terça-feira, 30 de novembro de 2010

Noite


Slavic Soul Party "Baltica"

Quando pela noite chegas dissolvem-se as trevas
e eu partir não quero porque esta é a noite
que ilumina o dia, canto do silêncio, eco subtil
no discurso do mundo. Quando pela noite chegas
é meu o teu amor, e a morte tarda doce como o mel.
                                                                                               Ana Marques Gastão

Tarte e maionese* ...

     No dia 30 de Março, William Kristoll, um neo-conservador, editor da Weekly Standard, fazia um discurso sobre política externa no Earlham College, quando levou com uma tarte na cara. 
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     Cristol não deu parte de fraco. Limpou a cara com uma toalha de papel, e disse: «Deixem-me acabar este ponto.» Prosseguiu o seu discurso, respondeu a perguntas da audiência, e ficou ainda mais meia hora a conversar, nos bastidores, com alguns estudantes.
     Dois dias depois, na Western Michigan University, Pat Buchanan, ex-candidato presidencial e também das direitas, quando já estava no período de perguntas e respostas, levou com maionese na cara. O atirador gritou: “Abaixo o fanatismo!”. 
Imagem daqui
     Pat Buchanan acabou logo ali a sessão com um: «Obrigado por terem vindo mas eu vou ter que ir lavar a cabeça.”
     Deve dizer-se que nem as tartes nem a maionese são grande coisa como argumento e não são defensáveis como ferramenta de debate.
     Contudo, reconheça-se: uma dose de maionese é mais fulminante que uma tarte.

* Parte final de um texto publicado no Jornal do Centro, em 15 de Abril de 2005

2D — pixels; 3D — voxels *

     1. Os écrans têm duas dimensões: largura e altura; dar a ideia da terceira dimensão, dar ideia da profundidade, não é fácil. No tempo dos equipamentos analógicos, usavam-se uns óculos, com uma lente vermelha e outra verde, para ver fotografias e filmes a três dimensões. A ideia era fornecer duas imagens ligeiramente diferentes, uma para cada olho. Olhadas à vista desarmada, as imagens pareciam desfocadas e sem definição. Com os tais óculos, o cérebro do espectador processava as imagens em 3-D.
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     Tenho uma velha revista com fotografias 3-D, fotografias estereoscópicas, obtidas por duas máquinas fotográficas, a trabalharem em simultâneo, com uma pequena diferença focal. Nestas fotos “em relevo” é possível perceber a “profundidade de campo” de alguns modelos femininos muito bonitos e topográficos.
     Em resumo, para explicar melhor o conceito, diria que, com aqueles óculos, é fácil constatar que uma imagem da Marisa Cruz tem muito mais “profundidade de campo” que uma imagem do João Pinto.
     No cinema também houve incursões ao universo da 3-D, exactamente usando os tais óculos bicolores. Um exemplo clássico, é “A Criatura da Lagoa Negra”, um filme de 1954. Da experiência as pessoas não guardaram grande ideia: o uso dos óculos é difícil e uma maçada. Ainda por cima, o filme era de meter medo ao susto, não por ser um filme de terror, mas por ser mau. 

     2. Agora é possível tratar mais massa de informação. As pessoas têm acesso a câmaras de vídeo e a máquinas fotográficas que produzem imagem digitais, de duas dimensões, com boa definição e qualidade.
     A capacidade desses equipamentos é aferida pelo número de pixels. Por exemplo, a minha máquina fotográfica tem 3,2 megapixels.
     Dentro de algum tempo, em vez de pixels, estaremos a falar de voxels, unidade de informação volumétrica. A Light Space Technologies, tem um Depth Cube, com tecnologia de cristais líquidos, que já consegue converter 15,3 milhões de voxels (1024x748x20) em mais de 465 milhões (1024x748x608). Dá para perceber da qualidade das imagens produzidas e que são trabalháveis com a mesma intuitividade com que se trabalha em gráficos 3-D.
     Para já, estas tecnologias serão limitadas a usos profissionais. Cirurgiões vão poder seguir, numa televisão 3-D, o percurso de um cateter num coração a pulsar. Não será ficção científica a ideia duma imobiliária, em Nova Iorque, poder proporcionar uma visita realista a um apartamento em Los Angeles ou em Lisboa.
     Resta-nos esperar pela descida dos preços e por o que o pessoal vai fazer com imagens tão tácteis. 
 
