sábado, 30 de outubro de 2010

Da problemática da fruta ...

     Achei a fotografia do telemóvel de Eduardo Catroga no blogue Corta-Fitas que chama a atenção para a fruta na mesa.

     Percebe-se a laranja do lado de Eduardo Catroga, mas do lado de Teixeira dos Santos não devia estar um melão?

O gato melómano


Neurolinguística

Quando ele me disse
oh linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez. 

Adélia Prado

O gato leitor

Imagem daqui
     «O novo contrato permite à concessionária uma remuneração accionista da ordem de 14%. O nível desta taxa mostra-se desproporcionado, face ao elevado nível de risco incorrido pelo concedente público do projecto.»
Imagem daqui
Imagem daqui
     «Durante as negociações, com o acordo do concedente público, esta taxa subiu não menos que três pontos percentuais, uma vez que a proposta inicialmente apresentada pelos parceiros privados era de uma taxa de 11%.»
Carlos Moreno,
in Como o Estado Gasta o Nosso Dinheiro

Sensatez

O Olho de Gato já tinha chamado a atenção para a necessidade de se repensarem as grandes obras de Viseu, num post intitulado "O futuro TGV laranja de Viseu?".
     
A conjuntura nacional é muito melindrosa pelo que "cautela e caldos de galinha" são mais que necessários.
     
      
É uma decisão sensata do presidente da câmara de Viseu. 
Imagem daqui
     
Das obras agora congeladas, a nova ETAR é , de longe, a mais prioritária e estrutural e que merece um esforço extra para a sua concretização.
     
Neste dossier de dezenas de milhões de euros o PS concelhio não teve nenhuma intervenção, nenhum pensamento político. 
     
Uma inexistência.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O gato melómano


Papel Molhado

Com rios
com chuva
ou orvalho
com sémen 

com vinho
com neve
com pranto
os poemas
sempre
são
papel molhado
Mario Benedetti

Tenho que pagar para pagar porque um dia posso querer? *

Contribuinte: Gostava de comprar um carro. 
Estado: Muito bem. Faça o favor de escolher. 
Contribuinte : Já escolhi. Tenho que pagar alguma coisa? 
Estado: Sim. Imposto sobre Automóveis (ISV) e Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA). 
Contribuinte: Ah... Só isso. 
Estado: ... e uma coisinha para o pôr a circular: o selo. 
Contribuinte : Ah!.. 
Estado: ... E mais uma coisinha na gasolina necessária para que o carro efectivamente circule. O ISP. 
Contribuinte: Mas... sem gasolina eu não circulo. 
Estado: Eu sei. 
Contribuinte : ... Mas eu já pago para circular... 
Estado: Claro!... 
Contribuinte: Então... vai cobrar-me pelo valor da gasolina? 
Estado: Também. Mas isso é o IVA. O ISP é uma coisa diferente. 
Contribuinte : Diferente?! 
Estado: Muito. O ISP é porque a gasolina existe. 
Contribuinte: ... Porque existe?! 
Estado:  Há muitos milhões de anos os dinossauros e o carvão fizeram petróleo. E você paga.
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Contribuinte : ... Só isso? 
Estado: Só. Mas não julgue que pode deixar o carro assim como quer. 
Contribuinte: Como assim?!
Estado: Tem que pagar para o estacionar. 
Contribuinte: ... Para o estacionar?
Estado: Exacto. 
Contribuinte: Portanto, pago para andar e pago para estar parado? 
Estado: Não. Se quiser mesmo andar com o carro precisa de pagar seguro. 
Contribuinte : Então, pago para circular, pago para poder circular e pago por estar parado.
Estado: Sim. Nós não estamos aqui para enganar ninguém. O carro é novo?
Contribuinte: Novo?
Estado : É que se não for novo tem que pagar para vermos se ele está em condições de andar por aí. 
Contribuinte: Pago para você ver se pode cobrar? 
Estado: Claro. Acha que isso é de borla? Só há mais uma coisinha... 
Contribuinte : ... Mais uma coisinha? 
Estado: Para circular em auto-estradas... 
Contribuinte: Mas... mas eu já pago imposto de circulação. 
Estado: Pois. Mas esta é uma circulação diferente. 
Contribuinte: ... Diferente?
Estado: Sim. Muito diferente. É só para quem quiser. 
Contribuinte:: Só mais isso?
Estado: Sim. Só mais isso. 
Contribuinte: E acabou?
Estado: Sim. Depois de pagar os 25 euros, acabou. 
Contribuinte: Quais 25 euros?! 
Estado: Os 25 euros que tem de pagar para andar nas auto-estradas. 
Contribuinte: Mas não disse que as auto-estradas eram só para quem quisesse? 
Estado : Sim. Mas todos pagam os 25 euros. 
Contribuinte : Quais 25 euros? 
Estado: Os 25 euros é quanto custa o chip. 
Contribuinte: ... Custa o quê?
Estado: Pagar o chip. Para poder pagar. 
Contribuinte : Não percebi... 
Estado: Sim. Pagar custa 25 euros. 
Contribuinte: Pagar custa 25 euros? 
Estado: Sim. Paga 25 euros para pagar. 
Contribuinte: Mas eu não vou circular nas auto-estradas.
Estado : Imagine que um dia quer? Tem que pagar. 
Contribuinte: Tenho que pagar para pagar porque um dia posso querer? 
Estado: Exactamente. Você paga para pagar o que um dia pode querer. 
Contribuinte : E se eu não quiser? 
Estado: Paga multa!

