quarta-feira, 31 de outubro de 2012

100%

JN, hoje

1.
A emigração de Luís Filipe Menezes para o concelho a norte da sua Gaia motivou uma votação em urna fechada na concelhia do PSD-Porto que é uma desgraça democrática.
Devia ter havido, pelo menos, um voto contra. 
Assim não houve voto secreto.


2.
Caro Carlos Marta, se fizer idêntica emigração para o concelho a norte da sua Tondela, 
cuidado com as imitações: não queira 100% de aprovação da concelhia do PSD-Viseu.
Isso é democraticamente muito mau.

"And Now For Something Completely Different" (#96)

Tom Waits "ao ataque"




Cena rodada mas não usada do filme de culto Mystery Men, com Ben Stiller, William H. Macy, Geoffrey Rush, Tom Waits

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Enigma

O filme

El primero dia que salí contigo
dijiste que era estraño tu trabajo.
Nada más. Sin embargo, yo sentía
que mi piel se rasgaba hecha jirones
cada vez que tus manos me rozaban,
y que tus ojos eran como aceros
que hacían que los míos me dolieram.
En adelante siempre fue lo mismo:
Tú te enorgullecías de tu arte,
más sutil y directo cada día,
y yo no comprendía nunca nada.
Ahora lo sé. Conozco ya tu ofício:
Lanzador de cuchillos. Has lanzado
contra mi corazón el más certero.
Amalia Bautista


domingo, 28 de outubro de 2012

Simetria

Fotografia de Paulo Nozolino



Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos olas
y la noche es océano.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces dos piedras
y la noche desierto.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces raíces
en la noche enlazadas.

Dos cuerpos frente a frente
son a veces navajas
y la noche relámpago.

Dos cuerpos frente a frente
son dos astros que caen
en un cielo vacío.
Octavio Paz



Desculpas


     O aparelho socialista não percebe a necessidade deste pedido, nem compreende o que Manuel Maria Carrilho quer dizer.
     Então agora que as sondagens dão o PS à frente e os partidos do governo a afundarem-se é que Manuel Maria Carrilho vem com isto?

     Então agora que o PS tem todas as condições para ter um resultado histórico nas autárquicas do próximo ano e recuperar a presidência da ANMP é que vai estar a fazer um "mea culpa"?
     Então agora que a coligação abana por todos os lados é que o PS deve pedir desculpa pelo período socrático?

Expresso, suplemento Economia, 20.10.2012
Ora, 
deve 
ser sem surpresa que se vê 
Manuel 
 Maria Carrilho, apoiante da primeira hora de António José Seguro, a cartografar um itinerário de diferenças entre Seguro e o que aconteceu 
em 2009 
e 2010.


     É que não chega demonstrar ao país que o governo de Pedro Passos Coelho está gasto e é muito mau, isso o país já percebeu.
     É que o PS tem que convencer o país que, da próxima vez que for governo, vai fazer diferente do que está a fazer a direita, mas também que vai fazer diferente do autoritarismo negocista socrático.

sábado, 27 de outubro de 2012

Rua Serpa Pinto, Viseu (#2)

está hoje a ter um número de visitas excepcional, 
devo informar que a burka ainda lá está....



... e continua a não deixar ver ...



... este "Valha-nos Deus!"

Taquicardia

Mesmo o coração 
do mais certinho 
e do mais cumpridor 
e do mais frio 
dos contribuintes "taquicarda" quando recebe uma carta 
ou um e-mail 
do senhor Vítor Gaspar aka 
Autoridade Tributária e Aduaneira.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A Original TV já bule

Para já com umas entrevistas óbvias e um tudo nada enferrujadas (as coisas hão-de melhorar), 
o importante é assinalar que Viseu tem uma televisão online a que se desejam felicidades.
Pode ser vista aqui.

Visitas em outros tempos à mui nobre e bela cidade de Viseu contadas por quem sabe


Ciúme *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     
A banda sonora desta crónica é a canção de John Lennon “Jealous Guy”, em que ele confessa à sua mulher Yoko Ono ser um “gajo ciumento”. 




