uma palavra alemã sem equivalente em português. Schadenfreude não é a mesma coisa que inveja, embora haja quem confunda.

Schadenfreude é a felicidade perante a infelicidade alheia. Inveja é a infelicidade perante a felicidade alheia.

Todos os governos usam a schadenfreude, especialmente em tempos de vacas magras. Quando os tempos são de tirar e não de dar, os governos escolhem alvos específicos. Começam por bater nos privilégios reais ou imaginários do grupo A, e a maioria fica toda contente. Depois dão uma sova nos privilégios reais ou imaginários do grupo B, e a maioria sorri, e o grupo A junta-se a esse contentamento. Depois é a vez do grupo C, do D, e por aí fora…

A schadenfreude floresce com facilidade. Não há muito tempo, viu-se em Portugal um ataque aos “privilégios” dos “deficientes privilegiados”. Até isso pegou.




2. Quando se passa da fase do tirar para a fase do dar, a schadenfreude cede o seu lugar à inveja.

Os nossos banqueiros são muito invejados. Depois de passarem anos a arredondarem-nos os juros para cima, preparam-se agora para nos porem os cofres públicos para baixo.

O tratamento prestado ao Banco Privado Português, o banco dos ricos, causou inveja. Muita inveja. Um dia o BPP não causava risco sistémico e era só um problema de meia dúzia de milionários. No dia seguinte, o mesmo banco custava 450 milhões de euros em avales públicos.
As pessoas ficaram infelizes com a felicidade do sr. Rendeiro, do sr. Saviotti, do sr. Balsemão e do sr. Júdice.

A schadenfreude bate mais nos de baixo e, por isso, é boa para os governos.

A inveja bate mais nos de cima e, por isso, é má para os governos.


No dossier BPP é melhor Sócrates pôr as barbas de molho…

FERRAMENTA zine #3 — lançamento em Viseu hoje


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

This town is my town — Viseu


Então a porta do corredor


Fotografia de Roy de Carava





(Então a porta do corredor fecha-se novamente e o ruído desaparece)

No esforço que fazemos por achar o caminho
entre os conteúdos da memória
(insiste Aristóteles)
é útil o princípio de associação:
“passar rapidamente de um ponto ao seguinte,
por exemplo de leite a branco,
de branco a ar,
de ar a húmido,
até recordarmos o Outono,
no caso de estarmos tentando recordar essa estação”.
Ou supondo,
leitor amável,
que não queiras recordar o Outono, mas a liberdade,
um princípio de liberdade
que houve entre duas pessoas, pequeno e selvagem,
como são os princípios, mas quais são aqui as regras?
Tal como ele diz,
a loucura pode ficar na moda.
Passar então rapidamente
de um ponto ao seguinte,
por exemplo de bico a duro,
de duro a quarto de hotel,
de quarto de hotel
à frase encontrada numa carta que escreveu num táxi
no dia em que se cruzou com a mulher,
que ia a caminhar pelo outro passeio,
mas ela não o viu, dirigia-se
- como são engenhosas as combinações do fluxo
que chamamos história moral,
talvez não tão claras só como as fórmulas matemáticas,
escritas que são na água –
ao tribunal
para apresentar o pedido de divórcio, uma frase como
que sabor entre as tuas pernas.
Depois do que, mediante esta faculdade absolutamente divina,
a “memória das palavras e das coisas”,
recordamos a liberdade.
É isso eu? grita a alma irrompendo.
Almita, pobre animal incerto,
cuidado com este invento “sempre útil para aprender e viver”
como diz Aristóteles, Aristóteles,
que não tinha marido,
raramente menciona a beleza
e provavelmente de boneca passaria depressa para escrava
ao tratar de lembrar esposa.
Anne Carson


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Cuál es la mujer que recordamos

Fotografia de Ruth Orkin

 



Cuál es la mujer que recordamos
al mirar los pechos de la vecina
de camión; a quién espera el hueco
lugar que está al lado nuestro, en el cine?
¿A quién pertenece el oído
que oirá la palabra más escondida
que somos, de quién es la cabeza
que a nuestro costado nace entre sueños?

