terça-feira, 31 de maio de 2011

Troika — o que mudou entre 3 e 17 de Maio

Imagem daqui
     Recebi, por e-mail, um quadro comparativo das diferenças entre a versão 1 e a versão 2 do Memorando de Entendimento com a Troika.
     Esse quadro — cuja fonte desconheço — pode ser consultado aqui.

A TSU do bloco central

     A versão definitiva do Memorando da Troika que só agora foi dada a conhecer impõe uma antecipação de prazos a várias medidas. Isso compreende-se: enquanto a Troika trabalha, os políticos portugueses marcam passo numa campanha eleitoral lamentável e mentirosa.
    Recorde-se: Portugal pediu ajuda em 9 de Abril e, logo a seguir, três instituições internacionais — o FMI, o BCE e a Comissão Europeia — meteram-se nos aviões para Lisboa e concluíram o seu trabalho em 3 de Maio, em menos de um mês.
     Até já começou a chegar a massa para pagar dívida, as pensões, os salários e os subsídios de férias.
Imagem daqui
     Os homens trabalharam rápido e bem e nem deixaram que o ministro Teixeira dos Santos comesse as amêndoas da Páscoa descansado.
     O novo aperto de calendário — que, pasme-se!, era desconhecido da oposição e dos portugueses — impõe que sejam feitas já em Julho as alterações à Taxa Social Única (TSU).
     Ora este prazo não sintoniza com o calendário eleitoral nem com a introspecção confessada por José Sócrates. O primeiro-ministro tem dito nesta campanha eleitoral que está a matutar sobre o assunto e ainda não sabe quanto quer cortar na TSU. O PSD propõe um corte de 4%.
     Há várias evidências que se podem tirar deste triste caso:
Imagem daqui
     1 — A Troika é que manda; 
     2 — José Sócrates não percebeu os contornos da crise sistémica global despoletada em 2008;
     3 — Os partidos não estão a contar ao eleitorado a verdade do que vão ter que fazer a partir do dia 6 de Junho;
     4 — Como disse Teixeira do Santos,  o novo governo "nem vai ter tempo para se sentar". 
     5 — Isso só pode significar que, nos bastidores, tanto o PS como o PSD estão a tratar do assunto da TSU ao mesmo tempo que na retórica de campanha parecem a orquestra do Titanic;
     6 — As nossas instituições não têm agilidade nenhuma e estão fracas. O facto de estarmos na "Europa" é uma apólice de seguro para a terceira república mas que não cobre todos os riscos;
     7 — Perante toda esta emergência,
como já se previu aqui neste blogue, as pressões para que o PS e o PSD juntem os trapinhos vão ter mais força que os estados de alma de José Sócrates e de Pedro Passos Coelho.
     Tem a palavra o povo português no próximo domingo. Povo trabalhador e generoso que merecia umas elites políticas e económicas menos corruptas e mais competentes.

Claridade dada pelo tempo

Imagem de Maria Dryfhout


I

Deixa-me sentar numa nuvem
a mais alta
e dar pontapés na Lua
que era como eu devia ter vivido
a vida toda
dar pontapés
até sentir um tal cansaço nas pernas
que elas pudessem voar
mas não é possível
que tenho tonturas e quando
olho para baixo
vejo sempre planícies muito brancas
intermináveis
povoadas por uma enorme quantidade
de sombras
dá-me um cão ou uma bola
ou qualquer coisa que eu possa olhar
dá-me os teus braços exaustivamente
longos
dá-me o sono que me pediste uma vez
e que transformaste apenas para
teu prazer
nos nossos encontros e nos nossos
dias perdidos e achados logo em
seguida
depois de terem passado
por uma ponte feita por nós dois
em qualquer sítio me serve
encontrar o teu cabelo
em qualquer lugar me bastam
os teus olhos
porque
sentado numa nuvem
na lua
ou em qualquer precipício
eu sei
que as minhas pernas
feitas pássaros
voam para ti
(...)
                                                                        Mário-Henrique Leiria

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Ingmar Bergman

O mestre do cinema sueco anda com a sua biografia em bolandas. 