* Parte de um texto publicado no Jornal do Centro, em 15 de Abril de 2005

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Late fragment


Kronos Quartet - Lux Aeterna (Live 2008)

And did you get what
you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved, to feel myself
beloved on the earth.

                                                                          Raymond Carver                                       

Dos nacionalismos

Imagem daqui
     «Penso que a história é muito poderosa.
     Devo dar-lhes o crédito [aos historiadores do século XIX] de terem inventado um passado em relação ao qual temos dificuldade em fornecer uma alternativa.
     E o que eu digo é que esse passado inventado, que tenho chamado de resíduo tóxico, feito de antagonismos étnicos, ainda está enraizado na forma como os povos entendem aquilo que são.»
Patrick Geary,
entrevista ao Ípsilon 17/10/2008

Armando Vara saiu ...

... mas, como se vê, faz muita falta ao Millenium.
Agência de Viseu

domingo, 28 de novembro de 2010

Cedo ou tarde


Elephant Parade: Goodbye

Devias saber
que é sempre tarde
que se nasce, que é
sempre cedo
que se morre. E devias
saber também
que a nenhuma árvore
é lícito escolher
o ramo onde as aves
fazem ninho e as flores
procriam.
                                                      Albano Martins

Pobreza e exclusão social





Exposição fotográfica
Produção: Zunzum - Associação Cultural








Mercado 2 de Maio
Praça das Magnólias 
(junto à Rua Formosa)
Viseu


 Uma tempestade...



... por todo o lado
Viseu, hoje

Da decadência

Jacques Barzun *

     «Quando as pessoas aceitam a futilidade e o absurdo como coisas normais, a cultura está decadente.
     O termo não é uma crítica, é um rótulo técnico.
     Uma cultura decadente oferece oportunidades principalmente aos satíricos, e o dobrar do século XV teve bastantes um do quais grande: Erasmo.»


in Da Alvorada à Decadência,
500 Anos da Vida Cultural do Ocidente
* Imagem daqui

Jim Rogers: "A Irlanda deve declarar falência!"

     Fazer empréstimos de 80% do PIB para salvar os bancos irlandeses? 
     Jim Rogers diz não. Defende a "omnifalência":
     «Os bancos que emprestaram dinheiro e fizeram asneira devem perder esse dinheiro. Os accionistas desses bancos devem perder dinheiro.»
     No fim, diz ele, a UE ficará mais forte:

sábado, 27 de novembro de 2010

Eric Cantona e os bancos *

     «Vais ao banco da tua terra e retiras o teu dinheiro. Se 20 milhões de pessoas fizerem isso, o sistema colapsa. Sem drama, sem sangue...»



     Conclusão do post às 22:55, enquanto em Alvalade se empata: 
     Claro que as opiniões do Cantona sobre a crise sistémica global valem o que valem.
     Como as sondagens do sportinguista Rui Oliveira e Costa. 
    O único ex-futebolista que era capaz de dizer umas coisas acertadas era o maradona e até já deve ter dito mas ele tem a mania de apagar os posts lá do blogue dele.

Joaquim

Imagem daqui
   «Quando nasci os meus pais eram comunistas.
    Quiseram dar aos filhos nomes populares e acharam, erradamente, que Vasco era um nome popular.
    Joaquim sim, seria um nome popular.»
Vasco Pulido Valente,
entrevista ao jornal I., 7/8/2009

A serra é alta


17 Hippies "UZ"

A serra é alta, fria e nevosa;
vi venir serrana gentil, graciosa.

Vi venir serrana, gentil, graciosa;
cheguei-me per’ela com grã cortesia.

