quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Tristeza e raiva

     O dia de ontem, 29 de Novembro de 2011,  foi um dia negro para Viseu: o 106,4 deixou de transmitir as notícias do que acontece em Viseu.
     Ontem consumou-se este desastre cívico. O nosso viver colectivo ficou mais pobre.
     A rádio Noar era uma empresa que dava lucro e que prestava um serviço público inestimável à cidade, à região e ao país. Muitas das sua histórias tiveram impacto em todo o país.
     Ontem foi "um dia de tristeza e raiva”.
     Expliquei esses sentimentos à Lusa:
     “Tristeza porque acaba a rádio das notícias de Viseu, um projeto profissional onde se refletiam todas as vozes da cidade e onde todas as vozes tinham lugar; de raiva porque é lamentável que um governo socialista (era Jorge Lacão o ministro da tutela) tenha feito uma lei da rádio à medida do apetite dos tubarões que vão acabar com as rádios locais em Portugal”.

Publicidade descarada

Estes músicos de eleição vão estar hoje no Lugar do Capitão, em Viseu, a partir das 23 horas.

The Ray Band 
(o do meio chegou hoje da Lapónia)

Isaltinações

Se, como diz hoje o Correio da Manhã, estamos quase, quase a ter uma câmara municipal 
a ser dirigida da cadeia...


... já o Jornal de Notícias diz-nos que cadeia é só para 
quem não tem recursos

Katie Melua *

Fotografia de Freddie Child-Villiers
Nove milhões de bicicletas em Pequim
muitas muitas bicicletas em Pequim e bom
são afinal bicicletas ou todas as bicicletas
e bem vendo aqui triste e aqui assim
tão poucas bicicletas aquelas bicicletas
nove milhões de bicicletas em Pequim
e aqui arrumadas ao pé da letra aqui
tão poucas bicicletas


se Katie Melua oh Katie Melua tantas
bicicletas são nove milhões de bicicletas
nove nove milhões de bicicletas em Pequim.



* Vénia ao Rui Almeida daqui.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Catroga ganhou ao Seguro

Imagem do melhor jornal português, o Inimigo Público
     Segundo o que estão a dizer os media, há luz verde nas conversas entre Passos e Seguro: a taxa de redução progressiva de um subsídio de férias e de Natal em 2012 e 2013 vai ser entre os 600 euros (começava nos 485)  e os 1100 euros (era até aos mil euros).
     Pela projecções, esta "modelação" — termo usado por Pedro Passos Coelho — vai valer 130 milhões de euros (que não vão ser compensados em cortes de despesa mas com aumento de impostos - a taxa liberatória sobre as mais-valias passa de
21,5 para 25%).
      Estas notícias podiam ser melhores se mostrassem descidas na despesa. São, de qualquer forma, boas já que vão
beneficiar 160 mil pessoas com baixos rendimentos.
     Deve-se registar ainda que o governo acaba de definir que: 
     (i) pobreza é ter menos de 600 euros
     (ii) classe média é ter mais de 1100 euros.

     A pergunta feita neste blogue aqui e aqui teve hoje a resposta: enquanto o grande Eduardo Catroga, no ano passado, conseguiu 550 milhões para os contribuintes, este ano o "nim" de António José Seguro conseguiu 130 milhões.
      Eduardo Catroga ganhou. Por muitos.

Parolices

... agora, diz o Correio da Manhã, o ministro cutreme num Audi de 86 mil euros.

Os nossos ministros podiam comprar carros fabricados na Auto Europa, para seu uso e uso do estado. 
Davam o exemplo e ajudavam a nossa economia.
Mas não: eles preferem sempre bombas alemãs.
  Parolices que a senhora Merkel agradece.

Lua adversa

Fotografia de Edwin Firminger

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.


Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.


E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

                                                                          Cecília Meireles

domingo, 27 de novembro de 2011

O calote português: 38 081€ per capita

Fonte: uma notável infografia da BBC

Nanni Moretti com as suas próprias mãos

     «Há planos de conjunto filmados em espaços reais, mas a maior parte do filme foi feita em estúdio.
      As salas da Capela Sistina foram construídas à exata escala do original — destruí-as com as minhas próprias mãos no fim da rodagem para que não fossem usadas em nenhum telefilme ou série no futuro.»

