domingo, 30 de setembro de 2012

Um defeito

Fotografia de Hans Hammarskiöld


O vosso tanque, general, é um carro forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
- Precisa de um motorista
O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
- Precisa de um piloto.
O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
- Sabe pensar
Bertold Brecht

sábado, 29 de setembro de 2012

Os nomes feios de António Borges


Ler aqui
«Um autogolo»
é assim que o American Enterprise Institute, 
um influente think tank da direita norte-americana,
chama à proposta de redução da TSU feita pelo governo de Pedro Passos Coelho.


«O Governo parece estar a caminho de agravar os problemas económicos e políticos do país ao propor uma má solução para a perda de competitividade», diz Desmond Lachman, ex-diretor do banco de investimentos Salomon Smith Barney, sobre esta ideia "tira-aos-trabalhadores-para-entregar-à-empresa".


António Borges, o guru do primeiro-ministro,  
lá vai ter que lhe chamar também nomes feios

Acto ou qualquer outra coisa

Fotografia de Lois Greenfield




Acto ou qualquer outra coisa. Eu sei, aquela mulher
tão tranquila
vendo da janela do quarto o porto
vendo dos barcos o fumo rente aos mastros
eu sei
essa mulher bem podia ter o nome quando
por detrás da janela observa
outras coisas que não são barcos e mastros.
Talvez os homenzinhos de azul despertem seus desejos
ou só o azul desbotado, mas não
não nessa janela nesse porto de cidade que não sei
e ela sabe
envolta no vestido, ruivo o cabelo,
envolta nas madeiras da portada.
O chão deve ranger sob os seus pés.
João Miguel Fernandes Jorge


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Operação STOP-Viseu*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     1. O “amigo-convida-amigo” do Facebook resultou em centenas de milhões de usuários activos — um formigueiro de emissores e receptores de informação, tudo ao mesmo tempo e numa escala sem precedentes.
     Não há volta a dar: o Facebook é uma espécie de buraco negro que “suga” a informação produzida em todas as galáxias. Todos os sites têm agora formas de partilha e interacção via Facebook. Se o não tiverem, correm o risco de ficarem invisíveis.
     De entre as dezenas de grupos do Facebook a que pertenço, destaco o “Operação STOP – Viseu”, um sucesso já com mais de dez mil membros.


     O grupo recebe informação dos seus membros em tempo real sobre o que vai acontecendo nas estradas do distrito: acidentes, perigos na estrada, operações stop, radares, etc.
     O grupo precisa de informação pertinente e exacta, pelo que pede que seja dito em poucas palavras o “quando”, o “onde” e o “como”, e pede que os comentários das pessoas acrescentem factos e não verborreia.
     Trata-se de informação útil para quem circula nas nossas estradas. Um exemplo tirado na quarta-feira de manhã cedo, antes da ida das pessoas para o trabalho: “Radar a ser montado agora em Casal Sancho sentido Nelas/Viseu”.
     O grupo “Operação STOP – Viseu” do Facebook faz serviço público, serviço público feito pelos cidadãos e para os cidadãos e, por isso, merece este destaque aqui.

     2. Infelizmente, a Loja do Cidadão de Viseu tem minguado a olhos vistos, quer na oferta quer na procura de serviços. Apesar disso, no início deste mês, foi nomeada mais uma nova coordenadora para aquela simpática instituição.
     Este prodígio — com emanação sulfurosa intensa proveniente das águas de S. Pedro Sul - só cheirou mal a Hélder Amaral e ao CDS? O PS e o PSD perderam o sentido do olfacto?

Keynes versus Hayek

Ver e ouvir este vídeo...




... não dispensa aprofundamento:


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

"And Now For Something Completely Different" (#88)

Contar até 100 em holandês

Compasso 331*

* Texto publicado no Jornal do Centro em 17 de Outubro de 2008 

     1. No prefácio do seu livro Bem-vindo ao Deserto do Real, Slavoj Žižek chama a atenção para o compasso 331 do último andamento da nona sinfonia de Beethoven. No que é o hino oficioso da União Europeia há um antes e um depois do compasso 331. 