Cheguei-me per’ela de grã cortesia,
disse-lhe: senhora, quereis companhia?

Disse-lhe: senhora, quereis companhia?
Disse-me: escudeiro, segui vossa via.
                                                                                   Gil Vicente

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Não pode comigo

Kristin Hersh - Echo
No puede conmigo
la tristeza
la arrastro hacia la vida
y se evapora.
                                    Claribel Alegria

Ir ao ponto

Imagem daqui
     Hélder Amaral* acaba de passar uma tarefa ao grupo de trabalho PS/PSD que vai avaliar as concessões público-privadas, as bem conhecidas PPPPP (parcerias prejuízos públicos proveitos privados).
     Indo ao ponto,  o que o deputado do CDS-PP diz pode-se resumir assim: deixem-se de "política de trazer por casa" e façam avançar a auto-estrada Viseu-Coimbra.

* Hélder Amaral defende o princípio do utlizador-pagador para as auto-estradas.  Portagens, portanto. 
Mas votou contra os "chispes" das matrículas do secretário de estado Paulo Campos e do seu ex-assessor.   
Continua-se à espera que ele diga o que pensa da "taxa administrativa" que está a ser cobrada nas "ex-Scut".

Hoje no Politécnico de Viseu, música solidária

NATO *


* Publicado hoje no Jornal do Centro
     
A NATO e o Pacto de Varsóvia eram duas faces da mesma moeda a que se chamava Guerra Fria. Já passaram duas décadas sobre o desmoronamento do império soviético. Agora que a poeira assentou, é interessante olhar-se para o que aconteceu.
     
É verdade que o regime comunista estava tão senil como os velhos que mandavam no comité central. Mas foi o descontentamento do povo que verdadeiramente fez cair o império soviético?
     
David Kotz e Fred Weir, dois peritos em assuntos russos, defendem que não. Na ex-URSS as coisas não aconteceram por nenhuma movimentação popular pró-democracia.
     
A tese deles é a seguinte: as elites que controlavam a URSS perceberam que era melhor para os seus interesses que o império soviético caísse, pois eram essas elites que iam ficar com os despojos. 
Imagem daqui
     
E foi isso que, de facto, aconteceu: os políticos mais poderosos e os oligarcas multi-milionários que emergiram na nova Rússia era tudo gente que pertencia à classe dirigente comunista, a começar por Putin e Ieltsin que foram do topo do KGB para o topo do estado. 
     
As teorias do triunfo imparável da democracia que nos animaram a seguir à queda do muro de Berlim têm que ser temperadas com a observação destes factos.
     
E, infelizmente, há ainda mais más notícias para as democracias liberais. A somar à pressão dos fundamentalismos, os efeitos da crise sistémica global estão a minar todos os dias os sistemas de protecção social em que assentam a moderação e a paz social das sociedades abertas.
     
Depois do colapso soviético, a NATO tem feito sucessivas revisões estratégicas — em 1991, em 1999 e, agora, em 2010 em Lisboa. A sua crise de identidade continua.
     
Para já, a NATO vai retirar do Afeganistão. Com o rabo entre as pernas. Tal como fez Mikhail Gorbatchev, em 1989, na véspera da implosão soviética.


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Da Rússia

Imagem daqui
     «Se bem que, em dado momento histórico, as elites russas tenham optado por uma maior aproximação à Europa, a ancestralidade da sua população é marcadamente oriental, tal como parecem  revelar alguns dos seus atributos psicológicos, verdadeiramente asiáticos, como a paciência, a resistência física, a capacidade de suportar a dor e o sofrimento, e o respeito e a submissão perante a autoridade.»
Maria Regina Marchueta,
in O Conceito de Fronteira

Não escute


Sainkho Namtchylak — Old melodie

Não escute meu choro
quieto:
eu sou um deserto
e preciso chorar

Não escute meu amor
fugidio:
eu sou um rio
e preciso passar

Não escute meu sorriso
constante:
eu sou um instante
e preciso durar
                                                  Elizabeth Hazin

