sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Oitiva



     Conta o jornal Público de hoje que, na carta rogatória enviada pela justiça brasileira com 193 perguntas a Duarte Lima sobre o caso do assassinato de Rosalina Ribeiro, pedia-se, também, que se fizesse uma oitiva àquele conhecido advogado português.
     Conta o jornal que a solicitação não foi atendida porque o procurador «não sabia o que era oitiva».
     Claro que a PGR podia fazer uma pesquisa rápida na net, perceber que oitiva quer dizer audição, e depois formalizar o caso. Mas do reumatismo daquela casa já ninguém se admira.


     Esta história mostra que no Brasil sabe-se o que é uma oitiva e em Portugal não se sabe o que é uma oitiva
     Isto é bom: quer dizer que, por mais acordos ortográficos que imponham, a diversidade da Língua Portuguesa vai continuar a resistir aos esforços de uniformização dos burocratas.

A Europa e a “Europa”

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     1. Em 2004, George Steiner proferiu uma palestra intitulada A Ideia da Europa — editada entre nós pela Gradiva — em que apontou cinco especificidades da consciência europeia:
Fotografia daqui
     
     (i) o café — “local de entrevistas e conspirações, debates intelectuais e mexericos”, os cafés são coisa europeia e neles se fez muito da sua história;
     
     (ii) a escala humana — a Europa foi sempre percorrida a pé, tanto pelos peregrinos como pela longa marcha dos exércitos, os de Napoleão foram “de Portugal a Moscovo”;
     (iii) a memória — a presença constante do passado nas placas das ruas e das praças, com os nomes dos homens e das mulheres ilustres, mas também com a evocação das tragédias;
     (iv) a “herança dupla de Atenas e de Jerusalém” – Heraclito e Espinoza. Platão e Karl Marx. George Steiner afirma: “o cristianismo e o socialismo utópico são descendentes do Sinai”;
     (v) a consciência do fim — o cristianismo sempre elaborou sobre o juízo final. 



      O livro, de uma erudição espantosa, termina com uma nota de esperança e um apelo para que tenhamos uma vida reflectida. 
     Recomenda-se. 
     A recomendação inclui o prefácio de Durão Barroso. 



    2. Aqui nunca se confunde a Europa (o continente) com a “Europa” (a União Europeia). A “Europa” — o “primeiro estado pós-moderno”, como diz Robert Kagan — proporcionou-nos sessenta e seis anos consecutivos de paz e progresso.
     Esta semana, em Paris, Lula fez um apelo para ser ouvido em todo o mundo: "a União Europeia é uma criação muito importante, é um património da humanidade, salvem-na!" 
     Há que a salvar. Para isso, nestes tempos de emergência, há que fazer uma dupla exigência aos políticos europeus :
     — não tenham medo da voz democrática dos povos, a “Europa” é dos cidadãos, não é dos bancos;
     — as poupanças das pessoas têm que ser garantidas, o capital financeiro não.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Nitrato do Chile

Numa casa que já não existe em Abraveses - Viseu



Desta vez não houve lezírias em pano de fundo.
Deixei as searas sossegadas
Imaginando o orvalho acordando os melros e as folhas da

                                                                            videira.

Imaginei demasiadas coisas (penso),
Enquanto os dedos da costureira nada consertam: nem o

                                                                            riso,
Nem a casa fechada na penumbra de uma rua qualquer.

Por acaso, abri um armário e li
Nitratos do Chile
E pensei – o mundo está bem adubado,
Bem temperado de sal, pimenta, picantes corpos.

E não encontrei nitratos no amor (erro meu, má sorte).

Rui Pedro Gonçalves

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

General Review Of The Sex Situation

Fotografia de Dru Donovan


Woman wants monogamy;
Man delights in novelty.
Love is woman's moon and sun;
Man has other forms of fun.
Woman lives but in her lord;
Count to ten, and man is bored.
With this the gist and sum of it,
What earthly good can come of it?
                                                                                                  Dorothy Parker


terça-feira, 27 de setembro de 2011

O iceberg chamado Estados Unidos

    O Laboratório Europeu de Antecipação Política (LEAP/E2020) publicou o seu boletim nº 57 (edição online em inglês, francês, espanhol e alemão).
     Como é prática deste blogue, deixa-se aqui um excerto, numa tradução "às três pancadas", e que não dispensa a leitura integral daquele boletim:
     Se se tivesse que fazer, em estilo Hollywood ou Fox News, a sinopse do que se está a passar, seria assim:

     "Enquanto o iceberg dos Estados Unidos está a chocar com o Titanic, a tripulação dirige os passageiros na busca de uns perigosos terroristas gregos que devem ter posto umas bombas a bordo!"
     É uma receita de propaganda conhecida; é uma diversão para permitir, em primeiro de tudo, salvar alguns passageiros escolhidos (a elite informada que sabe muito bem que não há terroristas gregos a bordo) já que não se pode salvar toda a gente; a seguir, esconder a verdadeira natureza do problema o mais tempo possível para evitar uma revolta a bordo (incluindo da tripulação que acredita sinceramente que há bombas a bordo).