O jornal Dagens Nyheter acaba de divulgar que testes de ADN mostram que ele foi trocado à nascença.  

     Logo que não se tenha trocado nenhuma bobine de Mónica e o Desejo ou de A Máscara ou de Morangos Silvestres estas dúvidas sobre quem foi a verdadeira mãe de Ingmar Bergman não são muito perturbantes para os cinéfilos.
      De qualquer forma, nunca é demais relembrar: nada há mais instável como o passado.

"And Now For Something Completely Different" (#27)

Aos 3'01" ela salta para cima da mesa ...
... mas aos 3'31" ela salta abaixo ...

If I Could Tell You

Fotografia de Aino Kannisto


Time will say nothing but I told you so,
Time only knows the price we have to pay;
If I could tell you I would let you know.


If we should weep when clowns put on their show,
If we should stumble when musicians play,
Time will say nothing but I told you so.


There are no fortunes to be told, although,
Because I love you more than I can say,
If I could tell you I would let you know.


The winds must come from somewhere when they blow,
There must be reasons why the leaves decay;
Time will say nothing but I told you so.


Perhaps the roses really want to grow,
The vision seriously intends to stay;
If I could tell you I would let you know.


Suppose all the lions get up and go,
And all the brooks and soldiers run away;
Will Time say nothing but I told you so?
If I could tell you I would let you know.
                                                                                                W. H. Auden


domingo, 29 de maio de 2011

"And Now For Something Completely Different" (#26)

O bloco central


      No nosso politiquês, chama-se bloco central à massa de votos e de interesses que gravita à volta dos dois maiores partidos portugueses: o PS e o PSD.
     São eles que aplicam os fundos comunitários, são eles que destinam as receitas das privatizações, são eles que tordesilham os lugares nas empresas públicas e as conexões à advocacia do regime, são deles as elites que cirandam dos negócios para a política e da política para os negócios.
     São eles que, mais para baixo nesta cadeia alimentar, tratam das sobras que ficam para os “jobs” dos “boys” e das “girls”.
     O resultado não é brilhante. Portugal, em 2011, está em recessão, à beira da bancarrota, tutelado pelos credores, com um desemprego sem precedentes e com uma emigração recorde de cérebros e talento.
     Eis o histórico da votação no bloco central depois da adesão à “Europa”:
     1987 — 72,4%; 
     1991 — 79,7%; 
     1995 — 77,9%; 
     1999 — 76,4%; 
     2002 — 78,0%; 
     2005 — 73,8%; 
     2009 — 65,7%.
     Como se vê, em 2009 a soma dos votos no PS e no PSD desceu pela primeira vez abaixo dos 70%. As sondagens que têm sido publicadas durante esta lamentável e mentirosa campanha eleitoral parecem apontar, de uma forma consistente, para esta debilidade dos dois partidos: eles estão com intenções de voto à volta dos 35% cada um.
     Ora se os partidos do bloco central continuarem tão empatados nos votos como na fraqueza, ora se é preciso um governo forte para aplicar a terapêutica violenta da Troika, a seguir às eleições do próximo domingo as pressões políticas e dos “interesses” vão ser avassaladoras para que o PS e o PSD juntem os trapinhos. E, então, as clientelas rosa-laranja pouco ou nada deixarão para os Jacintos Leite Capelo Rego  centristas.
     Seria muito irónico que a bem sucedida estratégia "tanto-caso-com-um-como-caso-com-o-outro" do CDS fosse a principal responsável por Paulo Portas ficar fora do matrimónio governamental.

Para qualquer sítio abandonar o mundo

Fotografia de Brian Griffin

Para qualquer sítio abandonar o mundo
sem sair de nenhum lugar
o que cresce
o que murmura
o que tudo abala
só água e cada hora
que cai pela noite fora
o que está deitado só
nada já fundo e longe
enquanto as horas deslizam certas
transpondo a margem
para onde o olhar
transpondo as margens onde só
e tanto até o rio ficar esvaziado -
colhido
tudo experimente o homem
para cada viagem
                                                                              Eva Christina Zeller

sábado, 28 de maio de 2011

"And Now For Something Completely Different" (#25)

Why Men Should Marry Rythmic Gymnasts

Margarida Menezes, a virgem do reino ...