* Recebido no e-mail do gato.

Chuva = míscaros

     Chove chuva outonal a sério. 
     Esta abençoada chuva é boa para os míscaros, as sanchas, os cogumelos, os santieiros.
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     É um tempo de  fartura nas matas das nossas aldeias que precisam desesperadamente de dinheiro. 
     Os cogumelos são uma bênção dos pobres. Há gente que mete férias agora e ganha agora o que não ganha a trabalhar no duro no resto do ano.
     De certeza neste momento, algures, há-de estar um filha-da-puta de um boy...
Imagem daqui
     ...a pensar como há-de obrigar as pessoas a terem que tirar licença e a terem que pagar impostos sobre  esta actividade ancestral da apanha dos cogumelos.

Taxa administrativa *

     Dei uma volta por Aveiro e, na A25, passei nos pórticos electrónicos vendidos pela empresa do ex-assessor do secretário de estado Paulo Campos, e que também tem o jackpot da venda dos “chispes” das matrículas.
     Não contribuo para esse jackpot pelo que não tenho nem vou ter o tal “chispe”. Fiquei à espera que me mandassem a conta para casa. Tinha lido que havia uma “taxa administrativa” para estes casos. Pensei que era para os custos postais do envio da conta, conta que traria uma referência multibanco para se poder ir, civilizadamente, pagar.
     Afinal, enganei-me. Se chegar uma carta é já com multa (25 euros por passagem). Fica aqui o aviso pois a informação às pessoas tem sido escassa e má.
     Como diz, com graça, o deputado António Almeida Henriques no seu blogue: ainda vamos ter “acções de formação e esclarecimento para utilizadores das SCUT.”
     A coisa funciona assim: o automobilista dirige-se aos correios, espera com paciência pela sua vez, e pergunta se deve alguma coisa. A funcionária digita a matrícula no computador, fica a saber o “onde” e o “quando” das nossas viagens, sorri, e diz: são x euros e y cêntimos. Nós pagamos a portagem e pagamos mais uma “taxa administrativa” de “0,25 euros +IVA por viagem, com máximo de 2 euros +IVA”.
Imagem daqui
      Perdemos o nosso tempo numa fila, vemos devassada a nossa privacidade e ainda temos que pagar um sobre-custo por isso.
     Há aqui um atropelo aos direitos do consumidor e à vontade da AR que votou em Junho a não obrigatoriedade dos “chispes” das matrículas. Esta taxa torna-os, de facto, obrigatórios.
     Se a moda pega, o dr. Ruas passa a cobrar uma “taxa administrativa” sempre que formos pagar a conta da água. O dr. Mexia faz o mesmo com a conta da luz, para não falar no engº Bava com a conta do telefone. E eles, ao menos, mandam-nos uma cartinha prévia a dizer-nos quanto lhes devemos.