     Cito Žižek: “depois de ter escutado o tema da alegria nas suas três variações orquestrais e vocais, acontece algo inesperado” e “tudo se degrada e não mais voltamos a encontrar a dignidade simples e solene”.
     Nesta perspectiva, no compasso 331 do Hino à Alegria há um ponto de viragem mau.

     2. Portugal também teve o seu compasso 331. Há um antes e um depois do dia 4 de Março de 2001, o dia em que caiu a ponte de Entre-os-Rios. 
Desde esse dia estamos a marcar passo.



     O blogue Blasfémias fez as contas: de 2001 a 2007, Portugal cresceu em média 1,1% ao ano. No mesmo período de tempo, Espanha cresceu 3,4% ao ano; a Polónia 4; a Grécia 4,3; a República Checa 4,9. Os países bálticos cresceram quase a 10% ao ano.
     Vamos no sétimo ano seguido de subida de impostos e de empobrecimento da classe média e dos funcionários públicos. O resultado não é bom: desde 2001, já fomos ultrapassados pela Eslovénia e pela República Checa. Este ano a Eslováquia e a Estónia já ligaram o pisca e vão-nos passar. A Polónia aproxima-se.
     Com o dinheiro fácil dos fundos comunitários o país ficou menos frugal e mais corrupto. A última história de ganhuça que aparece nos media serve só para fazer esquecer a penúltima. Nunca acontece nada. É justo dizer que têm aparecido políticos influentes a quererem lutar contra a corrupção mas acabam por se ir embora. Perante o polvo, acabam por desistir. Os últimos foram João Cravinho e Marques Mendes.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Inflação*

* Texto publicado no Jornal do Centro, em 10 de Outubro de 2008 


     A inflação é o mais injusto dos impostos porque corrói o rendimento dos mais pobres e dos mais fracos. Quando se transforma em hiperinflação, então, é uma tragédia social. Essa tragédia aconteceu na Alemanha depois da I Guerra Mundial, tendo sido uma das causas que levou ao nazismo e a Adolf Hitler.
     O que aconteceu é muito bem contado em “O Obelisco Negro”, um divertido livro de Erich Maria Remarque que conta as aventuras de uns cangalheiros durante a República de Weimar.
     Entre Janeiro de 1922 e Dezembro de 1923, os preços aumentaram mil milhões de vezes. A cavalgada dos preços era de tal forma que até a “cotação” de uma refeição num restaurante não parava quieta. Era conveniente comer depressa. Quanto mais se demorava, mais a conta final podia ser multiplicada por cem ou por mil. 
Havia uma pausa nesta desgraça: 
a subida dos preços parava nos fins-de-semana 
porque a bolsa estava fechava.

     Na crise actual acontece algo parecido. Ao fim-de-semana, a cotação do petróleo e das outras commodities não inquieta. Ao fim-de-semana, o Dow Jones e a Euribor estão parados. Ao fim-de-semana, não precisamos de ter medo do subprime nem dos ainda mais tóxicos credit default swaps.
     Os bancos centrais têm injectado doses obscenas de dinheiro no sistema bancário. Como se sabe, mais massa monetária significa mais inflação.
     O cidadão alemão comum não gosta do euro e ainda tem saudades do velho marco. Não surpreende, portanto, que Angela Merkel ligue pouco ao que diz o sr. Sarkozy. A chanceler alemã prefere verificar se o sr. Trichet no BCE mantém o euro forte e a inflação controlada.
     Como é a Alemanha que paga a “Europa”, tenhamos alguma esperança.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Liberdade *