Ele e ela (#9) *

     — Olá! Há tanto tempo que não te via… ainda te lembras de mim?
     — Claro, fomos da mesma turma no liceu…
     — Eras o melhor aluno da turma.
     — Sim, mas quem tirava as melhores notas era o Chico.
     — Então que fizeste nestes anos todos?
     — O trivial: ganhei dinheiro, perdi cabelo.
     — Casaste? Tens filhos?
     — Eu?! Eu sou um solitário…
     — Não acredito!
     — Verdade. Estou mais sozinho que a eólica que se vê na A25, junto ao nó de Talhadas. Gosto de chamar aventoinhas às eólicas.
     — Aventoinhas? Bonito!
    — As aventoinhas são sempre muitas, umas ao pé das outras. Só conheço uma aventoinha solitária, aquela na A25. Aquela aventoinha é como eu, sozinha, a abanar ao vento…
     — Então e a tua namorada do liceu? Tu continuaste com ela na faculdade…
     — Só que entretanto o Chico comprou um Porsche descapotável…
     — …?!
     — Depois, aos 35 anos, ainda estive noivo de uma dentista.
     — Alguém do nosso tempo do liceu?
     — Não. Era lisboeta. As coisas estavam encarreiradas. Data marcada para o casório e tudo…
     — Que aconteceu?!
     — …o Chico teve um problema num dente e foi lá ao consultório…
     — …?!
     — A partir daí não quis mais nada a sério com ninguém…
     — Fico triste. Se há alguém que merecia ter tido sorte, és tu. Sempre te admirei muito…
     — Foi uma surpresa tão boa ver-te ao fim destes anos todos! Tu estás óptima! Podíamos ir jantar…
     — Gostava muito, mas não posso. Há bocado encontrei o Chico. Prometi que ia jantar com ele… 

* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008 e 2009 no Jornal do Centro.
Este #9 foi publicado em 21 de Agosto de 2009.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

E se fossem dar banho ao cão?

     Recebi por e-mail*  uma cópia de uma carta de um condutor do norte, que se identifica com número de BI e do Contribuinte, a explicar razões porque  passa nos pórticos electrónicos  e — como não há lá sítio para poder pagar da forma tradicional nem Livro de Reclamações — não paga.
     Transcrevo um parágrafo:
    
«Atentem nesta "JÓIA" exemplificativa de autêntica extorsão: No trajecto A3-Alfena, utilizando cerca de um quilómetro da A42.... o valor da passagem são 0,20€ e o valor do serviço administrativo são.... 0,30€  !!!!!! É para RIR???? então o custo administrativo é superior ao custo do Serviço??? Vão gozar com o c..........lho!!!!!!»
Imagem daqui
     Acontece a mesma filha-da-putice a quem vai na A25 para o litoral. Pelos 900 metros até se poder sair no nó de Angeja paga-se de portagem €0,25 e paga-se de "taxa administrativa" €0,30.
     E se fossem dar banho ao cão?
* Reenvio cópia integral da carta a quem o solicitar para joaquim.alexandre.rodrigues@netvisao.pt.

Os imprescindíveis


Marianne Faithfull - "Working Class Hero" (live)
Há aqueles que lutam um dia; e por isso são bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.
                                                                                                  Bertold Brecht

O profeta

Pouco antes de morrer
disse ele ao povo:

Deus te dê ira,

que paciência tens cabonde.

                                                                       Celso Emílio Ferreiro

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Um problema de cabeças

Hoje em Viseu:

Cosmopolis


Escreveu Torres Couto, ontem, no Público:  
     «Tamanha iniquidade e injustiça (...) só podem merecer a indignação e o protesto dos trabalhadores portugueses. Daí estarem criadas todas as condições para uma greve geral ordeira mas esmagadora.»

     «Esta greve tem que ser não só contra o Governo português, mas também e, fundamentalmente, contra o actual estados de coisas na União Europeia.»
Imagem daqui



      «Nesta economia regional e global onde estamos inseridos, a resposta sindical a este estado de coisas tem que ser transnacional.»

