quinta-feira, 31 de maio de 2012

Viseu — ai Jasus que lá vou eu...

O Hotel Montebelo e a Nossa Senhora do Caravaggio
O pudim de pão com leite creme queimado à Rambo
As funerárias da Praça D. Duarte
Várzea de Calde é Cascais
O estilo barrococó
...

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Cisne Negro *

* Texto publicado no #1 de Ferramenta Zine, publicação que pode e deve ser lida aqui


Recomendo que a leitura seja feita ao som deste vídeo:


«Senhor doutor, nós estamos com a corda ao pescoço...»
… disse eu para o senhor doutor, disse-o vai para um quarto de século (há mais de um quarto de século...), facto de calendário que me remete para uma cotice mais avançada do que devia.
Nestes anos todos que passaram depois desse acontecido, muita água passou debaixo das pontes e aprendi alguma coisa, talvez a verdura de então desculpe, talvez não desculpe aquele chapéu-na-mão, aquela metáfora atafegada, metáfora sem fôlego, metáfora à-bout-de-souffle, metáfora pitosga com óculos à godard, metáfora com a conta bancária do cine clube em baixo, cine clube que continua pujante aí, na cidade de Viseu, alegria desta terra abençoada de gente boa, a dar a ver filmes e ensinar filmes, e que há um quarto de século (há mais de um quarto de século...) sonhava com um computador Macintosh Plus, com disco rígido de vinte megas, para aí 800 contos de reis, já com a respectiva impressora de 9 agulhas.
E não tinha dinheiro para ele...

«Senhor doutor, nós estamos com a corda ao pescoço...»
«É sempre possível apertar mais um bocadinho...»
… respondeu-me, atlético e energético e imagético, um dos então representantes da cavacal figura nesta terra abençoada de gente boa. A conversa prosseguiu, amável e sorrimordente, claro, para o beco com saída da porta da rua. Conversa amistosa, claro.
Era eu um tudo-nada verde, já disse, mas era urbano e educado, nunca se diz vai-prá-puta-que-te-há-de-parir!, quando se está num colectivo, estarmos uns com os outros lado a lado a fazer coisas e ter projectos e sonhos põe as fúrias entre-parêntesis.
Viviam-se os primeiros tempos sicilianos dos primeiros fundos sociais europeus, trolhas cavacais a facturarem formação profissional para o primeiro bêéme em leasing, depois nunca mais parou, havia de dar perdões fiscais, e sobreiros abatidos pelo espírito santo, e rotundas e multiusos e parques de merendas, e os submarinos a diesel do jacinto-leite-capelo-rego, e jorge-coelhos e dias-loureiros da arte do alcatrão, e filhinhos-do-papá-campos a porem pórticos-big-brothers-bordéis nas nossas scutes, e ninguém-vai-preso!, offchora-se agora, enquanto o látego calvinista da troika acerta nos costelados desprevenidos, que quem se preveniu offshorou-se a tempo...

«É sempre possível apertar mais um bocadinho...»
… disse um dos representantes da cavacal figura há um quarto de século (há mais de um quarto de século...) nesta terra abençoada de gente boa, mas é neste ano da graça de dois mil e doze que o aperto aperta apertado.
Com as mãos na corda, Vítor Gaspar aperta, a máquina de calcular dele diz que havemos-de-regressar-aos-mercados-em-2013-e-não-precisamos-de-mais-dinheiro, embora seja quase certo que sim, que vai ser preciso, é que, de debaixo de todos os tapetes, saltam calotes e pêpêpês e rendas e joões-jardins e bêpêénes e empresas municípicas combalidas e gatunagens avulsas e ninguém-vai-preso!, que as senhoras da justiça, a começar por aquela senhora de cabelos fluorescentes, são só para dar entrevistas e ir ao prós e prós e para prender “pilha-galinhas”, e não se isaltine ninguém, era o que faltava!, isaltinar?!, isso nunca...
Pela terceira vez a terceira república está tutelada pelos credores, em aflições de bancarrota, tanto dinheiro da “europa” depois, tanta receita da privatização depois, mas já não há dinheiro nem para pagar as pensões nem aos funcionários. SOS! SOS! SOS!
Coitado do Teixeira dos Santos, aflito, se ele fala!, nunca mais fala, havia de falar para se saber como foi que se chegou a este buraco... SOS! SOS! SOS!

«Senhor doutor da troika, nós estamos com a corda ao pescoço...»
«É sempre possível apertar mais um bocadinho...»