* Publicado hoje no Jornal do Centro

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O glorioso funicular



Estereofilia

António Durães (2007)

O gato melómano


Outubro 

Caroço de tempestades,

Nó de cobras ardentes,

Este é um mês de chuvas cálidas 

E de ventos. 

Subversivo ao calendário,

Fruto amargo 

Na colheita ancestral. 

É sempre outono

Em outubro, 

É sempre vento. 

Nenhuma cintilação, 

Somente o escuro 

E no escuro esta sombra,

Graciosa e febril, 

Dançando à luz dos raios 

— o canto áspero

E o pescoço 

Carregado de contas. 

É sempre guerra

Em outubro, 

Sempre vermelho e azul. 

Sempre pendões na ponta

Das estacas

Desse campo minado 

A que chamamos destino. 

Myriam Fraga

O gato leitor

      "Esta é a verdade do discurso universal dos direitos do homem: o muro que separa os que estão protegidos pelo chapéu-de-chuva dos direitos do homem e o mundo daqueles que estão excluídos dessa protecção."
Slavoj Žižek

* Imagem daqui

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Negócio em crise ...










2009 foi ano de vacas gordas.
2010, ano de vacas magras por causa de Cavaco Silva.

Luísa Barbosa *


1. Luísa Barbosa fez teatro, cinema, publicidade e televisão. Antes de se ter tornado famosa na primeira telenovela portuguesa, a actriz viveu em Viseu. Na altura conheci-a e falámos muito. Luísa era uma grande contadora de histórias. Vou contar uma delas aqui, no Olho de Gato, em sua homenagem e à sua memória:

2. Nos anos 60, Luísa Barbosa viveu em Paris com um músico de jazz brasileiro. Ao saberem dum concerto de Miles Davis no Olympia, compraram logo dois lugares na primeira fila. Gastaram uma fortuna.
O concerto começou. Um pianista, um baixista e um baterista começaram a tocar. A audiência, cheia de cool, ficou à espera do som mágico e inigualável do trompete de Miles Davis.
Da parte direita do palco surgiu ele, o mago do sopro, com o trompete debaixo do braço. Chegado ao meio do palco, Miles Davis bufou uma gaitada, pôs o trompete debaixo do braço outra vez, e saiu pelo lado esquerdo. Os músicos olharam-se. Continuaram a tocar. Nada de Miles Davis. O homem do baixo pousou o instrumento e saiu. O pianista, passados uns minutos, hesitou uns acordes e pirou-se. O baterista continuou a bater no prato de choque e na tarola. A certa altura, já só apoiava o peso numa nádega, meio sentado, meio levantado. Olhou para os bastidores. Nada. Aturdido, sem saber o que fazer, o homem lá acabou por sair.
Miles Davis andava com más vibrações nas veias. Quando as pessoas deram conta que não ia haver concerto nenhum, houve uma “guerra civil”. As cadeiras voaram pelo ar. A Luísa e o marido, para se safarem da confusão, fugiram pelo palco. O Olympia ficou três meses fechado para obras. 



3. O baterista desta história da Luísa Barbosa lembra George W. Bush, no Iraque. Bush está lá a tocar bateria. Foram todos embora e deixaram-no lá sozinho. Atolado e aturdido. Sem saber o que fazer.

* Este texto foi publicado no Jornal do Centro em 21 de Julho de 2006 
A caricatura que Jorge Rosa fez de Luisa Barbosa foi tirada daqui, onde pode também ser encontrada informação sobre esta excelente actriz e amiga.

