terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Então a porta do corredor


Fotografia de Roy de Carava





(Então a porta do corredor fecha-se novamente e o ruído desaparece)

No esforço que fazemos por achar o caminho
entre os conteúdos da memória
(insiste Aristóteles)
é útil o princípio de associação:
“passar rapidamente de um ponto ao seguinte,
por exemplo de leite a branco,
de branco a ar,
de ar a húmido,
até recordarmos o Outono,
no caso de estarmos tentando recordar essa estação”.
Ou supondo,
leitor amável,
que não queiras recordar o Outono, mas a liberdade,
um princípio de liberdade
que houve entre duas pessoas, pequeno e selvagem,
como são os princípios, mas quais são aqui as regras?
Tal como ele diz,
a loucura pode ficar na moda.
Passar então rapidamente
de um ponto ao seguinte,
por exemplo de bico a duro,
de duro a quarto de hotel,
de quarto de hotel
à frase encontrada numa carta que escreveu num táxi
no dia em que se cruzou com a mulher,
que ia a caminhar pelo outro passeio,
mas ela não o viu, dirigia-se
- como são engenhosas as combinações do fluxo
que chamamos história moral,
talvez não tão claras só como as fórmulas matemáticas,
escritas que são na água –
ao tribunal
para apresentar o pedido de divórcio, uma frase como
que sabor entre as tuas pernas.
Depois do que, mediante esta faculdade absolutamente divina,
a “memória das palavras e das coisas”,
recordamos a liberdade.
É isso eu? grita a alma irrompendo.
Almita, pobre animal incerto,
cuidado com este invento “sempre útil para aprender e viver”
como diz Aristóteles, Aristóteles,
que não tinha marido,
raramente menciona a beleza
e provavelmente de boneca passaria depressa para escrava
ao tratar de lembrar esposa.
Anne Carson


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