… apertar o aperto, não chove nem neste Abril águas mil, para a eira ainda é cedo, para o nabal é mau, e para o senhor Rajoy mesmo aqui ao lado, 27 mil milhões mais 10 mil milhões de cortes, é a crise do ladrilho, meu filho, lê o Financial Times e a The Economist e o Krugman no New York Times, a culpa é da Merkel que não põe os alemães a consumirem, esses avarentos, scheiße para eles!, eles podiam comprar uma segunda habitação em Benidorm, ou em Armação de Pêra, ou em Lloret de Mar, alugavam-nas aos finalistas portugueses na Páscoa, mas não, não querem saber da “austeridade inteligente” do Seguro e menos ainda da sua “abstenção violenta”, e não querem saber do Relvas a rir-se, sempre a rir-se, o Relvas, enquanto dita para as televisões a interpretação autêntica do que disse o primeiro-ministro a seguir à última gaffe do primeiro-ministro, enquanto o Crato tenta salvar a educação, ao menos ele...

«É sempre possível apertar mais um bocadinho...»
… é sempre possível, como estudou o físico dinamarquês Per Bak, ir deitando mais um grão de areia, deitar grão a grão, e ir formando um cone de areia, um cone regular, a crescer, a crescer grão a grão, até se dar uma avalanche e o cone se desfazer …
É sempre possível ir deitando um grão a grão de areia, mas como saber quando é que as interacções físicas entre os grãos, interacções que são cada vez mais e cada vez mais complexas, desorganizam o sistema, e o cone regular de areia, construído grão a grão, se desfaz numa avalanche?
Tentar perceber, como Bak, que o “comportamento complexo da natureza reflecte a tendência dos grandes sistemas para evoluírem para um estado ‘crítico’ estabilizado, longe do equilíbrio, onde perturbações menores podem conduzir a acontecimentos, chamados avalanches, de todas as dimensões.”
É o medo de uma dessas “perturbações menores” que podem produzir uma “avalanche” que enche de medo Vítor Gaspar quando vai a Manteigas, à terra dele, e põe a polícia a revistar as velhinhas antes de elas poderem entrar para a sala onde ele vai discursar, é esse medo que afugenta Cavaco, a conselho da polícia, dos adolescentes criativos da escola António Arroio.
Quando é que esse “apertar mais um bocadinho” vai ser “o grão de areia” que causa a avalanche? Quando?
A pergunta do milhão de dólares, perdão, do milhão de euros...

«Senhor doutor da troika, nós estamos com a corda ao pescoço...»
«É sempre possível apertar mais um bocadinho...»

… o décimo terceiro mês, o décimo quarto mês, o subsídio de férias, o subsídio de Natal, os 10 dias em Cuba, hotel de quatro estrelas tudo incluído por um canudo, nem um iPad nem umas Doc Martens na chaminé para a minha filha, melhor era que estudasse mais a maluca, tanto lhe disse para entrar para uma jota, rosa ou laranja, mais valia que gastar tanto tempo a defender os direitos dos animais, este Natal dessubsidiado, pensando melhor o iPad não, mas as botas talvez se comprem, biqueira de aço, talvez sirvam para dar um pontapé nos tomates de algum cabrão que se meta com ela numa manif...
Com o é que eles fazem na Grécia?, os tugas é sempre a mesma coisa, uns mansos...
Em 2015 talvez o subsídio, uma parte do subsídio, ladrões!, talvez... talvez então os iPads estejam mais em conta...