Viseu - o cerco

     Viseu é, desde tempos imemoriais, um cruzamento de vias importantes. Foi nesta "geografia" privilegiada que sempre radicou a sua importância estratégica.
     Eis o cenário que se afigura a esta região para um próximo futuro:
     — quem se quiser deslocar para norte, nascente ou poente, ou circula  a 50 à hora em vias que já foram estradas e agora são ruas, ou, então, anda nas A24 e A25 e vai pagar 8 cêntimos de portagem por quilómetro;
     — quem se quiser deslocar para o sul no IP3, como se soube hoje, arrisca-se a cair ao rio na ponte do Chamadouro.
     Depois de alguns anos em que parecia que o estado central queria fazer esquecer o desprezo com que sempre olhou para o interior, agora a região está cercada.  



Nem a notícia 
dada hoje 
pelo ministro 
Álvaro de Santos Pereira da 
existência de
alivia esta 
sensação 
de cerco: 
é que Viseu 
já teve demasiados anúncios de comboios de papel.

Gostaria

Fotografia de Walker Evans




Gostaria
De vir a ser um grande poeta
E que as pessoas
Me pusessem
Muitos louros na cabeça
Mas aí está
Não tenho
Gosto suficiente pelos livros
E penso demais em viver
E penso demais nas pessoas
Para estar sempre contente
De só escrever vento

                                                                        Boris Vian

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

"P'ra melhor está bem, está bem! P'ra pior já basta assim..."

     Este post é um diálogo com esta publicação do blogue  Viseu, Senhora da Beira (a quem se agradece também a fotografia).

       Os políticos eleitos com os nossos votos preferiram sempre falar das promessas de "discriminação positiva" da treta ("discriminação positiva" que, de qualquer forma, acabaria sempre no ano que vem) e não trataram, nem estão a tratar, do que é prioritário:
     1 — impedir portagens nos troços da A25 que foram feitos em cima da excelente alternativa que existia: o "velho" IP5;
     2 — obrigar à requalificação da N2, da N16 e dos troços do IP5 sobreviventes que vão ter um aumento muito grande de tráfego mal comece a cobrança de portagens.
     Na situação a que chegámos, qualquer político que se  ponha a falar sobre este assunto das portagens sem referir estes dois tópicos, estará, como se diz em futebolês, a "chutar para canto".
     A região devia pedir mais do que laracha aos "seus" eleitos.
     É que "p'ra pior, já basta assim...": 
    

Quero escrever-te um poema

Quero escrever-te um poema que
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.


Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.


Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.
Nuno Júdice

domingo, 25 de setembro de 2011

Jardim sempre

Alberto João Jardim, indiferente ao buraco nas contas
uma "coisinha de nada", diz ele —
 atira ao seu eleitorado não com um 
mas com dois "sempres".

E é o mais provável ...

Away, Melancholy

Nicole, por Irving Penn
Away, melancholy,
Away with it, let it go.

Are not the trees green,
The earth as green?
Does not the wind blow,
Fire leap and the rivers flow?
Away melancholy.

The ant is busy
He carrieth his meat,
All things hurry
To be eaten or eat.
Away, melancholy.

Man, too, hurries,
Eats, couples, buries,
He is an animal also
With a hey ho melancholy,
Away with it, let it go.

Man of all creatures
Is superlative
(Away melancholy)
He of all creatures alone
Raiseth a stone
(Away melancholy)
Into the stone, the god
Pours what he knows of good
Calling, good, God.
Away melancholy, let it go.

Speak not to me of tears,
Tyranny, pox, wars,
Saying, Can God
Stone of man's thoughts, be good?
Say rather it is enough
That the stuffed
Stone of man's good, growing,
By man's called God.
Away, melancholy, let it go.

