segunda-feira, 30 de abril de 2012

O IMI pós-troiko

     No final de Março do ano passado, ainda Sócrates governava de PEC em PEC, deixei aqui uma previsão num post intitulado IMI - o fim do oásis: «há que contar  também com aumentos de impostos sobre o imobiliário. No PEC5 ou no PEC6. Que é como quem diz, em 2012.»
     Um ano depois, as cartinhas do ministro Gaspar com os novos valores matriciais para a cobrança de IMI estão a chegar.
No Correio da Manhã de hoje
      É mais um golpe duro na classe média e a comunicação das finanças aos proprietários é tudo menos clara. Há casas cujo valor fiscal é multiplicado várias vezes, estando, agora, com valores de mercado ou até acima do mercado que está cada vez mais anémico.
     Nalgumas avaliações mais vale os proprietários dizerem à ministral figura:
     «Dizes que o meu T3 vale 150 mil euros? Porreiro, pá! Vendo-to por esse preço, oh Gaspar!»
     Fica já aqui um aviso aos eleitos no concelho de Viseu: senhores deputados municipais e senhores vereadores, muita atenção às taxas de IMI que vão aprovar para 2013. Lembrem-se do massacre a que estão a ser sujeitas as pessoas. 
     Este aviso dirige-se especialmente aos eleitos socialistas no concelho de Viseu: nos últimos anos a abstenção, o défice de convicções e a falta de firmeza de vossas excelências em matéria de impostos municipais foi uma vergonha.
     Como o principal responsável por esta estratégia de capitulação perante o dr. Ruas foi para uma veniaga simpática na "Europa", há que esperar, agora, mais firmeza nos eleitos socialistas. Para bem dos viseenses.

Motivo

Fotografia de Louis Stettner


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou se desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Cecília Meireles


domingo, 29 de abril de 2012

Ferramenta — primeiro é o martelo


aos primeiros segundos do dia do trabalhador, 
vai acontecer uma bricolage especial.


Não se sabe bem o que será.
 Uma coisa é certa:
nem todos os problemas são pregos.

sábado, 28 de abril de 2012

A Rádio Escuro de Vila Nova de Paiva *

Pacheco Pereira, Joaquim Vieira, Amadeu Araújo, Sansão Coelho e Luís Baptista Martins


     A qualidade destes nomes diz tudo acerca do nível do debate sobre os media que aconteceu ontem em Vila Nova de Paiva, por ocasião dos 26 anos da Rádio Escuro.
     Parabéns ao padre José Justino, Paulo Tavares, Amadeu Araújo e toda a equipa da rádio de Barrelas.
     Amadeu Araújo, jornalista da casa, abriu as "hostilidades" com um enérgico grito de alma bem escrito e bem lido. 
     Luís Baptista Martins descreveu o que o jornal que dirige — O Interior —  tem feito, lembrando várias lutas locais, como a da preservação da maternidade da Guarda e a luta contra as portagens.
     Sansão Coelho lastimou as rádios que são "torneiras de som" porque "não está lá gente dentro".
     Joaquim Vieira reparou na rotunda que anuncia "Vila Nova de Paiva - Capital Ecológica" e partiu daí para enunciar linhas de desenvolvimento e articulação entre o local e o global.
     José Pacheco Pereira, que está mais elegante do que mostram as televisões, afirmou:     
      "Os meios de comunicação social locais devem ser bons meios de comunicação social."
      "É a independência que permite noticiar como deve ser."
      "O jornalismo é uma mediação entre as coisas que acontecem e as pessoas que precisam de saber que as coisas acontecem."
     A comunicação social é das actividades que mais sofre com o actual "estreitamento da classe média". 
     "O dito 'jornalismo do cidadão' não é jornalismo, o jornalismo é uma actividade profissional." 
     Em resumo, eis as ideias-chave expressas por Pacheco Pereira:
      — um media local deve ser bom;
     um media local deve ser independente;
     um media local deve ser ligação e cimento da comunidade (a presente e a migrante);
     um media local é e tem que ser sempre memória local.

António Figueiredo
Este blogue saúda os muitos jornalistas que estiveram em Barrelas ontem. 
Um abraço ao António Figueiredo, director da saudosa Rádio Noar de Viseu.
Rádio Noar, rádio que era voz e escrutínio desta terra,  rádio que, apesar de dar lucro, agora já não existe porque:
1 — um governante medíocre chamado Jorge Lacão fez aprovar uma lei que passou a permitir que as rádios grandes pudessem engolir as rádios locais;
2 — porque as elites políticas e económicas da cidade não têm sentido comunitário nenhum.

