sábado, 31 de dezembro de 2011

Ano Novo





Virás de manto realmente novo
Entre searas ardentes e mãos puras?
Poderemos enfim chamar-te novo,
Ano novo entre as tuas criaturas?

Deceparás enfim as mãos tiranas?
Será feita, enfim, nossa vontade?
Eu queria acreditar, vozes humanas,
Acreditar em ti, deus da verdade!

Como eu queria trazer-te a este mundo
(Mas onde te escondeste? Desde quando?)
Ó deus livre, sem espinhos, ó fecundo
Senhor do fogo alegre e não do pranto!

Ó ano novo, a minha esperança é cega.
Transforma em luz a nossa própria treva.
Alberto de Lacerda

Bitácora

Fotografia de Adrian Nakic


No conoce el arte de la navegación
quien no ha bogado en el vientre
de una mujer, remado en ella,
naufragado
y sobrevivido en una de sus playas.
                                                                             Cristina Peri Rossi


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Comunicado urgente

Foto JN
Por determinação governamental, a passagem de ano prevista para amanhã fica adiada.

Dito aqui em 2011 *

 * Este "aqui" refere-se à coluna com o mesmo nome deste blogue no Jornal do Centro

14/Janeiro: A campanha alegre nas presidenciais pôs a esquerda, como diz a canção de Sérgio Godinho, “à espera do comboio na paragem do autocarro”.

18/Março:  
Na manifestação da Geração à Rasca em Viseu, uma jovem subiu ao palco e gritou: “Não queremos socialismo, queremos igualdade.”
Ela queria, com aquele “socialismo”, dizer PS. 
E foi muito aplaudida.  
O PS pós-socrático não vai ter vida fácil. 


6/Maio: Quando ouvir o político A a dizer que o político B disse a mensagem C, respire fundo, mantenha a calma. Não deixe é ser insultada a sua inteligência — o político A ou está a mentir ou está a deturpar o que o político B disse. 

20/Maio: O PCP e o bloco vão perder votos porque, como lembra Faulkner em “Palmeiras Bravas”, entre a dor e o nada, as pessoas escolhem a dor. 

1/Julho: Para Viseu — como para todas as capitais de distrito — o provável fim dos governos civis é objectivamente uma perda. Uma perda que não devia rejubilar ninguém e muito menos o dr. Ruas que não tem disfarçado a sua satisfação. 

7/Outubro: Ao não distinguir os políticos sérios dos políticos corruptos, D. José Policarpo fez-lhes o que Simon de Monfort fazia aos cátaros no século XIII quando gritava para os seus soldados: “Matai-os a todos, Deus reconhecerá os Dele!” 

21/Outubro: Os políticos têm-se portado como mordomos do poder financeiro: em Portugal, Barroso e Sócrates foram uma espécie de Jarbas do sr. Ricardo Salgado do BES; nos Estados Unidos, Obama tem sido uma desilusão. 

25/Novembro: O fim da Rádio Noar, uma empresa auto-sustentável, pôs a nu uma evidência: Viseu tem umas elites que podem ter algum poder e algum dinheiro mas não têm nenhum sentido comunitário nem cívico. 
Elites assim não vão longe. Como, infelizmente, se tem visto e continuará a ver.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Epitagmata

Fotografia de Dmitry Bulgakov
estes poucos cabelos,
este gesto,
esta úlcera
e as coisas de praxe:
uma fita, este brilhante
palavras,
discos, móveis,
automóvel,
óculos
e o que quiser mais
desde que de novo
abaixe
docemente
o rosto
a nuca fique em abandono
a carne em desmaiada espera
fingindo
embora ou a valer
que a mesma dor
é o prazer
de dar prazer:
volúpia de perder,
vibrando apenas,
por um instante,
sob o rápido
e amoroso
golpe.
                                                     Paulo Franchetti

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Resende paga menos 4% de IRS que Viseu

     Desde 2007, o IRS pode variar 5% de concelho para concelho, basta a autarquia querer, ou não, prescindir de parte das transferências de verbas do orçamento do estado.
     Um exemplo prático: uma família de classe média que em Viseu pagar 10000 euros de IRS em 2012, se vivesse em Resende pagaria 9600 euros.
     O presidente da câmara de Resende, ao elaborar o orçamento para 2012, decidiu descer ainda mais o IRS no concelho.
     Em resumo: a esta família da classe média o dr. Fernando Ruas fica mais caro 400 euros que o engº António Borges. 
     Em ano de crise social aguda a autarquia de Viseu assobia para o ar, a autarquia de Resende preocupa-se com os seus munícipes.