Ilustração de Margarida Girão

«Senhor doutor da troika, nós estamos com a corda ao pescoço...»
… senhor doutor, nunca ouviu falar do Cisne Negro?, olhe que há cisnes negros, senhor doutor, leia o livro do Nassim Nicholas Taleb, as coisas não são como pensa, às vezes na calmura dos gráficos em forma de sino acontecem arritmias, arritmias nos peitos dos senhores do universo vestidos de armanis escuros, às vezes irrompem os pescoços negros dos bichos acima das águas tranquilas, pânicos, senhor doutor, linhas de coca aflitas nos wc das goldman sachs, senhor doutor, não abuse...
Sim, senhor doutor, falo desse Cisne Negro que acontece sem se prever, e impacta tudo, mexe com tudo, faz um antes e um depois no mundo, sim o 11 de Setembro foi um Cisne Negro, depois explica-se e interpreta-se, mas antes não, antes ninguém o advinha, claro que se em 10 de Setembro se se tivesse adivinhado o 11 de Setembro já não havia 11 de Setembro, sim o Facebook também é um Cisne Negro, assim como a morte do Arquiduque Fernando em Sarajevo em 1914, o Cisne Negro muda tudo, ninguém o antecipa, ninguém o prevê, nem a Maya, o Cisne Negro só se explica depois, senhor doutor, em discursos certinhos nos prós e prós das televisões todas iguais, todas a papaguearem certinho...
Sim, senhor doutor da troika, tem razão no que está a pensar, a sua cabeça é analítica e fria e percebeu o ponto: todos os esquerdalhos do mediterrâneo estão a sonhar que a rua vire isto, sonham com kristal nachts mas boas, não coisas de alemães, sonham quer dizer prevêem, quer dizer calculam, que esse “apertar mais um bocadinho” há-de ser a gota de água que derramará o copo da paciência dos povos.
Sim, senhor doutor da troika, tem razão no que está a pensar, a sua cabeça é analítica e fria e percebeu o ponto: se os esquerdalhos do mediterrâneo prevêem isso, até os boaventuras pós-modernos dos observatórios das universidades, então isso já não é um Cisne Negro porque este não é previsível.
Sim, senhor doutor da troika, tem razão mas aceite um conselho: meta democracia no mediterrâneo, senhor doutor da troika, a democracia é a válvula de escape das tensões numa sociedade, a democracia põe os contadores a zero dos conflitos.
É que, senhor doutor da troika, repare no que nos diz a lei da simetria: tanto é um Cisne Negro um acontecimento de grande impacto que não foi previsto, como um acontecimento que toda a gente esteja a prever e afinal não acontece...
Democracia, senhor doutor da troika, democracia … |

terça-feira, 29 de maio de 2012

Faltam dois dias

Queria que me acompanhasses

Fotografia de Sandra Bernardo


Queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos
Ana Paula Inácio

domingo, 27 de maio de 2012

O novo homem

Fotografia de Dirk Rees


O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito
como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não-objeto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório,
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como flor
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
"Nove meses, eu?
Nem nove minutos."
Quem já conheceu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exato,
medido, bem-posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afeto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio
e, per omnia secula,
livre, papagaio,
sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.
Carlos Drummond de Andrade

sábado, 26 de maio de 2012

Parabéns Teatro da Academia de Viseu! Parabéns Fraga!



Este ano subiram ao palco, no Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa, 13 peças.

O  primeiro prémio FATAL 2012 foi para:

Fraga


Woyzeck
 De Georg Büchner

 Encenação de Fraga

 Teatro da Academia  Instituto Politécnico de Viseu



Fundamentação do júri:
      A encenação de Fraga de Woyzeck mostra “a compreensão do Teatro como obra de arte total, composto por várias dimensões, jamais podendo ser reduzido a uma só.
     Assim, foram explorados não só o importante trabalho dos actores, de que se registam algumas notáveis interpretações, mas também todo o trabalho plástico, o desenho de som e banda sonora, o desenho de luz, entre vários outros aspectos, todos relevantes.
     (...)
     Em suma, fez-se Teatro.”

Membros do Júri:
Bruno Schiappa, 
Centro de Estudos de Teatro da 
Faculdade de Letras da UL

José Pereira, 
Associação Académica da UL

Laurinda Chiungue
actriz

Meirinho Mendes, actor

Paulo Braga, 
Câmara Municipal de Lisboa

Paulo Morais
Escola Superior de Teatro e Cinema

Rui Vieira Nery e António Caldeira Pires
Fundação Calouste Gulbenkian


sexta-feira, 25 de maio de 2012

É Maio e neva em Viseu (#2)










#1 aqui

Centralismo*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

     1. O nosso sistema educativo entrega aos portugueses resultados bem abaixo do que seria de esperar, atendendo ao volume de recursos que consome. Enquanto o SNS não deslustra na comparação com indicadores internacionais, a educação está mal, conforme mostram os resultados do PISA.

Isso é resultado de décadas de faz-desfaz, com o ministro chegante a desfazer o que fez o antecedente, isso é resultado do eduquês facilitista, isso é resultado do centralismo.

É interessante olhar-se para evolução do poder na máquina educativa. Como se sabe, numa organização burocrática as ordens circulam hierarquicamente a partir do vértice da pirâmide, ficando as camadas intermédias com o encargo de interpretar essas ordens. “Quando uma ordem se traduz em acção, a palavra-chave é «traduz»”, lembra Richard Sennett.