     
É um bom som para as duas histórias de ciúme que se seguem e para o algoritmo final.
      
Achilles Brito, dono da conceituada firma Ach. Brito, que fornece ao mundo o sabonete Patti e muitos mais e igualmente bons, Achilles Brito, o patriarca fundador, ou o filho com o mesmo nome, ou o neto, nome transvirado em Aquiles por evolução ortográphica, não sei qual deles já que conto esta história com memória insegura nos detalhes, li-a em qualquer lado não sei onde, nem o senhor Google que sabe quase tudo sabe dela, Achilles Brito, dizia, perdidamente apaixonado pela sua mulher, linda como uma deusa, que ele precatava em casa, sempre em casa, dos olhos cúpidos da Invicta cidade, ela, violoncelista de topo, um dia aprazou um concerto num teatro da cidade, concerto anunciado em todo o lado e, vai daí, Achilles, homem de cabedais, achegou-se à bilheteira e comprou todos os bilhetes, para ser só ele e ninguém mais do que ele a “ouver” a sua exclusiva e linda mulher.

     
Baqari, um homem influente de Sidon, cidade no sul do Líbano, não deixava que a sua mulher saísse à rua sozinha nem suportava que outros homens pudessem olhar para ela.


Quando ele soube que a sua esposa tinha ido tirar dois retratos ao estúdio de Hashem El Madani, chegou lá furioso a exigir os negativos. Madani recusou, aceitou só riscá-los com um alfinete. Anos depois, Baqari foi ao estúdio pedir ao grande fotógrafo libanês para imprimir fotografias a partir dos negativos riscados. É que ela, para finalmente se escapar do marido, tinha-se suicidado. Ele, roído de saudade, não se importava que as fotografias da sua mulher estivessem estragadas. O que Baqari queria era poder olhar para ela outra vez.
   
Ciúme + tempo = arrependimento.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Francisco José Viegas

Fotografia editada a partir daqui

Há que: 

1. 
desejar-lhe as melhoras;

2. 

3. 
fazer um balanço objectivo do seu mandato, balanço que só pode ser negativo já que Francisco José Viegas não interrompeu de vez a barbárie que a dupla Sócrates-Mexia congeminou para o Tua, apesar do que afirmou e defendeu antes de ter entrado para o governo.

Piano

Fotografia de Simona Ghizzoni 



Softly, in the dusk, a woman is singing to me;
Taking me back down the vista of years, till I see
A child sitting under the piano, in the boom of the tingling strings
And pressing the small, poised feet of a mother who smiles as she sings.

In spite of myself, the insidious mastery of song
Betrays me back, till the heart of me weeps to belong
To the old Sunday evenings at home, with winter outside
And hymns in the cozy parlor, the tinkling piano our guide.

So now it is vain for the singer to burst into clamor
With the great black piano appassionato. The glamor
Of childish days is upon me, my manhood is cast
Down in the flood of remembrance, I weep like a child for the past.

D. H. Lawrence


Agnelo Figueiredo versus Paulo Guinote

Agnelo Figueiredo
(membro proeminente do laranjal mangualdense e director de mega-escola): 

Paulo Guinote
(membro proeminente da blogosfera educativa): 

Agnelo Figueiredo
(membro proeminente do laranjal mangualdense e director de mega-escola):

Paulo Guinote 
(membro proeminente da blogosfera educativa):

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Rui Rio e António Costa

Os autarcas de Lisboa e do Porto estão em alta.



Uma coisa é certa: se avançasse a ideia lamentável de Mário Soares de nomeação de um novo governo sem se consultar o povo, Rui Rio seria um candidato fortíssimo ao lugar de Passos Coelho.

Desobras*

* Texto publicado no Jornal do Centro em 31 de Outubro de 2008 

    
1. Na Expotec, um robô jogava o jogo do galo com o público. Não sei se jogava bem se jogava mal. Quando passei lá, estava uma pessoa a carregar nos botões e ele respondia com uns braços articulados enormes.
     
Era um robô excessivo, grande demais, a gastar energia demais, num jogo burro. O jogo do galo, bem jogado, dá sempre empate. É um jogo burro.
     