Notícias da Islândia (#2)

     Conforme este blogue notou aqui e aqui, Pedro Passos Coelho foi o primeiro político português de topo a falar na responsabilização civil e criminal dos responsáveis para que não continuem "a andar de espinha direita, como se não fosse nada com eles".»

     Está a circular uma "Petição em Defesa do Direito à Cultura" cujo terceiro ponto reza assim:
Gabriela Canavilhas
     «Não aceitamos a desresponsabilização da Senhora Ministra da Cultura, que imputa ao Ministério das Finanças a responsabilidade dos cortes anunciados.
     Um governante deve ser responsabilizado pessoalmente pelas medidas que anuncia e aplica. »

     Este é um sinal dos tempos: a doutrina islandesa vai alastrando.

O amor é o amor

Pink Martini "Let's Never Stop Falling In Love"

O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?..


O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!


Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!
                                                                     Alexandre O´Neill

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Publicidades *



O meu era o BI-97-16
    1. Nos finais dos anos 70, princípios dos anos 80, tive um Ford Escort GT, um lindo carro vermelho com motor generoso. Não era um BMW 2002 (um dos carros de sonho de então) mas, mesmo assim, era um carro muito bom, tão bom como os Datsun 1200 e os Toyotas Corolla que povoavam então as nossas estradas.
     Na altura, os percursores do actual tunning usavam os Minis 1275 GT, que submetiam a intervenções mecânicas exotéricas. Esses simpáticos carros eram, depois, dotados com uns pneus impressionantes que se esparramavam bem para fora dos guarda-lamas.
     Uma vez, um 1275 GT destes meteu-se comigo na N 16, no troço Viseu – S. Pedro do Sul. Ele ultrapassou-me e imediatamente se pôs à minha frente, a andar a 20 à hora. A seguir, naturalmente, eu passei-o para tentar viajar a uma velocidade adequada. Foi então a vez dele me passar outra vez e ficar a caracolear-se à minha frente. Estas manobras repetiram-se por vários quilómetros.
     Finalmente, na estrita obediência ao Código da Estrada, lá o passei a grande velocidade num sítio seleccionado, ganhei-lhe alguma distância graças ao trânsito e às curvas que conhecia muito bem, e escondi-me logo a seguir, fora da estrada. Segundos depois, a assobiar como um avião, passou o 1275 GT.
     O condutor deve ter ficado impressionado com o potencial do meu Escort GT. Nunca mais me viu. Ele ficou frustrado e eu fiquei com uma história para contar. 

     2. Na mesma estrada e na mesma altura, quem viesse de S. Pedro do Sul para Viseu, passada que era a passagem de nível de Abraveses e os seus solavancos no alcatrão, via do lado direito uma placa publicitária fascinante. Dizia ela: “Fazemos Antiguidades”.
     “Fazemos Antiguidades” é publicidade honesta. Publicidade que não esconde nada na manga. Mensagens assim põem directamente em causa a ideia de John Lukacs de que a hipocrisia é o cimento da sociedade.
     Tenho uma pena muito grande de não ter fotografado aquelas letras garrafais.
     Agora, mais de 20 anos depois, no cruzamento para o Aeródromo de Viseu, na N2, há um outdoor castanho que anuncia, a letras brancas, uma Fábrica de Arte Antiga. Repito: Fábrica de Arte Antiga. Gosto desta transparência. Ninguém mais me apanha desprevenido em casos destes: já lá fui tirar cinco fotografias.
(...)