Para evitarem essa modulação da sua vontade e assumirem ainda maior poder, os governos nos últimos dez anos trataram de desfazer as hierarquias intermédias da educação. Já não há nenhum poder capaz de resolver problemas a nível concelhio, distrital ou regional (embora ainda haja alguns boys semeados no território e algumas estruturas-zombie, como as direcções-regionais de educação, a viverem na inércia e no faz-de-conta).

Agora, as ordens vêm directamente de Lisboa para as escolas, a informação flui do topo para a base e da base para o topo.

2. No concelho de Viseu acabam de ser constituídos três mega-agrupamentos de escolas: um de 2214 alunos, outro de 2301 e outro de 2711. Estranhamente, nenhum deles integra escolas secundárias. Resultado: os alunos vão ter que sair destas novas “entidades” quando concluírem o 9º ano (em alguns casos, logo a partir do 6º ano). Isto é: esta agregação de escolas traz todos os prejuízos do gigantismo e nenhuma vantagem.
     
Alguém pensou no interesse dos alunos?

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Constâncio e o BPN

Vítor Constâncio, na próxima semana,  
vai descrever ao parlamento o que fez 
durante os anos em que ...


... o BPN era dirigido por uma quadrilha.

Publicidade descarada


Revolução

Fotografia de Josef Koudelka
 
Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Antes de um lugar há o seu nome

Antes de um lugar há o seu nome. E ainda
a viagem até ele, que é um outro lugar
mais descontínuo e inominável.

Lembro-me

do quadriculado verde das colinas,
do sol entretido pelos telhados ao longe,
dos rebanhos empurrados nos carreiros,
de um cão pequeno que se atreveu à estrada.

Íamos ou vínhamos?

Maria do Rosário Pedreira


terça-feira, 22 de maio de 2012

Errata

Fotografia de Rodney Smith


Onde diz neve leiam
marcas dos dentes de uma virgem
Onde diz faca leiam
atravessaste os meus ossos
como uma sirene de polícia
Onde diz mesa leiam cavalo
Onde diz cavalo leiam o meu fardo de emigrante
As maçãs devem permanecer maçãs
Cada vez que aparecer chapéu
pensem em Isaac Newton
lendo o Velho Testamento
Eliminem todos os pontos
são cicatrizes deixadas pelas palavras
que não consegui escrever
Ponham um dedo sobre cada nascer do sol
para que ele não vos cegue
Aquela maldita formiga ainda mexe
Será que vai sobrar tempo
para corrigir todos os erros
mãos que disparam armas de contrabando
florestas consumidas como charutos
aquela garrafa de cerveja o meu maior erro
a palavra que deixei ficar escrita
quando devia ter gritado
por ela
 
Charles Simic


Crise — ataque e defesa


segunda-feira, 21 de maio de 2012

PS 1 — PSD 0

A realização, esta noite, de um debate moderado por jornalistas profissionais e aberto e escrutinável por militantes e não militantes, só por si,
mostra no PS-Viseu uma saúde democrática e uma abertura que faltaram a Guilherme Almeida na disputa interna de Março da concelhia do PSD.




Blow up


tenho fotografias
que provam que nunca exististe.
Pedro Mexia

domingo, 20 de maio de 2012

António Almeida Henriques 1 — Carlos Marta 0

Expresso, 19 de Maio de 2012

The Rope

Orfeu, de Jean Cocteau (1950)


Thus spoke Abdullah to me
The foreign things are to your right
And to your left the foreign things
For you dance upon a rope
And he spoke
The question blocks the question
Just as the answer the answer
For you dance upon a rope
And he spoke
Neither is the East the East
Nor the West the West in you
For you dance upon a rope
And he spoke
Shut your eyes
And run as fast as you can run
For you dance upon a rope

Adel Karasholi



sábado, 19 de maio de 2012

Portugal não é o Azerbeijão, pois não?

Detalhes



Detalhes

O grau de dissolução da terceira república percebe-se quando Bárbara Reis, a digníssima directora do jornal Público, afirma que, lá na casa, não valorizaram muito os destemperos do ministro Relvas por “lidarem com situações do género com muita frequência”.

Aceitar-se com naturalidade esta "muita frequência" diz muito da nossa ecologia mediática:
já não são só muitos políticos de topo que não sabem o que andam a fazer, 
muitos jornalistas de topo idem, idem.