* Ver, também, a reportagem do blogue Letras e Conteúdos de Acácio Pinto.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O último dia

* Publicado hoje no Jornal do Centro

Escrevo esta crónica a ouvir O Último Dia do grande Ney Matogrosso ...


     
... canção de “fim do mundo”, boa para dias de sobressalto, dias de oxalá-corra-tudo-bem. Todos temos dias assim.
     
Por um acaso que não vem agora ao caso, na segunda-feira de manhã puseram-me à frente uma televisão ligada no Jorge Gabriel da RTP1 com uma senhora de penteado rebuscado a dar consultas de astrologia. Foi um alívio ela não ter anunciado um apocalipse para os nativos de Sagitário. Ora, se o mundo não acaba para os sagitários, também não há-de acabar para os balanças ou para os aquários, para não falar nos gémeos que são múltiplos.
     
O tema “fim do mundo” está a ser sempre reciclado: de invasões de marcianos a desastres nucleares, de cataclismos climáticos a choques de planetas com a Terra, como o belíssimo Melancolia, de Lars Von Trier, um filme que devia ser obrigatório ver.
     
Todos esta ficção remete para o mais humano de nós — que carpe diem vou escolher antes do apocalipse? com quem vou querer estar de mãos dadas no fim?
     
4:44, O Último Dia Na Terra, o último filme de Abel Ferrara, protagonizado por Willem Dafoe e a bela Shanyn Leigh, pertence a este filão temático. Abel Ferrara diz que o fez por duas razões: porque apanhou um valente susto num voo sobre o Atlântico quando o avião começou a deitar fumo por todos os lados e por causa da crise sistémica global que estamos a viver.
     
Esta segunda razão é mais universal — todos sentimos no ocidente que há um mundo que está a acabar enquanto, do outro lado do espelho, os países emergentes sentem que há um mundo que está a começar.
     
Pense no que canta Ney Matogrosso:

«Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?»

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Vampiragem

Como é sabido, um povo feliz é aquele que tem um governo pequeno e moderado nos impostos.

Infelizmente, desde 2002, desde que caímos no pântano anunciado por Guterres, Portugal foi transformado numa Transilvânia.


 Convém não esquecer: no processo de aprovação do último orçamento de estado todos 
— TODOS —
todos os partidos 
propuseram aumento de impostos.



E, já depois do orçamento aprovado, 
a ministra Cristas ainda foi arranjar mais 
uma taxinha
hoje em conselho de ministros.

Lagarto

Estes títulos foram chamados "lagartos".
A alcunha ficou.


Já aqui foi dito mas repete-se no dia 
este blogue é lagarto.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A liberdade respira-se

Rifão quotidiano

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
Mário-Henrique Leiria


terça-feira, 24 de abril de 2012

Guilherme Gomes diz "Morte ao Meio Dia" de Ruy Belo

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça


Dezembro vibra vidros brande folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer com toda esta cor azul


que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol


No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era de toda a gente


E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol


O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização



Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?


Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento


O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia


A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer
Ruy Belo

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Obsequio

Fotografia de Helmut Newton



(A Rosamaría)

Este orgasmo,
tan celosamente
guardado
     para tí, 
hoy,
amorosa, 
     lo entregué a mi mano.
                                                          Amparo Jimenez


domingo, 22 de abril de 2012

António Nunes — o profeta, Vítor Gaspar — o obreiro

     Em Dezembro de 2007, António Nunes, o inspector-geral da ASAE, atirou-se à restauração portuguesa numa entrevista ao Correio da Manhã  e afirmou:     «Metade dos estabelecimentos só tem duas hipóteses. Ou se renova ou vai falir. Vão ter de fechar.»
     Ora, o que a testosterona do líder da ASAE não conseguiu durante o socratismo, está a fazê-lo agora o IVA de Vítor Gaspar — qualquer volta, mesmo distraída, pelas nossas cidades dá conta de inúmeros restaurantes e cafés que encerraram já em 2012.
     Foi um erro a subida do IVA na restauração de 13 para 23%, um erro com consequências no emprego e sem vantagem para a arrecadação fiscal.