* Texto publicado no Jornal do Centro em 18 de Julho de 2008


     Em Abril de 2007, critiquei aqui a criação de uma super base de dados destinada ao combate à fuga fiscal dos funcionários públicos. Para além do perigo da informação recolhida poder cair em mão erradas, é iníquo segmentar a sociedade em funcionários públicos (os “maus”) e não funcionários públicos (os “bons”).
     Também nesta legislatura, foi aprovada uma lei em que se um cidadão reclamasse ao fisco perdia imediatamente direito ao sigilo bancário. Na assembleia da república só o actual líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel, levantou a voz contra esse abuso. Só ele. Felizmente, essa aberração foi travada por Cavaco Silva e o tribunal constitucional.
     Agora, querem pôr um chip em todos os carros. A última edição do Expresso dizia que o chip vai ser uma maravilha, que vai facilitar nos engarrafamentos e nas operações stop e que nos vai colocar na vanguarda da telemática mundial. Enfim: balões de ensaio e marketing.
     Esta ideia é má. Tecnologia “big brother”, não, obrigado!
     Não está a ser fácil a Mário Lino colocar praças de portagens nas SCUTs e, por isso, quer pôr-nos a pagar as portagens electronicamente.
     Ora, eu quero chegar a uma portagem e poder pagar com cartão, ou com via verde, ou com notas ou moedas. Como me apetecer. Ninguém tem nada que saber se estou em Espinho ou na Guarda.
     Sei que dizer isto não é popular. As pessoas acham que “quem não deve não teme”. É por causa desse “quem não deve não teme” que deixamos os governos espreitarem cada vez mais as nossas vidas. E, como se vê, a curiosidade dos governos é insaciável.
     Se o chip for posto à venda, as pessoas vão correr para as filas para o comprarem. Os portugueses gostam muito de modernices. E pouco da liberdade.

domingo, 23 de setembro de 2012

"TSU", um filme de Vítor Gaspar e António Borges

Elenco: 
Joaquim Almeida — Pedro Passos Coelho
Maria de Medeiros — Povo

Acordai!



Organizadores*

* Publicado anteontem no Jornal do Centro


     Escrevo esta crónica na sexta-feira dia 14. Esta antecipação de uma semana é um “tem que ser” pessoal que pode tornar esta crónica obsoleta, já que estamos em pleno momento de aceleração política, e, quando estas linhas chegarem às mãos dos leitores, pode até não haver governo, embora isso não seja provável. Os silêncios e o suspense de Paulo Portas devem-se só à preparação do estômago do CDS para a digestão da dose nutrida de sapos incluídos no próximo orçamento de estado.
     As legislativas do ano passado foram as mais mentirosas desta terceira república. Nem José Sócrates, nem Passos Coelho, nem nenhum outro político explicou que o programa do governo que ia sair das eleições ia ser o memorando de entendimento assinado com os credores. 
Imagem daqui
 
     O país vive, desde 17 de Maio de 2011, em estado de negação: ninguém assume que somos neste momento um protectorado nas mão dos credores. É claro que os políticos — sob pena de passarem a ser vistos como meros feitores do rectângulo — não o podem reconhecer e, por isso, todos eles têm usado o velho truque de Jean Cocteau: “uma vez que estes mistérios nos ultrapassam, finjamos ser os seus organizadores.”
     A Troika, o “organizador” dos sacrifícios que estamos a sofrer, funcionava como pára-raios perfeito da impopularidade. Um dos seus trabalhos é mesmo esse: servir de bode expiatório para as opiniões públicas dos países intervencionados.
     Só que Passos Coelho preferiu fingir que era ele o “organizador” daquele iníquo “subtraio-aos-trabalhadores-para-somar-aos-empresários”. O primeiro-ministro não ter percebido que isso era um erro crasso é um mistério.

sábado, 22 de setembro de 2012

Medo

Medo da confusão.
Medo de que este dia termine com tristeza.
Medo de acordar e de ver que foste embora.
Medo de não amar e medo de amar demasiado.
Medo de que o que eu ame seja letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demasiado tempo.
Medo da morte.
Isso já disse.
Raymond Carver


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Rebanhos

* Publicado hoje no Jornal do Centro

     Depois de Cavaco Silva ter promulgado o orçamento de estado deste ano, vinte e cinco deputados (17 do PS e 8 do bloco) apresentaram um pedido de fiscalização da constitucionalidade daquela lei e, como é sabido, foi-lhes dada razão.
     Na esquerda, enquanto o bloco se moveu em bloco, o PCP não deu para este peditório ao Tribunal Constitucional. Já a “abstenção violenta” de António José Seguro no orçamento causou o tal “levantamento” dos dezassete deputados socialistas.