... já não é.
  Ela contou tudo ao Correio da Manhã:
A coisa aconteceu com um "príncipe de olhos azuis".
Foi "muito rápido". 
Sentiu dor, mas "suportável".  





«Foi muito convencional, em casa dele, 
na cama.»



«Quando dei por mim já tinha acabado.
Essa foi a única parte negativa.»

Virginia Avenue

Vou por Virginia Avenue abaixo
Em busca de alguém a quem contar o que passei
O «Harold club» está a fechar
Toda a gente regressa a casa
Que há-de um pobre diabo fazer?
Fotografia de Roy Schatt
Vou voltar para o meu carro
Meter-me no caminho do quarto
Dormir com a loucura que me dança na cabeça
Tem de haver um lugar melhor que este
A vida que levo dá comigo em doido
E deixem que vos diga que estou apenas a sonhar


A sonhar pelo crepúsculo adentro
Esta cidade acabou comigo
Já vi tudo o que há para ver
E tenho andado aqui às voltas
Mas não vou fazer barulho
Apanho um autocarro Greyhound
E ponho-me daqui para fora
Digam-me, que tenho eu a perder?


Vou pela Columbus Avenue abaixo
Todos os bares a fecharem
É já um quarto para as duas
Todas as cidades são onde chego
São como uma fechadura sem chave
Os blues que deixo para trás
Apanham-me logo a seguir
                                                                                         Tom Waits


sexta-feira, 27 de maio de 2011

"And Now For Something Completely Different" (#24)

“Chapéus há muitos, seu palerma!“

Outdoors

A direita não utilizou outdoors nesta campanha.
A esquerda decidiu usar.
Fez mal.





Como foi previsto aqui e aqui
a "mensagem" política dominante é tanto mais "patrioteira"quanto menos Portugal 
tem autonomia perante os credores.



Registe-se a virilidade dos comunistas.



As pensões talvez se salvem,
a criatividade do bloco é que já conheceu 
melhores dias.

Quem sabe, sabe ...

     Almerindo Marques, renegociadas que estão as SCUT, acabou os seus trabalhos na empresa pública Estradas de Portugal e anunciou que o seu próximo emprego vai ser na Opway, uma construtora controlada pelo Grupo Espírito Santo.
     O facto do grupo Espírito Santo ser um dos principais rentistas das PPPPP—Parcerias Prejuízos Públicos Proveitos Privados não perturba Almerindo Marques que diz: "quem não deve, não teme".
   Já o Espírito Santo,  que está em toda a parte como se sabe,
diz o 
costume: 
«Quem sabe, sabe
e o BES é que sabe!»

Ordem nas ordens *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro.


     Pedro Delgado Alves, secretário-geral da Juventude Socialista, publicou na última edição do Expresso um texto interessante sobre a forma como as ordens profissionais tratam os recém-licenciados.

     Assinale-se como muito positivo que o número um da JS, mesmo em plena campanha eleitoral, tenha preferido usar os neurónios e fazer um texto inteligente. Contrasta com a propaganda atrasada mental que anda para aí em todo o lado, nos media e nas redes sociais, e que não ganha um voto.

     Mas indo ao que importa — porque é que a geração mais preparada e mais talentosa que alguma vez houve em Portugal está a ser empurrada para a emigração?

     A resposta não é difícil: Portugal é uma sociedade fechada onde medra o compadrio. O país tem uma ecologia social agreste à iniciativa, à concorrência, à liberdade. 
     A concorrência é um valor de esquerda — como demonstra Daniel Innerarity em "O Futuro e os Seus Inimigos". Quando o estado vira “engenheiro social” preferindo uns em detrimento de outros, abafa a iniciativa individual, abafa a esperança, tira futuro aos jovens. 
     Pedro Delgado Alves no seu texto intitulado "Um debate fundamental" escreve sobre o cada vez mais claro fechamento corporativo que as ordens profissionais estão a fazer nos seus sectores.
     Na advocacia isso é público e notório. O sucesso eleitoral que o bastonário dos advogados Marinho Pinto tem entre os seus pares assenta nos truques que ele foi criando para evitar o acesso dos jovens licenciados em direito à profissão.
     Primeiro arranjou um exame de admissão ao estágio cujo regulamento, de tão injusto, foi declarado inconstitucional e agora fez "um aumento incomportável das taxas de inscrição no estágio e nas provas correspondentes".
     O poder político tem que pôr ordem nas ordens.

A verdadeira mão

Fotografia de David Patrício

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se


O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita


O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende


E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta
                                                                                       Ana Hatherly

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A pele é uma interface

A pele é uma interface, 
dizem os poetas há muito tempo ...
A pele é uma interface, 
dizem agora os rapazes dos fios e dos aparatos ...

Da concisão do inglês

     A primeira versão de "Blonde" de Joyce Carol Oates tinha 1400 páginas. "Blonde" é Norma Jeane Baker, mais conhecida por "Marilyn Monroe"
     A autora teve que tesourar a primeira versão daquele romance, de 1400 páginas para 700. Ela explicou porquê numa entrevista:
      «(...) um romance desse tamanho levanta alguns problemas. Os direitos têm que ser vendidos, como diz o meu agente, para "quase todas as línguas", (...) o que significa, a ser traduzido, o livro aumentará de volume e poderá atingir cerca de mais um terço, senão o dobro, do tamanho.»
     Isto que  JCO afirma é congruente. O inglês é uma língua particularmente concisa, "económica".
     "O" texto central da política portuguesa — o "Memorando de Entendimento sobre as Condicionalidades de Política Económica" imposto pela Troika — teve durante muito tempo só versão em inglês. Mas agora já se pode comparar com a versão oficial portuguesa, embora esta na língua de Camões não seja a que conta, basta ler o aviso com que começa:
     «A presente versão em português corresponde a uma tradução do documento original e é da exclusiva responsabilidade do Governo português. Em caso de eventual divergência entre a versão inglesa e a portuguesa, prevalece a versão inglesa.»
     Indo ao ponto: a versão original do memorando tem 33,1 páginas e a versão portuguesa tem 34,6 páginas.
     Como se vê, pelo menos no linguajar burocrático, um texto em português é em média ±4,5% maior do que em inglês.
     O que significa que o "Blonde" em português há-de ser um tijolo de ±730 páginas.
     A leitura de "Blonde", de qualquer forma, é bem menos deprimente que o texto imposto pela Troika, texto que vai ser de facto o programa do próximo governo deste pobre país tutelado.
     País que vai andar por aí mais uns dias na campanha eleitoral mais mentirosa e lamentável desta terceira república.

* Este post foi reescrito às 19:45.

"And Now For Something Completely Different" (#23)

Som cinzento e cor-de-rosa encarnado

Vida

Fotografia de Daido Moriyama

Choveu! E logo da terra humosa
Irrompe o campo das liliáceas.
Foi bem fecunda, a estação pluviosa!
Que vigor no campo das liliáceas!

Calquem. Recalquem, não o afogam.
Deixem. Não calquem. Que tudo invadam.
Não as extinguem. Porque as degradam?
Para que as calcam? Não as afogam.

Olhem o fogo que anda na serra.
É a queimada... Que lumaréu!
Podem calcá-lo, deitar-lhe terra,
Que não apagam o lumaréu.

Deixem! Não calquem! Deixem arder.
Se aqui o pisam, rebenta além.
- E se arde tudo? - Isso que tem?
Deitam-lhe fogo, é para arder...
                                   Camilo Pessanha

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Oh Jerónimo, pega na esfregona, pá!!!

O PCP acha que fazer isto ...
... ao que antes era assim ...
Imagens daqui

     ... é um exercício de liberdade de expressão. 
     Ora não é. Isto que foi feito nas escadas monumentais de Coimbra é só uma incivilidade estúpida. 
     Em 23 de Outubro,  num post aqui no Olho de Gato intitulado "JCP — há 30 anos a sujar paredes" houve um conjunto interessante de comentários sobre este assunto.
     Num desses comentários escrevi o seguinte: 
     "(...) nesta altura da web 2.0, da imaterialização da informação, andar a javardar as paredes públicas e privadas do país, além de uma barbárie, é, em termos comunicacionais, contraproducente. Para não dizer estúpido."
     Contraproducente, claro. O PCP deu um tiro no pé. Conta o jornal Público que, ontem, mais de cem estudantes, durante o comício do PCP em Coimbra, gritaram:  
“Senhor Jerónimo, esta esfregona é para si!”
“Limpa, limpa camarada limpa!"
     Os comunistas viram nestes manifestantes o dedo de outras forças partidárias. 
     Talvez sim, talvez não.
     Uma coisa é certa: não foram outras forças partidárias que fizeram aquele vandalismo. Foi o PCP.
     — Oh Jerónimo, pega na esfregona, pá!!!

At Last the Secret is Out

Fotografia de Edgar Martins


At last the secret is out, as it always must come in the end,
The delicious story is ripe to tell to the intimate friend;
Over the tea-cups and in the square the tongue has its desire;
Still waters run deep, my dear, there's never smoke without fire.


Behind the corpse in the reservoir, behind the ghost on the links,
Behind the lady who dances and the man who madly drinks,
Under the look of fatigue, the attack of migraine and the sigh
There is always another story, there is more than meets the eye.


For the clear voice suddenly singing, high up in the convent wall,
The scent of the elder bushes, the sporting prints in the hall,
The croquet matches in summer, the handshake, the cough, the kiss,
There is always a wicked secret, a private reason for this.
                                                                                                      W. H. Auden


Warpaint — Stars 

terça-feira, 24 de maio de 2011

Loiça

* Texto publicado no Jornal do Centro em 24 de Novembro de 2006


     1. Durante a Guerra Fria o mundo organizou-se em dois pólos: o mundo comunista, liderado pela União Soviética, e o mundo capitalista, liderado pelos Estados Unidos da América. Ou se era de um lado ou se era do outro. Até o Dr. Cunhal, que via em Moscovo o “sol da Terra”, tinha apontado à cabeça mísseis soviéticos e não mísseis americanos. Com um ou outro percalço, assim funcionaram as coisas até à queda do Muro de Berlim, em 1989.
     Naqueles anos, as duas grandes potências também tiveram os seus dissabores militares: a derrota no Vietnam traumatizou a América e o Afeganistão mostrou que a União Soviética já não podia com uma “gata pelo rabo”.
     Confortável, debaixo do guarda-chuva de segurança americano, a Europa perdeu os seus impérios coloniais e perdeu músculo político-militar. Quando a barbárie regressou à Europa, na ex-Jugoslávia, foi preciso virem os americanos resolver o problema.

     2. Robert Kagan, um académico neo-conservador, escreveu, ainda antes da Guerra do Iraque, “O Paraíso e o Poder, A América e a Europa na Nova Ordem Internacional”, onde defendeu que há uma divergência estratégica permanente entre a política externa dos Estados Unidos e a da Europa. O livro está editado em Portugal, pela Gradiva e nele, a certa altura, lê-se que: «(…) a verdadeira divisão de tarefas [militares] processa-se do seguinte modo: os Estados Unidos “fazem o jantar” e os europeus “lavam a louça”.»
     Na Bósnia e no Kosovo foi assim. Os americanos fizeram com muita eficácia o trabalho “sujo” da guerra e os europeus fizeram o trabalho de manutenção da paz, isto é, “lavaram a loiça”. 
    
Infelizmente, no Iraque, 
tal já não é possível. 
É que George W. Bush 
“fez o jantar” 
mas partiu a loiça toda. 
Já não há loiça para lavar.    
Só cacos para colar.

