domingo, 31 de julho de 2011

Lectura

Imagem daqui
Yo no hablo del sol, sino de la luna
que ilumina eternamente este poema
en donde una manada de niños corre perseguida por los lobos
y el verso entona un himno al pus
Oh, amor impuro! Amor de las sílabas y de las letras
que destruyen el mundo, que lo alivian
de ser cierto, de estar ahí para nada,
como un arroyo
que no refleja mi imagen,
espejo del vampiro
de aquel que, desde la página
va a chupar tu sangre, lector
y convertirla en lágrimas y en nada:
y a hacerte comulgar con el acero.
Leopoldo María Panero

sábado, 30 de julho de 2011

Dez mil milhões de razões

Imagem daqui






As comissões de utentes das ex-SCUT exigiram hoje ao executivo liderado por Pedro Passos Coelho para que "averigue todo o processo que levou à negociação e acordos com as concessionárias destas vias".




para exigir isso.

7

Imagem daqui


Este poema exigiu 7 folhas de papel.
Para escrevê-lo já fumei raivosamente 7 cigarros
e rasguei-o 7 vezes.
7 é um mau número: é o número 13 da minha vida.
Segundo várias aritméticas, não é divisível por 2,
e eu tenho horror a todos os números (e a todas as coisas)
não divisíveis por 2.
Sexta-feira, 7...
Isto hoje não acaba bem...
Vai a chuva ficar chovendo para sempre.
O meu relógio vai continuar disparado,
marcando horas inexistentes.
Ah se os ponteiros andassem para trás!
Ah se ao menos a chuva chovesse para cima
e eu fizesse destes nulos versos
uma folha nocturna e molhada!

Abgar Renault

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Os sportinguistas ...

... não ligam a fazedores de montras lampiões ...

A senhora Merkel *

* Este texto foi publicado hoje no Jornal do Centro

     
Robert Musil, no seu “Homem sem Qualidades”, lembra que, para nos podermos amar uns aos outros, precisamos de um estado capaz de nos impor isso.
     
Musil refere uma evidência: quando a autoridade do estado colapsa, a lei do mais forte invade as ruas e “proíbe” o amor. A história da civilizada Europa está cheia desses exemplos de barbárie — o mais recente aconteceu há menos de 20 anos em Sarajevo.
     
Ora, desde a primavera do ano passado, quando foi necessário resgatar a Grécia, não tem parado de aumentar o “desamor” entre os europeus.

O que os alemães, os checos, os holandeses e os finlandeses pensam dos países corruptos do sul não é agradável. A Focus alemã pôs na capa a Vénus de Milo a fazer um valente pirete aos gregos aquando do resgate de 2010.
     
Por sua vez, nos países do sul está na moda dizer mal da senhora Merkel, lado para onde ela melhor dorme já que a elite política alemã já não sente, nem tem que sentir, nenhum complexo de culpa pelo pesadelo nazi – é que já passaram 66 anos sobre a morte de Hitler no seu bunker.
     
Regressando à ideia de Musil: se as pessoas precisam de um estado para as obrigar a amarem-se umas às outras, os estados que integram a “Europa” não precisarão de uma autoridade superior para os obrigar a fazerem o mesmo?
     
Infelizmente, a União Europeia — o primeiro “estado pós-moderno” do mundo (designação de Robert Kagan) — é dirigido por uma burocracia não-democrática, cara e impotente (Durão Barroso é uma irrelevância inventada pelo sr. Blair).
     
Sem surpresa, nestes últimos 15 meses de turbulência ninguém quis saber para nada do senhor Barroso, mas criou-se um mercado mediático especialista na interpretação das palavras e dos estados de alma da senhora Merkel.
     