"Dois menos um igual a dois" (ou "A Noiva)

Estreia: "Dois menos Um igual a Dois"
em certos círculos diz-se "A Noiva" 
Uma curta metragem de Carlos Salvador, José Crúzio, Rodrigo Pereira e Margarida Loureiro
Na Empório (Rua Silva Gaio nº 29, Viseu)
Amanhã — 29 de Dezembro (5ª feira) —17.45h

Apresentação do livro "Intimidades Traídas" de Acácio Pinto

Amanhã há uma boa razão para ir a 
Moimenta da Beira ao fim da tarde.
Pela parte que me toca é uma honra o convite de Acácio Pinto para apresentar o seu livro e agradeço as suas amáveis palavras no blogue Letras e Conteúdos
Prometo falar pouco já que o que importa 
é ouvir o autor.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A A24 tem as portagens mais caras do país

     A A24 atravessa os distritos de Viseu e Vila Real, distritos pobres do interior, em perda acentuada de população.
     Em vez de criar condições para que o investimento acorra a estes dois distritos, o governo de Pedro Passos Coelho (um cidadão ilustre de Vila Real) decidiu dar um presente de Natal amargo aos beirões e aos transmontanos: portagens de 11 cêntimos por quilómetro, preço que contrasta com a A1 onde se pagam 7 cêntimos.
     Este esbulho feito a uma das regiões mais pobres do país diz tudo acerca deste governo. O transmontano Pedro Passos Coelho e o beirão Álvaro põem os seus conterrâneos a pagarem mais 50% de portagem por quilómetro do que se paga no litoral.

Este blogue saúda o deputado socialista Rui Santos que honrou o voto dos seus eleitores 
de Vila Real.

Como tinha 
avisado, Rui Santos
Infelizmente, este exemplo não foi seguido pelos deputados socialistas eleitos por Viseu.

Spin, spin, spin

Na capa de hoje do Público

     Destruir o Vale do Tua é estúpido e é um crime que vai ficar sem castigo.
     Até Pacheco Pereira — a menos verde das criaturas que se podia citar — escreveu no seu Abrupto: "
entendo que é um verdadeiro crime e uma asneira, infelizmente com uma sólida tradição de outras asneiras por trás, construir a barragem prevista para o Tua. O que temos no vale do Tua, o rio, o vale, a linha ferroviária, o equilíbrio da terra, da água, das escarpas, da vegetação, do vento, da solidão agreste, é hoje único em Portugal. Ou seja, não há mais."
     O dinheiro do plano de barragens serviu para o governo de Sócrates fazer cosmética nas contas de 2008. 
     Com esse negócio, como conta hoje o Público, "as empresas de electricidade têm direito a uma ajuda pública, mesmo que, por hipótese, uma determinada barragem não produza electricidade num qualquer período do ano" — este "milagre" chama-se "garantia de potência".
     É possível que, por imposição da Troika, esta captura do interesse público pelos privados seja agora amaciada mas:
     — a barragem vai ser "cimentada", como, indisfarçando a impaciência, Sócrates reivindicou ao fatal Mexia;
     — o arquitecto Souto Moura vai arranjar um musgo visual qualquer para disfarçar esta barbárie cometida pelas nossas elites políticas e económicas;
     — esta notícia do Público é spin para entreter os créus.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O bloco central

Václav Havel

No mundo havia dois combatentes da liberdade admiráveis com uma vida maior que a vida.
Agora já só há um.