Ao ver aquilo, lembrei-me do filme “War Games” (1983), em que o sistema informático do Pentágono toma o freio nos dentes e se prepara para começar uma guerra nuclear. Há um relógio em contagem decrescente para o fim do mundo. Ninguém o consegue parar.
     
Então, o herói põe a máquina a jogar o jogo do galo. Empata. O computador procura mais recursos. Empata outra vez. Mais energia. 

     
Novo empate. Mais energia e mais capacidade de processamento. Empates, mais empates. O sistema concentra-se cada vez mais no jogo do galo. Ziliões de empates em cada segundo. Até que a máquina percebe e diz: “Jogo engraçado: a única maneira de ganhar é não jogar!” E, então, pára a contagem decrescente para o apocalipse. Uffff…
     
2. Foi numa edição do Público que conheci as ideias de poupança e frugalidade do arquitecto Jean-Philippe Vassal.
     
Uma das suas coroas de glória é a resposta que o seu atelier deu, em 1996, a uma encomenda da câmara de Bordéus para o embelezamento de uma praça. Quando foram estudar o local, viram uma praça bonita, onde as pessoas se sentiam bem. Em consequência, decidiram não mexer no que estava bem. O projecto que apresentaram à câmara foi não fazer projecto. Em vez de uma obra, fizeram uma desobra.
     

3. “Envelhecem virgens” tantas casas novas! Não há quem as compre. Estão prontas. Foram obras. Já não podem ser desobras. 

Quanto tempo vão ficar elas a ganhar teias de aranha?

A Fixed Idea

Díptico de Nacho Alegre


What torture lurks within a single thought
When grown too constant; and however kind,
However welcome still, the weary mind
Aches with its presence. Dull remembrance taught
Remembers on unceasingly; unsought
The old delight is with us but to find
That all recurring joy is pain refined,
Become a habit, and we struggle, caught.
You lie upon my heart as on a nest,
Folded in peace, for you can never know
How crushed I am with having you at rest
Heavy upon my life. I love you so
You bind my freedom from its rightful quest.
In mercy lift your drooping wings and go.



Amy Lowell

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A necessidade

     Sem surpresa, João Lourenço, o presidente da mais falida câmara do distrito de Viseu, é contra a cláusula de salvaguarda do IMI:

Diário de Viseu, hoje (clicar para ler)

Aula do Kama Sutra


Com um copo com embutidos de lazúli
espera por ela

Sobre o lago em volta da tarde e o perfume de flores
espera por ela

Com a paciência do cavalo pronto para descer a montanha
espera por ela

Com o bom gosto do príncipe magnífico
espera por ela

Com sete almofadas cheias de nuvens leves
espera por ela

Com o fogo do incenso mulher enchendo o lugar
espera por ela

Com o cheiro do sândalo homem em redor do dorso dos cavalos
espera por ela

E não tenhas pressa, e se ela chegar depois da hora
então espera por ela

E se ela chegar antes da hora
então espera por ela

E não assustes os pássaros que estão nas suas tranças
e espera por ela

Para que ela se sente descansada como um jardim no cimo da sua beleza
e espera por ela

Para que respire este ar estranho no seu coração
e espera por ela

Para que levante o vestido das suas coxas, nuvem por nuvem
e espera por ela

E trá-la à varanda para ver uma lua afogada em leite
espera por ela

E oferece-lhe água antes do vinho, e não
olhes para as perdizes gémeas a dormir sobre o seu peito
e espera por ela

E toca-lhe a mão devagarinho quando
pousa o copo sobre o mármore
como se lhe levasses orvalho
e espera por ela

Fala com ela como uma flauta
com a corda assustada de um violino
como se fôsseis os dois testemunhas do que o amanhã vos prepara
e espera por ela

Ilumina-lhe a noite anel por anel
e espera por ela
até que a noite te diga:
não ficaram senão vós dois no mundo

Portanto leva-a com cuidado para a tua morte desejada
e espera por ela
Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões


Outono Quente no Parque Aquilino Ribeiro — Viseu




"And Now For Something Completely Different" (#95)

Muito antes e de muito mais alto do que 


sábado, 20 de outubro de 2012

Estas matrículas faziam estragos nos pórticos Big-Brother das ex-SCUT



Detalhes aqui

Esplanada


Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

"And Now For Something Completely Different" (#93)

É pô-lo num parque eólico nos dias sem vento.