Hardware


O gato melómano


Metamorphosis

a girlfriend came in
built me a bed
scrubbed and waxed the kitchen floor
scrubbed the walls
vacuumed
cleaned the toilet
the bathtub
scrubbed the bathroom floor
and cut my toenails and
my hair.
then
all on the same day
the plumber came and fixed the kitchen faucet
and the toilet
and the gas man fixed the heater
and the phone man fixed the phone.
now I sit in all this perfection.
it is quiet.
I have broken off with all 3 of my girlfriends.
I felt better when everything was in
disorder.
it will take me some months to get back to normal:
I can't even find a roach to commune with.
I have lost my rythm.
I can't sleep.
I can't eat.
I have been robbed of
my filth.

Charles Bukowski

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O gato cinéfilo

The Fog of War


Onze lições de Robert McNamara
Imagem daqui
#01 — Sinta empatia pelo inimigo.

#02 — A racionalidade não nos vai salvar.

#03 — Existe algo para além de uma pessoa.

#04 — Maximize a eficiência.

#05 — A proporcionalidade deve ser uma linha de acção da guerra.

#06 — Consiga a informação.

#07 — Acreditar e ver estão muitas vezes errados.

#08 — Esteja preparado para reexaminar o seu pensamento.

#09 — Para fazer o bem, você pode ter que fazer o mal.

#10 — Nunca diga nunca.

#11 — Não pode mudar a natureza humana.

Ele e ela (#6)

— Finalmente! Onde estiveste?
— Estou a chegar do trabalho…
— Liguei para o teu escritório. Disseram que já tinhas saído…
— Havia muito trânsito. Passei na lavandaria para buscar o teu fato Armani; o que comprámos em Nova York…
— Às três não estavas no serviço…
— …?
— … não estavas, não… a tua secretária disse-me.
— Já te pedi para não ligares para o telefone da empresa. Liga-me antes para o telemóvel. Tive uma manhã infernal. Estamos a preparar a compra de uns terrenos. Só consegui ir comer qualquer coisa tardíssimo…
— Terrenos? É melhor nem dares pormenores…
— Vamos ter visitas hoje…
— Ai sim? Podias, ao menos, ter-me dito qualquer coisa…
— … convidei o meu sócio e a mulher para jantarem cá …
— Não percebo.
— O quê?!
— Estás sempre a dizer mal dela e agora convida-la cá para casa?
— Não digo nada mal dela… só que ela, antigamente, era muito ciumenta.
— Pois… cada um sabe as linhas com que se cose…
El Angel Exterminador, Luis Buñuel
— Era bom que nós os quatro convivêssemos mais. Para nos conhecermos melhor e acabarem os mal-entendidos. Até porque é da empresa que vem quase todo o nosso rendimento…
— Já sei que ganho pouco.
— Não disse nada disso. Estou tão cansada da tua hostilidade…
— Vou pedir à empregada para preparar jantar para quatro.
— Depois, manda-a embora mais cedo. Vou tomar um banho.
— Ok.
— Sabes? O meu sócio deixou de ter problemas com a mulher…
— Ai, sim? Como?
— Agora eles visitam casais amigos e fazem swing…


* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008 e 2009 no Jornal do Centro.
Este #6 foi publicado em 29 de Agosto de 2008.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Mundão não é no concelho de Viseu ...

... nem em Portugal...
N229, hoje

As portagens "mais caóticas e mais caras do mundo"* já causam estragos também em Viseu