 Na semana passada morreu Havel. 
Agora só temos Mandela.






«Muitos questionar-se-ão sobre o que terá tornado Havel excepcional.
A resposta é simples: 
decência.» *

 



     A rejeição desse voto de pesar pelo PCP é um vómito que não surpreende vindo de quem vem. Convém lembrar a peculiar relação que o PCP tem com a liberdade.  Por exemplo: Bernardino Soares, o líder do grupo parlamentar comunista, disse ao DN em 2003: «Tenho dúvidas que a Coreia do Norte não seja uma democracia». 
     Bernardino, porque não vais carpir para ao pé dos norte-coreanos, pá? 

* in "A vida de Václav Havel, na verdade", num texto imprescindível de Jirí Pehe de que fica aqui o link para memória futura

Duplicar



Na duplicação defino a imagem
reapresentada: o corpo carcaça invólucro
depositado aos pés da terra:
segue na permanência
da lembrança
até que a luz
seja apagada.

Sou jovem

e velho: adulto
e criança: ator
e personagem.

Imagem centuplicada do corpo

na perda da identidade.

                                                                                   Pedro Du Bois


Nem a JP Sá Couto nem a Apple ...

... se safam com o Celso.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Cartão de Natal de uma prostituta em Minneapolis

Edward Hopper
Ei Charlie, eu estou grávida
E a viver na 9th Street
Bem em cima de uma livraria suja
Saindo da Euclid Avenue
E eu deixei de fumar erva
E parei de beber uísque
E meu homem toca trombone
E trabalha na estrada

E ele diz que me ama
Mesmo o bebé não sendo dele
E ele diz que vai criá-lo
Como se fosse seu próprio filho
E ele me deu um anel
Que era usado pela mãe dele
E leva-me para dançar
Todos os sábados a noite

Charlie, eu continuo a pensar em você
Toda vez que passo por um posto de gasolina
Por causa de toda aquela brilhantina
Que você costumava usar no cabelo
E eu ainda tenho aquele disco
Do Little Anthony & The Imperials
Mas alguém roubou o meu gira-discos
Agora, o que você acha disso?

Charlie, eu quase fiquei maluca
Depois que o Mário foi preso
Então eu voltei para o Omaha
Para viver com o meu pessoal
Mas todo a gente que eu conhecia
Estava ou morto ou na prisão
Então eu voltei para Minneapolis
E dessa vez eu acho que vou ficar

Charlie querido, acho que estou feliz agora
Pela primeira vez desde o meu acidente
Quem me dera ter todo o dinheiro
Que nós costumávamos gastar em erva
Eu comprava uma loja de carros usados
E não vendia nenhum dele
Dirigia um carro diferente
Todo os dias, dependendo de como
Eu me sentisse.




Charlie, pelo amor de Deus
Você quer saber a verdade?
Eu não tenho um marido
Ele não toca trombone
E eu preciso de dinheiro emprestado
Para pagar o advogado
E Charlie, a propósito,
Talvez eu consiga a condicional
No próximo dia dos namorados

sábado, 24 de dezembro de 2011

Se ao menos nevasse



Nesse tempo chegávamos ao natal
isto é um modo de dizer por carreiros de cabras
num labirinto de curvas e obras no pavimento que haveriam
mais tarde de justificar discussões políticas sobre
o emprego dos fundos comunitários
uns diziam que era preciso o progresso avançar
assim ao ritmo do asfalto cortando declives
aproximando as encostas de um e de outro lado do vale mesmo
ou sobretudo que a urze e a lírica passassem ao caralho
outros que na educação e na formação é que estava
o futuro de um povo e por essa altura vá
lá saber-se porquê dava-se como exemplo a dinamarca.