You are welcome to Elsinore


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore



E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny de Vasconcelos

Cirque du Soleil — Óscares

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Caro Guilherme Almeida

...presidente da concelhia do PSD-Viseu,
já escreveu uma cartinha parecida para Tondela, 
para Carlos Marta?

in Público

Os fálgaros

* Publicado hoje no Jornal do Centro


Fotografia de Paulo Neto
     Na semana passada, o director do Jornal do Centro deixou aqui descritas muitas iguarias. Reparei numa de Tabosa de Sernancelhe que nunca tinha ouvido falar: os “fálgaros imortalizados literariamente por Aquilino”, pães de azeite com queijo de cabra fresco no interior.
     Fiquei a saber que o bom gosto gastronómico de Aquilino Ribeiro não se ficava pelo, como ele dizia, “peixe mais saboroso de toda a fauna das águas, as trutas do Paiva”, mas também pelos fálgaros.
     Merece ser lembrada uma história de Aquilino ocorrida há cem anos quando ele vivia em Paris e abordou os editores Aillaud e Francisco Alves para o publicarem. Foi numa hora propícia, estavam eles a sair de um restaurante. Conta ele: «não há como vir a lamber o beiço dum almoço à francesa, regado com vinhos devidamente capitosos, um Sauterne, um velho Bordéus, para dispor-se à benignidade.»
     Assim aconteceu: os editores aceitaram de bom grado publicar Jardim das Tormentas e, ouro sobre azul, pagaram-lhe logo os direitos de autor — mil e quinhentos francos, uma fortuna em 1912.
     Um jornal do Rio de Janeiro, uns bons anos depois, perguntou a Aquilino se ele guardara aquela bagalhoça. Resposta, com o coração nas mãos, do mestre: «em Paris poupar dinheiro só eles, os franceses. Para mim e outros iguais a mim não só era ilusório como revelador de maus instintos. (…) Depois de uma pândega heliogaldesca com a troupe, alguém propôs que fôssemos até (...) um casino em que havia dancing, jogo (…) Gastei, gastei e, às 4 horas da madrugada, não me restava na algibeira com que mandar cantar um cego.”
     A entrevista, imperdível, inclui até uma “moral” para esta história e está transcrita nos boletins de Janeiro e Abril de 2011 da câmara de Moimenta da Beira.
     Fica, para acabar, uma reivindicação laboral ao meu director: quando vamos a Tabosa, Paulo Neto?

No existe el infinito

Fotografia de Olivier Valsecchi


No existe el infinito:
el infinito es la sorpresa de los límites.
Alguien constata su impotencia
y luego la prolonga más allá de la imagen, en la idea,
y nace el infinito.
El infinito es el dolor
de la razón que asalta nuestro cuerpo.
No existe el infinito, pero sí el instante:
abierto, atemporal, intenso, dilatado, sólido;
en él un gesto se hace eterno.
Un gesto es un trayecto y una encrucijada,
un estuario, un delta de cuerpos que confluyen,
más que trayecto un punto, un estallido,
un gesto no es inicio ni término de nada,
no hay voluntad en el gesto, sino impacto;
un gesto no se hace: acontece.
Y cuando algo acontece no hay escapatoria:
toda mirada tiene lugar en el destello,
toda voz es un signo, toda palabra forma
parte del mismo texto.
Chantal Maillard

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Publicidade descarada

Hoje, no Lugar do Capitão - Viseu, 23H00



Andrés Stagnaro - Guitarra e voz

Carlos Peninha- Guitarra
(Músico Convidado)

Calmly We Walk through This April’s Day

Fotografia de Alec Soth


Calmly we walk through this April’s day,
Metropolitan poetry here and there,
In the park sit pauper and rentier,
The screaming children, the motor-car
Fugitive about us, running away,
Between the worker and the millionaire
Number provides all distances,
It is Nineteen Thirty-Seven now,
Many great dears are taken away,
What will become of you and me
(This is the school in which we learn ...)
Besides the photo and the memory?
(... that time is the fire in which we burn.)


(This is the school in which we learn ...)
What is the self amid this blaze?
What am I now that I was then
Which I shall suffer and act again,
The theodicy I wrote in my high school days
Restored all life from infancy,
The children shouting are bright as they run
(This is the school in which they learn ...)
Ravished entirely in their passing play!
(... that time is the fire in which they burn.)