Gambozinos *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Já uma vez falei aqui de um truque narrativo usado pelo grande Alfred Hitchcock, truque a que ele chamava MacGuffin.

Um MacGuffin num filme serve para aumentar o interesse do espectador e tanto pode ser um objecto (umas luvas de mulher, em “Chantagem”, um colar, em “Vertigo”), 
como pode ser uma canção (“Que sera, sera”, cantada por Doris Day em “O Homem Que Sabia Demais”), como pode ser uma pergunta (porque é que as gaivotas começaram a atacar os humanos, em “Pássaros”?)

Um MacGuffin é um “engodo” metido no enredo, é um “nada”, ou, traduzido para bom português, é um “gambozino”. O facto é que um MacGuffin-gambozino faz-nos ficar agarrados, do princípio ao fim, a uma “narrativa”.


2. O ministro Relvas tem sentido da “narrativa”, é um bom criador de gambozinos e, em menos de dez anos, já conseguiu prantar dois no país autárquico:

— em 2003 foi a dita “Reforma Relvas”, uma “regionalização” que me causou a mais severa indigestão dos meus oito anos de autarca, quando tive que engolir um sapo numa sessão da câmara de Viseu, e votar a favor da putativa “Grande Área Metropolitana de Viseu”, um gambozino “urbano” que ia dos lameiros de Tarouca às vinhas de Castendo;

— esta semana a assembleia municipal de Viseu aprovou a agregação de freguesias; graças à união do Coração de Jesus, com Santa Maria e com S. José, o futuro “mega-presidente-da-junta” deste gambozino, mesmo recebendo dois mil euros por mês, lá terá de ir como os outros, de chapéu na mão, ao gabinete do presidente da câmara para poder ter uma ou outra obrazita. Espera-se que esta “Grande Freguesia Urbana de Viseu” venha a ter o mesmo destino que teve a “Grande Área Metropolitana de Viseu”.

E espera-se ainda que este tenha sido o último gambozino do ministro Relvas, por cessação definitiva da sua prodigiosa carreira governativa.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Fotografia — Michael Gray em Viseu


Carta aberta ao meu gastrenterologista *

* Carta aberta escrita num dia de muita azia e empaturramento em que — também eu — fui vítima do dr. Miguel Relvas. 
Na altura, esta carta foi publicada e/ou referenciada em vários media locais e nacionais.


     Viseu, 17 de Setembro de 2003

     Meu caro doutor:

     O seu trabalho e especialidade, caro amigo, é melhorar as digestões das pessoas e eu sei que hoje vou ter uma digestão difícil. É por isso que lhe estou a escrever esta carta. Acabo de engolir um sapo dos grandes numa Sessão da Câmara Municipal de Viseu.
     Acabo de votar a favor da Grande Área Metropolitana de Viseu (GAMV). Desde que sejam respeitados os parceiros, devo dizer-lhe que sou a favor que Viseu assuma com naturalidade a liderança desta região. Não sou a favor é deste tipo de Associações de Municípios.
     Parece complicado, doutor, mas eu explico: preferia que a Assembleia da República não tivesse aprovado estas coisas. Estando previstas na Lei, claro que Viseu deve ter iniciativa política neste assunto.
     Como lhe disse, sou o mais possível contra as Leis 10/2003 e 11/2003, ambas de 13 de Maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, e que criaram as Grandes Áreas Metropolitanas (GAMs), as Comunidades Urbanas (CUs) e as Comunidades Intermunicipais (CIs).
     É que, como sabe, esta regionalização do PSD é feita ao contrário: em vez de ser o Estado Central a passar poder para mais perto dos cidadãos, as GAMs, as CUs e as CIs vão tirar poder aos municípios e subtrair-se do controle democrático dos cidadãos.
     Julguei que já tinha visto tudo em matéria de desprestígio da democracia mas enganei-me. Há sempre gente a querer piorar ainda mais as coisas. O governo quer destruir o único poder que verdadeiramente responde aos cidadãos e é respeitado por estes: o poder local. É isso que me causa azia.
     As GAMs, as CUs e as CIs têm défice democrático. Tudo vai ser decidido em negociatas de bastidores entre Presidentes da Câmara. É assim que está previsto na lei. Vai ser um processo sem nenhuma transparência. Os cidadãos não vão ser tidos nem achados. Não votam. Nunca. Só cá estarão para, no fim, pagarem a factura.
     A Direcção Nacional do PS andou mal ao ter deixado passar esta coisa, ao ter deixado andar para a frente este processo político que está a ser feito com o objectivo cirúrgico de acabar com o que resta do PS autárquico.
     Penso que os Presidentes da Câmara socialistas que não forem seus clientes, caro doutor, vão redobrar o consumo de Alka Seltzer e de Água das Pedras, e vão engolir este sapo para poderem vir a ter eventuais contratos programas com a Administração Central. É esta a chantagem que lhes é feita pelo governo.
     A organização administrativa e política de Portugal vai ficar com mais uma camada de gordura.
     No projecto de regionalização socialista, que foi chumbado em referendo, em 1998, estava previsto acabarem-se com as CCRs e os distritos. Agora mantém-se tudo. É “tudo ao monte e fé em Deus”.
     Daqui a uns anos, um empreendedor, por exemplo o doutor se quiser abrir uma Clínica, para além de meter um seu projecto na Câmara, na CCR e na tutela, vai ter ainda que contar com mais um sítio para meter papelada: a sua GAM ou CU.
     Vão ser mais jobs for the boys. Mais burocracia.
     Ninguém fala em referendo a esta coisa. Nem em referendos locais. Ninguém quer ouvir os cidadãos. Eles que comam e calem. Sapos são para os autarcas socialistas.
     Vejamos mais de perto, senhor doutor, a Grande Área Metropolitana de Viseu que se prefigura no horizonte.
     Que coerência, que sentido, que unidade, que metrópole é esta que pretende ir dos lameiros de Penedono às encostas onde se apascentam os rebanhos que dão o Queijo da Serra? Será tudo uma carneirada? Anda tudo doido? Não há sentido do ridículo? Quem é que se quer enganar para se chegar aos 350 000 habitantes? A GAM de Viseu vai criar um sistema de transportes coerente? Um sistema de lixos? Uma organização escolar? Há algum denominador comum a estes mais de trinta concelhos que possa dar um projecto intermunicipal? Um que seja?
     Dá para ver o filme que se segue. Vão entreter a malta agora com as GAMs, as CUs e as CIs. Vão dar-nos um Big Brother: quem se junta a quem, que câmara com que câmara. Com que arrufos, com que ameaças de divórcio, aproximações e afastamentos de bigode. E vão encher páginas e páginas de jornal com este nada de coisa nenhuma, para entreter o pagode e gastar os nossos impostos e dar emprego aos boys. O que não é mau atendendo ao desemprego que para aí vai...
     Saiba, caro doutor, que ao escrever o parágrafo anterior a minha digestão do sapo começou a correr melhor. É bom pensar em empregos. Não é bom é ser neste contexto.
     Como sabe, caro doutor, o deputado socialista João Cravinho chamou a isto uma garotada. Foi o único socialista que se ouviu. O Secretário de Estado Miguel Relvas, o pai desta ideia e destas leis, queixou-se do tom de João Cravinho.
     Eu antevejo futuro ao Dr. Relvas. Depois do ducentésimo trigésimo sexto Contrato Programa que foi assinar a Tondela, Miguel Relvas ainda chega a ministro. Ministro do pior governo de Portugal depois do 25 de Abril.
     Que governo é este que se dá ao luxo de desperdiçar fundos comunitários que são aproveitados por Espanha e quer criar mais despesa pública desta forma?
     Que governo é este que vende o património do estado ao desbarato e patrocina esta punção ao Orçamento?
     Receba, caro doutor, um abraço deste autarca agora - depois da sua paciência - já menos empaturrado.
Joaquim Alexandre Rodrigues
(Vereador do PS na Câmara Municipal de Viseu)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A mão no arado



Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem regressa
e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de Novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente
Ruy Belo

domingo, 14 de outubro de 2012

A Felicidade

Fotografia de Luca Gabino




Ontem senti que o inverno me havia
reservado uma alegre surpresa.
Revelavas meus pensamentos em voz alta.
— E se a vida fosse um mistério vão?
— Fica em teu exílio, não sejas cruel
para com aquele vago sentido de esperança
que é tudo que nos resta. Coisa diversa
é a felicidade. Existe, talvez,
mas não a conhecemos.
Eugénio Montale

sábado, 13 de outubro de 2012

Lost weekend

Fotografia de Todd Fisher

Um dia é maior do que a soma
das suas horas, às vezes comporta
todos os Invernos e as estações assombradas
pelos prejuízos do prazer.

Eu e tu, que desculpa ainda nos justifica?
A cidade não foi feita para as nossas pretensões,
está apenas alastrada por dentro de nós, crispação
de pedras e espinhos no laço desfeito entre as veias.

Adiantamos o corpo aos rolamentos da noite,
é a própria razão que nos ilumina os atalhos
para o esquecimento. Um ano inteiro não será suficiente
para tudo o que não nos acontece.

Rui Pires Cabral

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Jardins Efémeros *

* Publicado hoje no Jornal do Centro


     
1. Em Julho, Viseu viveu os Jardins Efémeros. Foram seis dias e seis noites em que a cidade gostou de se rever no seu centro histórico.
Fotografia Olho de Gato
Na Praça D. Duarte, na Praça da Erva, na Casa do Tempo, na Garagem da Maria Xica, em vários sítios, filmes, músicas, instalações, teatro, gastronomia, debates, distracções, gente a acorrer, gente a conviver, gente “há-tantos-anos-que-não-te-via-pá-dá-cá-um-abraço!”, gente de todas as idades, gente de todos os escalões de IRS, gente de todas as universidades da vida. Foram seis dias e seis noites com uma ecologia humana amável, tolerante, civilizada.
     
Viseu, cidade linda, é ainda mais linda com estes “sinais exteriores de riqueza cultural.”
     
É claro que tudo isto não aconteceu por acaso: aqueles seis dias e seis noites significaram muito trabalho de preparação, muita capacidade de resolução de problemas, de criação, de frugalidade, de mobilização.
Fotografia de Fernando Rodrigues
     
A “alma” dos Jardins Efémeros foi e é a Sandra Oliveira. 
     
E o método da Sandra Oliveira é aquilo que Richard Sennett chama “espírito artesanal” e que designa “o desejo de fazer uma coisa bem feita simplesmente pelo prazer ou pelo facto de a fazer bem.”
     
Infelizmente, na última assembleia municipal, o mau hálito da partidarite foi incapaz de consensualizar um louvor aos Jardins Efémeros. Isso, que é espuma politiqueira, não faça a cidade perder o foco. E o foco é fazer dos Jardins Efémeros uma tradição do nosso viver colectivo. Venha a edição de 2013.

     
2. O draculismo fiscal do dr. Gaspar decidiu aplicar à classe média uma sobretaxa de 4% no IRS. Ora, como é sabido, todos os presidentes da câmara em geral e o dr. Ruas em particular têm a possibilidade legal de aliviar até 5% o IRS do seu concelho.
     
O dr. Ruas vai preferir ficar ao lado do dr. Gaspar ou ao lado dos viseenses?

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Sons *

* Texto publicado no Jornal do Centro em 24 de Outubro de 2008 


     1. Circula na net uma reportagem televisiva que anuncia um ministro “apanhado” pelos microfones. É uma maldade que a TVI fez em Bruxelas ao ministro Rui Pereira.
     Vê-se um plano rápido de uma loura e, logo a seguir, ouve-se Rui Pereira a sussurrar um comentário para o lado acerca duma “rapariga toda giraça”.

      Depois, Rui Pereira lembra-se onde está, tem um pressentimento, e diz: “com os microfones direccionais, uma pessoa tem que ter cuidado com estas conversas”.
     Este “jornalismo” de emboscada faz mais mal à imagem da TVI que ao ministro. Rui Pereira mostrou que é humano o que só abona em seu favor.

     2. Assisti na televisão, no início do Suécia - Portugal, ao momento sempre solene do hino. A câmara foi focando, um a um, os futebolistas portugueses a cantarem o “heróis do mar”. Quando um era focado, ouvia-se a sua voz. Uma desgraça! Os nossos “egrégios avós” devem ter dado voltas nos túmulos com tamanha desafinação!

     3. Quando assistimos à actuação de um coro ao vivo e sem amplificação, ouvimos o resultado sinérgico de todas as vozes e, ao mesmo tempo, conseguimos distinguir perfeitamente a voz de um cantor ou de uma cantora bastando, para isso, fixar o olhar naquele ou naquela cuja voz desejamos ouvir mais individualizada.
     Nenhum sistema electrónico de som é capaz de reproduzir isto. Nem o surround mais sofisticado consegue reproduzir com exactidão a espacialidade do som.

     4. O universo fascinante do som é muito bem documentado em Soundwalkers, da viseense Raquel Castro que pode “ouver” na net. O filme acha-se facilmente com o Google. É uma meia hora muito interessante.


A decadência do Público


Manchetes manhosas, 
delírios vários e em bloco, 
cronistas nulos de página inteira tipo Correia de Campos,
 erros factuais atrás de erros factuais, 
o Público 
é uma sombra do que foi.

Que continuem como estão o Ípsilon e o Inimigo Público. 

E o Vasco Pulido Valente. 

Ao menos eles.

"And Now For Something Completely Different" (#91)

Chega, porra!
Há que aprender a levantar do chão!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Um argumento macho

«E o facto de ele [Pinto Monteiro, PGR] ter agora sido sucedido no cargo por uma mulher [Joana Marques Vidal], 
só me leva a deitar as mãos à cabeça e a pensar que isto vai de mal a pior.»

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Casamentos, baptizados e tiros no pé

Jornal Público, hoje


Ele é casamentos e baptizados, 
ele é pressa,
ele é tiros no pé.

Ó PS-Viseu, é preciso ter calma!


De vidro


Fotografia de Lukasz Wierzbowski




Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita
Lídia Jorge



domingo, 7 de outubro de 2012

A Luz



Não se pode prever. Sucede sempre
quando menos o esperas. Pode acontecer que vás
pela rua, depressa, porque se faz tarde
para pôr uma carta no correio, ou que
te encontres em casa de noite, a ler
um livro que não consegue convencer-te; pode
acontecer também que seja verão
e te tenhas sentado na esplanada
de um café, ou seja inverno e chova
e te doam os ossos; que estejas triste ou fatigado,
que tenhas trinta anos ou sessenta.
É imprevisível. Nunca sabes
quando nem como ocorrerá.


Decorre
tua vida igual a ontem, comum e quotidiana.
«Um dia mais», dizes para ti. E de súbito
desata-se uma luz poderosíssima
dentro de ti e deixas de ser o homem que eras
há só um momento. O mundo, agora,
é para ti diferente. Dilata-se
magicamente o tempo, como naqueles dias
tão longos da infância e respiras à margem
de seu escuro fluir e seu estrago.


Pradarias do presente, por onde erras livre
de cuidados e culpas. Uma agudeza insólita
mora em teu ser: tudo está claro, tudo
ocupa o seu lugar, tudo coincide e tu,
sem luta, compreende-lo. 


Talvez dure
um instante o milagre; depois as coisas voltam
a ser como eram antes que essa luz te desse
tanta verdade, tanta misericórdia.
Mas sentes-te calmo, puro, feliz, salvo,
cheio de gratidão. E cantas, cantas.

Eloy Sánchez Rosillo


sábado, 6 de outubro de 2012

Impressionista

Fotografia de Carl Lyttle


 
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo morámos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
Adélia Prado