Man aspires
To good,
To love
Sighs;

Beaten, corrupted, dying
In his own blood lying
Yet heaves up an eye above
Cries, Love, love.
It is his virtue needs explaining,
Not his failing.

Away, melancholy,
Away with it, let it go.
                                                                           Stevie Smith


sábado, 24 de setembro de 2011

Entras

Escultura nos "Jardins Perdidos" de Heligan, St.Austell, Cornwall, GB


Entras
em mim descalça, vulnerável
como um alvo próximo, ferida
nos joelhos e nas coxas. Pelo tacto
nos conhecemos, é essa luz
oblíqua que nos cega. E te pertenço
e me pertences como
a lâmina
à bainha, a chama
ao pavio.
                                                                                           Albano Martins

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Face Oculta

Como foram cortadas páginas do processo com uma tesoura, como é que se pode contrariar em audiência a alegação dos arguidos que era exactamente nas partes cortadas que estavam as provas da sua inocência?




     A convocatória de um exército de testemunhas torna só ainda mais provável o destino do processo Face Oculta: 
vai ficar tudo em "águas de bacalhau".

Deus e César *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


      1. As obras na residência do bispo de Viseu permitem um novo ponto de vista naquela zona da cidade.

     Agora, atrás da fachada sobrevivente do antigo Paço Episcopal, pode ver-se o mal amado edifício da segurança social, o maior edifício da cidade.
     Tirei uma fotografia a este conjunto porque ele tem um poderoso simbolismo: em primeiro plano temos a igreja, com séculos de experiência no apoio social, e atrás, em segundo plano, temos os serviços sociais do estado.
     Esta fotografia é simbólica: ela pode ser vista como a marca da tensão sempre latente entre os dois principais protagonistas no serviço social aos cidadãos: a igreja e a burocracia estatal. A tensão entre o que é de Deus e o que é de César.
 

      2. A burocracia social do estado não pára de ganhar adiposidades. Começam até a aparecer, aqui e ali, estruturas que são burocracia da burocracia. É o caso do CAADS onde João Cruz, o último vice-presidente distrital da segurança social em Viseu, se propõe agora manter-se no ramo vendendo intermediação burocrática e formacional às IPSS.
     O programa de emergência social que o governo apresentou em Agosto alivia o garrote regulamentar sobre as IPSS mas está longe ainda de tirar poder à tecnocracia social.
     Há maneiras de evitar o aumento de custos e a ineficácia do trabalho social directo do estado. Por exemplo, Bill Clinton em 1997, com a sua “Faith Based Initiative”, entregou directamente às igrejas a assistência nas periferias urbanas mais degradadas.
     Há é que, como diz Daniel Innerarity em O Futuro e os Seus Inimigos: “impedir que essa transferência de execução se converta numa cessão de responsabilidade. Por definição, a responsabilidade não é delegável embora as acções o sejam. O sujeito da responsabilidade é obrigado a responder pelos resultados da acção.”

Deixa que o outono traga os pássaros

ouve-me
que o dia te seja limpo
e a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
Al Berto

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Alberto João Jardim explicado em dois minutos

O que quer dizer "ver-se grego" (#3)

Imagem daqui
     Depois de uma reunião de seis horas, o conselho de ministros grego decidiu ontem:
     — o imposto extraordinário sobre as casas, que estava previsto até 2013, é prolongado até 2014;
     — o rendimento mínimo de isenção de IRS passa de 8000 para 5000 euros;
     — corte de 20 % na parte das pensões que fica acima de 1200 euros;
     — corte de 40 % na parte das pensões que fica acima de 1000 euros nos aposentados antes dos 55 anos;
     — envio durante um ano de 30 mil funcionários públicos para um "limbo" em que ganharão 60% do salário; transcorrido o ano — despedimento ou aposentação;
     — um novo sistema de salários dos funcionários públicos que os reduz 15%.

     Esta "lista" é retirada de um trabalho do El País e insere-se aqui porque — como este blogue tem afirmado — os portugueses devem ter muita atenção com o que está a acontecer na Grécia.
   Pelo menos tanta atenção como aquela com que Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar seguem esta tragédia grega.

Tarde com sol *

O Semeador, Vincent Van Gogh

As coisas simples dizem-se depressa; tão depressa
que nem conseguimos que as ouçam. As coisas
simples murmuram-se; um murmúrio
tão baixo que não chega aos ouvidos de ninguém.
As coisas simples escorrem pela prateleira
da loja; tão ao de leve que ninguém
as compra. As coisas simples flutuam com
o vento; tão alto, que não se vêm.