      Antes das férias de verão da Assembleia da República, o PSD deixou passar os "chispes" das matrículas com a promessa que eles não eram obrigatórios.
     Na altura pensei: os partidos da oposição vasaram um olho do Big-Brother - o dos "chispes",  mas deixaram o outro olho a funcionar - o dos pórticos, onde não se pode pagar a dinheiro.
      Ficou assente na altura: quem tiver "chispes" da matrículas "chispa" pelos pórticos e tem direito aos "descontos" pertinentes, quem não tiver é fotografado e recebe a conta em casa, sem descontos mas sem sobrecusto nenhum. Foi assim que foi prometido.
     Afinal, se se passar numa das portagens electrónicas sem "chispe" não mandam a conta para casa. Acabo de saber que o blogue Arte Por Um Canudo teve uma desagradável surpresa na Loja do Cidadão de Viseu anteontem
Imagem daqui
     Evidentemente que, num estado decente, as contas são mandadas para casa sem ónus nenhum e com uma referência de Multibanco para as pessoas pagarem sem  terem de ir para filas. 
     Este blogue não interpela os deputados do PS  porque eles estão enterrados neste lodo dos "chispes" das matrículas até ao pescoço. E não têm perdão.
     Mas, caros Helder Amaral, António Joaquim Almeida Henriques e João Carlos Figueiredo, deputados eleitos por Viseu, que vão fazer acerca disto?
     Vão permitir que o negócio dos "chispes" das matrículas machuque desta forma tão grosseira os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos? 

O gato melómano



Diz-me o teu nome 

Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão 

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim. 

                                              Maria do Rosário Pedreira

domingo, 24 de outubro de 2010

O gato leitor

Imagem daqui

«Platão [mostrou] que, se os deuses aprovam algumas acções, têm de o fazer por essas acções serem boas, o que implica que não pode ser a aprovação que as torna boas.»
Peter Singer

Congresso distrital do PS—Viseu (Moimenta da Beira, 23 de Outubro de 2010)

    "[Tudo] dependerá muito da legitimidade moral e postura ética de quem estiver à frente das instituições políticas."
João Azevedo

     "Como explicar que se dão 400 milhões de euros para o BPN e se tiram abonos de família?"

      "É preciso correr os parasitas que vivem à custa do PS."
João Tiago

O gato melómano


«In love there are two things - bodies and words.» 
                                                                                                Joyce Carol Oates

sábado, 23 de outubro de 2010

JCP — há 30 anos a sujar paredes






Não há pressa, pá!!!

     António Mendonça, o ministro das PPPPP,  o ministro das Parcerias Prejuízos Públicos Proveitos Privados, está com pressa de  trazer as portagens para a A23, A24, A25 e Via do Infante e quer antecipar o prazo de 15 de Abril.
     Deu agora os frenesins ao ministro Mendonça, o político que fez Jorge Fiel, num texto notável publicado anteontem no DN, lembrar o velho provérbio umbundo:  
     “Se vires um cágado em cima de uma árvore, foi porque alguém o pôs lá”.
Imagem daqui
   E os políticos que elegemos  não dizem nada que se oiça?

O gato melómano



Uivo
[excerto inicial]
Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca uma dose violenta de qualquer coisa
"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da
maquinaria da noite, que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram
fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando
sobre os tetos das cidades contemplando jazz, que desnudaram seus Cérebros ao céu sob o
Elevador e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de
cômodos, que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake entre os estudiosos da guerra, que foram expulsos das universidades por serem loucos
& publicarem odes obscenas nas janelas do crânio, que se refugiaram em quartos de paredes de pintura
descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas de papel, escutando o Terror
através da parede.

(...)
Allen Ginsberg (tradução de Leonardo Fróes)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

"Um dia pergunto o teu nome"

Fotografias de Cátia Alves, FNAC-Viseu.
Um rigoroso "ir ao ponto".

O gato melómano

Se houvesse degraus na terra... 
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
Herberto Helder

2008 *

* Publicado hoje no Jornal do Centro
      
O ano de 2008 foi um susto.

No primeiro semestre o preço das matérias primas disparou. Cá, por causa do aumento do gasóleo, uma greve dos camionistas quase esvaziou os supermercados e fez regressar o açambarcamento de bens. Esteve-se a milímetros do caos.