*  Parte de um texto que foi publicado no Jornal do Centro em 14 de Janeiro de 2005

Tirar imperiais

   Como este blogue já fez notar, o secretário de estado Paulo Campos, "firme propagandista" dos "chispes" das matrículas, tem um "toque de Midas" especial: quem convive com ele fica bem na vida.
      Mas é bom saber tirar finos:
(Recorte recebido por e-mail, sem indicação do contexto desta coluna, nem do jornal de origem)

Do nacionalismo

George Steiner *
     «O nacionalismo é o veneno da história do nosso tempo. Nada é mais brutalmente absurdo do que a tendência por parte dos seres humanos de se atirarem às chamas ou de se matarem uns aos outros em nome da nacionalidade ou movidos pelo sortilégio pueril de uma bandeira.
     A cidadania é um pacto bilateral que está, ou deveria estar, sempre sujeito a um exame crítico, sendo, se necessário, revogável.»
George Steiner,
in O Sacerdote da Traição, New Yorker


* Imagem daqui

Onde páram os políticos eleitos com os nossos votos?

     Estamos a meses, a poucos meses,  da introdução de portagens na A25.
     Na segunda metade dos anos de 1990, aceitámos que fosse anulado o IP5 em vez de  ser  feita uma auto-estrada nova. Por isso, estivemos anos engarrafados em obras de duplicação, porque nos prometeram que a A25 não teria portagens. 
     Agora não temos alternativa porque a destruíram e querem pôr-nos a pagar 8 cêntimos por quilómetro e vão-nos querer engodar com uns descontos para "indígenas" durante uns meses, a que vão chamar "discriminação positiva".
   

  
      Os políticos que elegemos, de todos os partidos, estão paralisados ou, quando se mexem, é para ensaiarem umas manobras "passa-culpas" toscas.


  
     Fica aqui a fotografia de um homem que rompeu este nevoeiro de silêncio — José Couto, presidente do Conselho Empresarial do Centro *:
     «A região Centro é atravessada pela A25 que sucedeu ao IP5, não temos alternativa e [introduzir portagens] é de facto um travão à mobilidade das pessoas e das mercadorias.»


* Esta excelente entrevista à Rádio Noar e ao Jornal do Centro pode ser lida e ouvida aqui.

domingo, 21 de novembro de 2010

Agora é entre nós e os "mercados"

Imagem daqui

     New York Times, hoje:

Pub pesada

A verdadeira mão

 Bar Kokhba - Kisofim

A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta
                                                              Ana Hatherly

sábado, 20 de novembro de 2010

O ministro e o secretário de estado dos "chispes" das matrículas

Imagem daqui



     «Das 23 páginas da intervenção de Paulo Campos, o ministro [António Mendonça] ‘copiou' 18.»

Professor primário

Hermine Wittgenstein:
     «Tu a usares a tua mente treinada como um professor primário é o mesmo que alguém recorrer a um instrumento de precisão para abrir uma cratera.»

Ludwig Wittgenstein:
Imagem daqui
     «Lembras-me alguém que está a olhar através de uma janela fechada e não consegue explicar a si mesmo os estranhos movimentos de um transeunte que passa na rua.
     Esse alguém desconhece a tempestade que vai lá fora e, portanto, essa pessoa está talvez apenas a fazer um grande esforço para se conseguir aguentar em pé.»

O gato


A Cool Cat in Town,  by TAPE FIVE

Um gato, em casa sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.

O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel,
parece um objecto.

Fica assim para que o
invejem — indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem
a eternidade.
                                                  Nuno Júdice

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Sem rodas

Rua da Vitória — Viseu

€uro — história trágico-marítima

   
     Bond investors were invited to fear the worst."
The Economist, Nov 18th 2010

Mulher, casa e gato

Nosso Amor - Mehmari - Ozzetti duo

Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.

A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.

Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.
Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.

Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo com o amor do amor,
não só a palavra, mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.

No mundo tão concreto.

                                                                           Herberto Helder

Generosidade *


* Publicado hoje no Jornal de Centro
    
Como é sabido, todos os políticos, de todos os partidos, estão em competição para verem quem é o mais criativo na arte de engendrar receitas.
     
No Entroncamento, um vereador bloquista propôs uma taxa municipal sobre caixas multibanco que está agora em estudo técnico. Dias depois, uma vereadora socialista de Vouzela propôs o mesmo com o mesmo resultado — puseram os técnicos a “estudarem a possibilidade”.
"Multibanco da República", de Yann Thual
      
Este extraordinário caso deu origem a uma peça em quatro actos no blogue Olho de Gato:


Acto 1
     A câmara do Entroncamento, terra onde costumam nascer os fenómenos, equaciona uma equação: aplicar taxa às caixas multibanco na via pública.