Avid its rush, that reeling blaze!
Where is my father and Eleanor?
Not where are they now, dead seven years,
But what they were then?
No more? No more?
From Nineteen-Fourteen to the present day,
Bert Spira and Rhoda consume, consume
Not where they are now (where are they now?)
But what they were then, both beautiful;


Each minute bursts in the burning room,
The great globe reels in the solar fire,
Spinning the trivial and unique away.
(How all things flash! How all things flare!)
What am I now that I was then?
May memory restore again and again
The smallest color of the smallest day:
Time is the school in which we learn,
Time is the fire in which we burn.
Delmore Schwartz


quarta-feira, 18 de abril de 2012

terça-feira, 17 de abril de 2012

Sinfonia Imaterial, um filme de Tiago Pereira

Fundação INATEL-Viseu e o  Cine Clube de Viseu
Hoje 17 de abril, 21h45, IPJ-Viseu
Entrada livre




Um registo das práticas musicais de tradição oral portuguesa, que estão vivas e que prevalecem nas várias regiões de Portugal continental e ilhas; os ritmos mais raros e relevantes, o desempenho das vozes e talentos amadores num concerto único.


Último brindis

Fotografia de Julio Hardy

Lo queramos o no
sólo tenemos tres alternativas:
el ayer, el presente y el mañana.

Y ni siquiera tres
porque como dice el filósofo
el ayer es ayer
nos pertenece sólo en el recuerdo:
a la rosa que ya se deshojó
no se le puede sacar otro pétalo.

Las cartas por jugar
son solamente dos:
el presente y el día de mañana.

Y ni siquiera dos
porque es un hecho bien establecido
que el presente no existe
sino en la medida en que se hace pasado
y ya pasó...
como la juventud.

En resumidas cuentas
sólo nos va quedando el mañana:
yo levanto mi copa
por ese día que no llega nunca
pero que es lo único
de lo que realmente disponemos.
Nicanor Parra



segunda-feira, 16 de abril de 2012

C'est le grand amour

Fotografia de Christer Strömholm



Elle avait des lunettes
et lui aussi
si bien qu'ils se voyaient mieux
pour se regarder dans les yeux.

Elle avait un Sonotone

et lui aussi
si bien qu'ils s'entendaient bien
et restaient sourds à tout
ce qui les entourait.

Mais, il avait un grand nez

et elle était obligée
de se mettre très en biais
pour l'embrasser.
Et sa moustache
ça la chatouillait ...

Il n'y a pas de bonheur complet.

Jean l'Anselme


Jantar filosófico

"Meditar, em filosofia, é encaminharmo-nos 
do conhecido para o desconhecido, 
e aqui defrontar o real."
Paul Valéry



domingo, 15 de abril de 2012

Não preciso de dinheiro

Não preciso de dinheiro.
Preciso é de sentimentos
de palavras, escolhidas sabiamente,
de flores, como pensamentos,
de rosas, como presenças,
de sonhos, que habitem as árvores,
de canções para as estátuas dançarem,
de estrelas que murmurem ao ouvido dos amantes...
Preciso de poesia,
essa magia que queima o peso das palavras,
que desperta as emoções e nos dá novas cores.

Alda Merini


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sons na primavera


A febre da república *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     A primeira república durou 16 anos. A segunda salazarou-se durante 48 anos até 1974. A terceira república, que nos governa, vai em 38 anos e está doente e com febre alta.
     O país é, neste momento, um protectorado nas mãos dos credores. Os mais inconformistas estão a emigrar. Um estudo recente diz que já só 56% dos portugueses consideram que "a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo".
     Desconfia-se das instituições e essa desconfiança atinge até o próprio presidente. Esta periclitância do regime é conhecida dos estados maiores dos partidos embora não o digam em público. Era muito importante uma revisão constitucional que, pelo menos, assegurasse:
     um mandato presidencial de sete anos não renovável (agora, nos primeiros mandatos, os presidentes pensam mais na sua reeleição do que no país);
     redução do número de deputados e proibição do exercício do cargo em part-time;
     permitir eleições e referendos em simultâneo e acabar com os prazos bizantinos à volta das eleições e da formação de novos governos (em 2010, o país apodreceu de PEC em PEC à espera das presidenciais).
     Se nada for feito, a terceira república pode acabar. Basta, numas eleições presidenciais, aparecer um candidato anti-sistema, com uma agenda anti-corrupção, uma retórica de sobressalto nacional e a defender um regime presidencialista.
     Há risco de isso acontecer em 2016 ou até mesmo antes se Cavaco, que nunca teve grande resistência psicológica, resignar. 