Em Setembro, faliu o Lehman Brothers e deu-se um dominó desgraçado no sistema financeiro mundial. Por causa da gatunagem no BPN, diminuiu a confiança na nossa banca e, naquele outono, muitos milhões de euros foram para “debaixo do colchão”. Numa tarde de sábado, quando o multibanco avariou durante umas horas, sentiu-se um calafrio.

Referi-me a estes acontecimentos na última crónica daquele ano. Contudo, houve um perigo muito maior para o mundo que só entendi agora ao ler “A Era do Imprevisível”, de Joshua Cooper Ramo.

No verão de 2008 o programador informático Dan Kaminsky, um dos homens que mais sabe de intenet no mundo, descobriu um falhanço fatal na forma como os servidores de DNS guardavam informação vital para o funcionamento da rede. DNS são os Domain Name Services – onde se guardam os “endereços” que permitem que as máquinas se encontrem umas às outras para trocarem informação. Havia um “buraco” na segurança da infra-estrutura mas não podia ser dado o alarme.

     
É que, se houvesse uma fuga de informação, os piratas informáticos faziam uma razia no sistema financeiro e não só. A net colapsava.

No dia 8 de Julho de 2008 começou a ser introduzido um fragmento de código para “remendar” o buraco dos DNS e ao fim dessa tarde “metade dos servidores da Net estavam reparados. Duas semanas depois eram 85% e nenhum hacker encontrara o buraco”.

Tudo foi feito sem conhecimento dos governos. Os estados claudicam num mundo ligado em rede e de poderes difusos. É por isso, como se explica em “A Era do Imprevisível”, que o “Golias” Israel foi derrotado pelo “David” Hezbollah.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Notícias da Transilvânia

Imagem daqui

27 de Janeiro de 2010 — O ministro Teixeira dos Santos defende com unhas e dentes o OE2010.

25 de Março de 2010 — O ministro Teixeira dos Santos defende com unhas e dentes o PEC1.

28 de Maio de 2010 — O ministro Teixeira dos Santos defende com unhas e dentes o PEC2.

16 de Outubro de 2010 — O ministro Teixeira dos Santos defende com unhas e dentes o PEC3 e o OE2011.

16 de Fevereiro de 2011  O ministro Teixeira dos Santos defende com unhas e dentes o _ _ _ _.
(É difícil de adivinhar?)

O gato melómano



R.I.P.


Ese amor murió
sucumbió
está muerto
aniquilado fenecido
finiquitado
occiso perecido
obliterado
muerto
sepultado
entonces,
¿porqué late todavía?


Cristina Peri Rossi

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Há mais uma torre na colina da Sé de Viseu (#3)

     Da pré-existência da excrescência * ...

Antes:

Agora:
     A primeira fotografia foi proporcionada a este blogue pelo arquitecto Alexandre Maia, o responsável pelo projecto, o que se agradece.
     Na mesma altura, o arquitecto afirmou o seguinte:
     «O nosso projecto respeitou integralmente a cércea já existente.
     Obviamente que nesta fase da obra, somente com betão "puro e duro", até eu fico apreensivo.
     Estou certo que o resultado final será outro e que os acabamentos previstos bem como a pormenorização idealizada para a cobertura ajudará a minimizar o impacto visual.»

* Há, junto do IGESPAR—Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico, questionamento acerca desta construção que está a decorrer adjacente à Praça D. Duarte, no centro histórico de Viseu.

Orçamento de estado, com ou sem tango

O gato leitor

Love rode 1500 miles
Imagem daqui

Love rode 1500 miles on a grey
hound bus & climbed in my window
one night to surprise
both of us.
the pleasure of that sleepy
shock has lasted a decade
now or more because she is
always still doing it and I am
always still pleased. I do indeed like
aggressive women
who come half a continent
just for me; I am not saying that patience
is virtuous, Love
like anybody else, comes to those who
wait actively
and leave their windows open. 
Judy Grahn

Orçamento de Estado 2011: «If you drive a car, i'll tax the street / If you try to sit, i'll tax your seat / If you get too cold, i'll tax the heat...»