Uma tão ampla dissensão não é comum no nosso parlamento, onde medram os “deputados de cu”, na célebre expressão de Eça de Queirós, que estão lá para levantarem o respectivo do assento e votarem e balirem em rebanho, a mando do “chefe”.

     Cada vez concordo mais com Karl Popper: os partidos não têm ideias, as pessoas é que têm. As pessoas é que contam e, quando não se comportam como ovelhas, elas merecem que as conheçamos pelo nome. Eis os dezassete: Alberto Costa, Vitalino Canas, Isabel Moreira, José Lello, Fernando Serrasqueiro, André Figueiredo, Renato Sampaio, Isabel Santos, Ana Paula Vitorino, Glória Araújo, Idália Serrão, Paulo Campos, Maria Antónia Almeida Santos, Rui Santos, Sérgio Sousa Pinto, Eduardo Cabrita e Pedro Delgado Alves.
     O governo acaba de anunciar ainda mais cortes nos salários e nas pensões, e um jackpot na segurança social para o poder económico. As elites que levaram o país à bancarrota, vão continuar confortáveis com as suas rendas, as suas PPPs, os seus subsídios, os seus preços ao abrigo da concorrência, as suas isenções fiscais.
     Em nome da equidade e da decência, é preciso dar luta a esta política. Em todas as frentes. Incluindo na da defesa da constitucionalidade.
     Que, no próximo ano, àqueles dezassete nomes se juntem os de José Junqueiro, Acácio Pinto e Elza Pais. Afinal, foram eleitos com os votos dos viseenses para quê?

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Grécia — "yaourtoma", Portugal — "ovotoma"

     Como é sabido, na Grécia pratica-se, há décadas, o "yaourtoma", uma forma de protesto político que consiste no arremesso de iogurtes a vips.
     Ora, desde que Pedro Passos Coelho veio tirar 7% dos salários dos trabalhadores para os dar aos empresários, a febre social em Portugal aumentou muito, e a pulsão para a "acção directa", desenquadrada, "desperada", cresceu exponencialmente.
     Apesar dos ratios macro-económicos dizerem o contrário, o facto é que, desde sexta-feira, Portugal aproximou-se perigosamente da Grécia, isso é uma coisa evidente, mas que não cabe nas formulações abstractas e no quadro mental dos tecnocratas Gaspar e Borges, os perigosos gurus do primeiro-ministro.

Ontem, a ministra da agricultura, Assunção Cristas, escapou por pouco ao arremesso de um ovo.
O arremesso de um ovo, o "ovotoma", pode ser visto como o equivalente, em Portugal, ao "yaourtoma" na Grécia.

      Sinais destes já existem há meses, este blogue em devido tempo exprimiu a sua preocupação, mas desde sexta-feira há muito mais risco de acontecerem actos como o de ontem em Santarém.
     Já só há dois dias para apelar à mobilização, à firmeza mas também à moderação dos manifestantes do próximo sábado. Isto está perigoso. O país está a ferver e as instituições muito fragilizadas. Precisa-se de cabeça fria e não dar ouvidos aos incendiários sociais. Para engenharias deste tipo, chega-nos o Borges e o Gaspar.
     É que, como se sabe, mesmo um "cisne negro", na sua imprevisibilidade, precisa de um ovo para nascer.

João Galamba para Vítor Gaspar: «Um governante que declara guerra à realidade é um governante perigoso!»

Bom, mas mesmo bom negócio


E ninguém que contratualizou este roubo aos nossos filhos e aos nossos netos vai ser preso...