As minhas primas cagavam-se no discurso ideológico e
metiam-se às costelas de vinho e alho à carne da peça
às rabanadas e ao vinho quente das fatias de parida
a lírica delas eram os sonhos fritados às colheres até
rebentar ou golpearem-se à tesoura
as filhós as orelhas de abade o
bolo de monja com seu bico de grinalda e muitos ovos que
as galinhas quase nem davam posto e
na consoada amandavam-se gulosas ao polvo e
ao bacalhau cozido e à couve galega idem com
azeite de vila flor a escorrer-lhes salvo seja
dos carnudos lábios adolescentes
que era um mimo.

E chegávamos também ao natal pelo
tronco dos vidoeiros antes da neve e pelo fogo do pobo e
pelo presépio nos degraus da câmara
com musgo e serradura nos caminhos e santinhos de barro
esculpidos decerto em braga em tamanho natural que
a gente era como se o menino jesus se tivesse acabado de nascer
e até se benzia mesmo antes da missa do
galo quando o meu tio baptista bêbado que nem uma puta
rezava o pai nosso em siríaco e a família
tapava o rosto com as mãos muito
dividida entre o orgulho na erudição clássica do
velho seminarista e a vergonha pela sua queda em
sentido literal pelo tinto de valpaços.

A verdade é que tudo agora é difuso e insípido
a gente chega ao natal de auto-estrada pagando as portagens
e ele é o algodão dos pinheirinhos de plástico com
o logótipo da sociedade ponto verde a
garantir que tudo será tão reciclado que
apetece logo poluir o alto do larouco
a gente chega ao natal e ao meu tio baptista dão-lhe
comprimidos e chá de cidreira
e até o clafouti de maçã reineta já não leva conhaque e vai
ao forno com manteiga sem sal e
as minhas primas muito magras erguendo-se a medir a cintura
discutem a dieta e as sessões de mesoterapia
e se bem compreendo não fodem nem com os legítimos esposos se
a retoiça não vier especificada na tabela de calorias do livro que
é agora uma bíblia
da senhora doutora isabel do carmo.

Que saudades da neve se
ao menos nevasse
penso por instantes enquanto
venho à rua e acendo um cigarro
às quatro da manhã.

José Carlos Barros


Viseu by night ...

... last night






Feliz Natal

... deseja este modesto estabelecimento 
a todos os clientes e amigos.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

E as gorduras, pá?

Caro Pedro Passos Coelho,
as Direcções Regionais de Educação 
— esses viveiros da boyiada cor-de-rosa-laranja — 
eram mas agora já não são para lipo-aspirar? *
Na capa do Público de hoje
* Com conhecimento a Nuno Crato, ministro da educação.

Mala de cartão *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

     Nas vésperas dos natais de 2009 e 2010 publiquei aqui duas histórias que tinham a ver com esta quadra. 
     Em 2010 contei a história de um homem em viagem na A24, a história de um beirão cujos pais tinham ido “a salto” para a França no tempo de Salazar e agora os seus dois filhos, ambos doutorados, eram também emigrantes, tal e qual como no tempo do botas de Santa Comba Dão. 
     Em 2009 contei aqui, também num conto de Natal, a neura de um trabalhador da Visabeira que, com sacrifício, fizera a sua querida filha “doutora” para ela, depois, só ter conseguido arranjar um part-time num call center e uns meses de caixa no Intermarché a substituir uma grávida. Perante esta vida sem vida, a rapariga decidira emigrar para a Austrália e o nosso homem, roído de saudades antecipadas, cismava cheio de raiva: «Merda de país! Forma doutores para os pôr nas caixas dos supermercados…»

Imagem daqui

Estas palavras fizeram arrepelar os cabelos da oposição.

O facto é que o primeiro-ministro não fez mais do que chover no molhado.



     Corruptas e predadoras, as nossas elites desbarataram décadas de fundos comunitários e de receitas de privatizações e, com isso, provocaram uma hemorragia fatal: a nossa geração melhor preparada de sempre está, há anos, a ir-se embora. Os contos de 2009 e 2010 contam essa tragédia. 
     Quando todas as portas se fecham, a emigração pode ser para os nossos jovens o “animal que espeta os cornos no destino” de que fala Natália Correia no seu belo poema “Queixa das almas jovens censuradas”. 
     Agora os nossos novos emigrantes têm mundo, têm um computador carregado de informação na mochila e já não, como no tempo de Linda de Suza, uma mera mala de cartão.