Nanni Moretti, 
em entrevista à Atual (Expresso), 26.11.11

Corrupção na terceira república

     Excertos de um programa da TVI24, emitido em 21 de Novembro, com Judite de Sousa, Medina Carreira e Paulo Morais.


     Paulo Morais:
     1. "Os deputados e os dirigentes partidários dependem dos chefes assim como esses chefes dependem dos financiadores."

    2. Os "homens da mala" dos partidos vão buscar o dinheiro aos empresários e ficam com "comissões de angariação (...) na ordem de 40%."

     3. "Há neste momento auto-estradas que garantem aos seus concessionários rentabilidades de 14, 15, 16% ao ano nem que não passe lá carro nenhum."

     4. "As leis que têm maior relevância económica são feitas nos escritórios de advogados mais poderosos do país que, ainda por cima, conseguem esta situação que é fantástica:
     — fazem as leis e ganham uns milhares de euros por isso;
     — como as leis são pouco claras eles passam a vida a darem pareceres para explicarem as leis que eles próprios fizeram e voltam a ganhar milhões;
     — mas o que é pior é que são esses próprios escritórios de advogados que mais tarde vendem aos privados os alçapões que eles puseram nas leis."

Sapatinhos

A manhã dá aos gatos
sapatinhos
de orvalho 
                                                                 Hans Jürgen Heise

sábado, 26 de novembro de 2011

Quanto vai valer o "nim" do Tó Zé?

Dos jornais de hoje:
I.









Público


DN
























     

     Embora esta operação seja mais trabalho de Cavaco e condescendência de Passos Coelho que outra coisa qualquer, tem que se repetir esta pergunta:  Seguro vai ultrapassar ou não os 550 milhões de euros conseguidos no ano passado, por um "pintelho", pelo grande Eduardo Catroga?
     Até quarta-feira sabe-se a resposta.

Não esqueças nunca


 Não esqueças nunca
O gosto solitário
Do orvalho
                                               Matsuo Basho 

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Don't fuck my job


     
A capa do jornal Público de hoje — para além de relatar o atarantamento do casal Merkozy e o sadismo da agência Fitch —,  evidencia um salto qualitativo da luta dos nossos sindicatos: estes coletes verdes são para passar na Sic e na TVI, mas também na CNN, na BBC, na Al-Jazeera e em todas as televisões do mundo.
     

Finalmente, os nossos sindicalistas perceberam que ao capitalismo global há que responder com luta global. 
     
A esquerda, que há cem anos era cosmopolita e internacionalista, é agora estreita e sem mundo (os discursos anti-globalização do PCP e do bloco são nacionalistas e anacrónicos). 
     
Por isso, estes coletes verdes a dizerem a todo o mundo DON'T FUCK MY JOB são um avanço e mostram que Carvalho da Silva percebeu melhor estes tempos que vivemos que Jerónimo e Louçã.

A almofada de Peter Pan *

 * Texto publicado hoje no Jornal do Centro

      1. Peter Pan, a história do menino que se recusa a crescer, está a ser levado à cena pela Zunzum, numa versão muito divertida que, espera-se, esteja a alegrar as crianças do distrito de Viseu. 
     A certa altura no espectáculo — que tem muita interactividade entre os actores e o público —, desata-se uma luta de almofadas das bravas. Vem almofada para cá, vai almofada para lá... Os jovens espectadores que, como se sabe, têm sempre pilhas novas e carregadas, deliram com aquela batalha. 
     Infelizmente, nenhuma almofada passou ao meu alcance — e não dá muito jeito ir prevenido com “munições” destas de casa... — pelo que não pude fazer o truque que se impunha naquelas circunstâncias: fingir que apontava à grácil e delicada Wendy e, zás!, acertar em cheio no imenso Capitão Gancho. Fica aqui a táctica para uma futura guerra, perdão!, para uma futura representação deste Peter Pan. 
     O debate público entre António José Seguro e Pedro Passos Coelho sobre o orçamento para 2012 pareceu sempre, desde o princípio, a versão da Zunzum do Peter Pan: o que se tem passado é uma luta de almofadas. Há almofada orçamental, diz Seguro, não há, riposta Passos. 
     Registe-se que todos os partidos, todos sem excepção, propuseram mais impostos durante a preparação deste orçamento. Os da esquerda querem mais impostos sobre os ricos, os socialistas é o típico nem-carne-nem-peixe-e-tudo-sem-sal segurista e a direita no poder taxa tudo o que mexe.