Hay veces que ya no puedo con tanta
tristeza, y entonces te recuerdo.
Pero no eres tú. Nacieron cansados
nuestro largo amor y nuestros breves
amores; los cuatro besos y las cuatro
citas que tuvimos. Estamos tristes.
Juntos inventamos un concierto
para desventura y orquesta, y fuimos
a escucharlo serios, solemnes,
y nada entendimos. Estamos solos.

Tú nunca sabrás, estoy cierto,
que escribí estos versos para ti sola;
pero en ti pensé al hacerlos. Son tuyos.

Ustedes perdonen. Por un momento
olvidé con quién estaba hablando.
Y no sentí el golpe de mi ventana
al cerrarse. Estaba en otra parte.
Rubén Bonifaz Nuño


Só de sacanagem - no Brasil engaiola-se Dirceu, em Portugal isaltina-se

domingo, 16 de dezembro de 2012

A eurozona depois da crise *

* Excerto do Boletim Geab nº 70, editado hoje pelo Laboratório Europeu de Antecipação Política, numa tradução às três pancadas.


     A guerra mediática contra o Euro foi útil na medida em que forçou a Eurozona a implementar as reformas necessárias para vencer a crise. Não houve, evidentemente, nenhuma revolução aqui, jogaram-se as "regras do jogo", que é como quem diz, não se assustaram os mercados. Em vez de declarações tonitruantes, compromissos e acções sólidas executadas após demoradas discussões. E gradualmente as estruturas foram tomando o seu lugar fortalecendo a Eurozona. O contraste com a inacção dos Estados Unidos é impressionante.
     Isto não deve obscurecer os muitos problemas na Grécia e na Espanha, por exemplo; ninguém disse que a recuperação do estoiro da bolha imobiliária e desta crise sistémica global histórica ia ser sem dor; de facto, estes países podiam ter beneficiado mais da assistência e da competência técnica dos outros países europeus. 
     Mas, globalmente, a situação está a melhorar, a nova reestruturação da dívida grega foi um sucesso, os défices estão reduzidos na Grécia e Espanha, Itália foi posta nos carris por Monti, até os próprios media anglo-saxónicos já não falam da saída da Grécia do euro e, mais recentemente, os media norte-americanos começaram a elogiar os progressos europeus...
     Que ninguém se engane: 2013 vai ser difícil para a Europa em recessão. Apesar da união bancária que vai começar a funcionar no início de 2014, apesar do aumento da integração política ou do Mecanismo de Estabilidade Europeu, foi afirmada a independência dos estados da Eurolândia. 
     Pode-se comprovar isso olhando para as discordâncias com o FMI sobre a Grécia: em 2015, o Mecanismo de Estabilização Europeia já terá suficiente credibilidade e competências para se concentrar em exclusivo nos problemas europeus e deixar que o FMI se possa focar nos países em desenvolvimento (ou salve os EUA ou a GB).
     Esta dissociação com as instituições do "mundo-antes" e com os EUA permitirá à Eurolândia empenhar-se em dinâmicas construtivas de adaptação ao "mundo-depois", através das ferramentas que foi desenhando.

A classe média no mundo multipolar pós-americano

in GEAB nº 70, hoje

Melro


melro
canta a sede e a saudade do futuro
cumpre-te inteiro
do lado de fora da gaiola
A. Khimm




Por fora do coração voa a asa
negra do melro. O mesmo que
vive na minha vida. O que tem
um assobio tranquilo e eterno.
Fiama Hasse Pais Brandão





Não sei qual das vozes era mais pura,
se a do fio de água que subia
no canto do melro ou, mais frágil
e rente ao chão, a tua.
Eugénio de Andrade




