segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

como viver com estas minúsculas


como viver com estas minúsculas
intempéries, a régua sobre a mesa, a chuva
pendurada nos altos telégrafos da paciência?
o passado levanta as lajes, dentro
do ar as sapatilhas vivem a sua luz ausente.
como nos escapa o que não há ainda!, os barcos
verde claro, e o retrato da sua casa iluminada,
e a alegria desta roupa «desfeita em lágrimas»,
e o cão «piloto» enterrado na hortelã, &
as minuciosas tabuletas anunciando o mar: tudo
costumes locais, colhidos ao acaso das
estrebarias públicas. as
comendas multiplicam-se, & o município vê
ameaçadas as mais altas esperanças. um dia
as árvores aparecem com grandes frutos ocos,
e o vidro cobre as ruas, as lajes .
redondas dos passeios.
e estes navios encalhados nos ramos, que arte
os poderia sossegar? é justo que esperemos
transparentes respostas; e que algures
se acabe a transparência, e fique
uma parede lisa; e que nos doa
a memória do enigma. daí, decerto, estas casas
imóveis, com os pássaros a meio;
o rumor dos grandes diques luminosos;
e as mulheres, sentadas nas oliveiras, com
lençóis azuis atados ao cabelo. e ao lado,
a imagem representa um sarau de província, o consumo
inusitado das lareiras, a crise que aguardamos.

somos acaso a silenciosa escravatura das águas? como
obedecer ao requerimento das cortinas, quando
ao erguê-las a brisa avistamos o passado
de unhas redondas junto à balustrada? e outra vez
nos escapa o sítio de vastos planaltos, o tropel
dos búfalos, das esteiras secretas, do assobio
junto das portas levemente azuis.
deixarei :
que me devorem os cachimbos do sal, a madrugada
violeta de antimónio. assim me saberão
a prazer os prazeres, como as nuvens
no ascensor dos fornos siderúrgicos, ou
tardes de poder popular. depois

as palavras, e a sua sombra nos armários
da greve, escaparão ao nosso ardor.
as planícies não cabem neste modesto horóscopo
que lhe anuncia o sofrimento, ambas as mãos
surdas ao princípio do dia, e a sucessiva
descoberta dos seus fins. afastemos enquanto
é tempo os temerosos búfalos, e os cabos
entrançados do terminal eléctrico. mas
como viver com os pequenos
inconvenientes da catástrofe? nunca
aceitarei esse pacto ditado pelas vetustas
máquinas agrícolas. a sua passagem marcou
as ruínas redondas junto à praia, e a
«superior determinação das autor
idades responsáveis»
encerrou-os no insensato mercado das províncias.
como viver com este amável búfalo das m
ais distantes alagadas pradarias ardendo?

confesso que me espanta o mapa
dos seus inadiáveis sofrimentos. a norte
cai em lentas ladeiras, em barcos
de papelão azul e marinheiros cegos. e as altas
falésias da tarde, a caminho do sul!
a leste, o mar vazio de mar espalha redes
sobre os velozes corvos submarinos: quem .
recordará o estertor das suas presas? sombrias
são as suas sementes, as naus, os realejos
azuis do amanhecer.
as cabeças
do ar estendem .véus sobre o planalto. como
esquecer o seu bafo, a sua cólera
de mastros violentados?

visitarei secreto o seu ardente
esquecimento. as ruas, primeiro inclinadas a poente
depois cinzentas à beira da água,
falam-me obscuramente dos seus seios de anil
do seu perfil de mapa transportado
em secretas mochilas, a sua
árida transparência. e os seus ossos
repousarão na areia, junto à tarde aonde
fumei a seda imóvel, e o amei, e as suas
folhas me cobriram de poeira azul. como
viver com estes dentes, esta estampa
monótona de búfalos pastando,
e as suas casas iluminadas pelo vício?
e de repente deparamos com vastos armazéns
geológicos, como deuses que dormem:
como nos surpreende o seu triunfo! como nos pesa
o áspero rumor dos telefones! não acredito
sequer no que me diz. como
viver a dúvida insensata dos seus
variados usos? e assim
nos esquecemos pouco a pouco, frequentemente
mais jovens, mas também mais selvagens.
não conheço este campo, este vidro, esta porta. não ouço
sequer o que me diz. apenas o tropel
dos búfalos; ao fundo, nos
elucida: e então
António Franco Alexandre


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