 
Portugal, 
mais que 
um Peter Pan, 
é uma 
noite na 
Transilvânia.




      2. O fim da Rádio Noar, uma empresa auto-sustentável, pôs a nu uma evidência: Viseu tem umas elites que podem ter algum poder e algum dinheiro mas não têm nenhum sentido comunitário nem cívico. 
     Elites assim não vão longe. Como, infelizmente, se tem visto e continuará a ver.

A Woman Waking

Fotografia de Guenther Egger
She wakens early remembering
her father rising in the dark
lighting the stove with a match
scraped on the floor. Then measuring
water for coffee, and later the smell
coming through. She would hear
him drying spoons, dropping
them one by one in the drawer.
Then he was on the stairs
going for the milk. So soon
he would be at her door
to wake her gently, he thought,
with a hand at her nape, shaking
to and fro, smelling of gasoline
and whispering. Then he left.
Now she shakes her head, shakes
him away and will not rise.
There is fog at the window
and thickening the high branches
of the sycamores. She thinks
of her own kitchen, the dishwasher
yawning open, the dripping carton
left on the counter. Her boys
have gone off steaming like sheep.
Were they here last night?
Where do they live? she wonders,
with whom? Are they home?
In her yard the young plum tree,
barely taller than she, drops
its first yellow leaf. She listens
and hears nothing. If she rose
and walked barefoot on the wood floor
no one would come to lead her
back to bed or give her
a glass of water. If she
boiled an egg it would darken
before her eyes. The sky tires
and turns away without a word.
The pillow beside hers is cold,
the old odor of soap is there.
Her hands are cold. What time is it?
Philip Levine


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O processo Face Oculta é um circo ...


... e os buracos de tesoura no processo  
transformaram-no numa palhaçada.

Há cada vez mais sinais:
vai ficar tudo em "águas de bacalhau".*

* [Adenda às 14:46] Ou, como me é sugerido no Facebook, o processo fica em "águas de robalinhos".

Ser tigre

Fotografia de Jaydeep Wardhe Pune

O tigre ignora a liberdade do salto,
É como se uma mola
O compelisse a saltar


O tigre não ama.
Ele busca a fêmea
Como quem procura comida.


Sem tempo na alma,
É no presente
Que o tigre existe.


Entre o cio e a cópula.
Nenhuma voz lhe fala de Deus,
O tigre não morre, dorme e passa.

                                                                                       Arménio Vieira

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Alcatrão neles *

* Texto publicado no Jornal do Centro em 21 de Dezembro de 2007

     Num longo ensaio, publicado no New York Times, em 17 de Outubro de 2004, Ron Suskind analisou a forma como George W. Bush foi perdendo o contacto com a realidade.
     Suskind contou um encontro que teve com um conselheiro de topo do Presidente dos Estados Unidos:
     «O conselheiro disse que pessoas como eu estavam “naquilo que eles chamavam a comunidade baseada na realidade,” que ele definia como gente que “acreditava que as soluções emergiam a partir do estudo judicioso da realidade discernível.” Eu concordei e murmurei qualquer coisa acerca dos princípios das luzes e do empirismo. Ele interrompeu-me: “Já não é assim que o mundo funciona agora.” Continuou: “Agora somos um império e, quando agimos, criamos a nossa realidade própria. E, enquanto vocês estudam essa realidade, – com profundidade se quiserem – nós actuamos outra vez, criando uma nova realidade, que vocês podem estudar também, e é assim que as coisas vão acontecer. Nós somos actores da história… e vocês, todos vós, ficarão a estudar o que nós fazemos.”» 
     A “nova realidade” que o bushismo criou no Iraque foi morte, corrupção, violência sectária, degradação das condições de vida, especialmente das mulheres.
     Como a nódoa é grande, chegou agora o tempo dos detergentes: Karl Rove, o principal guru de Bush, apareceu na TV a dizer que foi o Congresso, não o Presidente, quem precipitou a guerra do Iraque; Durão Barroso, numa entrevista ao DN, também já se quis pôr fora do filme. 
     O bando da Cimeira das Lages – Bush, Blair, Aznar, Barroso ...