São assim as coisas simples: tão simples
como o sol que bate nos teus olhos, para
que os feches, e as coisas simples passem
como sombra sobre as tuas pálpebras.
                                                                                                                Nuno Júdice




* Um grande abraço, maestro Pedro Osório

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Candeeiros do mestre Arnaldo Malho (#2)

É claro que observando-se este candeeiro original ...
Fotografia daqui
      ... tudo indica que Carlos Vieira, que sabe tudo sobre esta matéria, se responder ao post anterior opta pela hipótese quatro.

Candeeiros do mestre Arnaldo Malho

     Deputado municipal Carlos Vieira, esta afirmação na Assembleia Municipal de Viseu de 27 de Junho de que «não existe nenhum candeeiro de Mestre Malho na cidade» significa que estes:

Rua Escura

Rua do Gonçalinho
     1. São da escola do mestre Malho mas não dele próprio?
     2. São apócrifos?
     3. Foram lá postos depois da Assembleia Municipal e, tendo acontecido esse sucedido, estes candeeiros são
               — do mestre?
               — hipótese um?
               — hipótese dois?
     4. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...?

Nota: esta publicação decorre de um desafio lançado no hiper-informado e sempre atento Viseu, Senhora da Beira.

Quando o coração petrifica

Fotografia de Hoang Long Ly




Ó jovem, considera a secura
dos trágicos que se perdem em facécias. Não esqueças
que não existe alguma vez progresso
quando o coração petrifica. É
preciso que toda a ciência se
ordene à semelhança dum fruto que
se dependure na ponta de uma árvore
de carne e que amadureça
ao sol da paixão,
histologia, fotografia, campainha
eléctrica, telescópios, pássaros,
amperes, ferro de passar,
etc. – Tudo isto é para deslumbrar a porra da hu-
manidade.

O teu rosto é tão diferente
tão comovente molhado de
lágrimas e pronto a rebentar
de riso.
Blaise Cendrars, 
tradução de  Ruy Belo




terça-feira, 20 de setembro de 2011

Portagens nas SCUT: "tudo pronto" — diz Ana Tomaz




Ana Tomaz *, 
a jovem administradora da Estradas de Portugal EP, 
acaba de anunciar no parlamento 
que está tudo pronto
para a cobrança 
de portagens.



Disse ela que até os carros estrangeiros vão pagar,
que agora os pórticos já são capazes de processar matrículas estrangeiras 
e que há "brigadas de fiscalização" para tratarem 
da pedagogia do caso.

Andavam hoje na A25 a colocar os painéis que irão servir de preçário a cada pórtico.


* Outra fotografia da administradora da EP pode ser encontrada aqui

A rentrée da Zunzum

Souvenir

Imagem de Denis Rouvre





Just a rainy day or two
In a windy tower,
That was all I had of you—
Saving half an hour.

Marred by greeting passing groups
In a cinder walk,
Near some naked blackberry hoops
Dim with purple chalk.
I remember three or four
Things you said in spite,
And an ugly coat you wore,
Plaided black and white.

Just a rainy day or two
And a bitter word.
Why do I remember you
As a singing bird?
                                                            Edna St. Vincent Millay



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

domingo, 18 de setembro de 2011

O que quer dizer "ver-se grego" (#2)











Atenas precisa de convencer a Troika para que seja desbloqueada uma tranche de 8 mil milhões de euros.

Para que isso aconteça, tem que mostrar trabalho e, em dois domingos seguidos,  o governo decidiu mais medidas de austeridade.



     No domingo passado, o governo grego tomou medidas duras de 2 mil milhões de euros, que foram descritas por este blogue aqui.
     Hoje foram aprovadas mais duas pesadíssimas, segundo informa o El País:
     — despedimento de todos os funcionários públicos contratados nos dois últimos anos;
      — mais reduções nas ajudas sociais.

     Em Portugal devia-se dar mais atenção ao que se está a passar na Grécia.

Os Nouvelle Vague com um espectador muito especial

Experiência

Fotografia de Carsten Görling
Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos
                                                                Alexandre O´Neill

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Uma boa e uma má notícia para a Bélgica

Bélgica: 2,4% de crescimento este ano

(acima da média da zona euro)

 

 

Bélgica, esta noite, 

após um ano e três meses de impasse, 

após 460 dias sem governo, 

oito partidos belgas chegaram a acordo

A verdade dos números *

* Texto publicado hoje no Jornal  do Centro


1. Quando, em Abril, o PS fez em Matosinhos o último congresso de José Sócrates ...


... escrevi aqui nesta coluna: “este congresso é a véspera de um outro que vai ser bem mais amargo que este. Espera-se que seja menos albanês.” 
     