Porque são só os alemães a votar na Alemanha?


quinta-feira, 28 de julho de 2011

"And Now For Something Completely Different" (#41)

Filmado com um telemóvel

Splitscreen: A Love Story from JW Griffiths

Este mamífero desgraçado e perigoso

      «Este mamífero desgraçado e perigoso gerou três ocupações, vícios ou jogos de uma dignidade completamente transcendente. São eles a música, a matemática e o pensamento especulativo (no qual incluo a poesia, cuja melhor definição será música do pensamento).
      Radiantemente inúteis, por vezes profundamente contra-intuitivas, estas três actividades são exclusivas dos homens e das mulheres e aproximam-se tanto quanto algo se pode aproximar da intuição metafórica de que fomos realmente criados à imagem de Deus.»
George Steiner,
in A Ideia da Europa



quarta-feira, 27 de julho de 2011

"And Now For Something Completely Different" (#40)

Paz à sua asma *

... depois de Manuel Maria Carrilho houve ministério da cultura?

(Achado no Facebook)

* O título deste post foi transcrito de um comentário deixado no Facebook de um amigo por uma pessoa que não conheço.
Este blogue não sabe se todo esta "pesaração" chegou a ser publicada na imprensa.

Em Março, ainda no tempo do governo Sócrates, mostrou-se aqui desconsolo com a nulidade da política do então ministério da cultura e que mais valia ser despromovido.

terça-feira, 26 de julho de 2011

António José Seguro, já agora, só mais um passo no caminho que deve ser...

     Na última intervenção política que fiz no PS, perante António José Seguro, entre várias coisas, lembrei quão patética é a figura do deputado que vota preto por disciplina parlamentar e depois apresenta uma declaração de voto a dizer que, se não tivesse sido obrigado, votaria branco.
     Seguro vai tornar regra a liberdade de consciência dos deputados e excepção os casos de imposição da disciplina parlamentar.
     Isso é bom para o país (o mais importante) mas também é bom para o PS: o grupo parlamentar socialista vai ter deputados a usarem a cabeça, enquanto os outros partidos vão continuar a ter paus-mandados e o eleitorado não gosta de paus-mandados.
     Ora, António José Seguro, que conhece as debilidades da Assembleia da República como ninguém, podia e devia dar mais um passo pioneiro e acabar com os deputados socialistas em part-time, gente que faz política de manhã e à tarde trata de negócios, gente sempre entretida com as suas consultorias, as suas ligações à advocacia dos negócios, gente cujo nicho ecológico é a agenda telefónica recheada e não o interesse público.

Cidra

Aceito o teu álcool como aceito as palavras
as tuas pupilas fotosfera de um sol
onde mergulho. O dorso aguarda a fermentação da maçã
o sumo que transborda do pomar do teu peito.
A boca é um mamilo secreto
entre dois sexos, traz nos lábios a fome dos girassóis.
Não quero o óleo das plantas douradas
quero o caule e a corola quero a raiz
de alguma pena tua que caia no chão.
Aceito a ondulação do açúcar, ave do vinho,
o vinagre do amor que lava o mar.
Enquanto o sol doira o ventre das searas
eu bebo sem tempo as paisagens da tua infância.
Sentada no colo das macieiras
não sei se me queima se me refresca
a brisa dos moinhos de vento.
Catarina Nunes de Almeida

segunda-feira, 25 de julho de 2011

em folhas de acetato me proteges

em folhas de acetato me proteges
floresço em avenida litoral
breve serei semente um céu e a terra
plantado azul e sopro de marés

as palavras fechadas com o jeito
que a boca tem ao ver-se
retratada
quase um sabor razão acidulada

me persegues de nomes, me retratas
igual ao branco hotel onde regressa
a não lembrada sombra do verão

e pousam de ouro em água o só
engano breve
das rosas e da neve despertadas.

                                                                                 António Franco Alexandre


Viseu, linda cidade Viseu

domingo, 24 de julho de 2011

Benfica 2011 - 2012

Recebida por e-mail
Piada mais repetida
na pré-época:



Jorge Jesus pode organizar um torneio quadrangular só com os jogadores que tem às ordens.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Interesse (do) público *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro








     
1. O escândalo das escutas ilegais feitas pelo defunto News Of The World de Rupert Murdoch está a salpicar o primeiro-ministro David Cameron. Contudo, também os trabalhistas Gordon Brown e Tony Blair (lastimável criatura...) foram, durante o tempo que governaram, uns capachos do sr. Murdoch.
     
O debate deontológico nos media anglo-saxónicos procura a linha que separa “interesse público” de “interesse do público”.
     
Um exemplo pessoal para ilustrar essa diferença: tive este mês obras em casa. O que aconteceu nestes penosos dias dava para fazer uma ou várias crónicas bem pitorescas e acondimentadas, crónicas que, se escritas com arte, seriam do “interesse do público” leitor mas não teriam “interesse público” nenhum.
     
É claro que opinião é uma coisa e notícia outra. Em Portugal não há escrutínio nenhum sobre o papel dos media e as suas traficâncias com os políticos: em 18 de Setembro de 2009, o DN publicou um e-mail trocado entre dois jornalistas do Público (principal concorrente do DN). Essa intrusão numa caixa de correio electrónico mudou o curso das legislativas daquele ano mas toda a gente engoliu em seco e ninguém fez nada. Deu para perceber os telhados de vidro que há no país ao mais alto nível.
     

     

2. Nas eleições internas do PS ninguém quis fazer o balanço do seis anos socráticos. Ora, esse balanço era necessário para o partido poder ganhar balanço para o futuro.

Entretanto, o aparelho abafou o “crítico” António José Seguro. Não surpreende que a direita prefira a sua vitória.
      
O “alinhado” Francisco Assis é mais inconformista, está mais livre para fazer as rupturas necessárias com os últimos 6 anos e fazer uma oposição mais eficaz a Pedro Passos Coelho.
     
Este fim-de-semana os militantes socialistas decidirão.

Fonte

Janet Leigh and Charlton Heston — "Touch of Evil", de Orson Welles





Mal se empina a cabra com suas patas traseiras
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os cascos de demónio -
ágeis, frágeis.
E o sonâmbulo desejo do nosso coração
tudo absorve ao alto, como uma tenebrosa
vertigem.

E quando o esplendor invade as bagas
venenosas - patético, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias, suspensas, mudam a conjunção
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela tremenda queima a fronte de apolo.
E a mandíbula, os pés, a invenção, a loucura, e o sono
secreto:
-Terrível, a beleza espalha sobre nós
a branca luz violenta.

Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra ao alto, fremente, no flanco
com uma flecha casta.
Lentamente cantamos o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o nosso amor - ardente, infeliz,
misterioso. Porque a cabra
é qualquer coisa de materno e antigo -
e o nosso coração a rodeia,
e bate. Durante a noite irrompe o trigo.

-Subtil, a sombra das flautas subindo pelas mãos.
E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e quente, na penumbra das casas, as mulheres
respiram - surdas , cegas e loucas
de beleza. E no sono aberto as palavras são
mortalmente confusas.

- Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma doce e terrível da nossa melancolia.

Herberto Helder


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Fazer da Praça D. Duarte de Viseu uma Babilónia (#5)

Concerto dos NO NO
24 de Julho às 19:00

NO NO from BeatrizRodrigues on Vimeo.

Estralejem os foguetes!!!


Os "Nouvelle Vague" na Feira de S. Mateus/2011!!!

Pelo que se percebe, 
ao contrário das últimas décadas, 
o gráfico que vai fazer o programa da Feira de S. Mateus este ano quase não vai usar a função copy-paste ...

José Moreira, assim sim!


Carta — poema

Fotografia de Spencer Platt

Excelentíssimo Prefeito
Senhor Hildebrando de Góis,
Permiti que, rendido o preito
A que fazeis jus por quem sois,


Um poeta já sexagenário,
Que não tem outra aspiração
Senão viver de seu salário
Na sua limpa solidão,


Peça vistoria e visita
A este pátio para onde dá
O apartamento que ele habita
No Castelo há dois anos já.


É um pátio, mas é via pública,
E estando ainda por calçar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!


Indiferentes ao capricho
Das posturas municipais,
A ele jogam todo o seu lixo
Os moradores sem quintais.


Que imundície! Tripas de peixe,
Cascas de fruta e ovo, papéis...
Não é natural que me queixe?
Meu Prefeito, vinde e vereis!


Quando chove, o chão vira lama:
São atoleiros, lodaçais,
Que disputam a palma à fama
Das velhas maremas letais!


A um distinto amigo europeu
Disse eu: — Não é no Paraguai
Que fica o Grande Chaco, este é o
Grande Chaco! Senão, olhai!


Excelentíssimo Prefeito
Hildebrando Araújo de Góis
A quem humilde rendo preito,
Por serdes vós, senhor, quem sois!


Mandai calçar a via pública
Que, sendo um vasto lagamar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
                                                                                  Manuel Bandeira


quarta-feira, 20 de julho de 2011

terça-feira, 19 de julho de 2011

Fazer da Praça D. Duarte de Viseu uma Babilónia (#4)

22 de Julho às 22H00


O triângulo esmurdocado: media - política - polícia

Infografia do Washington Post

(Clicar para ver maior)


E em Portugal como será? 
     «Como no Reino Unido, também entre nós a concorrência, a cultura dominante do dinheiro e da competição sem regras, juntamente com a precariedade e vulnerabilidade profissionais em que se exerce hoje o jornalismo, constituem (já o tenho dito outras vezes) um caldo de cultura propício à delinquência deontológica.
     A condescendência corporativa e a inoperância da auto-regulação fazem o resto.
     Talvez seja injusto, mas suspeito que, se estalasse entre nós um escândalo como o do NoW, dificilmente faria manchete nos outros jornais.»
Manuel António Pina,
in "Jornalismo Sem Lei"

Una Idea de Libertad

Imagem daqui

Cuando más cogido por los huevos me tienen,
busco la ventana por donde se ve más lejos
y me quedo allí
con la nariz aplastada
esperando siempre
unos pájaros
que nadie ha visto
que sé existen,
pero que no vienen.
Antonio Orihuela

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A fractura do "ocidente" *

Pedro Ribeiro Simões
     «O ataque anglo-americano ao euro e às instituições europeias está-se a transformar em propaganda mediática sem substância que, em última instância, servirá para abandonar a última ponta de confiança no governo dos Estados Unidos e a sua liderança.
     Os próximos anos vão acelerar esta mudança, principalmente  porque são necessários rostos "frescos" neste jogo, novos líderes com legitimidade para planificarem e executarem soluções para os desafios que aí vêm, com foco especial nas eleições na França e na Alemanha.
     Ambos estes países vão ser essenciais na coordenação da resposta e estratégia europeia para as próximas décadas.»

in MAP
Revista de Antecipação Política,
Julho de 2011, publicação do LEAP

* Título da responsabilidade deste blogue
** Excerto de um texto intitulado "Running into a BRICS wall: the upcoming 2014 EU-BRICS Summit" (tradução "às três pancadas")

Fazer da Praça D. Duarte de Viseu uma Babilónia (#3)

Cavaco e a moeda forte

     «(...) em termos de equilíbrio externo os resultados foram muito positivos, com o défice da balança de transacções correntes a atingir 4% do PIB em 1978 — uma redução para metade face ao ano anterior — tendo praticamente atingido o equilíbrio em 1979.»

Ministro das Finanças de 3.1.80 a 9.1.81
     «O défice viria a agravar-se em 1980, quando o governo em funções por razões de calendário eleitoral, adoptou uma política orçamental expansionista, combinada com uma subida generalizada dos salários e uma revalorização da moeda.
     Estas medidas permitiram um aumento do poder de compra tanto interno como externo, mas trouxeram de novo o desequilíbrio face ao estrangeiro. Depois do esforço dos dois anos anteriores, tudo se desfaria (...)»


in Economia Portuguesa
As Últimas Décadas,
Luciano Amaral, Ed. FFMS, p. 33


      Cavaco Silva disse, anteontem, que "gostaria que o euro fosse mais fraco".
     Houve logo um coro grego a apoiar a ideia do presidente desde o bloco a António José Seguro, passando por Pedro Passos Coelho. Assis destoou e ainda bem.
     Importa dizer que:
     1. A ideia do presidente é irrelevante: o euro é forte porque os mercados estão a fugir do dólar e fugirão cada vez mais enquanto os Estados Unidos continuarem a tipografar dinheiro irresponsavelmente, num processo a que chamam "quantitative easing".
     2. A eventual descida do euro não era boa para Portugal: importava inflação e só beneficiava os países exportadores da Mittleeuropa e não os PIGS.
     3. Se o euro desvalorizasse, havia um aumento forte da inflação que erodiria o poder de compra dos salários e das pensões. Isso facilitaria a vida a Pedro Passos Coelho e à sua agenda ideológica. Explicar isso ao bloco de esquerda ou a António José Seguro é que é difícil.
      Conforme bem lembra Luciano Amaral no seu livro, Cavaco Silva em 1980 valorizou o escudo  e a coisa correu mal: teve que vir a seguir o FMI para consertar as contas públicas. 
     Agora Cavaco quer o contrário: que o euro desvalorize. Não parece que o senhor Trichet e a senhora Merkel lhe vão ligar grande coisa. E ainda bem.

Canas

Depois de avaliados os ventos, estudadas as altas e as baixas pressões, foram lançados os foguetes na romaria do PS.

Anillos de ceniza

Imagem daqui

Son mis voces cantando
para que no canten ellos,
los amordazados grismente en el alba,
los vestidos de pájaro desolado en la lluvia.


Hay, en la espera,
un rumor a lila rompiéndose.
Y hay, cuando viene el día,
una partición de sol en pequeños soles negros.
Y cuando es de noche, siempre,
una tribu de palabras mutiladas
busca asilo en mi garganta
para que no canten ellos,
los funestos, los dueños del silencio.
Alejandra Pizarnik

domingo, 17 de julho de 2011

Fazer da Praça D. Duarte de Viseu uma Babilónia (#2)

Alexandre Soares e Tó Trips (guitarras)
Raquel Castro (vídeo)
22 de Julho às 23:00

duas guitarras e uma cidade from raquel castro on Vimeo.


A Troika













A um pássaro



Cristal de azul, chamado 
pela canção das asas,
um novo dia pousa sobre as casas; tu, 

coração, de pássaro fulgindo,
corpo do bem-amado 
amor que abre na noite o arvoredo. em fogo, 

oculto em luz, agora
quem dera ouvir a fábula, o enredo 
a rede que nas horas se desprende. 

em minha mão humana
não pousam, que passavam, os cantantes 
nomes vivos das aves. erguer-me: 

em claridade voas. terra
a nenhuma memória subjugada, chama 
sulcando o ar, que fontes 

de bruma incendiadas levantaram
a simples melodia do teu canto? 
neve 

alada,
ouvir sem voz o vivo vento, corpo 
de melro ou cotovia ou nome absoluto 

no espaço de ar, a vibração da cor;
ou santo colibri, volátil signo; 
ou palavra de cego acorrentado; 

que luz, em tuas folhas, te deu sombra
e harmoniosa, passageira concha? 
que livre amor te inventa, derradeiro 

sinal da noite ardendo em meio-dia? ou tu,
eternamente repetindo o instante 
em teu cinzel de azul nos desejaste? 

nenhum secreto nome, nenhum mito
te habita rouxinol ou sapo aflito 
mas o sopro da aurora nas colinas; 

és, na ramagem, folha que contempla;
trapo de céu, ou rio que cegos vemos, 
a transparência que o pudor vestiu.  
António Franco Alexandre

sábado, 16 de julho de 2011

Como circular numa rotunda *

Especial atenção aos morcões que circulam 
sempre na faixa da direita 
e aos que nunca usam piscas ...



* Os condutores de Viseu têm um doutoramento neste assunto.

From Russia with love, para o dr. Portas

     José Milhazes, no seu blogue "Da Rússia", informa que "vai vir charters" de russos a Portugal em férias e que, para dar resposta ao aumento da procura, é importante que o consulado de Portugal em Moscovo entre no século XXI.
     De facto:
Imagem daqui
     — "Não lembra ao careca", como diz o professor Marcelo, que um turista para ter um visto tenha que ligar para um call-center, depois ir a um banco pagar a chamada para, depois, ficar em lista de espera para o dito cujo visto.
     — "Não lembra ao careca", como diz o professor Marcelo, que o consulado não tenha um site na internet (nem um bloguesito).
     — "Não lembra ao careca", como diz o professor Marcelo, que o Consulado de Portugal em Moscovo tenha placa com o horário de funcionamento em português e não tenha a mesma informação na língua de Tolstoi: “Консульский отдел Посольства Португалии в Москве. Oткрыт в рабочие дни с … по…”
     Sem surpresa, percebe-se que o anterior ministro Luis Amado não era grande fã do socratismo em geral e do seu  "choque tecnológico" em particular.
     

José Milhazes já vai 
o Exmo. Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal. 



     José Milhazes faz bem 
em escrever 
e não telefonar.


É que o actual governo, 
como dizia ontem 
tem medo de
falar ao telefone.

Do amor

Dora Maar por Man Ray


Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objecto de amor, atenta e bela.


Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)


Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel


Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
                                                                                                       Hilda Hilst

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Portagens intuitivas

Não se percebe porque é que foi posto este testamento na montra do Turismo em Viseu.
Qualquer turista percebe logo à primeira o novo sistema de portagens nas nossas auto-estradas.

O acaso *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

Como escreveram Michael Hardt e Toni Negri em “Império”, o pesadelo nazi pode resumir-se a dois nomes: “Auschwitz (símbolo do holocausto judeu) e Buchenwald (símbolo do extermínio dos comunistas, dos homossexuais e dos ciganos, entre outros).”

Buchenwald é menos falado que Auschwitz mas foi a outra face da máquina de morte alemã. Dois sobreviventes de Buchenwald foram muito falados recentemente nos media: Jorge Semprún e Stéphane Hessel. 

Semprún aderiu à resistência contra os nazis aos 17 anos. Aos 20 foi preso, foi torturado e deportado para Buchenwald. Aí, quem lhe preencheu a ficha ouviu mal e, em vez de escrever “estudante” na profissão, escreveu “estucador”. Em Buchenwald sobravam estudantes, faltavam estucadores. Esse engano salvou-o de morte certa. Foi libertado pele e osso aos 22 anos, em 1945.
     
Depois da guerra, Semprún foi militante comunista clandestino na Espanha franquista, rompeu com o comunismo, foi ministro, escritor, um homem notável amante da liberdade. Morreu há pouco mais de um mês, em 7 de Junho.

Stéphane Hessel faz 94 anos em Outubro e é também uma personalidade fascinante, um homem da liberdade. Aos 22 anos começou a lutar contra Hitler, primeiro no exército francês, depois na resistência. Foi preso, sofreu tal como Semprún a “tortura da banheira”. Em Buchenwald, safou-se porque a sua identidade foi trocada pela de um prisioneiro que tinha morrido com tifo.
     
Em 1948, Stéphane Hessel foi um dos redactores da Declaração Universal dos Direitos dos Homens. O seu recente livro “Indignai-vos” é uma inspiração por essa Europa fora: o movimento dos “Indignados” que ocupou as praças espanholas esta primavera foi buscar a sua designação ao livro de Stéphane Hessel.
     
Dois homens que os fios precários do acaso salvaram em Buchenwald. Como se o acaso, ao menos ele..., conhecesse o génio.

Sem recurso


A publicação desta fotografia de cara descoberta 
do  «pedófilo de Benavente» 
assim o chama o DN
é uma sentença transitada em julgado e inapelável 
no tribunal da opinião pública.

O jornal fez de juiz do supremo.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Lugar

Fotografia de Susana Pedrosa

(II)

Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco de sono, do meio
do silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.


E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em cão azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno. Eu penso
também que cantaria para além das portas até
raízes de chuva onde peixes
cor de vinho se alimentam
de raios, seixos límpidos.
Até à manhã orçando
pedúnculos e gotas ou teias que balançam
contra o hálito.
Até à noite que retumba sobre as pedreiras.
Canta - dizem em mim - até ficares
como um dia órfão contornado
por todos os estremecimentos.
E eu cantarei transformando-me em campo
de cinza transtornada.
Em dedicatória sangrenta.


Há em cada instante uma noite sacrificada
ao pavor e à alegria.
Embatente com suas morosas trevas.
Desde o princípio, uma onda que se abre
no corpo, degraus e degraus de uma onda.
E alaga as mãos que brilham e brilham.
Digo que amaria o interior da minha canção,
seus tubos de som quente e soturno.
Há uma roda de dedos no ar.
A língua flamejante.
Noite, uma inextinguível
inexprimível
noite. Uma noite máxima pelo pensamento.
Pela voz entre as águas tão verdes do sono.
Antiguidade que se transfigura, ladeada
por gestos ocupados no lume.


Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.
Quando se esclarecem as portas que rodam
para o lugar da noite tremendamente
clara. Noite de uma voz
humana. De uma acumulação
atrasada e sufocante.
Há sempre sempre uma ilusão abismada
numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo
do cruzamento do fogo.
Prodígio para as vozes de uma vida repentina.



E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.



Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
Deve instaurar o corpo e subi-lo,
lanço a lanço,
cantando leve e profundo.
Com as feridas.
Com todas as flores hipnotizadas.
Deve ser aéreo e implacável.
Sobre o sono envolvida pelas gotas
abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas
pedras. Sobre o interior

da respiração com sua massa
de apagadas estrelas. Noite alargada
e terrível terrível noite para uma voz
se libertar. Para uma voz dura,
uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída.


Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som.
E se as mulheres colocam os dedos sobre
a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante,
ele não deve ser como o maior violino.
Ele será o único único violino
Porque nele começará a música dos violinos gerais
e acabará a inovação cantada.
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.

Herberto Helder

quarta-feira, 13 de julho de 2011

"And Now For Something Completely Different" (#38)

Assis - Seguro (#2)

     António José Seguro teve seis anos de solidão política cheia de dignidade: defendeu o referendo ao Tratado de Lisboa como tinha sido prometido aos portugueses, lutou contra a mistura dos negócios com a política (o pecado maior do socratismo), votou solitário contra a nova lei do financiamento dos partidos (lei opaca que devia envergonhar todos os partidos desta combalida terceira república).
Fotografia DN
    Infelizmente, António José Seguro foi agora cercado por aquela gente que se alapa sempre atrás dos "vencedores anunciados", e esse apoio do aparelho partidário mais encardido, como se viu ontem no debate na SICN, parece ter-lhe feito perder o sentido estratégico — o PS precisa como pão para a boca de se abrir à sociedade e não fechar-se.
     Francisco Assis parece ter percebido isso e está com mais força interior que Seguro e a sua proposta de primárias abertas é pioneira e positiva.
     O país precisa que o maior partido da oposição saia do buraco fundo em que caiu, buraco que, note-se, é tabu — nem Assis nem Seguro indagam porque é que o PS teve a maior derrota eleitoral dos últimos 24 anos.

terça-feira, 12 de julho de 2011

A crise sistémica global explicada em 1'15'' ...


... e sem palavras ...