     ... merecia o velho tratamento que era dado aos vilões: pegar nos quatro, levá-los a Campo de Besteiros, aspergi-los de alcatrão de cima abaixo e soltá-los no meio de um aviário cheio de galinhas poedeiras.

O Corpo Iluminado

Fotografia de Gyula Halász


Quantos em ti lagos e rios
Quantos em ti os oceanos

Água vermelha que aos ouvidos
traz o aviso
de nenhuns campos

É bom sondarmos os abismos
que nunca vão cicatrizando

E ao som da água pressentirmos
de onde provimos
aonde vamos

                                                                  David Mourão-Ferreira


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Nicolas Sarkozy já era?

O Laboratório Europeu de Antecipação Política reitera a sua previsão de 15 de Novembro de 2010, mantendo que o candidato do UMP (Sarkozy ou outro) não vai participar na segunda volta das eleições presidenciais francesas de 2012, que vai ser decidida entre o candidato do PS francês, François Hollande, e a candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen.

Rádio Noar



O fim da Rádio Noar é um desastre cívico para Viseu.



Terminam, de uma forma inglória, mais de duas décadas da "rádio de notícias" de Viseu que teve sempre no seu ADN a independência.


     O fim da Rádio Noar — uma empresa auto-sustentável — diz-nos também uma coisa: as elites da região têm muito dinheiro mas nenhum espírito comunitário. E, como se sabe, uma comunidade só é forte com meios de comunicação fortes e independentes, que escrutinem os poderes e dêem voz a quem não tem voz, pelo que o fim da Noar só põe mais à mostra os pés de barro da gente de dinheiro da cidade.

Imagem daqui

Este blogue saúda todos os que fizeram a Rádio Noar e dá um abraço forte no  excelente profissional que é o seu director António Figueiredo que, de certeza, há-de arranjar outra maneira de nos contar o que se passa em Viseu.

Os Novos Desafios do Poder Local

Finalmente a paz

Imagem daqui


Cessou finalmente este inferno,
já de há muito tempo, agora a primavera:
a índole justa
do sono sobe-me pelos tornozelos
atinge-me a cabeça como um trovão.
Finalmente a paz,
as minhas ancas e a minha mente vencida,
e eu repouso justa nos declives
do meu destino pelos menos nesta hora
que me separa da infame aurora.

Alda Merini


domingo, 20 de novembro de 2011

Voyeurismo

Te olho
me molho

                                              Leila Míccolis

Os eurocratas


A rapaziada de Bruxelas acaba de lançar uma directiva a 


Quem o fizer, arrisca uma 
pena de dois anos de prisão.


Aqueles morcões entretêm-se com estas coisas.

sábado, 19 de novembro de 2011

Voo


Um mar azul
pintou de branco
o voo das gaivotas.
                                                                 Albano Martins

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

II Gala de Solidariedade APPACDM

Formigueiro *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

O descontentamento e o mal-estar decorrentes da crise sistémica global não param de aumentar e é por isso que, por exemplo, todos os políticos americanos de relevo usam a retórica da defesa da Main Street (símbolo do trabalho) contra a ganância da Wall Street (símbolo do capital especulativo).
     
Neste outono, segundo as autoridades, 650 mil americanos já tiraram o seu dinheiro dos grandes bancos e depositaram-no em bancos locais e organizações de crédito não lucrativas e esse movimento está a crescer porque, para além das acções de rua iniciadas com a Occupy Wall Street, ...
Imagem daqui

... a contestação está a usar o formigueiro das redes sociais, com o Facebook à cabeça, para “passar-palavra” com eficácia.
     
Em Portugal, a CGD tem o seu balanço degradado e a sua imagem muito prejudicada com os casos do socratismo, os mais conhecidos protagonizados por Berardo (um buraco de mais de 300 milhões de euros em acções do BCP) e Manuel Fino (uma cratera de 380 milhões em acções da Cimpor). Para além desta desgraça, infelizmente, o rebanho de boys que Pedro Passos Coelho para lá nomeou não ajuda nada à recuperação da imagem do banco público.
     