O professor Marcelo apelidou o ministro Relvas, em devido tempo, de "erro de casting".

Pedro Passos Coelho, meu caro, é melhor retirar o seu número dois do plateau.

Porque há que começar a limpeza por qualquer lado.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

War On Women — War For Women

«Chicken better not be on the pill!
You, whore!!!!!»

Merkollande*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


     1. François Hollande foi eleito a 6 e tomou posse a 15 de Maio. Cá, no ano passado, Cavaco Silva foi eleito a 23 de Janeiro e tomou posse a 9 de Março. Em França, 9 dias; em Portugal, 45. A terceira república portuguesa é muito mais nova do que a quinta república francesa mas está com um grau muito mais avançado de esclerose.
     O sistema político português tem prazos gongóricos que eternizam situações de bloqueio e de pântano, não permite várias eleições ou eleições e referendos no mesmo dia, é cada vez menos representativo, o voto em listas fechadas faz com que, no meio delas, sejam eleitas criaturas a quem nem os próprios vizinhos confiavam o condomínio.
     Caros António José Seguro e Pedro Passos Coelho, é agora o tempo de reformar a terceira república. É que pode não haver outra oportunidade — é muito provável que, nas próximas eleições, o bloco central deixe de ter os dois terços necessários para uma revisão constitucional.
     Podia-se começar, para já, pelas autarquias: há que acabar com os chamados “vereadores da oposição” — o trabalho mais absurdo da democracia portuguesa; há que acabar com o voto dos presidentes das juntas nas assembleias municipais; e há que transformar estas em verdadeiros órgãos de fiscalização do executivo municipal.

     2. A eleição de Hollande não alterou nada de significativo. O novo presidente regressa ao gaullismo/miterrandismo, ao tradicional nariz empinado da política externa francesa, deixando de ser seguidista dos Estados Unidos como foi Sarko. Isso vai agradar aos BRICs, mas não vai fazer com que os países emergentes se tornem nem mais nem menos generosos ou complacentes com a dívida da “Europa”.
     No exacto dia em que tomou posse, o senhor Hollande lá foi, rápido como um raio, à senhora Merkel.
Adieu, Merkozy! 
Bienvenue, Merkollande!


quinta-feira, 17 de maio de 2012

18 de Maio — Museu do Falso

18h05m12s
apresentação do Museu e visita guiada

19h00m00s
tertúlia/prova da entrada de catálogo "Bixcoitóns" 
(proveniência: Ocuppy My Kitchen)



Falência de 10 a 20% dos bancos ocidentais*

* Tradução às três pancadas de um extracto do boletim de Maio do LEAP/E2020 que pode ser lido aqui.

     O Laboratório Europeu de Antecipação Política/E2020 anunciou-o em 2008 e tem-o repetido várias vezes desde então: havia aproximadamente 30 biliões de dólares de activos fantasmas no sistema financeiro mundial dos quais 15 biliões ainda permanecem mas vão desaparecer até ao final deste ano.
     A boa notícia é que, depois, pode-se seriamente pensar em reconstruir um mais saudável sistema financeiro mundial. 
     A má notícia é que nos próximos trimestres estes 15 biliões de dólares vão desvanecer-se em fumo. 
     Isso implica, evidentemente, como o LEAP/E2020 já previu anteriormente, a falência (e/ou resgate pelos estados) de 10 a 20% dos bancos ocidentais.  
     Desta vez, diferentemente do que aconteceu em 2008/2009, os accionistas vão ser as primeiras vítimas, qualquer que seja a prioridade dos seus direitos. Só os accionistas com significativo peso geopolítico serão tratados com consideração (fundos soberanos, estados amigos...).

* Tradução às três pancadas de um extracto do boletim de Maio do LEAP/E2020 que pode ser lido aqui.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Da literatura