Assim aconteceu. António José Seguro teve agora o seu congresso em Braga. Foi um fim-de-semana amargo mas não albanês. Houve duas listas para a comissão nacional e desapareceram as vergonhosas votações acima de 90%.


O aparelho que em Abril bradava: “estou contigo, Zé!”, diz agora, impertubável e com a maior cara de pau: “estou contigo, Tó Zé!”.
      
Nada disso deve causar estranheza. Como se tem visto, a vontade dos partidos portugueses não se constrói das bases para a cúpula mas sim da cúpula para a base. 
     
O PS tem agora um líder preocupado com a corrupção e a mistura entre a política e os negócios e que fala de um “código ético” para os eleitos socialistas — assuntos que eram tabu absoluto no tempo de José Sócrates todo virado para o negocismo.
     
Seguro tem dois grandes desafios pela frente:     
(i) não ser transformado no Marques Mendes do PS, chutado fora na primeira oportunidade;     
(ii) ganhar as eleições autárquicas de 2013.
     
O segundo desafio é menos difícil que o primeiro. 

     
2. Todos o anos é anunciado que se bateu o record de visitantes na Feira de S. Mateus. O número de visitantes do último ano é sempre melhor que o do penúltimo. Esta “inflação” atirou as coisas para uns inverosímeis sete dígitos.
José Moreira **



Caro José Moreira, novo presidente da Feira, quando for feito o balanço do certame deste ano, por favor também aqui se pede um fazer diferente. 
     
É que, como é evidente, só há um número incontroverso para se medir a afluência, só há um número que interessa: o número de bilhetes vendidos.



** Fotografia de Nuno Ferreira estragada por este blogue num editor de imagem.

Comparación

Imagem daqui




Como en la playa virgen
dobla el viento
el leve junco verde
que dibuja
un delicado círculo en la arena
así en mí
tu recuerdo.

                                                                         Idea Vilariño


quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Pregar no deserto

Mulheres de preto

Fotografia de Edward Steichen 


Há muito que são velhas, vestidas
de preto até à alma.
Contra o muro
defendem-se do sol de pedra;
ao lume
furtam-se ao frio do mundo.
Ainda têm nome? Ninguém
pergunta, ninguém responde.
A língua, pedra também.
                                                       Eugénio de Andrade


"And Now For Something Completely Different" (#46)

Johan Lorbeer - Herói da Classe Operária
Berlim, 1998

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A Traição

Imagem daqui
quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse
Alexandre O'Neill

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Dos sentimentos

«Quando conseguirmos construir um computador capaz de pensar acerca do seu pensar, então o computador terá sentimentos.»

Edmund T. Rolls * 


* Na comunicação "Emotion, Decision Making and Counciousness"
Instituto Piaget - Viseu, 25/11/2009

As boas raparigas vão para o céu, as más para todo o lado

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O que quer dizer "ver-se grego"



     Na iminência de a Troika lhe fechar as torneiras e não ter dinheiro para pagar as contas, ontem o governo grego, em reunião extraordinária, aprovou mais medidas de austeridade no valor de 2 mil milhões de euros que conta obter da seguinte forma:
     — imposto imobiliário extraordinário a todas as casas, em 2011 e 2012, a cobrar na conta da luz, de 4€ em média por metro quadrado (num intervalo de 0,50€ a 10€/m2, conforme a zona);
    — políticos e altos funcionários perdem (mais) um mês de salário.

domingo, 11 de setembro de 2011

Red Dead Revolvers

Neste caso não é um videogame
os Red Dead Revolvers são uma banda de Viseu, 
o Sérgio Sousa (bateria), o João Lemos (guitarra)
e o Luís Pedro Lemos (baixo),
a "dispararem" bem no alvo como conta 
o Correio da Manhã aqui.