Regalo


Te lo regalo todo.
La mañana sin horas
y la gota de escarcha que persigo
por el cristal helado.

El gorrión insolente que se empeña
en volver a inventar la primavera
cuando febrero engaña a los almendros.

Te regalo este día
que se abre a mis sentidos
aunque sé que hoy tampoco
lograré seducirle.

Te regalo la noche interminable
y el alba sin tu cuerpo
declarándose en huelga a mi costado.

La música que habita mi silencio,
los fantasmas que pueblan mis rincones,
la edad que me recorre todo el cuerpo,
la que soy, la que fui, la que no seré nunca.

No se me ocurre nada mejor con qué comprarte.
Nada más codiciable que el otoño
que no me hiela aún la piel del alma.
Ana Montojo Micó

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Da incerteza


No fogo fraco do princípio
me espelho na sombra
projetada à parede
indefesa da incerteza.
Na escuridão da peça
confesso crimes.
Minha inação produz orações
em proteção e convite.
Descrevo tolices no desenvolver do jogo
e projeto a sombra ao centro.
Receio o medo
alcançado no espaço
esvaziado em compromissos.
Pedro Du Bois

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Um pândego





Na penúltima página da edição de hoje do jornal Público, o padre Portocarrero mostra muita preocupação com o Valter e a Viviana, dois enrustidos ateus da Charneca da Caparica: 


O padre Portocarrero diz que, se dois nubentes assinarem um compromisso de irrevogabilidade do seu casamento, isso lhes aumenta a liberdade.

O padre Portocarrero quer o "para todo o sempre" em letra de lei, como se o estado obrigasse o Valter e a Viviana a divorciarem-se contra a sua vontade.

O padre Portocarrero é um pândego.

Mas não tem graça nenhuma.

O Crime da Poça das Feiticeiras, de Paulo Bruno Alves, acaba de sair do forno

Paulo Bruno Alves no local do crime, Quinta de São Caetano (fotografia de Paulo José Coelho)
O acontecido na estrada de Ranhados, na madrugada de 17 de Julho de 1925,  causou comoção em todo o país e inspirou muitos escritos, como lembra Francisco Teixeira da Mota no blogue Malomil.

Apresentação do livro "Má Despesa Pública"

Casa da Sé - Viseu 
(à Praça D. Duarte)
Sábado, 15 de Setembro — 21H45


Sei Bem que Nunca Serei Ninguém

Fotografia de Hans Hammarskiöld


Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.
Ricardo Reis

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Todo o amor é efémero

Fotografia de Wai Kuen Eric Wong


Nenhuma era tão linda como tu
naquele momento fugaz em que te amava,
a minha vida toda.
Angel González

domingo, 9 de setembro de 2012

A última noite na terra

Fotografia de Bea De Giacomo

O melro de todos os anos voltou a visitar a minha casa
mas eu permaneço aqui.
A sua música não muda, já o escrevi.
No entanto o meu trabalho é constatar o óbvio
e isso é o que o melro me vem recordar.
O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem
pela sua própria mão ou com ajuda.
As palavras vão descendo pelo escoadouro
do que alguém chamou a intra-história.
Tudo flui e perde-se, os rios no mar,
o mar na imensidão inabarcável do cosmos,
o cosmos no nada de onde não deveria ter saído.
Entretanto vamos dando às teclas.
Um tamborilar contra séculos de morte programada
e um futuro de certeira incerteza.
Um batalhão de patéticos amanuenses do esquecimento
exigindo duas camisas para o caminho até ao patíbulo.
O frio não é porém o problema, antes o medo.
E é o melro, na sua ignorância, quem conhece a verdade.
Cumpre sem a mínima estridência
o ritual que a biologia lhe impôs.
E de súbito morrerá. Sem epitáfios, como este,
que hão-de desfazer-se com uma careta indiferente
entre as chamas da última noite da Terra,
quando já ninguém reconhecerá qualquer significado,
se é que algo alguma vez teve significado.

Roger Wolfe

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Tigre de papel



Televisões*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


     Nos últimos dez anos, o dito “serviço público” de televisão vaporizou 4 mil milhões de euros do nosso dinheiro. Numa década, a RTP derreteu dois anos de subsídios de férias e de Natal e não há nada que a RTP faça que não tenha o seu análogo na SIC e na TVI.
     Por sua vez, a migração do analógico para a televisão digital terrestre foi feita tarde e porcamente e com o poder político completamente ao serviço da PT.
     Entregar a TDT (tv gratuita) a um operador de cabo (cujo negócio é a tv paga) foi o mesmo que entregar a capoeira à raposa e diz tudo acerca da qualidade da decisão política do barrosismo e do socratismo.
     Resultado desta expropriação do interesse comum:
     — as pessoas tiveram que gastar dinheiro para ficarem com o mesmo serviço que tinham antes gratuitamente; para os muitos lugares que agora ficaram sem cobertura, foi vendido um “kit-satélite” bloqueado em quatro canais (!);
     — em 2009, no início da implantação da TDT, a Meo tinha 385 mil clientes, agora tem 1 milhão e 100 mil, um inchamento de 285,7% (!);
     — a GB ficou com 45 canais gratuitos, a Itália com 39, a Espanha com 27, até os nossos companheiros de desgraça gregos têm agora 17 canais. Em Portugal temos 4, não há nenhum canal em HD, não há nem se perspectivam canais regionais nem locais; até para a inclusão do Canal Parlamento é um “ai-Jesus!”.

O serviço 
público de televisão não é nada do que 
os políticos andam para aí 
a dizer. 

O tempo da televisão do 
avô cantigas 
já acabou.

Há que pôr a 
RTP a viver exclusivamente da taxa e 
sem publicidade.

     Estamos no século XXI: a TDT que os políticos deixaram a PT instalar é passado e nós precisamos é de futuro. Há que a pôr a oferecer, para já e no mínimo, a SICN, TVI24, RTPI, RTP Memória, RTP África e RTP Internacional.
     E há que começar a pensar na futura televisão de Viseu.

Em Viena há dez mulheres belas

Em Viena há dez mulheres belas.
Há um ombro onde a Morte vem chorar.
Há um átrio com novecentas janelas.
Há uma árvore onde morrem as pombas,
quando já não conseguem voar…

Há um pedaço arrancado à manhã
suspenso na Galeria Gelada…
Ay… ay ay ay
Aceita esta valsa, esta valsa, esta valsa,
apesar da boca amordaçada.

Ah, eu quero, quero, quero ver-te
numa cadeira, lendo um jornal sem cor…
Numa gruta na ponta de um lírio,
num atalho onde não foi o amor…

Numa cama onde a Lua suou,
num grito de areia e pegadas…
Ay… ay ay ay
Aceita esta valsa, esta valsa, esta valsa,
cinge-a pela cintura quebrada…

Esta valsa, esta valsa, esta valsa, esta valsa,
com o seu hálito de brandy e Morte,
arrastando a cauda no mar…

Há uma sala de concerto em Viena,
onde a tua boca mil vezes cantou…
Há um bar onde os jovens se calam
porque o blues à Morte os condenou…

Ah, mas quem ousa escalar o teu retrato
com a coroa de lágrimas que acabou de tecer?
Ay… ay ay ay
Aceita esta valsa, esta valsa, esta valsa,
há tantos anos que ela anda a morrer…

Há um sótão onde brincam as crianças,
breve lá nos amaremos, tem de ser…
num sonho emoldurado por lanternas húngaras,
na neblina doce de um entardecer…

E verei que à tua tristeza acorrentaste
o teu rebanho e os teus lírios de neve…
Ay… ay ay ay
Aceita esta valsa, esta valsa, esta valsa,
com um “não te esquecerei, sabes?”, breve.

E dançarei contigo em Viena
e hei-de ir disfarçado de rio,
um jacinto selvagem no ombro,
e minha boca, lenta, bebendo
nas tuas coxas o orvalho frio.

E sepultarei a alma num velho livro
entre o musgo, lembras-te?, e as fotografias…
e à cheia da tua beleza lançarei
o meu violino barato e a cruz
onde me crucifico todos os dias…

E dançando haverás de levar-me
aos lagos que te brotam dos pulsos…
Meu amor, meu amor,
aceita esta valsa, esta valsa, esta valsa…
É tua agora. E é tudo.
Frederico García Lorca


"And Now For Something Completely Different" (#87)

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

I bought Me a Cat



I bought me a cat
my cat pleased me
I fed my cat under yonder tree
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a duck
my duck pleased me
I fed my duck under yonder tree
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a goose
My goose pleased me
I fed my goose under yonder tree
My goose says "Quaw, quaw"
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a hen
My henn pleased me
I fed my hen under yonder tree
My hen says "Shinny shack, shimmy shack"
My goose says "Quaw, quaw"
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a pig
My pig pleased me
I fed my pig under yonder tree
My pig says "Griffey, griffey"
My hen says "Shinny shack, shimmy shack"
My goose says "Quaw, quaw"
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a cow
My cow pleased me
I fed my cow under yonder tree
My cow says "Baw, baw"
My pig says "Griffey, griffey"
My hen says "Shinny shack, shimmy shack"
My goose says "Quaw, quaw"
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a horse
My horse pleased me
I fed my horse under yonder tree
My horse says "Neigh, Neigh"
My cow says "Baw, baw"
My pig says "Griffey, griffey"
My hen says "Shinny shack, shimmy shack"
My goose says "Quaw, quaw"
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a wife
My wife pleased me
I fed my wife under yonder tree
My wife says "Honey, honey"
My horse says "Neigh, Neigh"
My cow says "Baw, baw"
My pig says "Griffey, griffey"
My hen says "Shinny shack, shimmy shack"
My goose says "Quaw, quaw"
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.


"And Now For Something Completely Different" (#86)


PPPPP*

* Texto publicado no Jornal do Centro em 11 de Julho de 2008 


     1. No início deste mês, o IVA passou de 21 para 20%. Podia ter descido mais qualquer coisinha. De qualquer forma: “Saravah!” - “Axé!” - “Shalom!” - “Salaam!” - “Ámen!” – “Iupi!”
     Nunca é demais repetir esta ideia: é feliz o povo que tem um governo pequeno e moderado nos impostos.
     Era bom que os impostos descessem mais e, para isso, há que cortar na gordura do estado. Porque não se privatiza a RTP? Se nem conseguimos manter urgências abertas nas vilas do interior, para que raio queremos uma televisão pública que faz rigorosamente o mesmo que fazem as televisões privadas?
     Pergunta Jorge Fiel, no Diário de Notícias de domingo: “porque é que a telenovela "Dança Comigo" é "serviço público" e "Ciranda de Pedra" (SIC) e "A Outra" (TVI) não são?”
     A RTP custa-nos meio por cento das receitas do IVA; 240 milhões de euros por ano; metade desta verba vem do orçamento de estado, a outra metade duma taxa que pagamos meio escondida na conta da luz.

     2. É possível descer mais os impostos sem aumentar o défice. No estado, além de gordura inútil, há desperdício criminoso. 
     Vamos pagar 485,5 milhões de euros pelo sistema de comunicações das forças de segurança, o SIRESP, cujo preço de mercado fica entre 70 e 105 milhões de euros. Não há ninguém preso por causa disto. Nem vai haver.
     Em Portugal, as PPP (Parcerias Público-Privadas) transformam-se em PPPPP (Parcerias Prejuízos Públicos Proveitos Privados).
     Numa PPP, enquanto do lado empresarial há pensamento a longo prazo, no lado político mora um calendário eleitoral qualquer. Por vezes, as mesmas caras ora estão de um lado da mesa, ora estão do outro.
     Aconteceu isso na PPP do SIRESP. Arderam 400 milhões de euros do nosso dinheiro. Quanto é isso em IVA?

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A RETOMA do Cine Clube de Viseu nunca falha


Detalhes aqui.

Neologismo

Fotografia de Robert Doisneau
 
Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.
Manuel Bandeira

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Não me dês lume!


A solidão de uma palavra

Fotografia de Tania Leshkina 
A solidão de uma palavra. Uma colina quando a espuma
salta contra o mês de maio
escrito. A mão que o escreve agora.
Até cada coisa mergulhar no seu baptismo.
Até que essa palavra se transmude em nome
e pouse, pelo sopro, no centro
de como corres cheio de luz selvagem,
como se levasses uma faixa de água
entre
o coração e o umbigo.
.

Ninguém sabe se o vento arrasta a lua ou se a lua

arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,
um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,
desencadeiam
abruptamente o ritmo.
- Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da terra.
.

Quem bebe água exposta à lua sazonal depressa:

olha as coisas completas
O barro enlaça a água que suspira lunarmente
que impregna o barro com a sua palpitação
aluada.
São uma coisa única
e plena: uma bilha. Quem bebe e olha
fica
misterioso, maduro.
Tudo se ilumina da altura de uma pessoa imóvel.
Quem se dessedenta delira,
vê a obra:
O que se bebe das bilhas que a lua
enaltece - água e nome
na boca.
.

A arte íngreme que pratico escondido no sono pratica-se

em si mesma. A morte serve-a.
Serve-se dela. Arte da melancolia e do instinto.
Quando agarro a cara, a rotação do mundo faz rodar
a olaria astronômica: uma cara
chamejante, múltipla, luxuosa.
Deus olha-a.
E a arte alta do sono fica pesada:
- Mel, o mel em brasa, a substância
potente, elementar ardente, obscura, doce de uma doçura
fortíssima,
o mel,
arrebatada. Uma arte inextricável que,
pela doçura, enche as bolsas cruas
da carne, embriaga, queima tudo, mata,
mata.
.

O dia abre a cauda de água, o copo

vibra com tanta força,
as unhas fulguram sobre a toalha.
Cada palavra pensa cada coisa.
Entre imagens de ouro e vento, a constelação arterial dos objectos
do mundo alarga os braços furiosamente
de abismo a abismo.
A mão convulsa manobra a vida máxima.
E então sou devorado pelos nomes
selvagens.
.

O canteiro cheira à pedra. Da rosa cavada nela cheirará,

por dedos e pensamento,
à obra? Abre uma coroa. A pedra fecha-se
na sua teia de água. Com tantos martelos secos,
com tanta idade louca, com tanta pedra
inteligente, com tanta mão aluada - o canteiro desentranha
outra mão: - A mão do nervo
da pedra, rosa
assustadora:
Que desentranha a prumo forte, em ebriedade
e inclinação de lua. Enxofre, sal, rosa
potente. - O canteiro é a sua
rosa, a sua
obra
desabrochada. 

Herberto Helder

sábado, 1 de setembro de 2012

Setembro

I have a little money, and I have a little pain
And these few golden days, as the days grow so few
These golden days, I'd like to spend 'em with you
These precious golden days, I'd like to spend 'em with you


Ganda nóia!

     Como se sabe, Marques Mendes, mais do que um opinador da TVI24, é um acartador das novidades do governo, é o fornecedor oficial de "cachas" políticas àquela estação.
     Esta semana ele anunciou em primeira mão que os cortes para 2013 na área da saúde, educação, segurança social, defesa e segurança vão ser chamados de «nova geração de reformas estruturais» — o que é uma designação vistosa para as actividades da tesoura de Vítor Gaspar.
     Com a embalagem dos argumentos, Marques Mendes saiu-se com esta justificação para os cortes na segurança: «nós temos mais polícias por mil habitantes que a França e a Alemanha.» 
     É mais um sapo para o securitário Paulo Portas digerir.