Fotografia de Gorka Lejarcegi


Gosto de pessoas que não escondem as suas fragilidades. Não precisam de usá-las na lapela do casaco, é claro, mas que não as escondam se calharem em conversa. Fobias, egoísmos, incompetências, doenças psiquiátricas, mendicidades, etc., são o melhor que temos para nos dar. Porque o mais é falso ou não é particularmente nosso. O Pierce Brosnan e a Tyra Banks não existem; a nouvelle cuisine é uma cagada; o Fernando Mendes e o peixe frito são mesmo muito bons. Sou muito melhor escritor do que o Hemingway. Quase toda a gente é muito melhor escritor do que o Hemingway. Não percam tempo com o Hemingway se tiverem uma bola, alguns amigos e um jardim onde jogarem. Não percam uma oportunidade de suar. O suor é sempre bom, a menos que se sue por dinheiro. Fumem. Fumem muito. Os dentes castanhos são melhores do que os brancos. Melhor do que os dentes castanhos só não ter dentes nenhuns mas ter quem nos corte maçãs e queijo da ilha aos bocados pequeninos. Que se foda o Hemingway.
Miguel Martins


terça-feira, 15 de maio de 2012

Pinholing no Museu Grão Vasco


Barragem do Tua

... o dito "Plano Nacional de Barragens" serviu para Sócrates fazer cosmética nas contas públicas de 2008, para engordar os rentistas e inflacionar as nossas futuras contas de electricidade, e inclui um crime bárbaro: a destruição do Vale do Tua.

 

Transcreve-se o comentário do leitor do Público 
João Ventura a esta notícia:

Parabéns Unesco

Aproveitem o dinheiro da barragem para reactivar a linha férrea até Espanha (do lado de lá há muito que está reactivada) e transformar esta área do país num pólo turístico anual, bem estruturado, e não sazonal. Travem essas “mentes brilhantes” que maioritariamente se esqueceram das suas raízes e não conhecem nada do país e das suas gentes que estão para além da CRIL, CREL e do ALLGARVE.

Adro da Sé de Viseu


segunda-feira, 14 de maio de 2012

I'm not living with you!

We occupy the same cage, that's all.

A função do amor é fabricar desconhecimento

Fotografia de Alessandro Zuek Simonetti


a função do amor é fabricar desconhecimento

(o conhecido não tem desejo; mas todo o amor é desejar)
embora se viva às avessas, o idêntico sufoque o uno
a verdade se confunda com o facto, os peixes se gabem de pescar

e os homens sejam apanhados pelos vermes (o amor pode não se
importar
se o tempo troteia, a luz declina, os limites vergam
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela
— o medo tem morte menor; e viverá menos quando a morte acabar)

que afortunados são os amantes (cujos seres se submetem
ao que esteja para ser descoberto)
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver

(que riem e choram) que sonham, criam e matam
enquanto o todo se move; e cada parte permanece quieta:

pode não ser sempre assim; e eu digo
que se os teus lábios, que amei, tocarem
os de outro, e os teus ternos fortes dedos aprisionarem
o seu coração, como o meu não há muito tempo;
se no rosto de outro o teu doce cabelo repousar
naquele silêncio que conheço, ou naquelas
grandiosas contorcidas palavras que, dizendo demasiado,
permanecem desamparadamente diante do espírito ausente;

se assim for, eu digo se assim for —
tu do meu coração, manda-me um recado;
para que possa ir até ele, e tomar as suas mãos,
dizendo, aceita toda a felicidade de mim.
E então voltarei o rosto, e ouvirei um pássaro
cantar terrivelmente longe nas terras perdidas.
E. E. Cummings

domingo, 13 de maio de 2012

Cerimónia funesta

Fotografia de Maxim Chelak


O corpo não responde
às vozes de comando,
como um cão estropiado
já desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos
as servidões austeras
diluem-se num canto
o corpo não atende chamadas
não estremece ao ruído da chave
não suporta
qualquer intromissão
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos tão secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.
Fátima Maldonado

sábado, 12 de maio de 2012

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Comunicar *

* Publicado hoje no Jornal do Centro


     1. Agora é modernaço chamar-se “narrativa” a toda a espécie de comunicação. Chame-se então “narrativa” ao fluxo mediático, esse produzir de sentido que já foi de poucas e profissionais vozes e agora é de muitas vozes, muitas delas não profissionais, umas e outras a debitarem “narrativas” nos media, nos blogues, nas redes sociais.
Imagem daqui
     Ora, esta “narrativa” parece mais poderosa do que verdadeiramente é.
     Veja-se o caso da promoção do Pingo Doce no 1º de Maio que ocupou uma semana completa da atenção do país. Recorde-se: os media só começaram a falar do caso quando a confusão já estava instalada nas lojas. 
      Nenhum jornal, nenhuma rádio, nenhuma televisão, nenhum outdoor avisou antes que íamos ter as pastas de dentes e o Alvarinho Pingo Doce do enólogo Anselmo Mendes a metade do preço. Contudo, o povo acorreu em massa. Porquê?
     Já se citou aqui Umberto Eco a explicar a impotência do ruído dos media mas repete-se: “é apenas no silêncio que funciona o único e verdadeiramente poderoso meio de informação que é o murmúrio”.
     Foi o murmúrio, foi o sussurro boca-orelha que levou aquelas multidões ao Pingo Doce, criando um buraco superior a 10 milhões de euros no orçamento do aprendiz de feiticeiro Pedro Soares dos Santos.
     Oxalá não se tenha esgotado o Alvarinho...