"And Now For Something Completely Different" (#22)

Comício do PS em Viseu, 23 de Maio

A generosidade

Os media


A Citroën






Os lobbies da saúde


As autarquias



Os vips







O senador



As portagens



O défice


















O futuro

Os blues

Fotografia de Kiluanji Kia Henda

Os blues
Os blues servem
Os blues servem para cantar as noites solitárias
Os blues servem para cantar as minhas noites solitárias


Os blues
Os blues não são nada
Os blues não são nada mais que um canto
Os blues não são nada mais que um canto para gritar nas minhas noites solitárias
Os blues são uma estrela que brilha todas as noites para não se apagar depois até que volte a noite

Os blues são uma estrela que brilha
Os blues são uma estrela
Os blues são
Os blues

Os blues são uma oração que cantam os negros e alguns brancos
para pedir que a noite não seja tão negra
Os blues são uma oração que cantam os negros e alguns brancos para pedir
Os blues são uma oração que cantam os homens
Os blues são uma oração
Os blues são
Os blues
                                                                          Joaquim Horta I Massanés *





* Tradução da preciosa Alice

segunda-feira, 23 de maio de 2011

"And Now For Something Completely Different" (#21)


Uma partitura com asas

Obrigado, caro Fernando Teixeira dos Santos

     Com 19 dias de atraso em relação ao blogue Aventar, apareceu finalmente uma versão oficial em português do memorando de entendimento com a troika. Foi um trabalho do ministério de Teixeira dos Santos que pode e deve ser consultado aqui.
     São 35 páginas de leitura obrigatória porque este é que é o verdadeiro programa do próximo governo e não os textos elaborados pelos partidos.
     É importante ler-se para se perceber como a classe média portuguesa vai ser dizimada e para se perceber o que vai acontecer ao pobres. 
     Depois de aviadas estas 35 páginas, melhor se perceberá o clima absurdo e mentiroso desta campanha eleitoral.
     Tão mentiroso como os pórticos nas "nossas" auto-estradas que já fazem as vias verdes apitar mas ainda não cobram...

Como sobreviver à campanha eleitoral (#4)


Claro as tuas mentiras
são mais divertidas:
porque as fazes novas de cada vez


As tuas verdades, dolorosas e chatas
repetem-se continuamente
se calhar porque és dono
de tão poucas
                                                                          Margaret Atwood

Como sobreviver à campanha eleitoral (#1) (#2) (#3)

se o vento é a ignição

Fotografia de António Drumond


se o vento é a ignição
das árvores venha o
temporal, elas ateadas sobre
as nossas cabeças, desmembradas
da terra como voadores desajeitados, meu pai
já conheço o vão da tua fome, peço-te,
faz de mim uma colher
divina
                                   valter hugo mãe


domingo, 22 de maio de 2011

O dr. Catroga tem muito a aprender com o povo


Imagem daqui
 
11 burros caem no estômago vazio,  
um filme de Tiago Pereira

Surrealismo popular vencedor do doc lisboa 2006





«quando o meu m'nino foi feito
gemia a cama e tremia o leito
respondeu-lhe o canteado
nunca vi tão grande carvalho
responderam as ripas
tem cuidado não fures as tripas
respondeu-lhe o piolho
ai-de-mim que me afogo com tanto molho» **






* Catroga e as discussões de "pintelhos"
** aos  24'08''

Bem no fundo

Imagem daqui

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto


a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo


extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais


mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
                                                                                        Paulo Leminski

sábado, 21 de maio de 2011

Conferência: Desafios do Serviço Nacional de Saúde *


* Uma realização do blogue Novos Horizontes

Como sobreviver à campanha eleitoral (#3)

Imagem daqui
«Não te candidates, nem te demitas. 
Assiste. 
Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira. 

Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.»
 
Alexandre O'Neill
Como sobreviver à campanha eleitoral (#1) (#2

Política para consumo interno

17 de Maio, comício em Meschede (Renânia)




«Em países como a Grécia, Espanha e Portugal, as pessoas não devem poder ir para a reforma mais cedo do que na Alemanha»





21 de Maio, Palácio das Necessidades, Lisboa

Imagem daqui
«Embaixador alemão chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros»

 

«Governo chateado com declarações de Merkel» 




O estado pós-moderno a que (ainda) se chama União Europeia, esse "grande milagre geopolítico"*,  é comandado agora por pigmeus.

 

* Expressão de Robert Kagan, in O Regresso da História e o Fim dos Sonhos, p. 141