Concluindo, o formigueiro das redes sociais não tem, para já, condições para causar grande mossa de fuga de depositantes aos banqueiros portugueses que se preparam para empochar baratos 2 em cada 13 dos euros que a Troika emprestou a Portugal.
     
Mas há coisas em que o formigueiro pode ajudar o país: corre no Facebook um apelo para que compremos os presentes de Natal a pequenos empreendedores, a artesãos, a artistas, de forma a que o “nosso dinheiro chegue às pessoas comuns e não às grandes multinacionais”.
     
É uma boa ideia. Deixei-a no meu Facebook. Deixo-a também aqui.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Iphone 4S ou Samsung Galaxy II, qual deles cai melhor?

"And Now For Something Completely Different" (#52)

Pedir desculpas é o mínimo

Na capa do JN de hoje
O vereador do PCP na câmara do Porto saiu a meio do mandato e, por esse facto, pediu desculpa às pessoas que votaram nele.

Um exemplo para o cabeça da lista socialista à câmara de Viseu Miguel Ginestal que em 2009 andou a pedir votos às pessoas e, depois, não lhes pediu desculpa por nem ter aquecido o lugar.

A reforma da administração local ...

... por quem sabe.



* Uma realização do blogue Novos Horizontes

Que cor ó telhados de miséria

Fotografia de Sandra Bernardo

Que cor ó telhados de miséria
onde nasci
de tanta pequenez de tão humildes ovos
de nenhum querer
a que horas nasceram as estrelas que
um dia foram
a que horas nasci?


Não vim embarcado não me encontrei
na rua
não nos vimos
não nos beijamos
nunca parti


Não sei que idade tenho

Quando havia antes um antigamente
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo


Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seca e pálido
quando havia antes um caminho


Não houve nunca amigos nem pureza
Nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar


A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar


Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas


Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos álacres do silêncio


Um mar de espuma e alegria obscura
um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa


Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insectos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
O mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o ver e as lâminas solares

António Ramos Rosa

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A velha senhora já deu a volta ao ministro Relvas ...

     ... pelo que vamos continuar a pagar 2,25 euros por mês de taxa audiovisual (que vem misturada na conta da luz) e vamos continuar a pagar um milhão de euros por dia dos nossos impostos para a RTP fazer exactamente o mesmo que fazem a SIC e a TVI.

 

 

 

Canal público rejeita "a ideia de que a informação da RTP está ao serviço" dos Governos.


Gostas da palavra litote?




gostas da palavra litote?
é um tropo.
e não gostas da palavra tropolitote?
então diz comigo:
tropolitóóóóóóóte !
litote
tropope
tropolipope
tripopopote
tripolitripolitote
tripolitripolipoli
toliloli
tropopopoli
tripopeli
popoli
poplili
popli
popliiii,
                                  Ana Hatherly

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O presidente da república e a rainha de Inglaterra

     Expresso: As suas divergências com o Procurador-Geral da República Pinto Monteiro mantém-se?
     Paula Teixeira da Cruz:  As divergências são claras e mantém-se.
     Expresso: Ele vai cumprir a comissão de serviço até ao fim?
     Paula Teixeira da Cruz: Essa decisão é também da competência do Presidente da República.
     Expresso: Por proposta do governo.
     Paula Teixeira da Cruz: É verdade mas nunca traria para a praça pública questões inter-institucionais.


Por este extracto da entrevista da ministra da justiça publicada na última edição do Expresso, fica-se a saber que o governo, 
se pudesse,
punha uns patins debaixo dos pés do PGR.
  
É o presidente da república que, 
pouco republicanamente, continua a segurar 
 a auto-proclamada

II Gala APPDA - 2 de Dezembro

domingo, 13 de novembro de 2011

A publicidade enganosa do ministro Gaspar

O PS devia ter votado contra o Orçamento de Estado  do ministro Vítor Gaspar. 
     
O "nim" de António José Seguro — a que o líder do PS chamou de "abstenção violenta" — foi apresentado como uma necessidade para melhorar a imagem de Portugal nos mercados. Ora, essa é uma ideia provinciana que interessa ao governo mas que "não aquenta nem arrefenta" ao "mundo".
     