     2. A campanha para a concelhia do PS-Viseu começou cedo demais e, claro, agora perdeu gás. As entrevistas aos dois candidatos publicadas aqui no Jornal do Centro foram interessantes mas insuficientes.
     Termos perdido a Rádio Noar tornou o nosso viver colectivo mais pobre. Neste caso, o grande jornalista António Figueiredo resolvia, numa hora, o défice de informação dos militantes socialistas e da cidade.
     Cara Lúcia Araújo Silva e caro Filipe Nunes, por favor organizem lá um debate entre os dois. Para o mesmo, dispensa-se a presença de claques. Obrigado!

Adormecer ao lado da primavera

Fotografia de Vicente Ansola

Adormecer num colchão de molas do lado da primavera
e acordar do lado do verão
Atirar-se da janela de um quinquagésimo andar
e aterrar intacto na folha de um nenúfar
Passar a cem à hora todos os sinais vermelhos
e estacar repentinamente no primeiro sinal verde
Engolir um Mirage e vomitar de seguida
dois milhões de pássaros pela boca
Fornicar sucessivamente com um elefante-fêmea
uma galinha-da índia um colibri e uma borboleta
Destruir a pontapé todas as palavras do dicionário
até chegar à palavra chumbo
Estender a língua vermelha na pista do aeroporto
para servir de tapete a uma estrela de Hollywood
Cortar os braços a todos os prisioneiros e gritar "mãos no ar"
antes de os passar pelas armas
Derrotar todos os exércitos do nascente
e sucumbir ao ser atacado pelas costas por uma folha do outono
Comer à sobremesa apenas maçãs marca Cézanne
Assistir ao próprio enterro ao volante de um BMW cor de cinza
e chorar lágrimas verdadeiras
Descobrir uma caravela naufragada há
quinhentos anos no fundo dos teus olhos
e conseguir trazer para a superfície duas
estátuas de Buda além de uma tonelada de
pimenta e outra de cravo
Passar cinco anos na solidão de uma cidade
de dez milhões de habitantes
e experimentar depois o bulício das Penhas Doiradas
Entrar num supermercado e plantar um
limoeiro na secção das vitaminas
Recuar alguns séculos no tempo
para apanhar nas mãos a cabeça de Maria Antonieta
Lavar as mãos em sangue antes de assinar o tratado de paz
Jorge Sousa Braga



quarta-feira, 9 de maio de 2012

O turismo não é tutelado pelo Álvaro?

     No El Pais de hoje, un tema peliagudo que irrita por igual a ciudadanos portugueses y españoles: los peajes [nas SCUT].

(...) no hay habilitada 
una barrera 
con una máquina donde se paga
 en efectivo 
o con tarjeta.

     La falta de información y de medios ha causado que muy pocos conductores sepan lo que hay que hacer y que, en su inmensa mayoría, se incorporen a la autovía sin saber cómo, dónde y de qué manera pagar. Y que no pagan.

     O que, sencillamente, dejan de viajar por miedo a las multas.

As alcavalas na conta da electricidade


Investigação filológica

Fotografia de Larry Towell



Um dia destes chamo-te
E gastamos um momento para fazer amor.
A ver se é verdade isso que dizia Cernuda
De que os corpos fazem um ruído muito triste
Quando se amam.