"And Now For Something Completely Different" (#60)




Para 
guitarristas zangados 
com 
Unicre

Figura — fundo

A pêra vermelha, de Ewa Gawlik


a pintura, digamos,
               é mentira

isto é:
      uma pêra
      pintada
      não cheira

       não se dilui 
    em xarope,
    água rala e azeda, é
    pintura e por isso
    dura
mais que qualquer pêra verdadeira

e por isso também, digamos,
    a pêra pintada a falsa
   pêra
   por ser mentira
   (por ser 
   cultura e não natura)
   desta sorte
         nos alivia
        da perda e do podre
        da morte

e se a mentira fosse verdadeira ?
como fazê-la ?

mas escute:
            o que é falso
é a pêra que a pintura figura
não a pintura
            a cor
            o traço
            a pasta
            a fatura
por que então
não fazer
em vez da pintura-pêra
a pintura pura?

a verdade é que
a fruta pintada
não tem carnadura
não se pode comê-la
- é impaste, tintura
na tela
mas pode - e por isto -
ser bela
e, de outra maneira,
verdadeira

é que a fruta-pintura
        é apenas figura
        sobre um fundo
        de tela
        (de tinta
        de pasta)

mas
    e se a beleza
    não basta?

e se o pintor
    quer fazê-la
nascer da pasta
do fundo
(do fundo do fundo)
como a pêra real nasce do mundo?

(onde começa a pêra?
   na pereira? onde
começa a pereira?
   em que dia?
   em que hora?
   em que século?
surgiu
   a árvore da pêra?

   a cor 
   da pêra? o sabor
   da fruta pêra?)

E o pintor então dissolve
     a figura da pêra
na pasta escura do fundo
          para
    sem mentira
   dizê-la
   e nela
   dizer o mundo

Pintar a partir de então
     é despintar
     fundir a forma
     na escuridão
   (na pasta, na lama)
     fundir os brancos
   os verdes os azuis
     na suja
     matéria sem luz

e assim
      pelo avesso
o pintor
chega ao fim
isto é, ao começo:
     da pasta escura
     (do fundo pintado)
ressurge a figura

(ao contrário
de antes, quando
da figura
nascia o fundo).
                                                                             Ferreira Gullar

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

JS-Viseu

Afinal, ainda há alguma oposição ao dr. Ruas.
 
Este blogue saúda a JS-Viseu.


Nenhum deputado eleito pelo distrito de Viseu votou contra as portagens

     Mais uma vez se viu nesta votação de hoje no parlamento: os deputados não têm que prestar contas aos eleitores, os deputados têm que prestar contas a quem os põe nas listas.  Esta entorse à democracia vai estoirar com a terceira república.
   Destaque pela positiva a seis deputados do PS: Pedro Alves, André Figueiredo, Fernando Serrasqueiro, Rui Santos, Glória Araújo e Hortense Martins.

     O sr. Paulo Campos — o inventor dos "chispes" das matrículas, dos pórticos big-brother e da renegociação das Parcerias Prejuízos Públicos Proveitos Privados com os srs. Mota Coelho Espírito Santo Engil e afins —, anuncia uma declaração de voto.
     Infelizmente para o "novo ciclo" de António José Seguro, Paulo Campos vai continuar a arrastar-se no parlamento, como uma alma penada, a lembrar os tempos alcatroados do negocismo socrático.

Amor da palavra, amor do corpo

Fotografia de Frank Doorhof
A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que não te vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
António Ramos Rosa

Foi o "Zé da Lusa" agora é o "Zé da Pinha"




O grande 
José Guilherme Lorena

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Solstício de inverno

Fotografia de Ouyang Xingkai

Noite maior

 

Agora nos calamos
já não mais cantamos.
Nosso passo é pesado.
É a noite, o seu tempo é chegado.