Acto 2
     Carmo Bica, vereadora socialista na câmara de Vouzela, terra onde o melhor fenómeno é o pastel, decide equacionar a equação equacionada no Entroncamento.

Acto 3
     O presidente da ANMP, Fernando Ruas, diz que as autarquias têm que “deitar cada vez mais a mão a fontes que dêem dinheiro” mas — ao menos ele! — acha “muito mais transparente, muito mais correcto e muito mais justo” actuar junto do lucro dos bancos “pela via da fiscalidade”.

Acto 4
     Os bancos esfregam as mãos com a ideia. Eles estão mesmo à espera de um pretexto para finalmente poderem lançar a taxa sobre todas as operações no Multibanco que têm em projecto há muitos anos.
     
Mas, afinal, o que é uma caixa multibanco?  
Uma caixa multibanco é uma janela aberta numa parede para dar dinheiro.   
Portanto, uma caixa multibanco é uma janela generosa.  
Logo, esta taxa que está “em equação” é uma taxa sobre a generosidade.


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Cuba. Finalmente?

  
     «Não posso fazer algo a que não estou em condições de dedicar-me a tempo inteiro».

     Escrevi sobre estas inexoráveis leis da biologia num texto publicado no Jornal do Centro, em 28 de Abril de 2006, texto que teve um protesto da embaixada de Cuba.
     Recordo-o aqui:

Havana Blues


     1. No princípio de Abril, numa sessão do Cine Clube de Viseu, vi “Havana Blues”. Este filme foi realizado por Benito Zambrano, um espanhol nascido na Andaluzia e que fez os seus estudos de cinema em Cuba.
     Em Espanha, “Havana Blues” foi visto por mais de 300 mil pessoas, na altura do seu lançamento, na Primavera de 2005.
    Em Portugal, este filme está a ter uma carreira comercial modesta e é pena. É um bom filme a ver em cinema ou em DVD; a banda sonora de “Havana Blues” merece também ser metida num CD ou num MP3 para alegrar as nossas viagens de carro.

     2. O filme mostra-nos o underground musical de Havana. Os protagonistas, Ruy e Tito, têm um sonho: sair de Cuba e triunfar na cena musical internacional.
     O realizador diz que Cuba é só o cenário e que o filme fala daquilo que circula dentro das veias de todos os humanos: o amor, o ciúme, a amizade, o medo, o desejo de triunfar, a dúvida. Benito Zambrano diz: “o meu filme é sobre sentimentos universais”. Isso é verdade e o filme é belo por isso.
     Mas Cuba não é só o cenário do filme. A ditadura cubana obriga aquelas personagens àquela vida. Comove ver aquela gente ser assim, apesar de Fidel. Mas a vida daquela gente é assim por causa de Fidel.

     3. O mais insuportável nas ditaduras é que elas colocam os seus cidadãos perante dilemas morais todos os dias. Era assim, antes do 25 de Abril de 1974, em Portugal, terra de medos e de bufos da Pide.
     É assim ainda em Cuba. Como é evidente, não vou revelar no Olho de Gato qual é o dilema que é colocado no filme a Ruy e Tito. É um dilema dali, de Cuba, daquela gente, daquele país congelado, à espera que a biologia cumpra o seu papel e Fidel Castro saia de cena. De vez.

Fronteiras

As fronteiras fechadas são para não deixar entrar?
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Meu Chocolate


Ao leite ou derretido
Com passas ou crocante
Puro ou pervertido
Com recheio
É excitante
Eu saboreio
Te mordo
E meu corpo todo
Lambuzada
Chocolate
Fina arte
Transformada
Misturada
Ao sabor supremo
Meu chocolate
Meu veneno
Você é arte
Só você extermina
Minha melancolia
Você, serotonina
Que me vicia
                         Liz Christine