Não faz nenhum sentido,
mas às vezes o absurdo entra-nos
pela porta. O melro
cantava na neve - era verão.
Eugénio de Andrade




Há um melro que faz
o ninho na minha memória. Ouço-o
agora.
Albano Martins




Foi isto que vi - restos de neve no chão,
Três melros a espanejar-se,
E a minha vizinha que sai de casa em combinação
A pôr as camisas do marido a secar.
Charles Simic

sábado, 15 de dezembro de 2012

A Blackbird Singing

Imagem daqui


It seems wrong that out of this bird,
Black, bold, a suggestion of dark
Places about it, there yet should come
Such rich music, as though the notes'
Ore were changed to a rare metal
At one touch of that bright bill.
You have heard it often, alone at your desk
In a green April, your mind drawn
Away from its work by sweet disturbance
Of the mild evening outside your room.
A slow singer, but loading each phrase
With history's overtones, love, joy
And grief learned by his dark tribe
In other orchards and passed on
Instinctively as they are now,
But fresh always with new tears.
R. S. Thomas

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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A imprensa lusófona a olhar para nós *





* Título alterado em 15.12, às 11:00

“¿Por qué no te callas?” *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     1. Mário Soares é a figura maior desta combalida terceira república porque esteve sempre do lado da liberdade e da democracia. Infelizmente nos últimos anos, desde que amesendou com Chavez, Soares não tem sido feliz.
     De tudo o que ele tem dito, o mais desastroso foi quando, em 9 de Outubro, pediu a Cavaco Silva que arranjasse um governo não eleito. Citou, na altura, o exemplo do governo italiano de Mario Monti, um eurocrata adorado pelos mesmos “mercados” que Soares tanto execra.
     Soares não percebe que Cavaco nos punha um "Rui Rio" qualquer a primeiro-ministro e não percebe que esse governo não eleito, ou morria à nascença chumbado no parlamento, ou durava ainda menos do que o de Mario Monti.
     Claro que o “¿por qué no te callas?” do título deste texto é uma ironia. Numa sociedade aberta como a nossa, que tanto deve a Mário Soares, não se cala a voz de ninguém e muito menos a dele. 



     Mas é uma pena Mário Soares ter perdido o seu GPS: em 5 de Outubro, num evento republicano, desafiou o presidente e o governo a virem para junto do povo. "Quem tem medo compra um cão", disse ele. Agora avisa o primeiro-ministro para ter “cuidado com o que lhe possa acontecer”.
     Ora, se estes desagradáveis vodus, estes bonecos de trapos espetados com alfinetes não têm pensamento incluso, já a ideia peregrina de um governo tecnocrata tem. António José Seguro fez bem em ter mandado o fundador do PS dar uma volta ao bilhar grande.

     2. Na sessão de 14 de Setembro de 2009 da assembleia municipal de Viseu, António Ribeiro de Carvalho (PS) e José Esteves Correia (PSD) apresentaram uma pioneira moção conjunta a defender a construção de um crematório na cidade.
     Já que ninguém o fez na recente inauguração daquele equipamento, esta coluna presta aqui a devida homenagem e exprime a sua gratidão àqueles dois excelentes deputados municipais.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Impostos acima de 50% são um roubo

Fotografia daqui
O presidente pós-moderno François Hollande que odeia Nutella e vive assoberbado com os tweets e as biografias da "primeira-dama", aplicou um imposto de 75% sobre os rendimentos dos mais ricos, para alegria dos países vizinhos que não embarcaram em tal ladroagem populista.

Errores

Fotografia de Paulo Nozolino





"Si pudiera vivir nuevamente mi vida,
en la próxima trataría de cometer más errores"
Jorge Luis Borges


Yo, al revés que el poeta, cometí
casi tantos errores como pude,
si por error se entiende
dejar el corazón a la intemperie,
expuesto a toda suerte de peligros
salvo el de ser feliz y acostumbrarme.