De vários écranzinhos fazer um écranzão


Lipoaspiração



Nuno Crato, caro ministro da educação, dê atenção a esta ideia do SPZC: ponha a dar aulas os boys e as girls que estão no ministério, nas direcções regionais e nas equipas de apoio às escolas.


Acredite: parte do problema do eduquês que tanto abomina fica logo resolvido e começa a tirar gordura à máquina.

Barajando recuerdos

Barbara Bates

Barajando recuerdos
me encontré con el tuyo.
No dolía.
Lo saqué de su estuche,
sacudí sus raíces
en el viento,
lo puse a contraluz:
Era un cristal pulido
reflejando peces de colores,
una flor sin espinas
que no ardía.
Lo arrojé contra el muro
y sonó la sirena de mi alarma.
¿Quién apagó su lumbre?
¿Quién le quitó su filo
a mi recuerdo-lanza
que yo amaba?

                                                                  Claribel Alegria

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Dos afectos

     “Repugna-me a ideia de que é possível transformar a vida política num imenso magma de afectividade, porque isso é a redução e a destruição da política. A política não é a dimensão do afectivo, isso é outra dimensão das nossas vidas.”
Francisco Assis, 
10 de Julho de 2011 



     "A política consiste em civilizar o emocional e impedir a instrumentalização das paixões; transforma o sentir em actuar e atribui responsabilidades onde elas faltavam ou onde só havia imputações genéricas."
Daniel Innerarity,
in O Novo Espaço Público


Diz que os gatos são maus para o ambiente ...

Ela nem sabe com quem se meteu...

Sonhos Rotos

     Era uma vez um homem que, como todos os homens, tinha um sonho.
     O homem tinha escrito um livro com histórias dentro e queria que outros homens lessem as histórias dentro do livro que ele escrevera sobre outros homens. 
     Como nenhuma editora o quisera publicar, então, para grandes males grandes remédios, o homem que, como todos os homens, tinha um sonho, não desistiu do sonho, o que já não é para todos os homens, e ele próprio fez uma edição própria e apropriada, de capa dura, e folhas encadernadas, e páginas ordenadas, um livro igual aos outros mas melhor que todos os outros, porque era o livro dele, à venda em todas as livrarias da cidade.
     Passaram-se primaveras e verões, folhas nasceram, folhas caíram das árvores, passaram-se natais de comprar livros, e aniversários de oferecer livros, passaram-se anos, mas nenhum livro do homem que tinha um sonho se vendeu. Ninguém os comprou, e ninguém os leu, e ninguém quis saber das histórias que aquele homem tinha metido dentro do livro. 
     Anos depois deste acontecido, o homem que escrevera um livro de histórias que ninguém lera soube de um teatro para os lados de Carregal do Sal que queria livros para usar num espectáculo.
     Então ele meteu todos os seus livros num caixote e deixou-os à entrada do teatro, de noite, sem ninguém ver, sem nada dizer a ninguém.

     No sábado, dia 9 de Julho, ele, o homem que tinha um sonho, foi à estreia a Oliveirinha, à Naco.
     E então, para alegria dele, viu os seus livros serem porta, viu os seus livros serem parede, viu os seus livros serem moldura, viu os seus livros serem almofada, viu os seus livros serem base, viu os seus livros serem fuste, viu os seus livros serem capitel, viu os seus livros serem pináculo de catedral *, viu os seus livros serem asas… 
 
Fotografia de José Figueiredo
     … viu então os seus livros serem vida …
     … viu então que os seus livros já não eram 
Sonhos Rotos
Interpretação e co-criação: 
Rafaela Santos, Miguel Lemos, Sofia Valadas
Direcção Artística: 
Rafaela Santos
Dramaturgia: 
Fernando Giestas
Consultoria Artística: 
Cristina Carvalhal
Desenho de luz: 
Jorge Ribeiro
Desenho de som: 
Tiago Cerqueira
Figurinos: 
Rafaela Mapril

* Daqui