Como é evidente, quer a Troika, quer a "Europa", quer todas as chancelarias sabem que Portugal, desde as legislativas de Junho, tem uma maioria de direita que cilindra todas as votações no parlamento.
     
O PS não tem poder orçamental. O PS tem poder constitucional já que faz com o PSD os dois terços necessários para a revisão da constituição e, valha a verdade, para além de um conjunto de propostas para o "governo" futuro das autarquias, não se conhece pensamento socialista sobre as leis estruturais que precisamos para reformar a nossa abaladíssima terceira república, leis que poderão desenhar a sua salvação ou o seu colapso.
     
Transcrevem-se, a seguir, excertos da declaração de voto das deputadas socialistas Idália Salvador Serrão e Ana Paula Vitorino, que demonstram a incompetência do ministro das finanças e da sua equipa e que a posição "no meio da ponte" da direcção do PS ajudou a branquear.


Idália Salvador Serrão
 Declaração de Voto
Orçamento de Estado para 2012 e 
Grandes Opções do Plano para 2012 e 2015

     As signatárias desta declaração, abstiveram-se (...) acompanhando, por dever regulamentar, o sentido de voto do Grupo Parlamentar do Partido Socialista.

     A sua posição seria o voto contra nas duas Propostas de Lei, por estarem perante uma proposta de Orçamento que viola os princípios de igualdade e equidade na repartição dos sacrifícios e na distribuição dos recursos.

     (...)

     E ainda por lamentarem que a Proposta de Lei que aprova as GOP 2012-2015 tenha uma designação que constitui publicidade enganosa, por não ir além de 2012.

Ana Paula Vitorino

Racismo

Stairway to hell



Imagem daqui

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

11.11.11

* Publicado hoje no Jornal do Centro.


O Olho de Gato já saiu em várias sextas-feiras dias treze, carrejando o azar daqueles dias e fazendo desse azar tema destas linhas.

     
Desta vez esta crónica é publicada num dia com uma matemática muito especial porque tem dentro dele doze “uns”, quando forem onze horas, onze minutos, onze segundos, do onze do onze do onze.
     
Estas numerologias são boas para encher de assunto os programas da manhã das televisões. E crónicas de jornais como estas, neste dia que é especial, acima de tudo, porque é o dia-de-S.-Martinho-vai-à-adega-e-prova-o-vinho.
     
No filme “Tournée”, o último de Mathieu Amalric, a personagem principal em todo o lado a que chega pede para desligarem as televisões e os rádios. Em todo o lado lhe recusam desligar aquele zumbido que é debitado em permanência, feito de conversa-de-papagaios e da angústia destes tempos em que a “crise” se colou à pele das pessoas e lhes retirou o sorriso da cara.
      
Com essa angústia a ser alimentada ao minuto, agora com as notícias que chegam de Itália, a terceira economia do euro — notícias que não são sobre as festas bunga-bunga enviagradas do senhor Berlusconi, antes fossem... —, é bom termos o amparo da tradição do bom S. Martinho, santo generoso, santo que nos convida a provar castanhas e vinho.


E o “nosso” vinho do Dão está cada vez melhor e isso é um facto que nenhum boy nos consegue tirar, nenhum dos muitos boys que ajudaram a falir o país. 
     
Uma coisa é certa: se o nosso ministro Vítor Gaspar provasse um Quinta Vila Nova do Rego (por exemplo e entre muitos exemplos possíveis...) ele, o impassível e inalterável governante ficava, por umas horas, menos binário e menos metrónomo naquele pensamento dele que parece saído do interior de um glaciar. 
     
Bons magustos, cara e caro leitor!

Acerca do amor

Fotografia de Lars van de Goor


Do amor só digo isto:
o sol adormece ao crepúsculo
no oferecido colo do poente
e nada é tão belo e íntimo,

0 resto é business dos amantes.
Dizê-lo seria fragmentar a lua inteira.

                                                                                              Filinto Elísio

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Poesia no BPN

Correio da Manhã

Como Miguel Cadilhe revelou ao país 
na devida altura, 
aquela malta 
do BPN adorava "activos extravagantes".

Mas é caso para perguntar:
aquelas criaturas não acertavam uma?

Cidadão confessa

Carta de um leitor do jornal Público, edição de 9.11.11