A gala tengo
haberme equivocado muchas veces
sin haber aprendido casi nada,
y permitirme el lujo de estrenar
en cada amanecer
una nueva derrota reluciente.

He bebido el ahora de manera insensata;
como si cada día fuera el último
del resto de mi vida
y el futuro tan solo se tratase
de un incierto espejismo.

Hice mal casi todo lo importante;
no ahorré ni una peseta,
fumé, no hice deporte,
y hasta me enamoré de algún extraterrestre
sin requerir informes ni solvencia.

Tuve hijos
y no los preparé para el mañana;
me limité a quererlos mucho más
de lo que hubiera sido razonable.

Y aquí estoy
instalada de golpe en el futuro
sin chaleco antibalas, sin fortuna,
sin refugio antiatómico siquiera
que pueda protegerme
de la lluvia de abril y de tus ojos.
Ana Montojo


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sardas*

* Texto escrito no Jornal do Centro em 12 de Dezembro de 2008
     
1. Há coisa de uns vinte anos, li Jangada de Pedra, de José Saramago. A jangada de pedra de que fala o livro é a Península Ibérica que se separa do resto da Europa e se põe a navegar no Oceano Atlântico para cima, para baixo e para os lados, acabando por rumar ao terceiro mundo.
     
Jangada de Pedra é um livro com muita imaginação mas, infelizmente, de escrita baça e ideologia repulsiva. Com provável prejuízo meu, mas devo confessar que nem a posterior nobelização de Saramago me fez ler mais nada dele.
     
2. Está em exibição o filme Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, baseado na novela homónima de José Saramago.
     
Ensaio Sobre a Cegueira é a mesma parábola que Jangada de Pedra. É Saramago a citar Saramago. Conta-nos que o homem, em condições limite, fica mau como as cobras.
     
O enredo é conhecido. De súbito, as pessoas começam a ficar cegas. Não há nenhum sintoma anterior ou explicação médica. Essa cegueira é infecciosa e contagia cada vez mais gente...
     
No desespero, as pessoas ficam lobas umas das outras e juntam-se em alcateias, enquanto os santos nas igrejas vendam os olhos (ou alguém lhos venda, o que dá no mesmo). Na luta pela sobrevivência, a dignidade humana vaporiza-se, e a vacilação moral torna-se uma arma de destruição maciça. No fim, até os que resistem justos e bons acabam por perceber que o poder é a ponta de uma arma.

Ensaio Sobre a Cegueira é um bom filme e a protagonista, a fabulosa Julianne Moore, tem um talento ainda mais lindo do que as suas sardas.
   
3. Uma velha anedota:    
Duas cabras encontram um filme à porta de um estúdio de Hollywood e fazem da película o seu almoço. 
«Então?», pergunta uma.   
«Muito melhor que o livro!», responde a outra.

Tudo sobre o "Livro da Virtuosa Benfeitoria" na Empório


Rossio, Viseu


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

No dia em que Manoel d'Oliveira faz 104 anos...

... o CCV exibe ANIKI BOBÓ (1942)
— um filme "neo-realista" antes de os italianos terem inventado o neo-realismo.




IPJ- Viseu, 21H45
Para sócios e não sócios
Detalhes aqui

"And Now For Something Completely Different" (#104)

O bombardeiro de burritos,
um dia a comida vai-nos chegar assim...



Detalhes aqui

Musa

Fotografia de Laurence Labori

 


Nenhum perfume disse que chegaste.
Não houve sobressaltos, nem sinais.
Chegaste, assim como quem chega, e parte
de tudo parte, para nunca mais

achar o rumo, longe do que fui.
Resta de mim somente algo de novo,
muito antigo e completo, feito fogo
ou verdade, tão novo como luz,

cidade, paz, necessidade, pão,
algo tão novo como tudo em vão.
E segue meu delírio a te seguir.

Nenhum perfume disse que partiste.
"E não partiste", meu delírio insiste.
Talvez perdido em ti dê trégua a mim.
Luís Antonio Cajazeira Ramos