Só para 
dar um exemplo: Marinho Pinto é, caso 
o queira, 
capaz de corporizar 
esta 
proposta 
de ruptura 
e ter 
um 
fortíssimo impacto eleitoral 
numas presidenciais.




     Será que Passos Coelho e António José Seguro percebem que devem divergir o mais possível nas políticas mas porem-se de acordo na necessária reforma da terceira república?

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ajudar, ajudar a ajudar


«Viu que o outro entrou num refeitório social e saiu com a sua ração de comida. 
Por dentro, a dignidade amarfanhada. 
Por fora, a roupa cuidada, disfarçando a condição de novo pobre.
Pode acontecer contigo, comigo. Já amanhã.»

in Verguenza,  
uma crónica de Fernando Alves na TSF 
 

Adioses




Decir adiós a un novio es fácil
si uno se concentra en repartir los recuerdos:
aquel CD te lo regalé yo
este libro es mío
nunca me gustó esta foto
pero el marco es una herencia de mi madre.

Pero con los amigos a la hora de romper
no hay nada para repartirse
nada que repare el daño
que simulacre la ruptura.
No hay aniversarios que llorar.
Sólo huecos, tardes de domingo
pipas que se enrancian
películas que envejecen
bromas que nadie entiende
que flotan arrastradas por el aire
como globos después de una fiesta.
A la hora de romper no hay un momento perfecto.
Las manos están en movimiento
se agarran, se sueltan
bailan juntas o por separado
se pellizcan
se enredan los dedos en las frases
en un abrazo o en un pulso.
Sólo vale un tajo inesperado
zas
y entonces yo me he quedado con dos de tus dedos
tú con dos de los míos
y no nos sirven los dedos ajenos
ni los muñones propios.

Los números de teléfono no se olvidan de un día para otro
no se vacían las piscinas
ni se agostan los veranos
y en el recuerdo las risas suenan siempre burlonas.
Ana Pérez Cañamares



terça-feira, 10 de abril de 2012

Felicidade

Take 1


Take 2
Sessão do CCV, hoje, IPJ-Viseu, 21H45


Coisas boas ...

... o Parque Aquilino Ribeiro de Viseu 
depois das obras...



Breves São os Anos

Imagem daqui


No breve número de doze meses
O ano passa, e breves são os anos,
Poucos a vida dura.
Que são doze ou sessenta na floresta
Dos números, e quanto pouco falta
Para o fim do futuro!
Dois terços já, tão rápido, do curso
Que me é imposto correr descendo, passo.
Apresso, e breve acabo.
Dado em declive deixo, e invito apresso
O moribundo passo.

Ricardo Reis

segunda-feira, 9 de abril de 2012

"And Now For Something Completely Different" (#79)

Pepe já dá patadas nos dele

Adiós

Fotografia de Marc Riboud


Cualquier cosa valiera por mi vida
esta tarde. Cualquier cosa pequeña
si alguna hay. Martirio me es el ruido
sereno, sin escrúpulos, sin vuelta
de tu zapato bajo. ¿Qué victorias
busca el que ama? ¿Por qué son tan derechas
estas calles? Ni miro atrás ni puedo
perderte ya de vista. Esta es la tierra
del escarmiento: hasta los amigos
dan mala información. Mi boca besa
lo que muere, y lo acepta. Y la piel misma
del labio es la del viento. Adiós. Es útil
norma este suceso, dicen. Queda
tú con las cosas nuestras, tú, que puedes,
que yo me iré donde la noche quiera.
Claudio Rodríguez


Alegre dá graças finalmente ...

... a 80,24% do eleitorado que não votou nele

domingo, 8 de abril de 2012

O segredo da paz

Fotografia de Bob Lee


Retóricos e silenciosos sábios morreram
sem terem podido entender-se sobre o ser e o não ser.
Ignorantes, meus irmãos, continuemos a saborear o sumo dos cachos
e deixemos esses grandes homens regalarem-se de uva-passas.

Senta-te e bebe. Gozarás de uma felicidade que Mahmud nunca conheceu.
Escuta as melodias que exalam os alaúdes dos amantes:
são os verdadeiros salmos de David.
Não mergulhes no passado nem no futuro.
Que o teu pensamento não ultrapasse o momento presente.
Esse é o segredo da paz.
Omar Khayam 


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Quero a Fome de Calar-me

Calvário, por Grão Vasco


Quero a fome de calar-me. O silêncio.Único
Recado que repito para que me não esqueça. Pedra
Que trago para sentar-me no banquete
A única glória no mundo — ouvir-te.