Dá-me a tua mão,
Talvez que seja longo este caminho ainda.
E a neve cai, a neve!
O Inverno em terra estranha nunca finda.

Onde está o tempo
em que uma luz, um lar por nós ardia?
Dá-me a tua mão.
Talvez que seja longo este caminho ainda.

Hermann Hesse, 
trad. Jorge de Sena

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Coreia do Norte a república mais monárquica do mundo ou a diferença entre o autoritarismo e o totalitarismo

Kim Jong-il, o "querido líder", 
filho do "grande líder" Kim Il Sung
e o poder deve passar para o filho do filho Kim Jong-un que não se sabe se já tem descendência.




A morte do "querido líder" desencadeou a mesma histeria que aconteceu em 1994, 
com inúmeras carpições televisionadas 
para amplificarem o luto da nação em estupor.





     Convém lembrar: os sistemas totalitários são diferentes dos autoritários. 
     Nestes as pessoas podem "viver habitualmente" se não se meterem em política.
     Já nos sistemas totalitários toda a vida das pessoas é invadida, trespassada e contaminada.
      Os sistemas autoritários controlam o "fora" das pessoas, os sistemas totalitários invadem o "dentro" das pessoas.

Para memória futura

Ajude-se a Madalena

Trabalho de Luís Belo (daqui)





Deixa o tempo

deixa o tempo fazer o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia

abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro

com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto.
                                                                         Ana Paula Inácio

domingo, 18 de dezembro de 2011

"And Now For Something Completely Different" (#58)

Muito melhor que o jackpot no euromilhões.
Infinitamente melhor.

Situação da indústria portuguesa no início da década

Fotografia de Kristoffer Lönnå

Às vezes, quando a pressão das entregas
aumenta, ajudo a carregar os camiões,
mas o envenenamento é o fim-de-linha,
onde cada tarefa é como a execução
de um castigo. Pagam-me mal, mal tenho
tempo para comer um pão ao meio-dia, sinto
que a força dos meus dezasseis anos não corresponde
ao parco salário que me devem.
De aqui a uns anos, irei cumprir
o serviço militar, perderei a precariedade
do emprego, ainda ontem uma das mulheres
quase ficou sem um braço no sector velocíssimo
da transformação. Servir a pátria é, começo
a não ter dúvidas, sofrer esta amargura
endémica, a pobreza a alcançar-nos
em pouco mais de um passo, os olhos
corrompidos pelo vinagre da luminosidade,
a consciência das coisas ilegítima
na compreensão da linguagem, eu calo-me,
os outros falam por mim. Olho em volta, sinto
inexplicavelmente a natureza fortuita das coisas,
embrenho-me aos domingos na multidão
triunfante, gasto em vinho a humilde alegria
que as pequenas vitórias me consentem,
tremem-me as mãos só de pensar que existe
amor no mundo, algures, longinquamente,
no infinito da nossa ignorância. Gostava
de saber o nome deste usufruto da terra,
quais as cumplicidades que tornam tudo isto possível,
em que lugar de fogo e de agrura
o rosto corresponderá ao rosto e o silêncio
a esta forma de fome secular. Tudo é assim
liminarmente sujo, carregado de sangue
e de arestas, e duvido das proféticas sentenças
sobre a vida que me oferecem,
sem que as contemple, ao menos um instante.
Ao fim da noite, aconchego-me ao sol da praia
predilecta do meu coração, tudo me dói,
é um lençol de luz e solidão o que recebo, creio
na morte como única solução, maldito quem
por minha vez alguma vez pecou
sem que ratificasse a estranha recompensa
de ter aberto uma passagem para nenhum lugar.
Agora estou aqui e não posso pensar, uma outra
carga chama-me, obedeço cegamente
ao encarregado geral, ninguém suspeita
mas tenho dentro de mim uma indústria
onde ninguém produz porque não vale a pena.
Amadeu Baptista

sábado, 17 de dezembro de 2011

Nada há mais instável do que o passado



Fala

Fotografia de Keith Bernstein

Fala a sério e fala no gozo
Fá-la pela calada e fala claro
Fala deveras saboroso
Fala barato e fala caro
Fala ao ouvido fala ao coração
Falinhas mansas ou palavrão
Fala à miúda mas fá-la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe
Fala francês fala béu-béu
Fala fininho e fala grosso
Desentulha a garganta levanta o pescoço
Fala como se falar fosse andar
Fala com elegância - muito e devagar.

Alexandre O'Neill



sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Uma mensagem mandada para o Facebook da Vereadora da Cultura de Viseu ...

... acabou com a paciência do dr. Alberto Correia e ele decidiu falar acerca do Museu Etnográfico da Várzea de Calde sem meigura nem contemplação.
Fotografia de Nuno André Ferreira
Alberto Correia leva tudo raso,
desde as unhas pintadas da directora Raquel Greenleaf, 
até ao despacho dominical no Facebook
da vereadora da cultura Ana Paula Santana.

Com este episódio, Fernando Ruas vai compreender que 
— embora tenha pouca ou nenhuma oposição do PS, depois da deserção de Miguel Ginestal  —, 
os sarilhos vão chegar-lhe do seu partido se continuar a varrer os problemas para debaixo do tapete.

É que, a partir de agora, a luta pela sucessão vai criar cada vez mais tensões dentro do PSD.

Fica aí a fotografia da Carta Aberta.
Vale a pena lê-la no Jornal do Centro.

Pôr-se a jeito

     Enquanto o pessoal de topo do governo e dos partidos de direita amaciam e afagam o ego de António José Seguro, a tropa intermédia do PSD e do CDS, nos media e nas redes sociais, está a funcionar como um relógio a dizer duas coisas:
     — o PS é irresponsável a gastar;
     — o PS é caloteiro a pagar.
     

Ora, 
em Castelo de Paiva, 
é mesmo o PS, 
no seu melhor, 
a pôr-se a jeito.

"And Now For Something Completely Different" (#57)

Baleia agradece salvamento com acobracias.

Acordismos *

* Publicado hoje no Jornal do Centro


Desde a minha terceira classe que não dava erros ortográficos. Agora, de quando em vez, dou. A nova ortografia — que ainda não escrevo mas que já vou sendo obrigado a ler — tornou a minha escrita insegura. Não é importante, mas irrita.
      
Como escreveu Miguel de Sousa Tavares em Agosto, o novo acordo ortográfico assinado entre Portugal e o Brasil é um “acto de desforra colonial através do qual nós traímos a nossa língua e eles não passaram a respeitar-nos mais por isso — antes pelo contrário.”
      
Ironia: Miguel Sousa Tavares escreveu isto no Expresso, o primeiro jornal acordista português. Pinto Balsemão, avarento como é, quis logo poupar tinta nas consoantes mudas.
      
Os acordistas costumam dizer que é agora, com esta (tentativa de) uniformização ortográfica, que a língua portuguesa vai ter uma importância transcendente no mundo. Esse argumento não vale, evidentemente, um caracol: os ingleses chamam ao vizinho “neighbour”, os americanos chamam-lhe “neighbor”, e não é por isso que a língua inglesa perde a importância planetária que tem.
      
A língua portuguesa será tanto mais importante quanto mais se afastar da uniformização que querem os acordistas. Não é bom termos uma língua portuguesa, é bom termos muitas línguas portuguesas.

É bom, por exemplo, termos o português de Reinaldo Moraes que, na sua acabada de editar entre nós “Pornopopeia”, escreve assim: 
     
“Pra ganhar o pão, babaca. E o pó. E a breja. E a brenfa. É cine-sabujice empresarial mesmo, e tá acabado. 
     
Cê tá careca de fazer essas merdas. Então, faz e não enche o saco.” 
      
Acordista, não enche o saco. Mania tua de carimbar como velho do Restelo quem desacorda o acordo, mermão.  Ganha lá os teus euritos a dar acções de formação sobre a coisa, toda a gente precisa de ganhar o pão, babaca.