Manuel Arana

terça-feira, 8 de maio de 2012

Saudades do engenheiro Guterres

     Diz o presidente do ACP, Carlos Barbosa, hoje ao I.:
     — "não era possível que algo que foi bem pensado por Cravinho e Guterres, que eram as Scut, pudesse passar de um custo anual de 200 milhões para mais de 700 milhões";
     — "as Scut têm 93 entradas e saídas, nunca foram pensadas para ter portagens".
     De facto, há dois tipos de auto-estradas:
     1 — as que são uma espécie de "túnel na paisagem", com poucos nós rodoviários, desenhadas para dar respostas rápidas a uma procura pré-existente;
     2 — e as como as SCUT, de concepção menos performativa e para menores velocidades, pensadas como instrumentos de desenvolvimento das regiões que atravessam, e por isso com muita porosidade com a envolvente, muitos nós rodoviários, e que pretendem criar procura.
     Para o financimento das SCUT, para além da taxa de 2 cêntimos em cada litro de combustível criada em 2006, podia ter sido criado o "selo das SCUT" como sugeri a Sócrates em Fevereiro de 2009 na presença de mais de mil militantes socialistas. 
     O "selo das SCUT" respeitava o princípio do utilizador-pagador, evitava as portagens e o big-brother dos pórticos e tornava muito mais fácil a vida ao trânsito internacional.
     Há três anos, Sócrates fez uma profissão de fé na tecnologia celerada do senhor Paulo Campos e do seu ex-assessor e fez muito mal. O engenheiro Guterres nunca embarcaria num big-brother destes e é por isso que tenho saudades do engenheiro Guterres e nenhuma do engenheiro Sócrates.

     O interesse público foi atingido muito negativamente ao ter-se avançado para as portagens nas SCUT. Ainda por cima, o Álvaro, perdão!, o dr. Vítor Gaspar, pôs as portagens nas ex-SCUT mais caras que nas auto-estradas das regiões ricas. 
     Já para os rentistas das PPPPP-Parcerias Prejuízos Públicos Proveitos Privados, todo este traumático processo revelou-se um jackpot.

The hand that signed the paper

Fotografia de Jon Lowenstein

The hand that signed the paper felled a city;
Five sovereign fingers taxed the breath,
Doubled the globe of dead and halved a country;
These five kings did a king to death.

The mighty hand leads to a sloping shoulder,
The finger joints are cramped with chalk;
A goose's quill has put an end to murder
That put an end to talk.

The hand that signed the treaty bred a fever,
And famine grew, and locusts came;
Great is the hand the holds dominion over
Man by a scribbled name.

The five kings count the dead but do not soften
The crusted wound nor pat the brow;
A hand rules pity as a hand rules heaven;
Hands have no tears to flow.

Dylan Thomas

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Provável

Edward Hopper



Probabilidade: amanhã acordaremos
na mesma hora. Diremos palavras.
Sorriremos faces. Espalharemos
as cobertas sob os corpos. Transitaremos
caminhos conhecidos. Reiteraremos
verbos conjugados. Diremos os bons
dias necessários ao convívio.


Diremos adeuses tantas vezes
forem as separações. Os reencontros
de abraços e beijos: a probabilidade
de irmos juntos para a cama ainda
desfeita da manhã.
Pedro Du Bois


domingo, 6 de maio de 2012

Os camelos da A25

Já se sabe: a curva da A25 conhecida 
como "a bossa do camelo" é uma ratoeira.

in JN
Contudo, é quando passamos nos troços da A25 que foram feitos em cima do "velho" IP5 e que destruíram deliberadamente a alternativa magnífica que existia à auto-estrada, é quando passamos por baixo dos pórticos desses troços que temos todas as razões para sentir que os políticos que os lá puseram nos estão a chamar camelos.

Mais trabalho para a arquivadoria-geral da república

Notícia aqui

     Esta iniciativa de uma das mais poderosas instituições da sociedade civil portuguesa não vai evidentemente longe.    
     De qualquer forma, se na justiça a coisa pára perto, na política já está preparada a próxima telenovela: os dois maiores partidos de poder da terceira república já instalaram os microfones e as câmaras em duas comissões de inquérito parlamentar. 
     É fácil de adivinhar o enredo estereofónico que aí vem para tornar ainda mais pesados e negros estes tempos de chumbo:
     — no canal esquerdo, o PS vai lembrar a ladroagem no BPN, vai puxar pela máquina de calcular, e dizer que é por causa daquela quadrilha do BPN que foi retirado o subsídio de Natal e de férias;
     — no canal direito, o PSD vai lembrar a ladroagem nas PPPPP - Parcerias Prejuízos Públicos Proveitos Privados (há etiqueta própria neste blogue), vai puxar pela máquina de calcular, e dizer que é por causa daquela quadrilha do alcatrão e dos bancos que foi retirado o subsídio de Natal e de férias.

Resta aos portugueses puxarem pela 
 máquina de calcular 
e enfrentarem esta 
vida difícil, 
enquanto nas televisões 
os dois maiores 
partidos atiram o serviço que fizeram nas últimas décadas
para a frente das ventoinhas