Ver
Quando plantas a vinha, como abres
A fonte, o curso caudaloso
Da vergôntea — a sombra com que jorras do rochedo

Quero o jorro da escrita verdadeira, a dolorosa
Chaga do pastor
Que abriu o redil no próprio corpo e sai
Ao encontro da ovelha separada. Cerco

Os sentidos que dispersam o rebanho. Estendo as direcções, estudo-lhes
A flor — várias árvores cortadas
Continuam a altear os pássaros. Os caminhos
Seguem a linha do canivete nos troncos

As mãos acima da cabeça adornam
As águas nocturnas — pequenos
Nenúfares celestes. As estrelas como as pinhas fechadas

Caem — quero fechar-me e cair. O silêncio
Alveolar expira — e eu
Estendo-as sobre a mesa da aliança
Daniel Faria

 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

"noites f5.6" — o retrato na pintura e na fotografia

Sexta- Feira, 6 de Abril, 21H00, 

Primeira edição das "noites f5.6"
Todos os meses, a cada dia 5 ou 6, uma conversa (informal) sobre fotografia, acompanhando com um café...



O retrato 
na arte da pintura
por Luís Calheiros






Introdução 
à história do retrato fotográfico,
por José Pessoa




Tempos

* Publicado hoje no Jornal do Centro


     1. Em 1965, o professor Stuart Oskamp fez uma experiência com psicólogos clínicos. Foi dando, a cada um deles, sucessivos dossiers e em cada novo dossier era aumentada a informação sobre os pacientes.
     Ora, percebeu-se que a qualidade de diagnóstico dos psicólogos não melhorou nada com o aumento de informação. Os dados novos recebidos só os puseram mais confiantes em relação ao diagnóstico inicial que eles tinham feito. A informação nova funcionou unicamente como reiteração.
     Este processo de fechamento mental é muito usado na luta política. Vejamos o exemplo que está “mais à mão” — as próximas eleições internas no PS-Viseu.

Como é 
evidente, 
não há nenhuma 
grande diferença entre
são socialistas e ambos querem ganhar a câmara de Viseu 
em 2013.

     Qual será, então, a melhor estratégia para ganhar as eleições no universo fechado dos militantes socialistas? A resposta é simples: eles devem fazer tudo para que cada militante/eleitor faça o seu “diagnóstico” o mais depressa possível. É que, como mostra o trabalho de Stuart Oskamp, uma vez formulado o diagnóstico “ele é o melhor”, quaisquer que sejam os disparates ditos ou feitos em campanha, dificilmente a posição muda para “ela é a melhor”. (É claro que “ele é o melhor” e “ela é a melhor” podem trocar de lugar na frase).

     2. Na semana santa do ano passado, enquanto Sócrates mostrava ter ainda poder sobre o tempo tradicional e dava tolerância de ponto aos funcionários, a troika, que se mexe no tempo pós-moderno dos mercados, trabalhou sem parar durante as “férias” da Páscoa e obrigou o INE, em plena sexta-feira santa, a mudar o valor dos défices e da dívida pública de 2009 e 2010.
     Isto é, naquele dia de evocação da morte de Cristo, o tempo pós-moderno e o tempo religioso foram ambos sacrificiais.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Marianna e Chamilly

Fotografia de Henri Cartier–Bresson


Quando partires
se partires
terei saudades
e quando ficares
se ficares
terei saudades


Terei
sempre saudades
e gosto
assim
                                                           Adília Lopes

 

Isabel Moreira no reino de José Kafka Estaline

Imagem original daqui
«(...)
Exigi o texto da decisão e a votação (quantos contra, quantos a favor). 

Nada. 

"And Now For Something Completely Different" (#78)

acordas-me com um beijo
e um sorriso no olhar
e levantas-me da cama
depois tiras-me o pijama

terça-feira, 3 de abril de 2012

Al final

Fotografia de Patti Levey

Que pocas cosas duelen. Digamos, por ejemplo,
que se puede no amar de repente y no duele.

Duele el amor si pasa
hirviendo por las venas.
Duele la soledad,
latigazo de hielo.

El desamor no duele. Es visita esperada.
No duele el desencanto. Es tan sólo algo incómodo.

Somos así, mortales
irremediablemente,
sin duda acostumbrados
a que todo termine.
Irene Sánchez Carrón