11S

8:46:26 (hora de NY): 
o voo 11 embate a 790 km/h na
torre norte do World Trade Center, 
entre os pisos 93 e 99


9:02:59 (hora de NY)
o voo 175 embate a 950 km/h na
torre sul do World Trade Center, 
entre os pisos 77 e 85

Malditos sejam os assassinos!

sábado, 10 de setembro de 2011

Miguel Sousa Tavares e os professores


     «Nuno Crato perdeu três meses a tentar o que já se sabia ser impossível: convencer os sindicatos dos professores a aceitar uma avaliação minimamente credível e eficaz.»
Miguel de Sousa Tavares, 
Expresso, hoje

Jornal de Notícias, hoje

Do sobressalário




    «Não é a qualificação, o mérito e a lei da oferta e da procura que fazem com que um gestor ganhe muitos milhares de euros por mês: ele ganha-os por uma arbitragem política da sociedade que determina que o poder deve estar aí e não, por exemplo, num indivíduo que detém uma posição singular num ramo de saber e da ciência.



      O mesmo acontece com as vedetas da televisão: elas devem o seu sobressalário não à qualificação, não ao facto de fazerem aquilo que ninguém poderia fazer, mas por uma arbitragem do poder na sociedade mediática que leva a aquele que paga ganhe precisamente por pagar muito.»
António Guerreiro, 
in Atual — Expresso, hoje

Memoria de la carne

"Rear window", Alfred Hitchcok (1954)


Por la noche, con la luz apagada,
miraba a través de los cristales,
entre los conocidos huecos de la persiana.
Como un rito o una extraña costumbre
la escena se repetia, día tras día,
igual siempre a si misma.
Frente a frente su ventana,
la veía aparecer y bajo la tenue claridad de la luz,
lentamente, irse haciendo desnuda.
Sus ropas caían sobre la silla,
primero grandes, luego más pequeñas,
hasta llegar al ocre color de su cuerpo.
Andando o sentada, sus movimientos tenían
la inútil inocência del que no se cree observado
y la imprevista ternura del cansancio.
Cuando todo volvía a la oscuridad,
los apresurados golpes del corazón
se aquietaban con una sosegada plenitud.
De quien así ocultamente deseé,
nunca supe su nombre
y el romper de su risa es aún el vacío.
Sin embargo allí, en la perdida frontera de los catorce anos,
por encima del Latín imposible
y de los misteriosos números de la Química,
el temblor detenido de mis manos,
la turbia fijeza de mis ojos sobre ella, permanecen,
dando fe de aquel tiempo, memoria de la carne.
Juan Luis Panero



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Portas, o reconstrutor

Paulo Portas com Donald Rumsfeld
3 de Maio de 2003

Paulo Portas sobre o Iraque:
"as empresas portuguesas poderão «habilitar-se» no processo de reconstrução"




Paulo Portas com Mustafa Abdul Jalil
7 de Setembro de 2011

Paulo Portas sobre a Líbia:
«se ganhe tempo para aquilo 
que é essencial, 
que é a reconstrução do país»

Falidos! *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


     1. “Falidos!” é um micro-livro, editado pela Porto Editora, escrito já este ano, sob anonimato, por um francês apanhado nas armadilhas do sobreendividamento.
     Numas poucas dezenas de amargas páginas é descrito o mecanismo em que os bancos fazem de dealers de consumos compulsivos a junkies a quem nunca é negado um novo empréstimo, “reembolsável em pequenas mensalidades”, “faça já a simulação”, “o seu sonho à distância de um clique”, “não paga as três primeiras mensalidades”.
     O autor conta que, depois de ter tido um derradeiro crédito para “comprar o último televisor Sony, ecrã chato, tão chato como a minha vida”, se exilou no Vietnam “sem possuir absolutamente nada e, portanto, sem ninguém poder tirar-me nada”.
     Frei Bento Domingues, no prefácio, chama a este livro “um grito documentado de uma tragédia que exige uma mudança de civilização”, mudança de civilização que “Falidos!” deseja.
     Este texto interpela directamente o leitor, e lamenta que uma “educação arcaica [que] nos forma para a competição, o individualismo” nos tenha feito perder “o gosto pelo combate colectivo”.
     Termina a enumerar quatro armas pacíficas para que o homo sapiens desaperte a gravata de seda de homo capitalis, regresse à condição de homo sapiens, e reaprenda a “inteligência da sobriedade”. Em suma: ao descrever a miséria dos vietnamitas com quem vive, que têm um esperança de vida de 45 anos, este francês de 60 sofridos anos interpela-nos, a nós ocidentais instalados nos nossos confortos, para sermos frugais.

     2. Depois do congresso deste fim-de-semana, espera-se que o PS se assuma como o partido de oposição que o país necessita.
     O mesmo se espera do PS no concelho de Viseu que — depois da deserção de Miguel Ginestal — tem estado metido no bolso de Fernando Ruas.