O gato melómano

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Há mais uma torre na colina da Sé de Viseu (#2)

     Esta excrescência... 
     ... que "eclodiu" junto à Praça D. Duarte foi revelada aqui em 12 de Setembro e motivou um debate aceso nas redes sociais, um debate participado por muitas pessoas, e que tem sido globalmente civilizado.


    Que tenha dado conta,  este caso só teve ainda uma referência  na nossa imprensa:
Diário de Viseu
     É um "jornalismo" que só dá um lado da história e, ainda por cima, de uma forma críptica.
     Não foi explicado aos leitores do Diário de  Viseu de que é que o dr. Ruas estava a falar.
     De qualquer forma, dado o interesse que este assunto tem levantado na cidade, fica aqui este recorte de imprensa, para memória futura.

O gato leitor

Imagem daqui
 
      «Ser estúpido, egoísta e ter boa saúde são três requisitos para a felicidade;
     mas se a estupidez faltar está tudo perdido.»    
Gustav Flaubert

O gato melómano — esta é outra banda sonora do Ele e ela (#5)

O gato melómano — esta é uma banda sonora do Ele e ela (#5)

Ele e ela (#5)

— Olá! Cheguei! 
— «I've got a gal who's always late
Ev'ry time we gota a date
But I love her
Yes, I love her!» 
— Desculpa… atrasei-me muito?
— O costume:
«A minha namorada atrasa-se sempre
todas as vezes que temos um encontro
mas eu amo-a
sim eu amo-a!»
— Maluco, olha as pessoas a olharem para nós… Gosto do Joe Jackson a cantar isso: “Is you is or is you ain't my baby…” 
— Eu prefiro a Diana Krall.
— Joe Jackson é muito melhor! Tem mais álcool e tabaco na voz… 

Imagem daqui
  — Mexe-te. Vamos ver se ainda há bilhetes. Tu e os teus atrasos…
— Que filme queres ver?
— O novo com o Heath Ledger…
— Aquele do filme dos cowboys maricas?
— Sim. Agora faz de Joker no “Cavaleiro das Trevas”. Ainda ganha um Óscar póstumo.
— Este ano vi um filme de seis estrelas: o “Haverá Sangue”. É um filme para gente grande, não uma coisa para putos como as que tu gostas…
«Is you is or is you ain't my baby?
The way you're actin' lately makes me doubt»
— Duvidas? Estás com dúvidas sobre mim, é?
— Vim a ouvir a Diana Krall a cantar isso no carro. Aplica-se a ti. Chegas sempre atrasada. Ultimamente, estás pior…
— Que queres? O Francis Obikwelu também se atrasou e é um dos teus heróis…
— Mas é a ti que eu dou a medalha de ouro…
— Pronto, chatinho, peço desculpa mais uma vez…
— Agora já não há bilhetes para o Batman …
— Deixa lá… vamos mas é passear de carro de mãos dadas… Ouvir o Joe Jackson…
— A Diana Krall…


* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008 e 2009 no Jornal do Centro.
Este #5 foi publicado em 22 de Agosto de 2008.


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O gato leitor

À espera dos bárbaros




(...)
Hoje vão chegar os bárbaros;
e, a eles, aborrece-os os discursos e a retórica.


E que vem a ser esta repentina inquietação, esta desordem?
(Que caras tão sérias tem hoje o povo.)
Porque é que as ruas e as praças vão ficando vazias
e regressam todos, tão pensativos, a suas casas?

É porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.
E da fronteira chegou gente
dizendo que os bárbaros já não vêm.

E agora que será de nós sem bárbaros?
De certo modo, essa gente era uma solução. 

Konstandinos Kavafis

* Imagem daqui

"A scottish man in Viseu"...

    ... não dá direito a uma canção do Sting mas podia...



     ... podia dar direito a uma canção dos The Ray Band* ...  

Fotografia de José Alfredo




* Declaração de interesses — só não sou groupie desta malta por falta de espaço: